Teacher's Pet
5 A Poética
Notas iniciais
Dirigir, eu diria, poderia ser um dos momentos mais depressivos do meu dia já tão infeliz. Mesmo sabendo que ainda não era noite, meus olhos alcançavam o céu em busca da lua — seria mais suportável, dessa maneira, viver; a noite me confortara desde os tempos em que ainda era um menino, era como se o eco da minha própria miséria fosse mais baixo durante a noite, quando as ruas estavam mais vazias ou, ao menos, tinham menos pessoas interessadas em falsas simpatias. Enquanto lutava internamente com esse desejo por noturnidade, também tinha que encarar a cidade: Port Angeles, um lugar para o qual eu jamais teria me mudado caso não achasse que fosse a melhor decisão para Jo.
A pior parte de dirigir, no fim das contas, era saber que eu voltaria para casa e permaneceria sozinho. Temendo isso, foi inevitável não mudar o caminho que costumava fazer; eu tinha de conversar com alguém sobre Josephine. Pensei em alguns dos velhos amigos dela que possivelmente ainda estariam na cidade, mas não considerei nenhuma das possibilidades melhores do que a de visitar sua própria mãe, Olivia, no Ansbro's, pequeno café do qual ela ainda era dona, junto com a irmã, no centro da cidade. Coloquei-me nessa direção e deixei meus pés e mãos guiarem as partes do meu cérebro que já não se lembravam com tanta certeza do trajeto até o estabelecimento da família de Jo. É incrível como a memória pode ser corpórea.
A fachada do local era como uma nostalgia edificada. Trazia-me de volta um Matthew de vinte anos, encantado pelas subjetividades da pequena cidade natal da namorada; Jo, naquela época, era uma dubiedade… carregava o marasmo das águas geladas do porto de seu lar, mas era, ao mesmo tempo, agitada e tórrida como a madrugada de Nova York, lugar onde, por anos, morou comigo. Meu único medo era que sua frieza a tomasse e acabasse com sua candência.
— Eu não acredito — uma voz anasalada e familiar me tirou do meu estado alterado de consciência.
— Brianna — eu não pude evitar um sorriso ao ver a tia de Josephine, era mais uma etapa daquela inelutável onda nostálgica que percorria todo o meu corpo. Além disso, ela era tão alegre e divertida.
— Você nunca mais apareceu por aqui, rapazinho! — ela limpou as mãos no avental vermelho escuro e me deu um abraço forte. Nada havia mudado: Brianna ainda cheirava a muffins e perfume floral. — Nem te vejo em casa quando vou visitar a Jo.
— Eu estive longe, Bree — abaixei-me e encostei minha cabeça em seu ombro. — Você sabe disso.
— Eu sei, querido — Brianna apertou minhas bochechas e suspirou. — Eu sei.
Ela abraçou meu corpo e entramos no café; embora não pudesse disfarçar sua tristeza pelo estado emocional de Jo, Bree deixou muito claro que sentaríamos à mesa e conversaríamos acompanhados do aroma de um chá quente de ervas, como nos velhos tempos. Josephine sempre fora estritamente conectada à família, principalmente à tia, já que as duas eram melhores amigas. Brianna era, para Jo, o alívio cômico da vida, visto que Olivia sempre tivera a postura mais séria de todas.
Enquanto minha velha amiga terminava suas tarefas administrativas e culinárias — Brianna era uma faz-tudo naquele empreendimento —, eu decidi me sentar em um lugar reservado do Ansbro's, próximo de uma janela pequena que lidava com as poucas gotas da chuva iniciante. Os risos e conversas baixas, as paredes de madeira escura e a mínima coleção de livros à venda eram alguns dos aspectos imutáveis daquele café, sempre acolhedor em seus próprios moldes.
— Deseja mais alguma coisa, senhor? — uma entusiasmada garçonete abordou o rapaz sentado na mesa ao lado. Ele, distraído com a notável beleza da moça, negou e, em um movimento impensado, esbarrou a mão na xícara que estava sobre sua mesa, fazendo com que o líquido ali presente fosse derramado sobre a funcionária que lhe atendia.
— Desculpe-me, senhorita! Eu sou tão desastrado! — ele se levantou tão rapidamente que sua cadeira tombou para trás.
— Está tudo bem, é para isso que os aventais servem — ela tranquilizou o cliente e apanhou um pequeno pano de um dos bolsos de seu avental. — Vamos agradecer por estar morno, não é mesmo?
— Sim — o rapaz respondeu com aparente nervosismo.
— Sam, você sempre se mete em encrenca — uma outra voz feminina advertiu a garçonete; percebendo de onde o som vinha, virei-me para encarar aquela fala tão conhecida.
Era Meredith, que descia agilmente os degraus separativos de ambiente. O quão tragicamente belo poderia ser encontrar aquela garota em todos os lugares possíveis? Ela me perseguia em pensamento e, quando não considerava tal ardileza o suficiente, atacava-me também cara a cara, sem qualquer misericórdia. Uma moça de alguns poucos anos mal vividos, buscando, no café das familiares de Jo, uma pequena quantia de dinheiro para poder viver seus sonhos da juventude — e onde eu estava? Eu ainda era jovem?
— Sr. Burke! — o sorriso de Meredith se abriu gradativamente; um canino superior se revelou sob seus lábios apagados como uma amostra do que estava por vir: a doce exibição de uma empolgação singela por me ver sentado àquela mesa.
— Olá, Giordano — eu morei no encosto da cadeira de madeira ao apoiar minhas costas de maneira relaxada ali. — Como vai?
— Eu vou bem! Quero dizer… nós acabamos de nos esbarrar no colégio — Meredith piscou repetidas vezes e se aproximou, guardando um pequeno bloco de notas no bolso do avental. Sua amiga esqueceu da bronca no mesmo momento em que isso também foi esquecido por quem a advertiria. — E o senhor está aqui! Isso é engraçado.
— É, é sim — eu confirmei com um meneio de cabeça. Giordano deu mais passos cautelosos, embora animados, até a minha mesa, repleta do que, naquele momento, também estava a minha alma: nada.
— Então, o que o senhor vai querer? — ela resgatou o bloco antes guardado e, com os olhos nele, sorriu para a folha em branco; estava extasiada pelo nosso breve contato e isso, além de palpável, era absolutamente adorável, mesmo que preocupante e, em certo nível, bobo… Tudo tornava sua reação completamente encantadora.
— Eu… eu ainda estou pensando — respondi-a e senti queimar internamente uma obrigação de me fazer parecer interessado no que ela estava falando; meus dedos, portanto, agarraram o cardápio com certa mansidão. — Afinal, entre café e café com leite? Uma dúvida cruel — brinquei e recebi um riso envergonhado como resposta. O menu caiu novamente sobre a mesa quando eu voltei a olhar para Meredith.
— O senhor quer dizer cappuccino? — ela me corrigiu com certa hesitação e eu notei que isso fazia parte do clima divertido que pairava na conversa.
— Sim, exato. Quem inventou isso? — meu tom, embora insultuoso, permaneceu dentro do âmbito anedótico. — Os italianos, certo?
— Eu sou italiana — desgostosa, Meredith me encarou e eu me senti desconfortavelmente paralisado.
— Oh… — rangi os dentes, buscando rapidamente por palavras que coubessem à situação — desculpe-me.
— Eu estou brincando! — sua risada gostosa trouxe vida para o diálogo novamente e eu suspirei aliviado. — Sobre estar chateada, não sobre minha ascendência.
— É, o seu sobrenome a entrega.
— Eu achei que fosse o fato de eu gostar de cappuccino, essa droga inventada pelos italianos — Meredith molhou os lábios e os esticou em um sorrisinho trocista.
— Está demonizando minhas palavras, Giordano.
— Jamais seria capaz, Sr. Burke — Meredith se sentou à mesa, em minha frente. O fato dela sequer me perguntar se poderia tomar um lugar é o que me fez ficar ainda mais atento aos seus próximos movimentos. — Não sou tão boa assim com palavras para transformá-las em algo que não são.
— Na verdade, gosto de pensar que as palavras já são demônios por natureza, você deu um pequeno toque — juntei meus dedos em um movimento de pinça e os levei numa direção ascendente, significando o que queria dizer. — Tirou a maquiagem que levam consigo.
— Então o senhor está dizendo que eu não demonizei nada, apenas tirei uma camada protetora — o gosto da vitória escapou pela boca de Giordano e eu assenti com a cabeça:
— Touché — cruzei as pernas e me perdi em sua imagem tão centrada na minha. — Você tem uma tendência ao domínio da retórica, isso eu devo dizer. Quer aplicar para qual faculdade?
— Eu só tenho dezenove anos, então, para ser sincera, não sei — ela deu de ombros e realmente parecia despreocupada com o futuro acadêmico, o que era surpreendente para uma jovem da idade dela. — Já tive que refazer um ano no colégio, quero outras coisas quando finalmente sair de lá.
— Isso será daqui a alguns meses. Fazer algo como o quê? — mesmo com o receio de ter sido invasivo, minha questão se deu de maneira involuntária.
— Eu não sei, algo com movimento — suas respostas abstratas haviam se tornado encantadoras mesmo para mim, que odiava relativismos.
— Bom para você, então. Eu não sei me movimentar — garanti enquanto ironicamente me mexi sobre a cadeira.
— Você pode me imitar, não pode? — seu olhar convidativo me aliciou e eu pisquei repetidas vezes para poder replicar:
— Posso. Assim como em arte, visual ou poética, onde tudo é imitação — Giordano prendeu uma grande quantidade de ar nos pulmões ao ouvir o que eu havia dito.
— Será? — ah, Meredith! Novamente submissa da abstração.
— Você precisa ler mais Aristóteles — eu a provoquei em um riso baixo.
— Eu achei que o conceito tivesse partido de Platão — meus olhos entregaram minha condição quase afônica diante dela, mas não poderia patologizar quaisquer reações que Meredith arrancasse de mim. Isso seria injusto. Eu era apenas fraco.
— É, mas seu discípulo encarara a imitação com um olhar mais positivo e realístico.
Meredith, embora não estivesse produzindo quaisquer sons de fala, falava em silêncio. Ela não havia ficado sem resposta. Seus olhos me chamavam para um desafio, provavelmente sangrento e muito menos elegante do que a nossa breve troca de palavras. Sua boca, ao menos naquele momento, soava como virgem, no sentido de que talvez nunca tivesse traçado um embate vocalizado. Afinal, para quê? Seu rosto à margem da santificação já era o perfeito convite para um belíssimo entrechoque, mas ela bancaria o papel de juíza, autoridade, rainha… Aquela que enxerga, com muita superioridade, a canseira dos falsos heróis.
— Ela está te incomodando, Matt? — a indagação de Brianna fez Meredith saltar da cadeira.
— Não, Bree — eu balancei a cabeça negativamente.
— Acabamos de contratá-la, ainda não sei muito bem o que achar dela — uma das sobrancelhas de Bree se arqueou. Aquele movimento facial era tão semelhante ao de Josephine.
— É uma das minhas alunas. Pareceu-me competente.
— Pelo jeito você está ensinando alguma coisa de útil para esses jovens, não é, Matt? — Brianna tomou o lugar que antes Meredith ocupava. Giordano, por sua vez, desculpou-se com sua chefe e seguiu para o banheiro. — Eu estava só brincando, ela parece ser uma graça — eu concordei por meio de um riso fungado.
— Olivia não vai poder aparecer, não é mesmo? — eu adivinhei os futuros dizeres de Brianna e suspirei.
— O que é isso, Matt? Minha companhia não lhe serve? Eu disse que tomaríamos um chá — mesmo com a pose zombeteira, Bree não conseguiu disfarçar a decepção. — Não consigo esconder nada de você mesmo.
— Bom que sabe.
— Olivia está cada vez mais enterrada naquela cozinha, parece que ficou pior do que a própria filha — ela afundou o rosto nas mãos.
— É, parece que todos estão enterrados em algum lugar com seus próprios sofrimentos e eu, o pai, estou aqui, tendo que seguir em frente — encarei as janelas molhadas novamente. Já estavam com muito mais gotas do que antes.
— Você também está enterrado, Matt — os dedos de Brianna escorreram por sua face quando ela sentiu a necessidade de me olhar. — Mas em movimento.
— Sempre profunda, Bree — eu sorri para apagar a tristeza de minha própria expressão facial.
— É, assim como um certo rapaz apaixonado pelo conhecimento — sua voz exalava os tons açucarados de conselhos de tia.
— Esse rapaz morreu, Brianna — eu adquiri uma posição séria. — O luxo da mudança não pode ser dado somente para Jo.
— Ela não mudou, Matthew! — seus olhos se fecharam quando, em um riso tão melancólico quanto o tema de nossa conversa, ela me alertou. — Ela ainda é minha Josephine, mas um pedaço dela morreu, então ela precisou criar reforços… ainda está os criando.
— Bree… — minhas mãos, sobre a mesa, fecharam-se nas suas. — E quais serão os meus reforços? Por favor, diga.
O som de uma porta se batendo foi curiosamente sincrônico ao meu questionamento. Meredith deixava o banheiro e se apressava para voltar à cozinha; certa dramaticidade tomava seus cabelos, já bagunçados e reféns da rapidez com que seus pés agiam sobre o piso do Ansbro's. Mesmo atento às sentenças de Brianna, eu também expressava interesse pelas próximas ações de minha aluna: coordenadamente ela entregava os pedidos dos clientes e, vítima de sua própria natureza, sorria ou simpatizava com a maioria deles. As horas, dessa maneira, passaram-se em um piscar de olhos, mesmo que eu não tivesse atingido por completo o meu objetivo ali.
Despedi-me de Bree e sequer pus os olhos em Olivia, mas a breve sensação boa que a tia de Jo me causara havia valido a pena. Que os papos sérios e cabeçudos ficassem reservados à Olivia em uma outra ocasião.
— Ei — Brianna me chamou uma última vez.
— Sim?
— Sempre passe por aqui — ela me puxou para um abraço e eu retribuí, deixando naquele ato todo o carinho que possuía.
— Eu irei.
— Cuidado com a chuva.
Eu saí do universo nostálgico do Ansbro's oficialmente quando submeti meu corpo ao gélido da chuva que caía vigorosa pelo solo de Port Angeles. Apressei-me para o carro e ignorei o arder dos olhos causado pela água, mesmo que isso estivesse me custando a perda momentânea de parte da visão.
— Droga! — uma reclamação esbravejada conseguiu atravessar a sonoridade da chuva.
— Tudo bem por aí? — arrisquei não ser ouvido ao questionar a figura irritada de Meredith que, no carro ao lado do meu, afogava-se na sua própria raiva.
— Não!
Sua negativa se fez tão presente que ela simplesmente parou de tentar abrir o próprio veículo e direcionou o olhar até mim. Sob o violento início de temporal, energizou-se uma violenta cólera em seu semblante, como se uma irritação do dia a dia tivesse alcançado o patamar de ira incorrigível. Tudo com ela caía sobre o campo do excepcional, eu suponho. Tocado por sua incapacidade de resolver um mínimo problema, decidi ajudá-la e corri até seu carro.
— Vamos ver — aproximei-me e ela saiu da frente da porta, deixando-me avaliar a situação. A verdade é que eu não tinha muita simpatia com atividades mecânicas, mas tentaria de qualquer maneira. — Pode ser somente uma questão de jeito — a maçaneta que seguia os mesmos padrões retangulares da carroceria do veículo não abria pela chave que não girava, já que estava levemente emperrada na fechadura.
— Como você fez isso? — sua voz exalou incredulidade, como se eu, ao abrir a porta, tivesse realizado um truque de mágica.
— Eu não sei! — atrevi-me a falar mais alto, encontrando dificuldades em ser ouvido por conta da chuva.
Seu enfurecimento se apagou em segundos e ela riu com a minha resposta. Eu sorri junto, fascinado pela fatal dicotomia que tomava conta da personalidade daquela moça; aquilo me traduzia, de alguma forma, uma intensidade irresistível e sempre estimulante. Esse era um dos poderes mais tentadores de Meredith, acredito: ela podia me fazer querer sentar e contar histórias sobre suas caras heteróclitas.
— Você sabe se movimentar, afinal.
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