Tales of Star Wars

Maturidade (Anakin x Obi-Wan)


A escada em caracol era estreita e escura, com seus degraus e paredes feito de uma pedra antiga e desgastada, muito diferente da construção moderna e imponente que era o Templo Jedi de Coruscant, localizado literalmente a apenas alguns metros acima deles. O caminho por entre aqueles degraus estreitos era guiado apenas pela luminária nas mãos de Obi-Wan Kenobi, que ia à frente.

— Você sabe que lugar é esse, Anakin?

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Apenas alguns poucos degraus atrás, o jovem Padawan, de apenas dez anos de idade, teve sua atenção retirada dos degraus, voltando-se para o seu mestre.

— Sei, mestre – ele respondeu. – É o lugar que o Mestre Windu disse que nenhum Padawan deveria vir sozinho.

— Exatamente – disse Obi-Wan. – E sabe por que ele disse isso?

— Não, mestre.

Obi-Wan respirou fundo, sabendo que precisaria contar toda a história para ele. Mas, afinal, essa era sua função pelos próximos anos: instruir. E Anakin, recém-inserido no mundo Jedi sem absolutamente nenhum conhecimento prévio, precisaria de uma instrução muito mais cuidadosamente elaborada e minuciosa. Então, por mais óbvio que fosse, Obi-Wan sabia que teria que começar pelo começo.

— Dos textos que eu mandei você ler, qual deles você já leu?

— O texto sobre a história dos Jedi – Anakin respondeu. – E o sobre o valor de cada forma de vida no Universo.

— E o sobre os cristais kyber? Ainda não?

— É um dos próximos que vou ler, mestre.

— Não tem problema não ter lido até agora – disse Obi-Wan. – Mas eu gostaria que fosse o próximo. Tudo bem?

Com um “uhum”, Anakin concordou com a cabeça.

— Mas eu já vou adiantar algumas coisas pra você – continuou Obi-Wan. – O que você precisa saber hoje é que muitos elementos atuam em conjunto sobre o cristal kyber para determinar a cor da lâmina do sabre de luz de um Jedi. Mas quando esse cristal é corrompido pelas idéias do lado sombrio, ele se torna impuro e adquire a cor vermelha.

— É por isso que o sabre de Darth Maul era vermelho, mestre?

— Exatamente.

Uma dedução óbvia para qualquer membro da Ordem, mas, talvez, um raciocínio incrível para uma criança tão nova como Anakin. Ainda mais uma criança inserida em um universo ao qual, pouco tempo antes, ele praticamente desconhecia.

— Mas existem outras formas do lado sombrio se manifestar na cor de uma lâmina – Obi-Wan continuou. – O sabre do Mestre Windu, por exemplo. É roxo, não é? Isso porque o Mestre Windu conhece o lado sombrio e suas técnicas. Ele é um Jedi, então, por isso, não utiliza esse tipo de conhecimento. Mas, só por conhecer esse tipo de coisa, o lado sombrio deixou uma marca no cristal kyber dele.

Houve silêncio por um rápido instante, no qual Obi-Wan começou a se questionar o quanto aquela conversa poderia deixar Anakin impressionado.

— Mas é possível purificar cristais kyber corrompidos pelo lado sombrio – Obi-Wan prosseguiu quando viu que Anakin não se manifestou. – Existem rituais Jedi. Rituais muito antigos e difíceis de realizar, mas que são capazes de eliminar o lado sombrio de um cristal corrompido. Mesmo assim, esse cristal nunca mais voltara a ser o mesmo. Ele nunca mais voltará a se manifestar com uma lâmina da mesma cor que tinha antes de ser corrompido. Normalmente, cristais purificados por esses rituais assumem uma lâmina de cor branca, mas existem registros de que podem assumir outras também. O que quero te dizer é que sempre que o lado sombrio domina um cristal kyber, ele deixará uma marca nesse cristal para sempre, por menor que seja.

Por fim, os degraus acabaram e mestre e Padawan estavam parados em frente a uma pesada porta de ferro, com apenas uma tranca comum, cuja trava se inseria em um buraco feito na pedra desgastada e empeirada da soleira.

— O Templo Jedi está construído sobre as ruínas de um antigo Templo Sith – disse Obi-Wan. – E esse templo está atrás dessa porta.

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Nesse momento, Obi-Wan percebeu o quanto aquela situação estava assustando seu jovem aprendiz: assim que ele proferiu essas palavras e apontou para porta, Anakin olhou para ela com apreensão e recuou. Suas pupilas estavam dilatadas e sua pele, pálida. Por um instante, Obi-Wan quase se arrependeu de o trazer ali. Talvez, Anakin fosse muito novo para passar por aquilo.

Não. Era uma conversa que precisava acontecer. Quanto antes, melhor.

— Rituais de purificação muito parecidos foram feitos aqui durante centenas de anos – disse Obi-Wan. – Os Jedi obtiveram muito sucesso com eles, mas, da mesma forma que nos cristais, ainda existem marcas do lado sombrio aqui. Marcas que ainda estão muito fortes. E, por isso, atrás dessa porta, o lado sombrio tenta reviver nossos maiores medos.

Anakin recuou mais um passo para trás. Seus olhos fixos na porta. Obi-Wan conseguia ver o queixo do menino tremer.

— Alguns Jedi gostam de vir aqui meditar de vez em quando – ele disse. – Para conhecerem os próprios medos e saberem sobre o que ainda precisam trabalhar em si mesmos para se entenderem na Força.

Obi-Wan olhou para a porta e, então, destrancou-a, mas a manteve fechada.

— Mestre... – Anakin sussurrou.

— E eu vim aqui meditar algumas vezes nos últimos meses – Obi-Wan concluiu.

— Por que, mestre?!

Na cabeça de Anakin, não havia o menor sentido em estarem ali. Não havia motivo.

— Eu estava confuso – Obi-Wan explicou. – E com medo. Muito medo. Mas não sabia do que exatamente. E eu precisava de respostas que sabia que não iria obter apenas meditando no meu quarto. Eu precisava ser colocado à prova. Então, eu vim pra cá.

— E por que está me trazendo aqui?

O medo estava gravado na voz de Anakin.

Com o coração partido por fazer o menino tão novo passar por essa situação (mas crente que os benefícios seriam maiores que os traumas), Obi-Wan abriu a porta.

Atrás dela, apenas escuridão.

— Porque eu aprendi uma coisa – ele respondeu. – E eu quero que você aprenda isso antes de qualquer outro ensinamento sobre os Jedi. Acredito que vai evitar que você passe pelos mesmos problemas que eu passei. Agora, venha comigo.

Obi-Wan avançou, mas, percebendo que Anakin estava imóvel, ele parou sob o arco da porta e se virou para ele, estendendo-lhe a mão.

— Venha, Anakin – ele disse. – Segure a minha mão. Nada de ruim vai acontecer enquanto você estiver comigo. Eu prometo.

Anakin hesitou por alguns segundos. Segundos nos quais Obi-Wan voltou a pensar se não deveria recuar e voltar ali dentro de um ano ou dois, quando Anakin estivesse mais preparado e um pouco mais maduro. Estava prestes a desistir quando, finalmente, o Padawan avançou até ele. A passos lentos e curtos, mas avançou.

Obi-Wan sentiu a mão de Anakin fria quando eles se tocaram. Tentando passar confiança e segurança para ele, Obi-Wan fechou seus dedos ao redor dos dele com força e trouxe o menino para perto dele.

— Fique perto de mim – sussurrou Obi-Wan quando os dois deram o primeiro passo para o interior da escuridão.

***

Não era necessário ser sensitivo à Força para perceber que havia algo de errado com aquele lugar. No momento em que Anakin pisou atrás da porta, ele foi tomado por uma sensação de angústia que se manifestava fisicamente como um peso em seu estômago e um calafrio persistente em sua espinha. Além de uma sensação estranha de estar sendo observado. Não por pessoas, não por Siths. Mas por mil almas que espreitavam na escuridão, sedentas pela sua próxima vítima. Uma sensação angustiante de que algo horrível estava prestes a acontecer.

— Mestre, vamos embora... – Anakin implorou. – Por favor...

— Nós já vamos, Anakin – ele disse. – Vai ser rápido. Confie em mim.

A luminária na mão de Obi-Wan começava a falhar, mas, com a pouca luz que ela emitia, Anakin conseguia ter vislumbre do terreno à sua frente. Poucos metros adiante, havia um tablado quadrado e, em cada vértice, um pequeno minarete, assemelhando-se em muito ao formato externo do Templo Jedi, tantos metros acima deles. No centro do tablado, havia um altar de pedra. Uma pedra tão gasta quanto as paredes e os degraus da escada que eles haviam descido.

— Mestre, eu estou com medo...

— Aqui é o lugar para ter medo – disse Obi-Wan, sua voz era suave e controlada. – Mas nós vamos visitar o meu medo. Não há nada aqui para você temer. Confie em mim.

Anakin apertava tanto os dedos de Obi-Wan que o Jedi sentia a sua circulação sanguínea ser interrompida. Mas ele não soltou a mão de Anakin. Ele o havia trazido ali e era seu único apoio. Ele não o abadonaria. Não soltaria a mão dele nem que isso levasse seus dedos à gangrena.

Lentamente, os dois caminharam em direção ao altar. A cada passo, a angústia se tornava ainda maior e quando, finalmente, subiram no tablado, algo novo aconteceu. Vozes. Vindas de todos os lados. Não era possível distinguir o que diziam, mas eram vozes agressivas e perturbadoras que congelavam a alma.

— Mestre... por favor...

— Já vai acabar, Anakin – ele disse, pacientemente. – Eu prometo. Aguente só mais um pouco.

Chegaram ao altar. Na pedra, havia uma cavitação e, em seu interior, água.

— Anakin, eu vou te pedir uma coisa – Obi-Wan se abaixou para olhar o Padawan nos olhos. – Você vai colocar o rosto na água e vai abrir os olhos. Eu quero que você sinta o que eu senti. Foi importante pra mim e vai ser importante pra você. Consegue fazer isso?

Pálido e incapaz de conter os tremores de seu corpo, Anakin apenas fez que sim com a cabeça.

— Eu não vou sair detrás de você – disse Obi-Wan, posicionando-se atrás do menino e tocando seus ombros enquanto ele se aproximava da água. – Confie em mim. Vai acabar logo.

Anakin inspirou fundo e avançou, mergulhando o rosto no líquido.

Como se todas as almas daquele templo colocassem suas mãos ao redor de seu pescoço, Anakin sentiu-se ser sufocado. A angústia em seu peito chegou a níveis que ele jamais sentira na vida e ele foi forçado a retirar o rosto da água.

Mas não estava mais no Templo Sith.

Estava em uma sala circular, bem iluminada e de paredes metálicas, com um profundo buraco em seu centro. Ao seu lado, Mestre Qui-Gon estava caído, ferido. À sua frente, separado por uma rede de energia, estava Obi-Wan, olhando para ele com uma fúria que Anakin jamais vira. Nas mãos do menino, um sabre duplo. De lâminas vermelhas.

A rede de energia se desfez.

Como uma cobra que dá o bote em sua presa, Obi-Wan avançou contra ele. Os braços de Anakin se moveram sozinhos, bloqueando os golpes de seu mestre involuntariamente. No rosto de Obi-Wan havia tudo o que Anakin sabia não ser parte de um Jedi: ira, raiva, ódio, sofrimento e medo. Mas Anakin também estava em pânico. Ele gritava, mas sua voz não saia pela sua boca. Ele não controlava o seu corpo. Era uma marionete, incapaz de reagir por conta própria, duelando contra o próprio mestre.

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Em nenhum momento, o medo e a angústia de Anakin desapareceram. A única trégua foi quando ele, ao empurrar seu adversário com a Força, conseguiu derrubar Obi-Wan no buraco, fazendo o Jedi se segurar em um suporte lateral, evitando a queda para a morte iminente. Mas isso foi temporário.

Antes que percebesse, Obi-Wan havia pulado. Ele passou por cima de Anakin, o sabre de luz de Mestre Qui-Gon em suas mãos. Anakin mal teve tempo de se virar, apenas conseguindo visualizar o movimento de seu mestre e, em seguida, uma dor indescritível surgiu em sua cintura, disseminando-se para todo o seu corpo.

Dessa vez, o corpo de Anakin respondeu aos seus comandos: ele se afastou da água aos gritos, tropeçando nos próprios pés e sendo segurando por Obi-Wan, que estava logo atrás dele. Atordoado pelo choque, o menino não conseguia se mover.

Mas não havia mais a sensação de ser observado e não havia mais vozes.

Havia apenas o abraço apertado e carinhoso de Obi-Wan e a voz dele que lhe sussurrava incansavelmente que tudo estava bem.

– Está tudo bem – dizia ele. – Você está seguro. Você está comigo. Já acabou. Está tudo bem.

No momento em que Anakin conseguiu abrir os olhos, todos os seus músculos recuperaram os movimentos. Sem dizer nada, o menino se desvencilhou de seu mestre e correu para longe do altar, do tablado e do templo, ultrapassando a porta e subindo a escada de três em três degraus o mais rapidamente que podia, deixando Obi-Wan sozinho ao chão.

***

Talvez, tivesse sido cedo demais. Talvez Anakin ainda não estava pronto para aquilo.

Mas estava feito. Cedo ou tarde, não havia mais como mudar aquilo. Mesmo assim, Obi-Wan estava arrependido do que fez. Após toda aquela experiência, talvez Anakin não tirasse nada de proveitoso.

Mas também, o que ele estava pensando?

Ele era quinze anos mais velho que o menino e mesmo assim tivera dificuldades em entender o que havia acontecido com ele. Por que raios ele havia acreditado que o menino conseguiria depreender as mesmas coisas que ele?

Por algumas horas, Obi-Wan acreditou que seria melhor deixar Anakin sozinho. Talvez, a solidão o faria pensar melhor sobre o que havia acontecido. Mas esse pensamento se dissolveu quando ele não viu Anakin no refeitório do Templo àquela noite, durante o jantar.

Preocupado que o menino pudesse ter sofrido um impacto maior do que o que ele havia planejado, Obi-Wan não conseguiu dormir naquela noite. Rolou de um lado para outro em sua cama, ora encarando seu quarto, ora encarando a parede, mas sem conseguir tirar Anakin de seus pensamentos e sem conseguir abafar a sensação de culpa que o atormentava.

Incapaz de se sentir bem consigo mesmo e preocupado com seu aprendiz, Obi-Wan se levantou, vestiu a sua túnica e saiu do seu quarto.

Durante a madrugada, o Templo Jedi era um lugar frio e vazio. O silêncio era tamanho que Obi-Wan conseguia ouvir a própria respiração e os próprios passos ecoando pelos grandes vãos do Templo e de seus corredores. Ele desceu algumas escadas até que chegou ao corredor onde ficavam os quartos dos Padawans, portas enfileiradas lado a lado. Estivera poucas vezes no quarto de Anakin, mas ele não teve dificuldade alguma para encontrá-lo: atrás de uma delas, Obi-Wan sentia uma inquietação fora do comum.

— Anakin? – o Jedi bateu à porta, chamando por ele em um tom de voz que esperava ser o suficiente para ser ouvido, mas sem acordar os outros Padawans. – Eu posso entrar?

— Pode, mestre – ele ouviu a voz de Anakin, do outro lado.

Obi-Wan avançou e a porta deslizou para o lado.

O quarto dos Padawans não eram muito diferentes dos quartos de cavaleiros e mestres: um espaço pequeno com uma cama e uma cômoda. Apenas. Sem decorações, sem nada que os distinguísse um dos outros. O perfeito retrato da modéstia e do desapego dos Jedi.

Anakin estava em sua cama, sentado sobre o travesseiro. A julgar pelo estado amarrotado das cobertas, ele parecia estar na mesma posição há muito tempo. Lentamente e sem sequer conseguir imaginar se Anakin o receberia de forma amigável ou hostil, Obi-Wan avançou até ele e se sentou na cama ao seu lado, mantendo uma curta distância entre os dois.

— Anakin... – ele começou. – Me desculpe. Eu achei que você estava pronto pra isso. Mas eu errei.

O menino não respondeu. Ele ainda não havia olhado no rosto de Obi-Wan, mas não parecia com raiva. Sua mente estava distante, como se estivesse refletindo.

— Você vai ficar bem?

— Acho que vou, mestre – Anakin respondeu, ainda sem estabelecer contato visual. – Eu só não consigo entender.

— O quê?

Anakin realmente estava contemplativo. Ele demorou alguns instantes para escolher as palavras certas. Foi quando, finalmente, ele olhou para Obi-Wan.

— Por que você estava com medo do Maul, mestre? – ele perguntou. – Você matou ele. Você era melhor que ele. Não precisava estar com medo.

— Mas eu não estava com medo do Maul – disse Obi-Wan.

Anakin retraiu cada músculo de seu rosto, em dúvida.

— O quê?

— Bem, na verdade, eu estava sim – Obi-Wan se explicou. – Eu estava sozinho e meu mestre tinha acabado de ser ferido. Eu estava com medo dele. Mas, depois que tudo aconteceu, teve mais uma coisa que me deixou com medo. Mais medo do que eu estava de Maul.

— E o que foi, mestre?

Obi-Wan engoliu em seco. Era uma conclusão que ele já havia chegado a algum tempo, após meditar no Templo Sith e após conversar com o Mestre Yoda. Mas era a primeira vez que iria dizer isso em voz alta.

— Eu estava com medo de mim mesmo – o Jedi cuspiu as palavras, quase como se, se assim não o fosse, ele não fosse conseguir proferi-las.

A dúvida de Anakin continuou gravada em seu rosto.

— Você viu o que aconteceu naquele dia – Obi-Wan continuou. – Você viu o que eu fiz, viu como eu lutei, viu como eu agi. Eu não estava só com medo de Maul. Eu tinha raiva. Eu tinha ódio. Eu queria matar ele mais do que qualquer coisa no mundo naquele momento.

— Eu tive medo de você naquela visão, mestre – Anakin confessou.

Nesse momento, Obi-Wan se sentiu ainda mais envergonhado do que já se sentia.

— E o que você aprendeu com isso tudo? – o menino questionou.

Novamente, Obi-Wan engoliu em seco. Ele respirou fundo antes de continuar.

— Aprendi que ainda há muito que preciso trabalhar em mim – ele respondeu. – Que ainda existem em mim muitas coisas que seriam consideradas virtudes pelo lado sombrio.

Anakin permaneceu em silêncio, sem saber como responder àquilo.

— Mas também aprendi que sempre temos escolhas – continuou Obi-Wan. – Mestre Yoda disse que esse momento foi um toque do lado sombrio em mim. Eu poderia ter cedido e continuado pelo caminho do lado sombrio, se quisesse. Isso me fez aprender que sempre podemos fazer uma escolha.

Por alguns instantes, os dois se encararam.

— Sabe, Anakin, antes eu me envergonhava de pensar que ainda poderia haver algo em mim do lado sombrio – ele disse. – Algo que me treinamento como Padwan ainda não havia conseguido eliminar de mim para que eu pudesse ser um bom Jedi. Mas, depois que lutei contra o Maul, eu aprendi que eu não tenho que ter vergonha disso. Mas eu preciso ter a humildade de reconhecer isso em mim e aprender a trabalhar isso em mim, para amadurecer.

— E era isso que você queria que eu aprendesse também, mestre?

Obi-Wan fez que sim com a cabeça.

— Você ainda é um aprendiz – ele disse. – Vai errar muito até aprender. Mesmo no final do seu treinamento ou mesmo quando já for um cavaleiro. Mas eu quero que você saiba que você não precisa se cobrar em ser perfeito. Eu não vou exigir isso de você nunca, e quero que você não exija isso de você também. Quero apenas que aprenda a reconhecer onde você errou e que aprenda a corrigir e aperfeiçoar isso em você. E, se você não conseguir, você vai sempre poder contar comigo pra ter ajudar. Você me entendeu?

Anakin fez que sim com a cabeça.

Por alguns instantes, os dois permaneceram em silêncio até que, por fim, Anakin abandonou sua posição e avançou até Obi-Wan, sentando-se ao seu lado. Ainda preocupado com o bem-estar dele, Obi-Wan passou o braço por traz de seu aprendiz, aproximando-o dele.

— Você vai ficar bem? – perguntou.

— Vou, mestre – ele disse. – E me desculpe por ter deixado você sozinho lá embaixo.

— Você não precisa pedir desculpas. Agora, já pra cama. Está tarde e você precisa dormir. Vou te dar o dia de folga amanhã. Sem ensinamentos, sem lições. Amanhã, você vai descansar. Hoje você teve um dia muito cheio por minha culpa.

Anakin se deitou sobre o colchão e Obi-Wan colocou a coberta por cima dele.

Mas a Força ainda lhe dizia que seu aprendiz estava muito inquieto.

— Você não estava conseguindo dormir, não é? – disse Obi-Wan.

Quando Anakin fez que sim com a cabeça, Obi-Wan percebeu que precisaria se lembrar mais vezes que ele era só uma criança sempre que pensasse em um novo exercício de aprendizado no futuro. Ele havia cobrado uma maturidade muito grande dele.

— Eu posso te ajudar com isso – disse ele.

Assim, Obi-Wan tocou a testa de Anakin com a mão, envolvendo o seu rosto. Pequenos truques Jedi que Qui-Gon havia lhe ensinado, mas que era verdadeiramente úteis e funcionais: em poucos segundos, a cabeça de Anakin tombou para o lado no travesseiro e Obi-Wan pode ouvir a respiração leve e ritmada que apenas o sono poderia proporcionar ao menino.

O Jedi o observou dormir por alguns segundos antes de, finalmente, se levantar e deixar o quarto.