Take on Me
1 What Hurts The Most
Notas iniciais

Sarah
— Sinto muito pela sua perda — disse uma moça da qual não me lembrava o nome.
Quantos “sinto muito” eu havia escutado naquela semana? Dez? Cem? Para ser sincera, eu já nem sabia, mas não aguentava mais. Se cada um realmente sentisse, então, onde estavam quando ela precisou de um ombro amigo? Quando precisamos de ajuda?
— Obrigada, mas é tarde demais para isso — falei, me afastando.
Segurei firme minha bolsa enquanto andava pela rua. A chuva batia forte, minha roupa estava toda colada ao meu corpo, mas o que importava era que minha bolsa estivesse seca.
Subi rapidamente as escadas, não querendo encontrar nenhum vizinho. O bairro era um pouco pesado e eu já havia me metido em confusões demais naquele prédio. Se aquilo fosse acontecer de novo, não sabia se a pessoa sobreviveria.
Fechei a porta e me joguei no sofá, não me importando nem um pouco se eu o estava molhando. Quem se importaria. Eu queria minha mãe, sentir seu cheiro de canela, seu abraço quente e ouvir sua voz ao cantar enquanto cozinhava.
Ela não merecia aquele fim, ela merecia mais e muito mais. Ela era a melhor pessoa que eu conhecia e não merecia ter falecido por causa de uma doença.
Leucemia. Foi o que levou minha mãe de mim. A única pessoa que se importou comigo porque realmente me amava.
As lágrimas escorriam por meu rosto, não conseguia parar, a dor ainda era grande. Fazia uma semana, mas parecia que eu a tinha visto pela última vez no dia anterior. Naquela cama de hospital em que, ainda que fraca e com dores, ela ainda soltava um sorriso, como se tudo fosse ficar bem.
Abri a bolsa e tirei os pertences. Ali continha um envelope pesado que um advogado me entregou e algumas contas. Nem precisava abri-las para saber quão ferrada eu estava. Não podia pedir ajuda para ninguém, éramos só eu e minha mãe de família. Do lado dela não tinha ninguém, já que ela era órfã, e do lado do meu pai, eu nem sequer sabia se havia, já que eu não o conhecia.
Eu perguntava muito dele quando era criança e minha mãe sempre me enchera de desculpas, mas nunca acreditei. Desde a primeira vez, eu sabia o que tinha acontecido: fui resultado de uma noite de muita diversão. Uma diversão boa, como ela dizia.
Nunca vi foto, vídeo ou qualquer vislumbre de sua aparência. Mas eu tinha uma ideia de como era seu jeito, já que minha mãe sempre dissera que eu era igual a ele: um gênio, irônica, língua afiada e que adorava me meter em confusão. Eu não sabia como ela conseguia descrevê-lo tão bem, provavelmente devia ter tido notícias ou sei lá.
Ela sempre dissera que, pelo menos, puxei sua aparência: seus olhos azuis intensos, uma pele um pouco mais pálida que o normal, seus castanhos cabelos cacheados e seu sorriso belíssimo. Era realmente uma combinação perfeita.
Escutei uma batida na porta. Era o que faltava mesmo. Sequei meu rosto o máximo que pude e atendi-a.
— O que você quer? — perguntei grosseira.
— Tá me devendo seis meses de aluguel — respondeu o síndico.
— Eu sei, você me lembrou nos últimos seis meses. Fez questão de me lembrar todas as vezes que me viu.
— E então?
— E, então, que se não sair da minha frente, vou chutar seu saco e não vai mais poder ter filhos — respondi, cruzando os braços.
Ele me olhou espantado. Sabia que eu era capaz daquilo.
— Eu quero o meu dinheiro.
— É o que mais quero, mas ainda não cai do céu. — Joguei minha mão apontando para cima. — Se me der licença, eu tenho mais o que fazer do que ficar discutindo. — Pretendia fechar a porta, mas sua mão me impediu. — O que você quer? Já não me viu demais? Assim minha beleza vai ser gasta — ironizei.
— Eu quero o meu dinheiro e quero agora.
— Escuta aqui, seu idiota, eu não tenho dinheiro agora e, quando tiver, eu pago — disse seriamente. — Mas saiba que, quando eu pagar, farei questão de esfregar cada nota na sua face. — Pisei em seu pé, fazendo-o tirar a mão da porta e levar ao local. — Eu vou lembrar muito bem desse momento, quando você precisar de alguém para olhar seus pirralhos de graça.
Fechei a porta em sua cara. Desgraçado! Sabia que a situação não estava fácil para mim e vinha me cobrar algo.
— Se até o próximo mês não me pagar tudo, vai ser despejada! — gritou atrás da porta.
— Quero ver se vai ser homem pra me tirar daqui! — exclamei em resposta.
Voltei para o sofá e peguei as contas. Cada uma que abria, mais me desesperava. Os cálculos que fazia de cabeça me assustavam por seus resultados. Claro que estavam certos, eu nunca tinha errado, mas queria muito que tivesse daquela vez. E o valor do hospital quase me fez ter um derrame.
— Como é que vou fazer para pagar tudo isso? — questionei-me sozinha, como se a resposta fosse cair do céu.
O meu telefone tocou e atendi sem sequer olhar para o visor.
— Alô?
— Sarah Hamilton?
— Sim, sou eu.
— Aqui é a coordenadora do programa de Robótica da Universidade — apresentou-se a mulher.
— Aconteceu algo?
— Infelizmente, senhorita Hamilton, você perdeu sua bolsa de estudos.
— Como? Eu pedi uma licença, expliquei a situação — disse surpresa com o que ouvi. — Não tinha como continuar o programa, minha mãe estava doente e precisava de mim.
— Eu entendo, mas a bolsa que a senhorita ganhou tem suas regras. — Bufei por suas palavras. — E, infelizmente, a senhorita perdeu meio ano, então, não podemos mantê-la. Eu realmente sinto muito.
— Muito obrigada por ligar, eu vou lembrar-me disso quando oferecerem uma bolsa novamente — resmunguei antes de desligar o celular. Joguei-o no sofá e me sentei no chão, apoiada no móvel.
Minha vida estava uma droga mesmo. Eu nunca pensaria que, aos meus dezessete anos, estaria assim. Tudo estava tão bem. Tinha me formado com quinze anos e, logo em seguida, por ser um gênio, me ofereceram uma bolsa do programa do curso que sonhara desde pequena e, então, de repente, a vida dava uma volta de 180° graus.
Peguei o envelope que o advogado me entregou e abri. Dentro continham algumas fotos minhas e da minha mãe; um envelope; o documento da minha emancipação e um guardanapo antigo. Peguei o envelope menor, sabia que havia uma carta dentro, provavelmente de minha mãe, e que eu deveria abri-lo, mas não tinha cabeça. Logo em seguida peguei o guardanapo, abrindo-o. Nele apenas uma frase:
"Não desista dos seus sonhos. Tony".
Mas quem diabos era Tony?
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