Me partia o coração ter que deixar o Gus sozinho até as 15:00 hrs, mas sem emprego, sem ração.

O ônibus até o shopping no qual se localizava a livraria que eu trabalhava passava em frente ao meu antigo colégio na ida. O cobrador me lançou um olhar de nojo enquanto eu passava o meu cartão para liberar a catraca, não que eu ligasse, eu já estava acostumada.

Quando se passa por lá é possível ver claramente que os alunos eram buscados por motoristas, já que sempre havia alguém para abrir a porta para eles.

Antes daquele local se tornar um colégio, havia uma catedral ali. Quando resolveram transformar em uma escola, quase 60 anos atrás, decidiram permanecer com a igreja, por tanto o colégio era magnífico de lindo apenas pela sua arquitetura gótica e seu designer barroco, construída com pedras e cimento e formada por três andares, no qual o ultimo terminava com três pequenas torres pontudas que possuíam um vitrô circular cada. A biblioteca, refeitório, bloco dos professores, diretoria e outras coisas ficavam espalhados pelo imenso perímetro da propriedade, no qual eram ligados por um gramado verde muito bem hidratado.

Eu sentia saudades dos sofás confortáveis e da imensidão de livros que a biblioteca nos proporcionava, éramos uma cidade pequena, com apenas uma livraria e a biblioteca da escola era talvez maior. Mas depois que conquistei minha autodependência e liberdade, percebi que ninguém nem nada poderia tirar isso de mim.

O serviço estava sendo uma maravilha, eu chegara na hora, cumpri minha lista de compras no intervalo, havia organizado o stand de romances de época e de trillers e agora eu trocava os marcadores de brindes por alguns de lançamento mais recente. Algumas pessoas me olhavam com desprezo, mas como aquela era a única livraria elas não tinham opção.

Enquanto eu verificava se não restava nenhum antigo misturado nos novos, escutei algo que fez meu chão sumir.

Aquela voz delicadamente birrenta que eu reconheci de imediato.

A alguns metros de mim, uma garota de cabelos compridamente encaracolados e escuros, que trajava saia e camisete florida e agora possuía um bico emburrado absurdamente deslumbrante batia o pé e revirava os olhos.

Alhena Almeisan Cardoso, filha do único pastor da cidade, exemplo de “como uma garota deve ser”, incontestavelmente mimada e egoísta, também conhecida como minha perdição dês dos 13 anos.

Filha do pastor

Filha dele

Desviei o olhar de seu pai, mas não por medo dele me notar, e sim por nojo e repugnância. Eram lembranças que, antes mesmo de pensarem em se aflorar, eu as despachei novamente.

Não pensaria naquilo.

Não me lembraria daquilo.

Alhena era quase um ano mais nova do que eu, mas depois de eu ter perdido um ano escolar, estávamos ambas no 3° ano do ensino médio. As más línguas dizem que ela ocupou o meu posto de rainha da santidade depois que eu fui exilada pela família tradicional brasileira.

Por sermos de anos diferentes, nunca tivemos contato. Mas, o simples fato de ouvir sua voz ou a menção ao seu nome me tirava de orbita.

— Este não é um livro para garotas de respeito – seu pai nem se dava ao trabalho de encara — lá ao falar.

Consegui ver o título do livro que Alhena segurava e quase ri ao perceber que se tratava de “Onze minutos”. Eu havia lido aquele livro com meus 13 anos, e foi um dos livros que mais me fez bem. Me deixou ansiosa por crescer, me conhecer, explorar a minha autodependência, mesmo que ela só tenha vindo a alguns anos.

Percebi que ela passou pisando duro por mim ao sentir o cheiro de seu perfume delicado, com uma leve relevância amadeirada que ela usava dês de sempre.

Não mudava em nada para a minha vida o fato dela estar ou não na livraria, mas assim que percebi sua marcha birrenta e determinada ate a saída, algo dentro de mim murchou rapidamente, sem me dar chances de disfarçar o meu desapontamento. Olhei para os lados e confirmei, para meu alivio, que ninguém havia notado.

Eu era uma garota naquela escola

Eu era influente, ditava regras e moda

Ditava e exalava preconceito de hipocrisia

Agora Alhena era eu

E isso não era bom

O restante da noite se passou voando entre prateleiras que eu arrumava em ordem alfabética. O perfume e a voz adoravelmente irritada não saiam da minha cabeça, então me concentrei em trabalhos difíceis como separar romances históricos por data de lançamento, mas nada adiantava para tirar essa inconveniência proibida de minha mente.

Mas não poderia negar, aquela inconveniência era a única coisa que poderia afastar aquilo de mim, aquilo cujo eu não suportaria lembrar.

Quando avistei Marcos parado no estacionamento do Shopping quase soltei um gemido de alívio, afinal aquelas sacolas estavam absurdamente pesadas. Ele trajava sua típica calça jeans e sua camiseta de botões.

— Não acredito que me pediu ajuda para carregar quase nada — disse revirando os olhos e me ajudando a colocar as intermináveis sacolas no porta-malas do seu carro, Gus dormia descaradamente no banco de trás.

Marco tinha conseguido tudo o que ele possuía com esforço e persistência. Seu carro, sua faculdade e sua carteira de motorista foram todos frutos do seu foco e das intermináveis horas extras.

Horas extras, cansativas, mas necessárias.

Poderia até ser bom, depois de um dia normalmente cansativo para mim, voltar para casa em um carro confortável e aconchegante, mas, assim que bati à porta do passageiro tentei concentrar-me no maldito trabalho de filosofia, que foi quase tão inútil quanto tentar tirar Alhena da cabeça levando em conta que alguns caras em motos gritavam coisas obscenas quando percebiam que era eu quem estava no carro, o que me fez fechar a janela.

Naquela noite Gus me fez companhia com suas lambidas espessas e alegres, e ficou comigo acordado até que eu terminasse o meu dever de Filosofia e passasse a roupa, o que acabou sendo mais tarde do que previsto. Mas a cada segundo que meu cérebro ficava disponível, eu pensava nela.

Aquilo era completamente frustrante. Eu estava levando minha vida, há meses eu nem mencionava seu nome no meu consciente e agora ela resolve simplesmente aparecer e foder com tudo. Obrigada Alhena, por ferrar com a minha vida.

As minhas horas restantes se passaram em um pulo, e quando dei por mim acordei 10 min. atrasada com um caderno de 15 matérias na cara, que provavelmente deixara marcas do espiral. Não tive tempo de tirar a prova, já que tive que correr para não perder o ônibus.

Notas finais
Espero que tenham gostado :) Até domingo