Taste of danger - Percabeth
12 Varas de bambu não são nada legais!
Notas iniciais
Quando acordei no dia seguinte as coisas estavam muito confusas na minha cabeça. Primeiro, eu me encontrava sentado em uma cadeira, amarrado. Segundo, eu tinha uma espécie de toca de pano cobrindo o meu rosto. E por fim, eu tinha uma dor insuportável na minha cabeça.
Tentei ouvir alguma coisa ao meu redor, mas ao que parece eu estava sozinho. Não parecia haver outras partes do meu corpo machucadas (pelo menos por enquanto) o que me deixou mais aliviado. Contudo aquilo não deixava a situação em si menos caótica. Eu ainda me encontrava amarrado. Que horas deveria ser aquilo? Tempo suficiente para alguém na mansão sentir a minha falta e vir atrás de mim?
Tive vontade de rir assim que o pensamento surgiu. Nico di Ângelo manteria todos longe dali. Mesmo que o pessoal desse por minha falta ele provavelmente daria alguma desculpa, afinal, ele foi o último a me ver vivo. Vivo. Esse pensamento quase me fez rir de novo como um alucinado. Minha senhora não me mataria, ou pelo menos era o que eu gostaria de acreditar.
O barulho dos passos de salto alto contra o chão de madeira ressoou através da porta. Senti meu corpo inteiro se retesar. Meu coração palpitava. Tentei manter minha respiração uniforme para fingir que ainda estava dormindo. Talvez assim eu adiasse o que quer que fosse que estivesse me esperando.
Os saltos de bico fino vermelhos de minha senhora estavam na minha frente. Eles eram quase cobertos por uma capa esvoaçante que ia até o chão quase. Mais alguém venho atrás dela carregando alguma coisa pesada sala adentro. O objeto fez um barulho alto quando o colocaram no chão.
– Desculpe minha senhora. – alguém que eu não conhecia falou. Quase sorri com o pensamento de vê-la olhando feio para o homem. Era um pouco engraçado como ela conseguia transformar todos a sua volta em bebes chorão com apenas um olhar feio.
– O acorde. — ela ordenou. Senti meu corpo ficar alerta.
Dei um pulo quando senti a água fria caindo sobre o meu corpo. Com o pulo quase cai da cadeira. Meu corpo se encheu com a uma raiva liquida, fria e calculista. Aquilo teria volta. Logo após colocaram uma cadeira na minha frente para que ela pudesse se sentar confortavelmente. Observei por debaixo do capuz enquanto ela cruzava as pernas.
– Passou bem à noite meu menino? — a voz de minha senhora era um murmúrio doce, como se estivéssemos sentados em uma praça tomando um café e não em uma sala desconhecida onde eu me encontrava amarrado a sua mercê.
– Já tive noites melhores. – grunhi.
– Eu pedi que não se atrasasse.
– Isso é ridículo, você sabe. – minha voz era fria.
Foi à coisa errada a dizer.
Obedecendo a um sinal que eu não vi alguém bateu com um pedaço de bambu nas minhas pernas. Não havia reparado que devia estar sem as minhas calças (constrangedor!) até que o toque da varra contra a minha pele molhada ardeu.
Como o golpe foi feito de surpresa não pude evitar o grito que se formou na minha garganta, mas aquele seria o primeiro e o último.
– Nós dois tínhamos um acordo meu menino. – ela sussurrava de forma doce como se estivesse falando com uma criança arteira. — Você concordou em seguir minhas ordens sem questionar e aceitar as punições ao descumprimento de alguma regra. Isso não é ridículo. — no final sua voz endureceu.
– Que seja. – tentei dar de ombros enquanto falava.
Novamente foi a coisa errada a se dizer.
O golpe veio numa direção nova desta vez. Acertou a pele exposta dos meus braços, mas eu consegui conter o grito antes dele acontecer.
– Porque estou aqui? — falei mal humorado.
– Porque se atrasou.
Minha risada foi amarga e irônica. Outro golpe de vara. Aquele castigo deixaria sérios hematomas que seriam difíceis de explicar.
– Como espera que eu explique na mansão esses machucados?
Foi à vez de ela dar uma risada irônica.
– Tenho certeza que será muito criativo.
– Fora me torturar o que quer de mim?
– Porque acha que quero te torturar meu pobre menino? – ela falou de forma inocente.
Outra risada amarga e irônica. Outro golpe de vara.
– Não tinha como eu chegar no tempo determinado. Você sabia que eu iria me atrasar. Planejou isso. Você me queria exatamente aqui. Porque estou com esse pano na cabeça ainda?
Seus dedos depositaram um carinho suave no meu rosto por cima da toca.
– Porque não quero que veja meu rosto.
– Podemos ir direto ao ponto? – resmunguei.
– Esse será o seu último trabalho. Depois, não irei mais precisar de você.
Aquilo doeu mais do que a vara.
– Esta me descartando. É isso? Posso saber o por quê? — minha voz havia saído magoada mesmo contra a minha vontade. Esperei o novo golpe de vara, mas não teve.
Ela continuava a fazer carinho no meu rosto e fez algo que realmente me surpreendeu.
– Nos deixe.
A pessoa deixou a vara que estava sendo utilizada no meu castigo ao lado da cadeira da minha senhora. Após saiu da sala nos deixando sozinhos. O silencio estava se tornando incomodo, mas me forcei a esperar.
Fechei meus olhos para a claridade quando ela arrancou minha toca. A mulher que estava sentada na minha frente utilizava uma capa grande com capuz cobrindo a cabeça. Seu rosto era coberto por uma mascará que deixava apenas a sua boca descoberta.
– Achei que ia morrer sufocado dentro desse saco.
Ela sorriu malicioso. Aquilo me embrulhou o estomago.
– Você me serviu bem e eu serei grata por isso.
Não consegui evitar dar outra risada irônica. — Você já me usou o bastante é isso? Enjoou do meu rosto.
– Porque não voltamos ao que interessa nessa conversa?
Ignorei. Todo o meu corpo dizia que era a coisa errada a fazer, mas eu segui com meus lamentos.
– Eu prefiro que me explique primeiro.
A sala ficou em silencio por leves minutos. Novamente, me forcei a esperar. Seus olhos pareciam brilhar. Eles tinham um toque familiar que eu não consegui decifrar qual era. Eles hoje estavam de um castanho intenso, apesar de que eu podia jurar que no dia que eu a conheci eles eram verdes.
– Seus olhos estão castanhos. – falei debilmente.
– Não tenho tempo para crises existenciais meu menino. – Ela me ignorou.
Eu quis retrucar de novo, mas minha voz morreu quando eu percebi que ela pegava a vara do chão.
– Você quem manda minha senhora. – retruquei ironizando as últimas palavras. Se o capacho dela estivesse ali eu já teria levado muitos golpes de vara. Ela pareceu apenas se divertir em ignorar minhas palavras, soltando uma pequena risada irônica, enquanto brincava com a ponta da vara de forma distraída.
– Você devia se aproximar da menina.
– Não consegui.
– Por quê?
– Muitas distrações em torno dela.
– Quais distrações?
– Ela ligou para um grupo de amigos. Um deve ser uma espécie de namorado. — minha voz soou magoada. Se ela percebeu, não comentou. — Ela anda muito com ele e isso dificulta meu trabalho.
– Per... — a interrompi quando notei que ela diria meu nome.
– Pensei que fosse proibido dizer o nome... — não pude continuar a frase, porque o tapa que se seguiu me pegou de surpresa. Ela cravou suas unhas na base da minha coxa me fazendo ofegar.
– Você tem razão meu menino. — ela sussurrou de forma doce no meu ouvido. — Mas isso não te dá o direito de tentar me expor também. Faça isso de novo e vai receber bem mais que um tapa.
E falando isso ela tirou suas unhas da minha coxa.
– Você está com um péssimo humor hoje.
– Meu humor fica péssimo quando não fazem o que eu mando.
– Se livre das distrações que eu faço.
– Eu tenho que fazer tudo por você?
Fiquei em silencio.
– O que aconteceu na casa de vidro? – aquela pergunta havia me pegado totalmente de surpresa.
– Não aconteceu nada.
– Não foi o que me falaram.
– Se já falaram porque eu precisaria repetir minha senhora. – novamente ironizei as últimas palavras. Não tive tanta sorte dessa vez, o golpe de vara foi forte contra as minhas coxas.
– Não teste minha paciência meu menino.
Fiquei quieto encarando seus olhos castanhos.
– Será que preciso me preocupar com os “porque” daquele incidente desastroso? – ela me encarava seria.
– Não. – sussurrei baixinho. Ela não pareceu acreditar, mas aceitou minhas palavras.
– Como é o nome da distração?
– Luke Castellan.
Eu fiquei quieto quando percebi que ela pegava algo na bolsa. Pensei se aquilo seria um brinquedo novo. Uma nova forma de torturar Percy Jackson. Felizmente era apenas o celular.
– Mande a conexão buscar Luke Castellan. De alguma tarefa para ele, não me importa qual seja. Tire ele de lá por duas semanas. Isso. Perfeito.
E então ela desligou sem dizer tchau.
– Você tem duas semanas meu menino. Duas semanas e nada mais.
Ela repetia enquanto levantava da cadeira e ia em direção da janela. Esperei ela voltar para perto de mim para continuar.
– Quando iremos para o acampamento?
– Ela e os amigos em duas semanas. Quanto a você... — ela puxou meu cabelo com força apertando o meu rosto com a outra mão. Fechei meus olhos com a dor forçando-os a abrir para encarar seus olhos. — Se for bem sucedido no que eu pedi irá junto, em duas semanas. Seu trabalho entrará na segunda parte. Agora se falhar...
E então ela me deixou sozinho com as suas palavras soltas no ar.
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