Também

1 Will you not hear what I say, Near?


Notas iniciais
Essa ainda não é a fic que eu queria para aquela capa.
Mas enfim.
Boa leitura~
Girou o revolver por entre os dedos recobertos de couro.

Encarou seu próprio rosto de anos atrás, a cabeça de hoje jogada pra trás numa angulação mais incomoda a quem via do que para si.

Ali ainda não havia cicatriz tomando-lhe a face, nem o fedor da máfia impregnado em suas feições.

Tinha até um sorriso menos torto.

Mordeu o chocolate, relendo novamente o verso.

Dear Mello.

Jogou a foto de volta no canto onde a mesma já tanto caira, sentindo um amargor descer-lhe pela garganta.

Girou o revolver que a pouco apontara inutilmente.

Engatilhado,

Encarou a si mesmo com um definitivo trincar de dentes.

Mordeu o chocolate.

Revolver.

Foto.

Ele.

Chocolate.

Merda.

Manteve a barra presa entre os dentes desnecessariamente a mostra enquanto pegava o casaco.

Guardou a arma, já vestindo a cabeça enquanto o acelerador da moto era posto pra trabalhar.

Não é que não estivesse realmente esperando por aquilo...

Na verdade, era óbvio que acabaria acontecendo.

Só não esperava que o orgulho de Mello fosse se dobrar tão rapidamente a ponto de já estar ali, bem diante das câmeras de vigilância, despreocupado.

Abriu as portas com um pouco caso notável, em nem sequer largar o avião de plástico que mantinha entre os dedos.

Halle já estava em casa.

Gevanni estava seguindo Mikami.

O comandante havia saído para... Bom. Ele também tinha vida.

Pensava até que ponto Mello calculara todos esses fatores antes de vir.

Podia ouvir o solado das botas pelo recinto onde a única iluminação eram as dezenas de televisores.

— Olá de novo Mello.

O som de um corpo se deixando cair no primeiro sofá que encontrou não era esperado, mas a barra de chocolate sendo aberta lhe tranquilizou com o sentimento de que ainda estava tudo dentro dos erros de suas deduções.

— Esqueceu algo?

E chegava mesmo a ser engraçada a cena.

O sempre tão altivo e dramático, num sentido de filme de ação cheio de explosões, tão quieto enquanto Near tentava tentava? — puxar assunto.

Lembrava um pouco alguns dos dias mais curiosos na Wammys House, aqueles inesperados em que se via obrigado a reconhecer porque Mello era o número dois.

Apenas ficar patente porque Mello AINDA era o número dois.

— Você poderia ter simplesmente queimado a minha foto.

— Suponho que sim.

— Nem precisava ter ido pegar.

— Você que a deixou para trás. Se não o tivesse feito Kira teria encontrado-a quando foi investigar o orfanato.

— Não pense que vou te agradecer por ficar se metendo.

— Não penso.

Silêncio. Alguns quadradinhos de chocolate eram partidos enquanto passageiros embarcavam no avião falso.

Mello ainda no Sofá.

Near ainda no chão.

Há quanto tempo não se olhavam?

— Onde a foto estava?

— Na sala do Roger.

— Eles não guardavam fotos nossas Near.

Nossas.

Enrolou um cachinho.

Às vezes esquecia-se de com quem estava lidando...

Óbvio que ele sabia que não eram guardadas informações além das essenciais sobre os sucessores de L.

Medidas de segurança instauradas pelo próprio detetive e só ampliadas conforme se acumulavam os dados a respeito de Kira.

— Roger era descuidado e fraco. Foi um erro da parte dele.

Não deixava de ser verdade.

— Eu não sou a Halle, ou alguns desses seus subordinados estúpidos que vão ficar soltando exclamações surpresas com as suas deduções imbecis, Near.

Também era bem verdade.

— Onde você a pegou?

De novo.

— Na sala do Roger.

De novo.

Um bufo mal-humorado. Sentia-se sob o sério risco de acabar assassinado ali.

Não por coisas poéticas como um olhar fuzilante ou pensamentos malignos.

Mello não era dessas coisas fracas e pouco práticas.

Sentia, sim, o revolver coçando para ser engatilhado e apontado reto e certeiro em sua direção.

De fato, a arma girava por entre os dedos, contida.

Não que ele estivesse vendo.

— Near, eu estou sinceramente me esforçando para simplesmente não te enfiar uma bala na cabeça. — Não duvidava — Mas posso mudar de ideia se continuar com esse seu joguinho estúpido.

— Já passamos por isso hoje, Mello. Você não atirou mais cedo, não vejo por que o faria agora, sendo que nada mudou.

O interessante a respeito de seu rival é como seu comportamento era oscilante. Bipolar seria quase um insulto para aquele ser. Se diante dos outros realmente precisara fazer toda aquela cena cheia de gritos e ameaças, agora voltava a ser a mesma pessoa fascinante e surpreendente que não precisava se esforçar para ser superior.

— Quando pegou essa foto?

Essa. Quase podia enxerga-lo com a foto em mãos.

Poderia se ousasse virar um pouco que fosse a cabeça.

— No dia em que o Roger nos chamou.

— Qual deles?

— Fala como se fossemos para lá juntos com frequência. Melhor, chamados por ele em pessoa. Mello, você já foi mais atento...

Viu em sua mente as sobrancelhas se franzindo e apertando os olhos.

Aquele dia.

O dia da morte do L.

— Eu olhei os arquivos antes de ir. Não tinha nada meu lá.

— A foto era minha.

Quase. Quase conseguiu realmente ver uma careta se formando no meio daquele rosto tomado por queimaduras.

Algumas reticências se alastraram pela cena, pensativas.

— Naquele dia em que fomos chamados para destruir os arquivos... — lembranças foram se esticando, preguiçosas, em sua mente — Então, aquilo que pegou foi a minha foto.

Não sentiu necessidade de responder aquela constatação.

— Você parece um maníaco tarado, Near. Um stalker.

— Você demorou a descobrir que ela estava comigo.

Ainda faltava uma pergunta ali.

— E porque me devolveu?

— Sabia que viria buscá-la e já não precisava mais dela.

Mello assentiu, digerindo tudo o que lhe fora proposto.

Abriu outro chocolate.

Ergueu-se do sofá, ouvindo as molas rangerem.

Parou ao lado de Near, ainda partindo a barra.

Sentou-se.

Estranhando a aproximação, parou de brincar um pouco com seus modelos plástico, esperando.

Mello segurava a tal da foto entre seus dedos negros.

Rasgou-a.

— Não vou trabalhar com você.

— Eu sei.

Nunca haviam feito nada juntos.

— Mas mantenho o que disse, vou estar te esperando. É bom que consiga chegar.

Mas não se lembravam de já terem se separado.

— Veio só para isso?

Estranho, esses dois.

Um sorrisinho de deboche.

— Já disse Near, vou estar te esperando.

Sorriu, de leve, quase rindo.

Deixou que Mello se fosse, acompanhando com as câmeras a moto ganhando as ruas desertas.

Quando Rester voltou para a central da SPK, não pode deixar de estranhar.

Near, milagrosamente, não tinha brinquedo algum em mãos.

Apenas uma barra de chocolate, uma barra fina e escura.

Chegou a comentar com Gevanni o quanto era curioso, mas recebeu apenas concordância.

Aquilo nem era importante.

Era só para matar a vontade mesmo... Para disfarçar a abstinência daquele gosto único que há muito não sentia.

Mas tudo bem.

Também podia esperar.

Notas finais
Teoricamente, há mais um capítulo.
Ainda preciso decidir se o postarei aqui, ou como uma one separada.
Mas enfim.
Konan betou~
E... Qualquer coisa, review.
Obrigada~
Kalhens.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.