Te ver feliz
1 1. Pimpel Filhote
— Vanelope querida, vai se atrasar para a aula ! – A mãe gritou da cozinha, ainda bocejando. Podia ouvir os passos apressados no andar de cima, com certeza a filha estava se arrumando, mas precisava descer e comer logo as torradas e a fatia de bolo para ir á faculdade.
Antes sua filha era chata e preguiçosa, mas depois de ter desaparecido, havia ficado muito mais animada e feliz por ter os pais de volta. Ainda tinha o cuidado de evitar certos assuntos, por que seu bebê parecia mais infantilizado; Deveria ser resquícios de algum trauma naqueles meses todos que a polícia disse não saber o que havia acontecido com ela e como havia retornado sem marca nem ferimento nenhum, afinal a menina em si não falava no assunto além de todas suas mudanças comportamentais.
— Ai Okiku, porcaria de carruagem com cavalos invisíveis ! Eu não acho a mochila, acho que larguei lá dentro ontem quando cheguei em casa. – Vanelope falava sozinha com sua pelúcia, seu pai abriu a porta do quarto. Mesmo tendo uma elfa negra enorme ali, a magia o fazia pensar que sua filha sempre fora daquele jeito.
— Não importa querida, é só pegar ela no carro. – O pai sorriu, indo dar um beijo no topo da cabeça da filha.
— Mas cavalos comem papel, minhas coisas não vão estar destruídas por eu ter deixado lá ? -
O pai suspirou, já cansado de explicar que carros não possuíam cavalos invisíveis na frente puxando-os.
O pai passou primeiro no hospital, como de costume em todas as manhãs. Vanelope entrou sozinha. – Com licença, onde está a curandeira? – Vanelope sorriu para a enfermeira, que provavelmente achou que a fala era para combinar com as orelhas pontudas do possível cosplay. – Pegue uma senha e aguarde a médica. —
— Oh não, apenas vim tomar minha poção. – A elfa sorriu, estendendo o papel com a receita médica. Se tratava de um remédio para alucinações muito forte.
— Venha comigo. – A enfermeira suspirou, entendendo que tipo de paciente ela era. A sentou na cadeirinha de exames de sangue para injetar o remédio.
Vanelope tossiu, a visão turva pelos efeitos fortes em poucos minutos .
A enfermeira estendeu o desenho de um coelhinho . — O que você vê ? -
— Um pimpel filhote. – Vanelope sorriu, sempre educada mesmo que aquela agulhada queimasse suas veias e desse a sensação de mal estar e tontura.
— ... Ãh ? – A enfermeira quis um pouco mais de detalhes, talvez apenas tivesse ficado com a língua mole devido á injeção e não conseguisse falar.
Vanelope continuou falando sobre o que via. — Adultos tem galhadas com pequenas flores cor-de-rosa na cabeça. -
— Tcs. – A enfermeira mordeu o lábio, aumentando a dose na seringa.
Vanelope saiu pelo corredor do hospital, mal andava em linha reta.- Quieto Okiku, me mandaram te deixar em casa, então faz silêncio. -
A enfermeira entrou na sala da médica ao lado, preocupada. — Olha, vamos ter que achar outro medicamento.-
— De novo ? – A médica suspirou, assim iam deixar aquela moça viciada.
— Ela não melhora. A paciente desapareceu por três meses, com cortes e marcas de machado, não diz se foi estuprada ou abusada, mas fala sobre criaturas e objetos estranhos.- A enfermeira mostrou a anotação sobre o desenho do coelho.
A médica pareceu surpresa- Com essa dose,ela continua? -
— Sim. – A enfermeira balbuciou.
Vanelope saiu do hospital, seu pai a esperava no carro. “ Tenha um bom dia”, ele disse antes de dar um beijo em sua testa e deixa-la na frente da faculdade. A elfa acenou, sorrindo enquanto o pai ia embora. Mas tudo estava borrado, e sentia moleza no corpo todo. Era aquele remédio fortíssimo para esquizofrenia.
Vanelope colocou a orelha mais próxima da bolsa. — Hm ? tem certeza ? ... Sei, sei. Se você diz. — Entrou na primeira porta no caminho para fora da faculdade, indo para o balcão. — Uma cerveja,por favor. -Suspirou, era estranho pegar aquela latinha. — Não tem uma xícara de metal mais máscula? – Vane riu, estava acostumada com os copos de cerveja em Eldarya.
A garçonete riu. — Aqui não é bem um bar, moça. – De fato, era uma lanchonete.
Vanelope balançou a cabeça, tentando guardar aqueles nomes humanos dos locais.- Por falar nisso, sabe onde tem alguma taverna decente?- Bebericou um gole. Bebidas alteravam o efeito do remédio, por isso Okiku pediu que fosse beber álcool. E por isso uma pessoa realmente doente não poderia beber logo após remédios.
Sentiu uma aura de vida e energia, semelhante á da presença do oráculo: Ignorou, afinal deveria ser apenas lembranças de casa, ou efeito do remédio já que não tinha realmente alucinações e isso poderia causar o efeito contrário com os medicamentos.
A garçonete entregou chá verde em outra mesa, o grupo de amigos era agitado e animado, com exceção de um pálido de cabelos negros e rosto fino delicado. Quase feminino. “ Andrógeno “ seria a palavra que estava procurando, mas não importava. Voltou a beber sua latinha de cerveja, lentamente se sentia melhor e liberta do remédio semanal que consumia por não ter exatamente as mesmas lembranças que a filha do casal enfeitiçado para acreditar que a filha deles era aquela elfa.
Levantou ao se sentir bem, em direção ao caixa. Assim que passou mais perto daquela mesa, a sensação da presença do oráculo aumentou ainda mais; Se aproximou da mesa, encarando aquelas pessoas.
— ... Quem é você? – A moça perguntou, sorrindo. Vanelope sorriu de volta.
—Vanelope, prazer. Hmm, acho que conheço ele. – Apontou para o homem afeminado de em média 1,90 de altura do canto da mesa, Okiku disse dentro da bolsa que aquela sensação vinha dele.
— De onde o conhece? – O homem de aparência violenta e séria perguntou, afagando a cabeça do pálido afeminado.
Vanelope olhou para a bolsa, precisaria da ajuda de Okiku por que não era aquele homem que conhecia, mas sim que tinha algo de estranho nele. A boneca não saberia nada do tipo, então observou que possuía maquiagem borrada, pulseiras do tipo que brilhariam no escuro, coisa que outros integrantes da mesa também tinham.
— Hmmm, o vi em uma casa de dança. – Vane fez bico, chamaria de taverna, mas pela cara da garçonete á pouco, aquilo não era mais a palavra usada para aquilo.
—Deve ter sido, ele trabalha em uma.- A moça sorriu. – Senta com a gente ! –Não precisou convidar duas vezes, ela já estava sentada. O rapaz sério que afagava o ombro do pálido pareceu não gostar.
— Vocês são um casal? – Vanelope perguntou, sem freios na língua. A moça da mesa corou e riu. Qualquer outro habitante de Eldarya se fingindo de humano certamente passaria muito mais despercebido do o que a negra.
— E se formos? – O homem pareceu muito irritado, mas finalmente o magrelo afeminado abriu a boca para dizer algo. – Não, não somos. Somos amigos. –
— Qual seu nome? Vanelope segurou na mão do andrógeno, de fato podia sentir que se passava muito mais maana pelo corpo dele do o que dos outros humanos. A aura que emanava era estranha, e fazia um pouco mal. Pensou em Yvoni, mas mesmo com o risco de talvez ficar verdadeiramente louca, continuou segurando aquela mão.
— É Kwency. – Ele respondeu sem cerimônias. Não se importava que segurasse sua mão, e com todos os amigos felizes ao redor e um até mesmo quase o abraçando não esboçava reação nenhuma.
— Oooah, eu gostei de você. – Vanelope sorriu, gentilmente. Não era de um jeito amoroso, afinal elfos só se apaixonavam uma vez na vida.
—Ei, solta ele ! – O amigo bufou.
—Eu sou a Corry, — A moça comentou. – E esse irritado agarrando o Kwency, é o Lyvega. Ele é assim mesmo, nem ligue. – Corry riu, era engraçado ver a elfa agarrando a mão do pálido, fazia parecer que eles já ... – Quando conheceu o Kwency na boate, vocês ... Dormiram juntos? – Lyvega pareceu absurdamente irritado com a pergunta de Corry, por fim soltando o amigo.
— Ah, não. — Vanelope disse. Os amigos já pareciam estar indo embora.
— A gente tá indo pra casa do Kwen, quer ir junto? É bom alguém tentando fazer ele sorrir ultimamente. – Corry sorriu, Vanelope saltou da mesa imediatamente. Precisava entender aquela curiosa aura de maana.
— Nããão, desconvida ela, pelo amor ... – Lyvega jogou a cadeira no chão e foi esperar ao lado de fora, irritado.
Vanelope jurava que aqueles dois eram mais que amigos, até a lembrava outros que havia conhecido em Eldarya ...
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