Tales of the Bard
3 Ancient Winds
A elfa teve em seus belos olhos negros, a visão de um corvo atravessando a estrada. Voava baixo, como se incitasse que os dois seguissem-no. Danna, entretanto, sentia que havia algo diferente naquele animal. Sempre acostumada a interagir com a natureza, os animais, e pedir-lhes ajuda, não conseguia fazer o mesmo com aquele corvo.
–Lanceloth? — interrompeu os pensamentos do humano. — Venha.
O guerreiro sacudiu a cabeça, compreendendo o pedido da elfa. Observou, também, o voo irregular do corvo, a dar voltas no ar. "Estranho", pensou, mas nada disse, e prosseguiu cavalgando. Adentraram a mata baixa, onde a grama florescia até os joelhos de seus cavalos. No horizonte, observava-se uma pequena tenda, aparentemente habitada. Danna prosseguia na frente, mas com um tanto mais de cautela agora. Aproximou-se do bosque, e teve nos olhos a visão de um gnu caído, com diversos outros corvos a rodearem o bosque. Desmontou de seu cavalo, dirigindo-se rapidamente ao mesmo. Lanceloth a seguiu logo atrás, observando em volta — notou que jazia, relativamente distante da criatura, um de seus longos chifres, e seus ferimentos eram bastante graves.
A elfa, invocando o poder da flora, começou a curar as feridas do grande indivíduo. Ainda inconsciente, o gnu trajava uma armadura de couro, sem nada a cobrir seu peito, e possuía um grande báculo ao seu lado. Seu casco e seus chifres — embora um agora esteja partido ao meio — tinham coloração negra, e seu pelo era de um caramelo claro. As orbes translúcidas que rodeavam sua cabeça indicavam que era um shaman, assim como o pequeno altar que havia construído no interior de sua tenda.
–Gasp... Q-quem são vocês? — sua voz estrondosa cortara o ar, enquanto recobrava a consciência.
–Não se assuste. Estamos aqui para lhe ajudar.
A elfa o ajudara a se sentar, para que o mesmo lhe contasse o que acontecera. Enquanto isso, Lanceloth procurava em torno. Não demorou muito para chamar Danna. Pegou um pequeno orbe negro, levemente translúcido, e mostrou-o no ar para a barda. Os corvos que rodeavam o local agitaram-se, e a elfa deixou que o gnu recuperasse-se do susto, enquanto praticamente corria retirar o artefato das mãos do guerreiro. Tomou-o nas mãos, e quebrou-o, pisando em cima do mesmo. No mesmo instante, os corvos desfizeram-se em fumaça negra, assim como o orbe.
–Eu não sei quem é essa criatura — dirigiu o olhar ao gnu, sentado ao chão — e nem por que ela lhe atacou, mas é ela quem eu procuro.
–Jovem druida... este mal é pior do que você imagina. Tive, esta noite, um pesadelo. Os espíritos de Avalon rogaram-me ajuda, e eu não pude os ajudar.
–Avalon? — indagou Danna. — Mas é o reino sagrado, tão bem-aventurado quanto nossos deuses!
–Não mais. — a voz do shaman soara ríspida, e a frase caíra no silêncio. — Escute, elfa, eu talvez possa lhe ajudar nisso. Vejo que vens de longe, e seu companheiro também, ainda mais do que eu possa imaginar. Ainda assim, a corrupção assola o reino dos sonhos, e é lá que deve ser combatida. Enquanto isso, precisa-se instalar novamente a aliança entre os povos, há tanto tempo convergindo em desavenças.
–Mas... o que aconteceu com o último rei, escolhido pela Relíquia?
–Morto, há anos, por um traidor. Estre traidor reclamou para si o trono, e seus domínios estendem-se até o mar. Existem povos livres de seu maléfico regimento, como o norte, mas ao sul, vocês não encontrarão quaisquer casas amigas.
–Tens uma sabedoria que nenhum de nós possui. Isto nos seria bastante útil, gnu. Sou Danna, e o guerreiro é Lanceloth.
–E você nem ao menos sabe com o que está lutando. Eu lhes ajudarei, pois vejo nobreza em seus corações. Chamo-me Thanwig, e antes de qualquer coisa, creio que será melhor seguirmos até um local onde você será bem vinda.
O gnu levantou-se, e, completamente curado de seus ferimentos, pôs-se em posição de viagem. Com as duas patas traseiras e suas mãos adaptadas, tornou a correr pelos matos, sendo seguido por Danna, e logo atrás dela, Lanceloth. Não demorara muito para que acompanhassem Thanwig, cavalgando ao seu lado.
–Aonde estamos indo? — gritou Lanceloth, alheio às conversas entre o shaman e a druida.
–Rancain. É uma cidade não muito distante, que abriga todo o tipo de criaturas em harmonia com a natureza.
–E por quê?
–Bem, você e sua amiga precisam de instruções. Não há outro local em todo este continente que possa lhes mostrar as lendas dos deuses de maneira mais precisa. Não fica muito distante daqui; creio que em apenas dois dias estaremos lá.
–x-
Raiava a aurora do terceiro dia de viagem, quando viu-se no horizonte árvores de copa maiores do que as da floresta em que percorriam. Não havia praticamente trilha alguma, nem muros que a protegessem. Observaram diversas criaturas – algumas de raças conhecidas para ambos, outras não – despreocupadamente dispostas pela tímida entrada da cidade. Era possível apenas observar apenas um pouco daquela, já aparentemente, enorme civilização, por entre as brechas criadas pelas folhas das árvores.
–Não precisa questionar. – proferiu o gnu, observando a elfa. – São faens. Nascidos da natureza, cada qual varia de acordo com sua origem. Seus chifres, asas e cabelos podem nos indicar em qual elemento ele tem sua ascensão, desde o mais claro tom anil, até o mais escarlate vermelho.
Lanceloth observava as belas faens, flutuando nos ares, em conjunto com elfos e outros gnus. Notou algumas semelhanças entre os faens e elfos, como as orelhas, apesar de os primeiros serem menores, e possuírem tons pastéis em seus cabelos diversos. Em poucos momentos, viu-se atento – e pasmo – à grandiosidade daquela cidade. Esquecendo os pensamentos que desenvolvia, olhou em volta. Danna, ao seu lado, mantinha seus olhos focados em todos os mínimos detalhes.
A elfa sentia-se em casa, rodeada pela natureza, pelos deuses. Apesar de ser uma cidade de proporções imensas, – não conseguia observar os limites da mesma – não era fácil acessá-la, ou saber de sua existência, e agora, entendia os porquês. Pequenos fogos-fátuos, orbes elementais, que brilhavam em diferentes tons-luz, pairavam pelos ares, girando em torno de Danna. Ela estendeu a mão, e observou um pequeno fogo-fátuo azul pousar em sua palma, para depois ascender aos céus, e arrancar-lhe um sorriso.
Thanwig, o gnu, observava a cena, sorrindo igualmente. Deu-lhes as boas vindas, finalmente, à Rancain. Os anciãos sussurravam, enquanto Danna e Lanceloth passavam, e os outros cidadãos fitavam-lhos à distância. A cidade, apesar de possuir tamanhos colossais, era concentrada em um circulo. Ao centro, havia diversos bancos, e uma grande fonte com águas espiraladas que subiam aos céus, como que se possuíssem vida. Permeando o círculo central, árvores descomunais abrigavam infindas luzes em seus largos troncos, bem como pequenas janelas. Em algumas era possível ver cortinas esvoaçantes, flutuando além dos limites de seu interior; em outras, floresciam belas plantas ao redor de suas aberturas. Não existiam apenas três ou quatro árvores para servir de moradia aos druidas, shamans e diversos outros que habitavam Rancain; podia-se contar mais de uma dúzia. Na base das mesmas, além de arcos permitindo a entrada, haviam também diversas escadas e plataformas espiralando ao redor do comprimento em altura, levando à outras entradas, diferentes andares e também interligando os troncos, de andar a andar.
Danna reparava, sentia e acompanhava cada pequeno detalhe, tecendo pensamentos sobre tudo, quando teve suas reflexões interrompidas.
–E então? – Questionou o shaman, seguindo em frente, direcionando-se para a grande árvore que situava-se no meio de todas as outras. – Vamos.
–Aonde iremos? – indagou o guerreiro, levemente atordoado.
–Precisamos ir até o Oráculo. É o conselho dos três anciões, e eles certamente quererão lhes ver. Sigam-me.
Danna, acompanhada de Lanceloth, deixou as rédeas de seu cavalo nas mãos de um halfling de aparência simpática, que prometeu levá-los à estrebaria. Levou consigo apenas sua algibeira principal, e seu cajado, apressando-se para acompanhar o gnu, sendo seguida pelo humano logo atrás. Subiram uma grande plataforma ao redor do tronco da árvore, cruzando com alguns indivíduos que retribuíam sorrisos hospitaleiros para a elfa, chegando ao salão principal – que situava-se no topo da árvore, de um teto entrelaçado pelos diversos galhos e folhas largas, mas que ainda assim deixavam tímidos raios solares atravessarem e completarem a penumbra do grande salão. Haviam grandes janelas entalhadas em forma de arco, e cortinas translúcidas dançavam com o vento. O chão também havia sido entalhado cuidadosamente, com diversas runas e uma grande triquetra ao centro. Em frente, o Oráculo, formado por três indivíduos, situava-se cada qual observando-os. Assemelhavam-se à imagem de Danu, quando esta apresentou-se para a elfa. Possuíam detalhes de cada raça, mas eram mais do que isso; não apresentavam uma aparência jovem, e já era esperado, pelas diversas lendas contarem que puderam presenciar o declínio do Tuatha de Dannan. A druidesa já havia lido histórias sobre o grande Conselho do Oráculo, onde contos relatavam representar a grande trindade, sendo a personificação da coragem, da sabedoria e do poder.
–Bem vindos. – Proferiu o primeiro ancião, sentado ao centro, segurando em mãos um belo e minucioso cajado.
Os outros dois apenas saudaram-lhes com a cabeça, amigavelmente.
–Lamich, Noreloth, Eshminn. – O shaman fez uma reverência, seguido pelo guerreiro, e pela barda. – Estes são Lanceloth, e...
–Danna. – interrompeu o oráculo à direita, nomeado Lamich, personificação da coragem, deixando sua espada ricamente forjada cravada no chão.
Entreolharam-se os três anciãos, assim como fizeram o gnu, o humano e a elfa.
–Conte-nos. – disse Eshminn, personificação do poder, dirigindo-se para a druida – Quais foram suas aventuras? Por que estás aqui?
–Minha cidade fora destruída, e eu desejo descobrir quais os motivos. – retrucou Danna, firmemente.
–Não. – respondeu-lhe o oráculo ao centro, Noreloth. – É mais do que isso. Você conhece a dor desde tão cedo, minha cara elfa... – a personificação da sabedoria fez uma pequena pausa. – É intrigante.
–Creio que tenhas ambições diversas, Danna. – iniciou Eshminn. – Entretanto, podemos prover-lhe conhecimento e treinamento em Rancain. Além disso, creio que não haver motivos... É uma missão sua, de motivações suas.
Danna olhou para Lanceloth, que assentiu com os olhos. Ela retirou, então, de sua algibeira, aquele pequeno papel rabiscado com as runas élficas já conhecidas. Levou até o oráculo ao centro, e viu as faces dos três anciãos em um misto de emoções, – surpresa, confusão, medo — enquanto continham em mãos o singelo pergaminho.
–Nós... iremos lhe ajudar. – disse Noreloth. – Por ora, descansem. Em breve, nos comunicaremos novamente.
Danna, confusa com o que havia acontecido, apenas fez-lhes uma reverência e saiu do aposento, bem como Lanceloth e Thanwig.
–Eu espero que minha intuição seja verdadeira. – comentou Eshminn. – Espero verdadeiramente que o poder que vi nela seja o que acredito ser.
–Talvez, meus caros dragonborns. – proferiu Lamich. – Aconselho-os a retornar às bibliotecas sagradas, pois farei o mesmo. Um mal tão antigo, que acreditava-se estar adormecido...
–Se esta é sua sina, — comentou, por último, Noreloth – iremos ajudá-la. Mas eu tenho a certeza de que esta jovem barda tem o poder de mudar todos os reinos, se assim o quiser verdadeiramente. Eu vejo grandeza em seu passado, e sinto confiança em seu olhar. Ela é o grande Arauto a despertar.
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