Tardes Frias e Sofá

1 Capítulo único.


Notas iniciais
Eu precisava muito escrever alguma coisa sobre esses dois, sobre esse anime, porque eles têm me alimentado de vida de maneira que jamais pensei que aconteceria, mas que só tenho como responder com muito, muito e muito amor. Basicamente, essa fic é um amontadinho de momentos entre os dois ao longo de um ou dois dias. Espero que gostem ♥ Sei que a sinopse está terrível, me perdoem por isso, mas realmente não me dou bem com a criação de sinopses, hahah. Não deixem de me avisar sobre eventuais erros, por favor, e boa leitura! Última coisa: feliz parabéns a luz da minha vida que é o Katsuki Yuuri, aaaa ♥

Fazia nove graus naquela madrugada e embora nossos dedos parecessem congelados, nenhum de nós estava disposto a parar agora. Havíamos dado início àquele jogo há quase duas horas e Victor apenas havia conseguido me vencer em uma partida.

“Você está sendo mau jogador de propósito, Victor, não é possível! Ninguém pode ser tão ruim assim em um jogo.” Eu o provoquei em um momento. Na verdade, eu realmente achava impressionante que alguém pudesse perder tantas vezes em um jogo como Victor estava me mostrando ser possível.

Ouvi um estalar de língua, mas não era como se estivesse irritado, ele divertia-se com a situação tanto quanto eu. Havia um sorriso em seu rosto e mesmo quando – de novo – sua evidente derrota aconteceu, o sorriso manteve-se lá.

Ele grunhiu, jogando a cabeça para trás no encosto do sofá, e eu o ouvi dizer: “Vamos parar, Yuuri.” Ri breve a fim de provocá-lo. Victor Nikiforov estava desistindo? “Não pense que estou desistindo. Todo treino necessita descanso e está na hora do meu.”

“Essa foi a desculpa mais elaborada que eu já ouvi.”

“Você deveria ter mais fé em seu técnico, Yuuri. Ele sabe o que está falando.” Victor inclinou-se para frente e eu fui acolhido por seus braços e observei-o a fechar os olhos antes de tocar a lateral de meu rosto com a ponta de seu nariz para então beijar minha bochecha.

Estiquei-me para desligar o videogame e os braços ao meu redor apenas afrouxaram. “Pelo menos você ganhou uma partida.”

“Yuuri, eu sei que você me deixou vencer.”

“O quê?”

“Não considero aquilo como uma vitória.”

“O quê? Por quê? Você venceu!”

“Não, você me deixou vencer.”

Sorri. “Como você pode saber que eu o deixei ganhar?” Eu o havia deixado ganhar, era fato, mas não imaginei que ele fosse sacar. Apesar de que... pensando melhor agora, eu já devia ter esperado. “Certo, certo. Mas considere como uma vitória. Por favor?”

“Eu ganho algum prêmio por aceitar?” Seu tom de voz havia mudado para um mais provocativo, mas a diversão ainda vivia lá.

“Hm, talvez.”

“Então pode ser que eu aceite.” Os lábios de Victor ainda estavam um pouco frios quando tocaram a pele de meu pescoço, mas não durou muito, pois, ao passo que distribuía beijos aqui e ali, a baixa temperatura o abandonava. “E o que é o meu prêmio?” Ele perguntou, deslizando seu nariz por meu maxilar, parando apenas ao encontrar o lóbulo de minha orelha. “Tomara que tenha a ver com katsudon.” Mesmo sendo impossível, para mim, ver o largo sorriso se formando em seu rosto, eu sabia que ele estava lá.

“É, quem sabe.” Respondi, descansando os controles do videogame sobre a pequena mesa de centro da sala de Victor. Estávamos em seu apartamento e aquele mesa era nova. Victor havia decidido comprá-la sob a justificativa de que tinha se acostumado demais com as mesas baixas em nossa casa, no Japão, e, portanto, sentia como se algo estivesse faltando. Devo admitir que a aquisição era muito útil e, também, não era como se o móvel tomasse espaço demais no cômodo compartilhado.

Era engraçado como as cores do apartamento de Victor destoavam das cores de casa. Tudo era tão claro, muito cinza... azul aqui e ali. O hotel, por sua vez, destacava-se pelas cores fortes e tão variadas, cada cômodo tinha uma composição e não necessariamente seguiam um padrão de decoração.

Victor resmungou algo que eu não pude entender e então perguntou: “Quer beber alguma coisa?”

“Um pouco de chá seria uma boa.”

“Chá, então.” Ele beijou o meu rosto antes de deixar o sofá e eu o observei ir até a área da cozinha para logo começar a pegar o que precisava. Aproveitei para desligar a TV e tirar as almofadas do chão. Precisávamos perder o costume de deixar as coisas pelo chão sempre que nos apossávamos do sofá ou cama.

“Esse fica para você, Makka.” Ofereci um carinho a Makkachin, que descansava a cabeça em cima de uma das almofadas. Eu não me atreveria a tirá-lo do conforto. Levantei-me e esfreguei os dedos uns nos outros, deixando que o ar quente de minha respiração colidisse com a pele fria, na tentativa de aquecê-los.

Victor comia um biscoito – muito gostoso – e ofereceu-me uma mordida assim que me aproximei. Eu sempre esquecia o nome, porque era russo, mas o gosto me agradava muito. Ele comeu o que sobrou em sua mão e sorriu para mim, parando de mastigar apenas para dar-me um selinho e então empurrou-me o pequeno pote de vidro que continha mais da guloseima.

“Makkachin gosta mesmo daquela almofada, hm?” Eu falei antes de levar mais um dos biscoitos à boca.

“Sim,” Victor respondeu após dar uma olhadela em Makkachin, que continuava na mesma posição, sua cauda movendo-se devagar de um lado para o outro. “Porque é a maior, ele gosta de ficar em cima.”

“Será que ele ficaria feliz se eu o presenteasse com uma para quando estivermos no Japão?” Foi minha vez de oferecer o pedaço de biscoito a Victor e, após morder, ele apoiou as mãos no gabinete em que eu estava encostado, ficando uma de cada lado de minha cintura.

“Yuuri!” Havia um grande sorriso em seu rosto agora, um daqueles sorrisos que sempre fazia meu coração bater mais rápido, como fazia nesse momento. Eu queria apertar com força a ponta de seu nariz como punição por aquele sorriso, e então beijar todo seu rosto como forma de desculpa. “Makkachin iria amar!”

Deixei que um pequeno sorriso também tomasse meus lábios, a reação de Victor havia me animado ainda mais com a ideia e eu teria pensado e discutido mais sobre, como qual seria a cor que compraria, por exemplo, se ele não tivesse me beijado.

Sua boca tinha um gosto doce, por conta do biscoito, e estava quente, apesar do frio. “Seu nariz está gelado.” Ele comentou, transferindo os beijos às maçãs de meu rosto e então aos meus olhos para terminar na ponta de meu nariz. Senti seus dedos em uma de minhas mãos e então ele disse, após um pequeno grunhido de falsa surpresa, típico das expressões de Victor: “Mãozinhas frias também.” Era tão estranho, no começo, ouvi-lo usar palavras no diminutivo. Ele o fazia mais quando falava com Makkachin, mas gradualmente seu costume foi se transferindo para mim. Não era como se eu não gostasse: pelo contrário, apesar de estranho no início, havia passado a achar fofo.

“Logo logo não estarão mais assim.” Era o ar quente de sua respiração que colidia contra a pele de minhas mãos agora e, quando pensou ser o suficiente, ele depositou um beijo nos nós de meus dedos e espalmou-os em seu rosto, fechando os olhos por um momento. “Hmm...” Ele suspirou. “Estão melhores agora.”

Exalei uma risadinha. “Obrigado. Mas precisa mesmo chamar o técnico para arrumar o seu ar condicionado.”

Assisti seus lábios transformarem-se num bico e seus ombros relaxaram, decepcionados, mas minhas mãos nunca abandonaram suas bochechas, bem como seus dedos não as deixavam. “Não acredito que não está funcionando.”

“Vamos ligar na assistência técnica amanhã.”

“Pelo menos há uma vantagem nisso.” Ele disse, dando uma pausa que logo morreu, uma vez que minha expressão deixava claro que eu não havia completado sua linha de raciocínio em minha cabeça como muito provavelmente ele esperava que eu o fizesse. “Dá para ficar abraçado com você o tempo todo.”

Honestamente, eu já devia ter esperado. “Você não precisa dessa desculpa para isso.” Como se ele já não estivesse o tempo todo abraçado comigo (e eu não estava reclamando).

Um sorriso pequeno foi sua resposta e eu livrei seu rosto de minhas mãos, traçando um caminho, com as pontas de meus dedos, até sua nuca e o puxei para um beijo lento, sua boca quente e doce e fluída contra a minha. Senti sua língua deslizar sobre a minha e senti-me derreter ao mesmo tempo. Nossos troncos juntaram-se e a carícia já não era mais tão lenta assim, mas fomos obrigados a nos separar quando o som agudo da chaleira anunciou que a água estava fervendo. Victor fingiu choramingar antes de dar atenção à chaleira barulhenta e eu apenas podia rir de sua reação.

Makkachin continuava exatamente da mesma forma, então decidi ficar observando o que Victor fazia e aproveitei para pegar mais um biscoito no pote, a sensação quente e doce do beijo de Victor ainda viva em minha boca. Era sempre assim: parecia que não importava quantas vezes nos beijássemos, a sensação sempre seria gigantesca e meu peito pesava de um jeito bom, como se fosse um sonho muito real. Pergunto-me se ele sente a mesma coisa, ou semelhante.

“Só um minuto.” Sua voz chamou minha atenção e eu fiz que sim com a cabeça, a fim de mostrar que o havia escutado. Mais uma vez, ofereci o biscoito a ele e, admito, foi muito divertido vê-lo ter um pouco de dificuldade ao morder quando movi minha mão como se quisesse arrancar o pequeno doce entre seus dentes, e ri baixinho quando ele precisou colocar a mão debaixo do queixo para que uma lasca não caísse no chão. Eu não perderia a oportunidade de brincar com ele. Coloquei o resto do biscoito na boca para tentar conter minha risada: a cara de Victor era impagável sempre que era pego desprevenido.

Ele cobriu a boca com os dedos e eu esperei que ele dissesse algo, mas pareceu desistir, optando por voltar a atenção às xícaras de chá enquanto mastigava o doce. Peguei a que me era oferecida e senti-me muito satisfeito com a sensação de formigamento causado pelo contato entre a porcelana quente e meus dedos. Assoprei o líquido levemente dourado e senti o toque de Victor em meu quadril, ele entortou os lábios e olhou-me de esgueira pela borda da xícara que levava à boca e, apesar de todos os meus sentidos desejarem imensamente se perderem naquele olhar – porque, honestamente: que homem e que olhar –, eu sabia o que estava passando por sua cabeça.

Nuhhuh.” Murmurei.

“O quê?” Ele tentou esconder a surpresa, mas seu olhar o traia.

“Você não vai conseguir me pegar, Victor.”

“O quê?” Desta vez ele não tentou esconder sua surpresa e deixou que ela se mostrasse por inteiro em sua voz. A fim de esconder a risada mais uma vez, beberiquei o chá quente. “Como você sabia?” Sua pergunta era honesta e ele parecia um tanto decepcionado com o fato de que havia sido descoberto.

“Você não conseguiu disfarçar muito bem. Sinto muito.” Abaixei a xícara e ofereci um sorriso gentil a ele e algumas palmadinhas no braço.

Seus ombros relaxaram em completa decepção de novo, mas esta tão logo morreu e eu pude observar seus músculos enrijecem novamente. “Preciso treinar um pouco mais.” Ele brincou.

“Precisa de um técnico?”

“Não seria uma má ideia. A vaga está aberta. Por quê? Oh! Você quer ser o meu técnico?”

“Isso depende de como você irá me pagar.” Ainda era muito difícil, para mim, acreditar nas coisas que conviver com Victor fazia-me sentir seguro falar, deixava-me sempre tão sem graça. Mas eu estaria mentindo se dissesse que não gosto. E estaria mentindo se dissesse que as reações de Victor em resposta à grande parte dessas coisas não fossem algo que eu adorava assistir.

Wow, Yuuri, pensei que instruiria seu namorado de graça, mas já que é assim,” ele inclinou-se, seu rosto distante do meu por míseros milímetros e, quando sua voz voltou aos meus ouvidos, estava mais baixa e carregada e eu sabia que ele estava tentando me provocar “deixo que meu técnico decida a forma como quer ser pago.” Eu não havia me dado conta de que esperava por um beijo até o momento em que percebi fitar seus lábios. Mas o beijo nunca veio por mais que Victor tivesse me feito acreditar que viria. Ao invés disso, seus lábios pressionaram-se em minha testa, sobre minha franja, e ele piscou um dos olhos para mim antes de bebericar o chá e esconder aqueles dentes brancos.

“Eu não acredito.” Foi o que eu disse. “Você me pegou!” Uma risada sincera abandonou-me e eu dei um tapinha sem força alguma em seu braço, que foi seguido de sua própria risada.

“É que o meu técnico é muito bom. Os resultados são imediatos.” Ele ainda sorria quando juntou nossos lábios.

“Nós passamos o dia todo dentro de casa e já é noite.” Comentei ao voltarmos ao sofá e sorvi mais do líquido quente, minhas mãos agora muito bem aquecidas.

“Preguiçosos iguais ao Makkachin, huh?” Ele riu e Makkachin ergueu a cabeça ao ouvir seu nome, mas não fez mais do que isso. Na verdade, Makkachin não era um cão normalmente preguiçoso, mas aprendi que em dias frios ele optaria por dormir na maior parte do tempo ou simplesmente acomodar-se em um lugar confortável. Quem poderia culpá-lo? Eu sentia-me muito bem agora, confortavelmente descansado sob o abraço de Victor, por exemplo. “Seria bom estarmos nas termas agora.” Ele lamentou, mas eu não tinha como discordar.

“Yuuri, já pensou se as águas das termas fossem na verdade feitas de chá?” Juntei minhas sobrancelhas ao ouvi-lo e de um segundo para o outro sua expressão animou-se mais, como se tivesse acabado de fazer uma grande descoberta. “Será que se colocarmos determinada quantidade de saches nas termas conseguimos transformá-las em chá? Poderíamos relaxar e tomar chá ao mesmo tempo. O que acha?”

Cerrei os olhos para aquilo, porque o que mais eu sinceramente poderia fazer? A ideia me trazia tantas violações sanitárias e eu preferia sacudir o pensamento de minha cabeça. “Eu não acredito que estou apaixonado por você.”

“Yuuri,” ouvi meu nome ser chamado, baixo, puxando-me de meu sonho como se livrasse-me muito lentamente de um edredom quentinho. “Yuuri,” tentei abrir os olhos, mas minhas pálpebras lutaram contra. “Yuuri,” desta vez meu nome veio acompanhado de uma carícia em meu rosto, que logo seguiu para meu pescoço e eu descobri que eram beijos.

Murmurei, finalmente, e, mesmo em meio ao meu sono, pude sentir o sorriso de Victor contra minha pele.

“Yuuri, acorde.” Ele afundou o rosto na curva de meu pescoço e, por reflexo, encolhi o ombro, sua respiração causava-me cócegas. Murmurei novamente e senti sua perna agarrar-se a mim, seguindo seu braço num abraço apertado no primeiro momento, mas que não demorou a afrouxar-se.

Victor sempre acordava mais cedo do que eu. Normalmente, quando não tínhamos treino ou qualquer outro compromisso, ele deixava-me dormir o tanto que fosse necessário. Mas às vezes, como agora, ele viria me acordar, porque sentia-se sozinho.

Puxei o ar para meus pulmões e abri meus olhos, finalmente, após dispensar o ar. Remexi-me sob o abraço de Victor e virei-me, com dificuldade, encarando-o – ou tentando, uma vez que minha visão estava embaçada por acabar de acordar e também por estar sem óculos ou lentes. Comprimi os olhos e pisquei algumas vezes.

“Bom dia, Yuuri!” Não havia qualquer resquício de sono em sua voz.

Outro murmuro foi minha resposta antes de voltar minha cabeça à posição anterior e esticar o braço para alcançar meus óculos em cima do criado mudo. Pisquei mais algumas vezes ao ajustá-lo em meu rosto e bocejei longa e preguiçosamente.

“Oi.” Apesar da curta palavra, minha voz veio muito mais baixa e rouca do que eu esperava. O abraço em meu corpo apertou mais uma vez, mas não era como se me incomodasse.

Victor sorriu para mim e eu imaginei que meu cabelo devesse estar uma bagunça lamentável e, antes que o ato pudesse ser processado por meu cérebro, toquei seu rosto e o acariciei com o polegar.

“Yuuri, eu preparei café para nós dois.”

Senti meu peito aquecer.

Não era a primeira vez que Victor fazia aquilo e certamente não seria a última, mas em todas as vezes a situação parecia-me tão surreal: apesar de tudo, ainda era um pouco difícil acreditar que Victor – Victor Nikiforov – preparava cafés da manhã para mim como se fosse sua coisa preferida de fazer no mundo.

“Victor,” pronunciei seu nome, minhas voz apenas um pouco mais alta, mas ainda áspera, e a ausência do peso de sua perna sobre meu corpo fez-se presente, bem como seu braço, e então eu apoiei os cotovelos na cama, observando-o a colocar-se de pé.

Enquanto eu tentava organizar meu cabelo da melhor maneira possível, uma vez que eu não tinha como ter certeza de seu estado, escutei Victor falar: “Isso, fique assim, Yuuri.” Mas não entendi o que ele queria dizer até que seus braços fizeram caminho para minhas costas e pernas e fui obrigado a agarrar-me em sua camisa e ombro quando ele começou a erguer-me em seus braços.

“Victor, o que você está fazendo?” Estava claro em minha voz e expressão o quanto aquilo havia sido inesperado para mim.

“Yuuri é meu príncipe e eu quero carregá-lo como um.”

“Victor,” tentei, com o tom de minha voz, retrucá-lo, mas o olhar em seu rosto conseguiu arrancar de mim um sorriso pequeno e a vitória sobre minha consciência. Aconcheguei-me melhor em seu colo, segurando firme em seus ombros, e falei: “Pelo menos tire o edredom.”

“Mas está perfeito assim!” Ele beijou meus cabelos não tão arrumados para logo deixar o quarto. Eu ainda não estava completamente seguro quanto àquilo, Victor nunca havia me carregado daquela maneira, mas eu confio nele e assim o deixei fazer como queria. “Nada mau, huh?” Foi o que ele falou, sorrindo, orgulhoso e contente, ao colocar-me no sofá e eu suspirei aliviado, ele também havia estado nervoso sobre se de fato conseguiria fazer aquilo.

“Quem sabe você não considera os programas em dupla?” Brinquei.

“Só se fosse para patinar com você.” Seu polegar pressionou meu lábio inferior e só então lembrei-me de algo.

“Victor, eu preciso escovar os dentes!” Antes que ele pudesse argumentar, saltei do sofá, livrando-me do grosso edredom branco, e corri para ao banheiro. Apenas ao retornar reparei no que havia em cima da pequena mesa de centro, não era muita coisa, mas estavam todas muito bem dispostas: havia uma pequena cesta com algo que parecia ser pães, geleia, mel, chá e água, além de pequenos pratos, talheres e também xícaras.

“Decidi comprar algo novo para você experimentar.” Victor chamou minha atenção e eu observei-o vir da cozinha para a área da sala e perguntei-me que hora devia ser – com certeza passava das nove da manhã, porque, aprendi, as padarias na Rússia costumavam abrir depois deste horário. “São Vatrushka.” Ele pronunciou o nome estrangeiro e completamente desconhecido para mim e fez um movimento com a cabeça no intuito de livrar os olhos da franja.

“Pensei que fosse pão.” Admiti e ouvi sua risadinha breve e baixa.

“Pensando bem, não é tão diferente assim.” Ele colocou as mãos na cintura. “De qualquer forma, eu não acredito que ainda não tenha experimentado. À quantas padarias e lanchonetes já fomos aqui?” Assisti-o pegar um dos pratos e então ele pareceu escolher entre qual dos pequenos pães – ou Vatrushka, cujo nome eu sabia estar sendo muito terrivelmente pronunciado mesmo dentro de minha cabeça – pegaria.

Sentei-me no sofá, recolhendo o edredom para meu corpo, e Victor continuou: “Mel ou geleia?”

Comprimi meus lábios por um momento. “Qual você me recomenda?”

“Ok, você precisa experimentar com os dois. Vamos começar pela geleia.”

Ri com seu entusiasmo – eu simplesmente adorava quando ele parecia tão animado em mostrar-me algo novo, algo de que gostava – e esperei até que ele cobrisse a massa aqui e ali com a geleia avermelhada. “Obrigado.” Disse ao pegar o pequeno prato. “Como se chama mesmo?”

“Vatrushka.” Victor respondeu, sentando em meu colo e colocando um de seus braços sobre meus ombros.

“Va- Vatru-“ Juntei as sobrancelhas.

“Vatrushka.” Ele repetiu e eu tentei novamente e falhei novamente e nossas risadas tomaram o ar por alguns segundos. “Tente de novo.”

“Vatrushka.”

Yayy, Yuuri!” Victor comemorou, abraçando meu pescoço e beijando meu rosto. “Experimente, experimente.” E assim eu o fiz: apesar de parecer uma massa seca, era fina e fofinha e junto com a geleia tinha um sabor muito bom, mas o que mais chamou-me a atenção foi o recheio – cremoso e com gosto muito notável e eu arrisquei pensar ser requeijão –, que misturado com as duas coisas tinha um sabor delicioso. “O que achou?” Victor perguntou, ansioso, mas demorei alguns segundos para respondê-lo.

“Delicioso!”

“Não é?” Ele sorria.

“O que é esse recheio? Requeijão?” Ele fez que sim com a cabeça. “Nunca pensei que requeijão cairia tão bem com geleia.”

“Espere até experimentar com mel.”

Victor se serviu do chá quente e a manhã passou basicamente daquela forma: permanecemos no sofá, bem como a comida permaneceu sobre a mesa de centro. Certa hora, Makkachin decidiu juntar-se a nós no conjunto de conforto donos mais edredom mais sofá.

Um pouco mais tarde, depois de termos desocupado a pequena mesa, lavado a pouca louça suja e dobrado devidamente o edredom, era hora de Victor ligar para a manutenção do ar condicionado. Meus pés, protegidos por meias, descansavam em seu colo enquanto ele esperava ser atendido e eu mexia no celular. Senti, então, seus dedos pressionarem meu pé e lancei o olhar a ele, que sorria para mim pela enésima vez naquele dia um sorriso do qual eu jamais poderia enjoar, e logo o toque transformou-se em uma massagem muito gostosa – Victor era excelente em massagens, era quase inacreditável.

Não demorou muito a que ele fosse de fato atendido por alguém que não a voz gravada e era inevitável que eu não me agitasse ao ouvi-lo falar em sua língua nativa – era tão bonito e, após ouvir tantas vezes, parecia tão mais suave do que nas primeiras impressões.

Ele continuou massageando meu pé por bons minutos e mesmo quando parou, seus dedos não me abandonaram. Em certo momento, eu havia me ocupado em acariciar os pelos de Makkachin, que havia se acomodado ao meu lado, até que ele sentiu fome e me deixou para comer. Victor logo largou o telefone e eu afastei meus joelhos um do outro para que ele pudesse aconchegar-se entre minhas pernas e descansar a cabeça em meu torso.

“E então?”

“O assistente virá amanhã.” Victor suspirou e eu pude sentir seu corpo relaxar sobre o meu. Toquei o topo de sua cabeça com a ponta de meus dedos antes de enrolá-los em algumas mechas para então fazer-lhe um carinho.

Um silêncio confortável instalou-se no apartamento e eu fiquei a observar o subir-e-descer suave de nossos corpos ao respirarmos devagar, sem parar com o que fazia. Eu adoro o cabelo de Victor, longo ou curto, é realmente lindo – e muito macio e bem cuidado, devo acrescentar.

“Vitya.” Imediatamente recebi seu olhar, como quando você chama a atenção de seu cachorro para brincar. Sorri doce e Victor retribuiu o sorriso, havia tantos sentimentos em seus olhos naquele momento que apenas percebi segurar minha respiração quando ele remexeu-se sobre mim, a fim de apoiar-se sobre os próprios braços. Eu jamais duvidaria do amor de Victor por mim, ou por qualquer coisa que ele genuinamente dissesse amar. A sensação, por mais surreal que às vezes pudesse parecer para mim, completava-me tão imensamente e, olhando para aqueles olhos cheios de verdades e declarações mudas, eu sentia que explodiria de felicidade a qualquer segundo.

Seus lábios tocaram os meus uma, duas, três vezes, devagar e delicados. Mais uma vez – desta, porém, sem partir o contato. Senti-o remexer-se de novo, a fim de melhor posicionar-se sobre mim enquanto nos beijávamos. Não havia pressa no contato, mas muito sentimento, eu sentia profundamente. Toquei o rosto de Victor e então criamos um pouco de espaço entre nossos rostos, seus olhos ainda tão cheios de tantas coisas, como pude notar.

“Yuuri, eu amo você.”

Ah, mais uma daquelas horas em que meu coração decidia mostrar toda sua energia.

Respirei, mas não tive tempo de dizer qualquer coisa, pois Victor havia sido mais rápido e agora deixava beijos por todo meu rosto, atrapalhando-se um pouco por conta de meus óculos.

My little sun.” Ele falou.

“Victor,” ri baixo e breve, na tentativa de esconder meu embaraço, e recebi seu olhar uma nova vez, ansioso e animado. “Vitya...” Seu sorriso cresceu e seus olhos sorriram junto ao fecharem-se por um momento. Suspirei, contente e em paz.

Mudamos de posição no sofá: ainda deitado, descansei minhas costas contra o encosto confortável e deitei minha cabeça sobre um dos braços de Victor, que acomodou-se ao meu lado, nossos torsos virados um para o outro. Seus dedos deslizavam devagar por meu rosto e meu coração batia rápido e feliz. Seu olhar era calmo e eu não sabia muito bem como reagir, mas acho que não era necessário. Ele ficou a me olhar em silêncio e seus olhos nunca me abandonaram.

“Já estou sentindo falta do Japão.” Sua voz tomou o ar quieto ao nosso redor depois de algum tempo, sem impedir que sua carícia continuasse. “Você precisa me levar em mais lugares por lá.”

“Não é como se eu já tivesse visitado todo o Japão.”

“Podemos fazer isso juntos.”

“Ainda que o Japão seja exponencialmente menor que a Rússia, acredito ser muito difícil conseguir viajar por todo o país.”

Victor fez um bico. “Apenas diga que o faria.”

Ri. “É claro que sim, Victor.”

“Eu iria à qualquer lugar com você, Yuuri.”

Havia uma explosão de palavras que queriam sair de mim naquele momento, mas, como se no embalo de saírem de uma única vez, pareciam congestionadas em minha garganta e eu apenas pude ficar a escará-lo.

Mais tarde, já à noite, fazia muito frio, além de as ruas estarem molhadas – razões pelas quais decidimos não levar Makkachin conosco – e ficamos aliviados ao entrar em casa, cujo frio não era tanto. Na verdade, estava bem quentinho.

Havíamos saído para aproveitar um pouco do ar da cidade, mas choveu, então não demos muita sorte. Ainda assim, as luzes e os cheiros nas ruas eram diversos e maravilhosos e, de alguma forma, eu sentia-me em casa. Talvez ter Victor ao meu lado fosse a razão.

“Vou colocar a ração de Makkachin, tome banho primeiro.” Eu falei após pendurarmos nossos casacos naquela cadeira engraçada que ele deixa ao lado da porta.

E assim nós fizemos – não sem antes Victor insistir que tomássemos banho juntos e termos de dedicar alguns minutos em argumentos até que eu o convencesse a ir. Não demorou, porém, a ser minha vez e quando finalmente voltei à sala, um cheiro ridiculamente agradável cumprimentou-me, enchendo minha cabeça de curiosidade e vontade.

“O que você está fazendo?” Encontrei Victor na cozinha com algumas coisas dispostas sobre o balcão.

“Chocolate quente com canela.” Ele respondeu, sem tirar os olhos do que preparava.

“Está cheirando muito bem.” Abracei sua cintura e beijei seu ombro e então fiquei a observar seu pequeno trabalho, que não durou muito mais do que um minuto depois de minha chegada.

“Um chocolate quente para a felicidade da minha vida.” Victor disse ao entregar-me a xícara branca e eu senti meu rosto esquentar. “Tenho certeza de que irá gostar.”

E ele não estava nenhum pouquinho enganado. Era simplesmente um dos melhores chocolates quente que eu já havia experimentado: tinha um sabor forte, mas não insuportável ou enjoativo, e era possível distinguir a canela do resto perfeitamente. Eu poderia tomar várias xícaras daquele chocolate quente uma atrás da outra se isso não fosse ruim para minha saúde e se não tivéssemos comido antes de retornar ao apartamento.

“O que mais tem aqui além de chocolate, leite,” presumi “e a canela?”

“Segredo.” Um de seus dedos descansava contra seus lábios, naquela pose muito típica de Victor, e ele piscou um dos olhos ao falar.

Sentamos ao balcão e eu observei-o pegar o celular e verificar as notificações que havia recebido aqui e ali. Eram tantas!

Descansei minha cabeça em seu ombro, livrando-o ocasionalmente para poder tomar o chocolate quente, e continuei a observar suas atividades pelo celular. Georgi havia postado um curto vídeo em que Yurio ensaiava alguma coreografia com Mila e eu e Victor rimos pela reação dele ao perceber que o patinador mais velho os gravava.

O chocolate quente de Victor teve fim pouco antes do meu, mas estávamos cheios demais para prepararmos novas xícaras cheias. Aproveitei para segurar sua mão junto com a minha, entrelaçando nossos dedos, e distrai-me naquilo, no toque, no calor que compartilhávamos.

Makkachin latiu algumas vezes, mas ele só estava brincando com algum de seus brinquedos de borracha e, fora seus breves latidos, o único som que veio foi quando Victor falou: “Yuuri, vamos tirar uma foto.”

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!