Tatuagem

1 Capítulo 1


Eu nunca tinha sido realmente eu até meus 30 anos.

Só conquistei minha liberdade com muito esforço ao sair de casa e ir trabalhar longe de minha família e esse processo foi extremamente demorado e doloroso.

Sem contar que eu nunca me permiti ter o privilégio de amar e ser amada, para mim passaria por essa vida sem ter sido importante para ninguém tamanha as frustrações da vida.

Apesar de tudo isso eu poderia morrer feliz, até que te conheci vi que minha vida só faria sentido ao olhar nos seus olhos e tocar sua pele marcada por aquelas tatuagens...

***

Desire espreguiçava sobre a cama. Mais um dia estava apenas começando, para sua infelicidade. “Mas que dor de cabeça... porra.” – reclamava a mulher enquanto caminhava até a sala de seu pequeno apartamento.

Morar sozinha tinha suas vantagens, uma delas é voltar a qualquer hora da madrugada, completamente bêbada e cheirando cigarro sem dar explicações para seus pais, muito menos ouvir sermões. É um excelente negócio e óbvio que manter suas estripulias tinha custos, mas seu trabalho na redação do jornal local ajudava pagar as contas, comprar algo para não morrer de fome e manter seus vícios.

Mesmo que ela não quisesse ter vícios seu trabalho e a vida na cidade grande fariam ela desejar por qualquer válvula de escape, pois ler, corrigir e publicar as tragédias do cotidiano trazida por seus colegas jornalistas estava esgotando o resto de sanidade mental que restava, já que viver no Brasil de 2021 é uma arte para poucos.

“Bem, vamos ver o que me espera” – ao sentar sobre o sofá velho seus olhos sonolentos percorriam a tela do seu celular, mas ao ouvir gritos no corredor seu corpo pulou do sofá e imediatamente correu até porta de entrada do seu apartamento. Desire observou a discussão através do olho mágico.

“VOCÊ É UMA VADIA!” — um homem gordo e careca dizia aos berros enquanto abria a porta do apartamento com força. — “PENSA QUE EU SOU UM IDIOTA?” — ele caminhou para fora do apartamento segurando uma mulher um pouco mais jovem que ele pelo braço.

“Me larga!” – dizia a mulher tentando se soltar seu braço da posse da enorme mão do homem.

“NÃO VOLTE MAIS AQUI SUA PUTA!” – o homem empurrou a mulher com força até a porta do elevador –“Se reclamar com alguém eu te mato” — ele se afastava da mulher, enquanto procurava algo nos bolsos do shorts. O careca deu meia volta e caminhou até a mulher jogando algo sobre seus pés – “Não vale o feijão que come, vadia” — disse antes de entrar outra vez no apartamento, batendo a porta com força.

A mulher se abaixou para pegar o objeto do chão, se desiquilibrando um pouco devido o enorme salto alto que usava, ela ajustou sua postura enquanto desembolava o pequeno maço de dinheiro, contando as notas que ali estavam. Ela ajustou o vestido sobre o corpo e apertou o botão do elevador, antes e entrar ela mostrou o dedo do meio na direção do apartamento do careca histérico.

Desire observava toda a cena enquanto tomava seu café preto e açucarado.

“Toda força as putas” — Desire caminhou até a cozinha para abandonar sua caneca para enfim tomar banho e começar seu dia. O som do celular ecoava em algum lugar no quarto enquanto ela tirava sua roupa – “Porra, cadê você?” – ela dá uma olhada no quarto procurando o aparelho, o achando debaixo do edredom depois de segundos intermináveis – “Como você parou lá, seu maldito?” – resmungava enquanto olhava para o ID.

“Ué, quem será?” – um número desconhecido aparecia na tela — “Alô?”

Oi, Desire?”— dizia uma voz feminina no outro lado da linha.

“Quem gostaria?” — Desire não reconheceu a voz, mas como sua mãe sempre dizia, por mais que a pessoa que ligue saiba quem você é você jamais confirma isso, pois nunca as intenções da pessoa do outro lado.

Apesar de toda precaução, Desire ficou intrigada ao ouvir uma risada no outro lado da linha. Quem essa pessoa pensa que é para rir de algo que não teve graça alguma?

Você não se lembra de mim, não é mesmo? ”— pigarreou a mulher tentando soar mais séria dessa vez.

“Bem, se você dizer seu nome, quem sabe!” – Desire deitou sobre a cama, após ser pega pela repentina curiosidade. Seja quem a mulher misteriosa não custaria nada conversar um pouco.

Conversamos na festa do Henrique

“Humn... Sério? Então, conversamos e eu dei meu telefone?” – Desire não estava levando a situação muito a sério, pois, ela nunca em toda sua existência deu seu telefone principalmente nas festas que seus amigos iam. Esses locais eram habitados por homens chatos e metidos a garanhões, que nunca despertaram seu interesse, já as mulheres todas recorriam sempre a “heterossexualidade” ou simplesmente ignoravam sua existência nas poucas e frustradas tentativas de aproximação.

Vamos dizer que Desire nunca teve sorte em ambientes que normalmente outras pessoas teriam “passado o rodo”. Aos poucos sua ficha começava a cair, pois, se ela deu seu número para essa garota numa festa e seu telefone tocou no dia seguinte isso só poderia significar...

“Não acredito...” – estupefata, Desire disse para si mesma colocando uma mão sobre a testa.

O que você não acredita?”

“Nada! Nada! Bobagem... Ah, qual seu nome mesmo?”

Eu não disse meu nome, mas tanto faz. Bem, eu sou Akemi, amiga do Henrique

“Akemi? ” — Desire sentou-se sobre a cama. Esse nome não era estranho, ela já tinha ouvido em algum lugar, mas não sabia certo onde. Bem, além de bêbada provavelmente ela havia fumado maconha demais para não se lembrar de uma situação como essa. Era só o que faltava... — “Ah sim! Akemi!”

Akemi riu outra vez.

“O que foi?” — Desire não entendia o motivo da graça. Por que raios essa mulher achava graça em tudo o que ela estava dizendo?

Você ainda não se lembra de mim, não é?”

Desire soltou um suspiro e pela primeira vez naquela manhã sorriu para situação toda.

“Xeque-mate...” — Desire fechou os olhos e após abri-los encarou o teto acima de sua cabeça. Seus pensamentos estavam tão elétricos que seriam capazes de acender a lâmpada do quarto, ou talvez eletrocutar a vizinha do andar de cima.

Tudo bem, não estou surpresa já que você tinha bebido uma garrava de vodka inteira e ainda queria dividir uma de whisky comigo

“Sério?” – Desire se sentou sobre a cama – “Tá explicada minha dor de cabeça! ” – ela soltou uma risada contida, já que no final das contas toda situação era engraçada.

Sim” – Akemi concordou rindo um pouco. A linha ficou em silencio por alguns segundos – “Bem, eu só liguei porque você disse que era para eu ligar

“Ah... sim, obrigada por ter ligado mesmo não lembrando de absolutamente nada!” — Desire voltou a deitar e começou a rolar sobre a cama. Ela parou e ficou encarando a janela do quarto. O tempo estava bastante nublado naquela manhã, mas havia uma brecha nas nuvens e um pedaço do azul do céu aparecia. Provavelmente hoje será um bom dia.

.

Não foi nada, ah... Preciso ir, já está quase na hora do trabalho

“Eu também” — Desire ainda estava martelando e martelando o cérebro, forçando ele lembrar de alguma coisa da noite passada, mas nada vinha ao seu socorro — “Ah... Akemi?”

Sim

“Sei lá, você poderia refrescar minha memória? Diz ai o que aconteceu ontem, sabe?”

Outra vez uma risada atravessou a linha telefônica, mas dessa vez Desire deixou um sorriso cruzar seus lábios.

Bem... Como eu disse antes nós duas conversamos ontem na festa, eu tinha chegado bem depois de você e claro você estava completamente bêbada

Desire soltou um suspiro alto, mas não sabia se era de alívio ou de preocupação pelo que estava por vir.

“Então é isso...” — Desire pensou alto, apostando no cenário mais normal possível na sua vida.

Isso mesmo, você me pediu um beijo

“QUE?!” – com a revelação Desire praticamente voou de cima da cama, caindo sobre o chão do quarto.

Alô? Tudo bem aí?” — Akemi somente ouviu um baque no fim da linha.

“Sim... Mas você não vai acreditar, eu acabei de caí da cama!” — Desire se levantou enquanto ouvia Akemi dar uma risada histérica do outro lado do celular. — “Não acho graça rir da desgraça alheia!”

Desculpe...”— Akemi simplesmente disse tentando parar de rir. — “Bem, eu adoraria continuar fazendo você cair da cama, mas eu realmente preciso ir

“HÁ-HA” – disse Desire no tom mais cômico que conseguiu encontrar naquele momento, mas se Akemi disse aquilo sobre “continuar a fazê-la cair da cama” poderia significar que coisa pior aconteceu durante a festa. Bem, se aconteceu ou não isso era assunto para outra hora, se elas por algum motivo do universo conversarem outra vez.

Se você quiser podemos nos encontrar hoje

Por acaso essa mulher lê pensamento dos outros?

“Pode ser, que tal na hora do almoço?” — respondeu Desire mesmo seu eu interior estar gritando enlouquecidamente para que ela fugisse dessa situação toda. Seus maiores inimigos sempre foram o pessimismo e a eterna falta de confiança, mas nos últimos meses a vida havia mostrado que existem pessoas mais fodidas do que ela. Então, no final das contas não havia nada a perder com esse encontro.

Perfeito”— o tom animado de Akemi no outro lado da linha fez o coração de Desire acelerar, mas só um pouco – “Você pode me encontrar? Eu saio por volta do meio-dia

“Posso sim, me passa o endereço?” — Desire esticou o braço em direção ao criado mudo em busca do bloco de papel e da caneta, teria sido mais fácil pedir para encaminhar o endereço no Whatsapp, mas seu cérebro estava tão fodido naquela altura do campeonato que ela nem pensou nessa possibilidade.

Você se lembra onde tatuou o floral do seu braço?”

“Ah, você trabalha no estúdio?” – a informação fez Desire começar a lembrar de onde havia ouvido o nome de Akemi antes.

Claro, ela tatuou um floral no braço esquerdo a alguns meses em um estúdio no centro de São Paulo. Ela sempre passava na frente do local até que um dia decidiu entrar e por que não fazer uma tatuagem?

“Desire, você se lembra ou não?” – Akemi diz, provavelmente notando o devaneio que a mulher estava.

“Oi, lembro sim! Sempre passo na frente do estúdio voltando do trabalho... Ah, passo lá por volta do meio-dia”

Beleza. Nos vemos mais tarde, beijos!”— disse Akemi antes de desligar o celular, não deixando Desire se despedir.

“Beijo...” — Desire tira o celular da orelha e encara ele por alguns instantes. A recente conversa começa a repetir no seu cérebro em looping – “Isso não está certo. Desde quando?”

Desire jogou sua bolsa sobre a mesa, dando meia volta e saindo da sala que funcionava a redação do jornal. Ao passar pela porta de incêndio ela tirou o cigarro do bolso da jaqueta e tateou a roupa atrás do isqueiro.

“Você sabe que isso, além de fedorento, mata” – a voz grossa de um homem ecoando de algum lugar. Desire se vira para encarar o homem que segurava a porta de incêndio.

“Não enche Henrique” — Desire deu de ombros e acendeu o cigarro dando uma longa tragada – “Essa área é exclusiva para jornalistas raízes, chispa” – ela pensou em soltar a fumaça do cigarro em direção ao homem para enfatizar sua frase, mas isso seria cafona demais, então na ponta dos pés ela libertou a fumaça pela pequena janela.

“Que mal humor... Culpa da ressaca ou por que uma linda oriental não te ligou hoje?”

Desire engasgou com a fumaça e começou a tossir. Depois de recuperar o folego ela olhou para Henrique que esboçava um sorrisinho sacana nos lábios.

“O que você disse?”

“Como assim você não se lembra? Verdade, bêbada do jeito que estava...”

“Parem de ficar me crucificando por querer me divertir!” — Desire apagou o cigarro no beiral da janela.

“O mundo necessita de pessoas conscientes e que não fiquem expelindo fumaça tóxica pela janela!” – Henrique cruza os braços, usando o melhor tom de cidadão de bem consciente que existia.

“Do jeito que o mundo está é mais provável eu vou morrer antes dele. Então, qual a diferença?” — Desire senta no degrau da escadaria de emergência e encara o homem que ficou em silêncio — “Ora, ora... Acho que alguém concorda comigo”

“Não mude de assunto, amada! Eu ainda tenho o jogo ao meu favor” — Henrique caminhou para ficar na frente da mulher.

“Quanto você quer?” — Desire tira sua carteira do bolso da jaqueta. — “Maldito chantagista” – pensava enquanto vasculhava a carteira, tentando achar algum dinheiro que ela jurava que tinha guardado.

“Não se trata de comprar meu silêncio. Além disso, eu não tenho nada a ver com sua vida sexual! Era só brincadeirinha”

“Poxa vida, qual o motivo de você tirar sarro de algo assim?” — Desire olha para Henrique e os dois se encaram por alguns segundos. O homem cruza seus braços, olhando de forma séria a mulher sentada em sua frente, mas depois solta um suspiro e se senta ao lado de Desire na escada.

“Verdade, peço desculpas. Vou começar de novo: como seu subchefe e amigo pessoal quero dar um conselho”

“Bem, ultimamente estou aceitando qualquer situação impossível, até mesmo conselhos furados vindos de você” – apesar do comentário mal-humorado da mulher, Henrique dá um sorrisinho e cutuca o braço da amiga.

“Vou fingir que não ouvi isso. Pois bem, você é jovem, apesar de viver reclamando e ter hábitos de uma senhora de 60 anos. É talentosa, apesar de ser insegura com suas qualidades profissionais, sem contar os homens que babam ao olharem para você e verem esses lindos olhos verdes, mesmo você sendo uma sapatão frustrada...”

“Desembruxe logo...” – Desire finge se levantar para ir embora, sendo segurada pelo homem.

“Ok, ok! Eu só quero que você não faça alguma besteira!” – disse Henrique num tom verdadeiramente sério.

“Por que tanta preocupação?” — Desire evita olhar para seu amigo, como sempre ela estava tentando mostrar desinteresse sobre as coisas que envolviam seus sentimentos, principalmente agora sobre o tal assunto em questão.

“Akemi é minha amiga de muito, mas muuuuito tempo mesmo. Ela vale ouro de verdade e não quero que você magoe ela”

“Magoar ela? A gente se conheceu ontem, não deu nem tempo de nos conhecermos direito” — Desire se levanta e caminha até a porta – “Além disso, eu sequer me lembro da noite passada e eu parei de dar encima de mulher nessas festas, porque como você mesmo disse sou uma sapatão frustrada”

“Viu só, olha só a senhorita insegurança chegando no prédio”

“Na boa, meu dia está atarefado...” — Desire sai porta a fora e caminha pelo corredor do andar em que trabalhava. — “Mas que saco... Agora vou ter que aturar ele me enchendo a paciência. Preciso de um cigarro...” — Desire dá meia volta, mas ao perceber que estava voltando para o lugar que acabou de abandonar seu amigo desiste da ideia.

A vontade de fumar havia desaparecido misteriosamente.

Notas finais
Olá a todx! Obrigada pela leitura, caso tenha chegado até aqui.

Pois bem, essa é uma história sobre cotidiano e temas que surgem na minha mente fértil. Geralmente eu escrevo sobre esses devaneios de forma aleatória no meu computador, principalmente como forma de preencher o vazio dos dias... mas as vezes esses vazios acabam virando início de histórias.

Essa história foi escrita em 2012, não cheguei a publicá-la na época, mas ao achá-la em um HD externo velho pensei comigo "ah, por que não publicar?". Então, aqui estou eu.

Tive que fazer diversas correções e alterei várias coisas relacionadas a escrita do primeiro capítulo, pois o tempo passou e eu amadureci (ou talvez não). Mas a espinha dorsal da história permanecerá a mesma e os 12 capítulos também.

Então, sim.. essa será uma história de amor bem água com açúcar, pois o Brasil desde 2018 está me dando socos e pontapés e o atual estado de pandemia, a descrença estúpida da sociedade na ciência e a falta de respeito de parcela da humanidade com o próximo está esgotando minha saúde mental.

Sendo assim, seja bem-vindo caso queira acompanhar essa novela da tarde.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.