Neryd olhou Ermed por algum tempo, mas não demonstrou nenhuma reação.

Thimni parecia até não ter ouvido. Calmamente tirou o cachimbo preto de sua boca e deixou a fumaça negra e tóxica sair de seus pulmões e se espalhar pelo ar. Neryd sentia que ia vomitar, e acabava de se arrepender por ter chegado tão perto dele.

Depois de deliciar a fumaça por mais alguns momentos, Thimni abriu os olhos e virou-os diretamente para Toke.

– Por que eu iria querer uma erva melhor? Pra morrer mais rápido?

A sua voz era grave e rouca, estragada de anos de fumo. [sente o feeling do gukkão aqui] Ele abriu um sorriso com um aspecto nada saudável e andou até Toke.

Ele parou ao lado da mulher e fechou os olhos para tragar o cigarro mais uma vez antes de falar com ela.

– Vai precisar mais do que isso para me convencer, garota. Eu não estou com pressa de sair daqui. — Ele soprou um pouco da fumaça no rosto dela. Olhando-o com seus olhos marcados de profunda olheira, ele encarou-a. — Eu quero saber se você está disposta a fazer qualquer coisa para sair daqui.

Thimni levemente sorriu.

– Fumando sem parar do jeito que faz, vai morrer mais rápido do que se a gente ficar trancado aqui. — Toke sorriu ironicamente — E é nesse tipo de hora que eu sinto falta da minha querida irmã. Fhanda, você ainda tem aquilo que minha irmã lhe deu a um tempo atrás? Sabe aquele negócio que eu pedi para você sempre deixar junto de si e de jeito nenhum perder. Sabe, né?

– Eu... Deixei ela junto do meu arco...

Toke respirou fundo, abaixou a cabeça e sentou do lado de Ermed e começou a ler o livro junto dele e Lizzy.

– Vocês... não vão fazer... nada? Neryd? Moço fumante que vai morrer cedo, por favor, não fala isso com a sua vida? — Fhanda fez cara de triste e olhou para Davven — E você, Davven?

Davven sentiu-se nervoso. Ele tentou abrir a boca, quando percebeu que tremia um pouco e a sua voz falhou mais do que o normal.

– Bem eu... Sim, nós deveríamos fazer algo! Sim! Mas... Eu não... Eu... Não é que eu não acho que não... Argh... — Ele desistia de falar olhando para Fhanda, apertando as próprias mãos trêmulas. — Eu só não sei o que poderíamos fazer. Mas...

Davven respirou fundo. Achou que já tinha falado o suficiente e já bastava parar ali.

Thimni terminava de soltar a fumaça pela boca novamente. Um pouco louco, ele olhou para os lados, como quem checava se não havia ninguém perto, e mesmo o lugar estando lotado de pessoas e Davven bem ao seu lado, ele aproximou-se para falar com ela. Abaixou o cachimbo por um momento, fazendo no ar um rastro de fumo.

– Eu tenho experiência em escapar de lugares como este. — A sua voz rouca e insensível não passava muita confiança, embora ele não tivesse tom de quem mentia. O elfo parecia ter olheiras ainda mais profundas quando era visto de perto. — Eu posso lhe oferecer uma maneira de sair daqui, se estiver disposta a me dar algo em troca.

Toke respirou fundo e seguiu seu instinto de líder, perguntou com calma:

– Claro... O que você quer? Vou ver se isso é possível.

Um pouco desequilibrado, como se fosse cair a cada passo, Thimni aproximou-se de Toke; girou ao redor dela até o seu lábio inferior encostar no pescoço da moça e delicademente tirou os seus cabelos roxos da frente da orelha.

– Eu quero um beijo.

Toke sussurrou alguns xingamentos e falou:

– Claro, claro... Espere um momento — Ela levantou e puxou Fhanda para um canto onde ninguém pudesse os ouvir.

– Fhanda, pelo amor do meu senhor, vamos tentar mais uma vez abrir mais um vez ou quê?

– Eu não sei!!

A moça de cabelos roxos respirou fundo e falou:

– Vamos acabar com isso logo, Thimni.

Thimni abriu um sorisso malicioso.

– Achei que alguém como você ia ser um pouco mais difícil.

Ele pôs a sua mão na cintura de Toke e rispidamente puxou-a para sua frente. Olhou-a no fundo dos seus olhos brilhantes por algum tempo; fechou os olhos e aproximou o seu rosto do dela dela até seus lábios se tocarem.

Beijou-a, e depois de suavemente descer a sua mão pela cintura de Toke, afastou-se dela.

Toke se distanciou do homem, soltar algumas pragas novamente e falou num tom sério:

– Agora faça as "honras" e abra a porta.

A mulher olhou para Lizzy e Ermed que estavam chocados, surpresos e Fhanda que estava segurando o riso.

Thimni mantinha um sorriso leve e constante no rosto. Ele ainda tinha a boca aberta e fechava os olhos, como se deliciasse lembranças do beijo que tinha acabado de dar.

Ele caminhou até a porta. A magia de abrir fechaduras era algo que tinha treinado há muito tempo, e que já dominava. Mas surpreendeu-se quando, assim que pegou na maçaneta, a porta se abriu.

Não foi necessário para ele usar magia; parecia estar imune a qualquer tipo de feitiço vindo daquele reino.

Thimni saiu da frente da porta, dando espaço para a passagem enquanto colocava o cachimbo na boca.

Toke percebeu que ele não precisou fazer quase esforço algum e arqueou a sombrancelha. Ela fez um sinal para que Fhanda visse se existia alguma coisa próxima e assim fez.

– Não há nada ou ninguém lá... — A moça de cabelos rosas falou baixo.

– Ok. Vão, primeiro, serei a última.

Thimni franziu a testa. Depois de tragar um pouco, ele tirou o cachimbo da boca para falar.

– Algum problema, Toke?

– Não, não sou enfezada como alguns daqui — Toke sorriu cinicamente.

Ele soltou um curto riso rouco do fundo de seus pulmões fracos, sorridente. Agora que todos tinham saído, a sala estava vazia e silenciosa; as vozes facilmente ressoavam pelo lugar. Thimni aproximou-se dela para sussurrar em seu ouvido.

– Você tem a bunda macia, sabia?

Toke se sentiu com uma raiva fulminante, mas não queria perder a calma e assassinar nos socos o mago, algo lhe dizia que talvez Neryd ficasse contente, mas achava melhor não. Ela empurrou o homem para se distanciar.

– Por favor, pare com isso — Ela respirou fundo — Eu fiz o que você queria, considere-se sortudo por eu não arrancar sua cabeça fora e usar de decoração.

Thimni fumou enquanto a ouvia. Os seus olhos vermelhos brilhavam.

– Sortudo? ...Ah, garota. Você não faz ideia de com quem está mexendo. — Ele tinha parado de sorrir e deixou o rosto sério, parecendo desafiá-la. Depois de encará-la por algum tempo, ele tirou o olhar dela e pôs o cachimbo na boca. — Mas não vou subestimar uma pessoa como você.

– Pois bem, você, também, não ideia com quem você está falando. Afinal, se fosse tão capaz de tantas coisas, não drogaria-se tanto, teria orgulho de si mesmo, não? — Toke virou-se e saiu pelo alçapão.