Notas iniciais
oi, gente! em primeiro lugar, obrigada pelos novos comentários! isso me deixa imensamente feliz, em um nível que vocês nem podem imaginar... poder interagir com quem lê - e, principalmente, saber que alguém lê e gosta - é o máximo e espero fazer isso cada vez mais. este capítulo estava pronto há algumas horas e eu acabei me esquecendo de postá-lo por aqui, mas espero que gostem. é agora que uma interação maior entre nossos personagens principais se inicia, além de aspectos passados da vida do Matthew começarem a se revelar. p.s.: por algum motivo q desconheço, os links dentro dos capítulos pararam de funcionar... portanto, deixarei nas notas finais os photoplayers.

Dirigir, eu diria, poderia ser um dos momentos mais depressivos do meu dia já tão infeliz. Mesmo sabendo que ainda não era noite, meus olhos alcançavam o céu em busca da lua — seria mais suportável, dessa maneira, viver; a noite me confortara desde os tempos em que ainda era um menino, era como se o eco da minha própria miséria fosse mais baixo durante a noite, quando as ruas estavam mais vazias ou, ao menos, tinham menos pessoas interessadas em falsas simpatias. Enquanto lutava internamente com esse desejo por noturnidade, também tinha que encarar a cidade: Port Angeles, um lugar para o qual eu jamais teria me mudado caso não achasse que fosse a melhor decisão para Jo.

A pior parte de dirigir, no fim das contas, era saber que eu voltaria para casa e permaneceria sozinho. Temendo isso, foi inevitável não mudar o caminho que costumava fazer; eu tinha de conversar com alguém sobre Josephine. Pensei em alguns dos velhos amigos dela que possivelmente ainda estariam na cidade, mas não considerei nenhuma das possibilidades melhores do que a de visitar sua própria mãe, Olivia, no Ansbro's, pequeno café do qual ela ainda era dona, junto com a irmã, no centro da cidade. Coloquei-me nessa direção e deixei meus pés e mãos guiarem as partes do meu cérebro que já não se lembravam com tanta certeza do trajeto até o estabelecimento da família de Jo. É incrível como a memória pode ser corpórea.

A fachada do local era como uma nostalgia edificada. Trazia-me de volta um Matthew de vinte anos, encantado pelas subjetividades da pequena cidade natal da namorada; Jo, naquela época, era uma dubiedade… carregava o marasmo das águas geladas do porto de seu lar, mas era, ao mesmo tempo, agitada e tórrida como a madrugada de Nova York, lugar onde, por anos, morou comigo. Meu único medo era que sua frieza a tomasse e acabasse com sua candência.

— Eu não acredito — uma voz anasalada e familiar me tirou do meu estado alterado de consciência.

— Brianna — eu não pude evitar um sorriso ao ver a tia de Josephine, era mais uma etapa daquela inelutável onda nostálgica que percorria todo o meu corpo. Além disso, ela era tão alegre e divertida.

— Você nunca mais apareceu por aqui, rapazinho! — ela limpou as mãos no avental vermelho escuro e me deu um abraço forte. Nada havia mudado: Brianna ainda cheirava a muffins e perfume floral. — Nem te vejo em casa quando vou visitar a Jo.

— Eu estive longe, Bree — abaixei-me e encostei minha cabeça em seu ombro. — Você sabe disso.

— Eu sei, querido — Brianna apertou minhas bochechas e suspirou. — Eu sei.

Ela abraçou meu corpo e entramos no café; embora não pudesse disfarçar sua tristeza pelo estado emocional de Jo, Bree deixou muito claro que sentaríamos à mesa e conversaríamos acompanhados do aroma de um chá quente de ervas, como nos velhos tempos. Josephine sempre fora estritamente conectada à família, principalmente à tia, já que as duas eram melhores amigas. Brianna era, para Jo, o alívio cômico da vida, visto que Olivia sempre tivera a postura mais séria de todas.

Enquanto minha velha amiga terminava suas tarefas administrativas e culinárias — Brianna era uma faz-tudo naquele empreendimento —, eu decidi me sentar em um lugar reservado do Ansbro's, próximo de uma janela pequena que lidava com as poucas gotas da chuva iniciante. Os risos e conversas baixas, as paredes de madeira escura e a mínima coleção de livros à venda eram alguns dos aspectos imutáveis daquele café, sempre acolhedor em seus próprios moldes.

— Deseja mais alguma coisa, senhor? — uma entusiasmada garçonete abordou o rapaz sentado na mesa ao lado. Ele, distraído com a notável beleza da moça, negou e, em um movimento impensado, esbarrou a mão na xícara que estava sobre sua mesa, fazendo com que o líquido ali presente fosse derramado sobre a funcionária que lhe atendia.

— Desculpe-me, senhorita! Eu sou tão desastrado! — ele se levantou tão rapidamente que sua cadeira tombou para trás.

— Está tudo bem, é para isso que os aventais servem — ela tranquilizou o cliente e apanhou um pequeno pano de um dos bolsos de seu avental. — Vamos agradecer por estar morno, não é mesmo?

— Sim — o rapaz respondeu com aparente nervosismo.

— Sam, você sempre se mete em encrenca — uma outra voz feminina advertiu a garçonete; percebendo de onde o som vinha, virei-me para encarar aquela fala tão conhecida.

Era Meredith, que descia agilmente os degraus separativos de ambiente. O quão tragicamente belo poderia ser encontrar aquela garota em todos os lugares possíveis? Ela me perseguia em pensamento e, quando não considerava tal ardileza o suficiente, atacava-me também cara a cara, sem qualquer misericórdia. Uma moça de alguns poucos anos mal vividos, buscando, no café das familiares de Jo, uma pequena quantia de dinheiro para poder viver seus sonhos da juventude — e onde eu estava? Eu ainda era jovem?

— Sr. Burke! — o sorriso de Meredith se abriu gradativamente; um canino superior se revelou sob seus lábios apagados como uma amostra do que estava por vir: a doce exibição de uma empolgação singela por me ver sentado àquela mesa.

— Olá, Giordano — eu morei no encosto da cadeira de madeira ao apoiar minhas costas de maneira relaxada ali. — Como vai?

— Eu vou bem! Quero dizer… nós acabamos de nos esbarrar no colégio — Meredith piscou repetidas vezes e se aproximou, guardando um pequeno bloco de notas no bolso do avental. Sua amiga esqueceu da bronca no mesmo momento em que isso também foi esquecido por quem a advertiria. — E o senhor está aqui! Isso é engraçado.

— É, é sim — eu confirmei com um meneio de cabeça. Giordano deu mais passos cautelosos, embora animados, até a minha mesa, repleta do que, naquele momento, também estava a minha alma: nada.

— Então, o que o senhor vai querer? — ela resgatou o bloco antes guardado e, com os olhos nele, sorriu para a folha em branco; estava extasiada pelo nosso breve contato e isso, além de palpável, era absolutamente adorável, mesmo que preocupante e, em certo nível, bobo… Tudo tornava sua reação completamente encantadora.

— Eu… eu ainda estou pensando — respondi-a e senti queimar internamente uma obrigação de me fazer parecer interessado no que ela estava falando; meus dedos, portanto, agarraram o cardápio com certa mansidão. — Afinal, entre café e café com leite? Uma dúvida cruel — brinquei e recebi um riso envergonhado como resposta. O menu caiu novamente sobre a mesa quando eu voltei a olhar para Meredith.

— O senhor quer dizer cappuccino? — ela me corrigiu com certa hesitação e eu notei que isso fazia parte do clima divertido que pairava na conversa.

— Sim, exato. Quem inventou isso? — meu tom, embora insultuoso, permaneceu dentro do âmbito anedótico. — Os italianos, certo?

— Eu sou italiana — desgostosa, Meredith me encarou e eu me senti desconfortavelmente paralisado.

— Oh… — rangi os dentes, buscando rapidamente por palavras que coubessem à situação — desculpe-me.

— Eu estou brincando! — sua risada gostosa trouxe vida para o diálogo novamente e eu suspirei aliviado. — Sobre estar chateada, não sobre minha ascendência.

— É, o seu sobrenome a entrega.

— Eu achei que fosse o fato de eu gostar de cappuccino, essa droga inventada pelos italianos — Meredith molhou os lábios e os esticou em um sorrisinho trocista.

— Está demonizando minhas palavras, Giordano.

— Jamais seria capaz, Sr. Burke — Meredith se sentou à mesa, em minha frente. O fato dela sequer me perguntar se poderia tomar um lugar é o que me fez ficar ainda mais atento aos seus próximos movimentos. — Não sou tão boa assim com palavras para transformá-las em algo que não são.

— Na verdade, gosto de pensar que as palavras já são demônios por natureza, você deu um pequeno toque — juntei meus dedos em um movimento de pinça e os levei numa direção ascendente, significando o que queria dizer. — Tirou a maquiagem que levam consigo.

— Então o senhor está dizendo que eu não demonizei nada, apenas tirei uma camada protetora — o gosto da vitória escapou pela boca de Giordano e eu assenti com a cabeça:

— Touché — cruzei as pernas e me perdi em sua imagem tão centrada na minha. — Você tem uma tendência ao domínio da retórica, isso eu devo dizer. Quer aplicar para qual faculdade?

— Eu só tenho dezenove anos, então, para ser sincera, não sei — ela deu de ombros e realmente parecia despreocupada com o futuro acadêmico, o que era surpreendente para uma jovem da idade dela. — Já tive que refazer um ano no colégio, quero outras coisas quando finalmente sair de lá.

— Isso será daqui a alguns meses. Fazer algo como o quê? — mesmo com o receio de ter sido invasivo, minha questão se deu de maneira involuntária.

— Eu não sei, algo com movimento — suas respostas abstratas haviam se tornado encantadoras mesmo para mim, que odiava relativismos.

— Bom para você, então. Eu não sei me movimentar — garanti enquanto ironicamente me mexi sobre a cadeira.

— Você pode me imitar, não pode? — seu olhar convidativo me aliciou e eu pisquei repetidas vezes para poder replicar:

— Posso. Assim como em arte, visual ou poética, onde tudo é imitação — Giordano prendeu uma grande quantidade de ar nos pulmões ao ouvir o que eu havia dito.

— Será? — ah, Meredith! Novamente submissa da abstração.

— Você precisa ler mais Aristóteles — eu a provoquei em um riso baixo.

— Eu achei que o conceito tivesse partido de Platão — meus olhos entregaram minha condição quase afônica diante dela, mas não poderia patologizar quaisquer reações que Meredith arrancasse de mim. Isso seria injusto. Eu era apenas fraco.

— É, mas seu discípulo encarara a imitação com um olhar mais positivo e realístico.

Meredith, embora não estivesse produzindo quaisquer sons de fala, falava em silêncio. Ela não havia ficado sem resposta. Seus olhos me chamavam para um desafio, provavelmente sangrento e muito menos elegante do que a nossa breve troca de palavras. Sua boca, ao menos naquele momento, soava como virgem, no sentido de que talvez nunca tivesse traçado um embate vocalizado. Afinal, para quê? Seu rosto à margem da santificação já era o perfeito convite para um belíssimo entrechoque, mas ela bancaria o papel de juíza, autoridade, rainha… Aquela que enxerga, com muita superioridade, a canseira dos falsos heróis.

— Ela está te incomodando, Matt? — a indagação de Brianna fez Meredith saltar da cadeira.

— Não, Bree — eu balancei a cabeça negativamente.

— Acabamos de contratá-la, ainda não sei muito bem o que achar dela — uma das sobrancelhas de Bree se arqueou. Aquele movimento facial era tão semelhante ao de Josephine.

— É uma das minhas alunas. Pareceu-me competente.

— Pelo jeito você está ensinando alguma coisa de útil para esses jovens, não é, Matt? — Brianna tomou o lugar que antes Meredith ocupava. Giordano, por sua vez, desculpou-se com sua chefe e seguiu para o banheiro. — Eu estava só brincando, ela parece ser uma graça — eu concordei por meio de um riso fungado.

— Olivia não vai poder aparecer, não é mesmo? — eu adivinhei os futuros dizeres de Brianna e suspirei.

— O que é isso, Matt? Minha companhia não lhe serve? Eu disse que tomaríamos um chá — mesmo com a pose zombeteira, Bree não conseguiu disfarçar a decepção. — Não consigo esconder nada de você mesmo.

— Bom que sabe.

— Olivia está cada vez mais enterrada naquela cozinha, parece que ficou pior do que a própria filha — ela afundou o rosto nas mãos.

— É, parece que todos estão enterrados em algum lugar com seus próprios sofrimentos e eu, o pai, estou aqui, tendo que seguir em frente — encarei as janelas molhadas novamente. Já estavam com muito mais gotas do que antes.

— Você também está enterrado, Matt — os dedos de Brianna escorreram por sua face quando ela sentiu a necessidade de me olhar. — Mas em movimento.

— Sempre profunda, Bree — eu sorri para apagar a tristeza de minha própria expressão facial.

— É, assim como um certo rapaz apaixonado pelo conhecimento — sua voz exalava os tons açucarados de conselhos de tia.

— Esse rapaz morreu, Brianna — eu adquiri uma posição séria. — O luxo da mudança não pode ser dado somente para Jo.

— Ela não mudou, Matthew! — seus olhos se fecharam quando, em um riso tão melancólico quanto o tema de nossa conversa, ela me alertou. — Ela ainda é minha Josephine, mas um pedaço dela morreu, então ela precisou criar reforços… ainda está os criando.

— Bree… — minhas mãos, sobre a mesa, fecharam-se nas suas. — E quais serão os meus reforços? Por favor, diga.

O som de uma porta se batendo foi curiosamente sincrônico ao meu questionamento. Meredith deixava o banheiro e se apressava para voltar à cozinha; certa dramaticidade tomava seus cabelos, já bagunçados e reféns da rapidez com que seus pés agiam sobre o piso do Ansbro's. Mesmo atento às sentenças de Brianna, eu também expressava interesse pelas próximas ações de minha aluna: coordenadamente ela entregava os pedidos dos clientes e, vítima de sua própria natureza, sorria ou simpatizava com a maioria deles. As horas, dessa maneira, passaram-se em um piscar de olhos, mesmo que eu não tivesse atingido por completo o meu objetivo ali.

Despedi-me de Bree e sequer pus os olhos em Olivia, mas a breve sensação boa que a tia de Jo me causara havia valido a pena. Que os papos sérios e cabeçudos ficassem reservados à Olivia em uma outra ocasião.

— Ei — Brianna me chamou uma última vez.

— Sim?

— Sempre passe por aqui — ela me puxou para um abraço e eu retribuí, deixando naquele ato todo o carinho que possuía.

— Eu irei.

— Cuidado com a chuva.

Eu saí do universo nostálgico do Ansbro's oficialmente quando submeti meu corpo ao gélido da chuva que caía vigorosa pelo solo de Port Angeles. Apressei-me para o carro e ignorei o arder dos olhos causado pela água, mesmo que isso estivesse me custando a perda momentânea de parte da visão.

— Droga! — uma reclamação esbravejada conseguiu atravessar a sonoridade da chuva.

— Tudo bem por aí? — arrisquei não ser ouvido ao questionar a figura irritada de Meredith que, no carro ao lado do meu, afogava-se na sua própria raiva.

— Não!

Sua negativa se fez tão presente que ela simplesmente parou de tentar abrir o próprio veículo e direcionou o olhar até mim. Sob o violento início de temporal, energizou-se uma violenta cólera em seu semblante, como se uma irritação do dia a dia tivesse alcançado o patamar de ira incorrigível. Tudo com ela caía sobre o campo do excepcional, eu suponho. Tocado por sua incapacidade de resolver um mínimo problema, decidi ajudá-la e corri até seu carro.

— Vamos ver — aproximei-me e ela saiu da frente da porta, deixando-me avaliar a situação. A verdade é que eu não tinha muita simpatia com atividades mecânicas, mas tentaria de qualquer maneira. — Pode ser somente uma questão de jeito — a maçaneta que seguia os mesmos padrões retangulares da carroceria do veículo não abria pela chave que não girava, já que estava levemente emperrada na fechadura.

— Como você fez isso? — sua voz exalou incredulidade, como se eu, ao abrir a porta, tivesse realizado um truque de mágica.

— Eu não sei! — atrevi-me a falar mais alto, encontrando dificuldades em ser ouvido por conta da chuva.

Seu enfurecimento se apagou em segundos e ela riu com a minha resposta. Eu sorri junto, fascinado pela fatal dicotomia que tomava conta da personalidade daquela moça; aquilo me traduzia, de alguma forma, uma intensidade irresistível e sempre estimulante. Esse era um dos poderes mais tentadores de Meredith, acredito: ela podia me fazer querer sentar e contar histórias sobre suas caras heteróclitas.

— Você sabe se movimentar, afinal.

Notas finais
*CAST atualizado: Brianna Ansbro - https://bit.ly/2AoClVZ Olivia Ansbro - https://wapo.st/3cElRHD Espero que tenham curtido e deixem suas opiniões, afinal, são importantíssimas para mim! Beijos.