Notas iniciais
Bom dia, um pouquinho atrasada, mas aqui!

Nada deu errado nas semanas que se passaram, ninguém descobriu sobre nós, ninguém desconfiava e estava tudo certo para a nossa mudança. Nada poderia estar mais perfeito. Tudo corria perfeitamente

Perfeitamente até

Perfeitamente até o ultimo dia

Perfeitamente até acreditarmos que realmente estava tudo perfeito

— Amanhã vamos nos encontrar sem falta na passagem as 10:00 da manhã – Brida ditava as ordens e nós concordávamos, até porque era a Brida.

— Alhena, sua mudança já está na casa da Mônica? – Alhena concordou rapidamente – Ótimo. O caminhão vai passar primeiramente na casa da Mônica...

Ela continuou a explicar como funcionaria, e tudo o que eu me lembro é de que o caminhão passaria por último na passagem. Estava tudo nos conformes, Gus com as vacinas em dia, nós com o diploma do ensino médio e as casas já alugadas, faltavam menos de 24 horas para tudo mudar.

Muitas coisas podem acontecer em 24 horas

Coisas ruins acontecem em menos de 1 hora

— Eu nem acredito que é amanhã! — interrompi Marco enquanto ele terminava de empacotar no jornal alguns copos — Amanhã! — fui até ele saltitando.

— Para dizer a verdade — ele olhou no relógio — daqui a 12 horas estaremos saindo desse inferno.

Eu mal podia acreditar, Marco estava tão empolgado quanto eu, já que ele começaria sua pós-graduação e já havia conseguido um estágio muito bem remunerado em um hospital de renome.

Demos um pulo e quase deixamos as caixas caírem quando escutamos batidas de palmas no portão. Olhei para Marco que estava tão pálido quanto eu. Do tempo que ele morava ali ninguém nunca se importou e ir até nós, éramos tão invisíveis quanto menosprezados.

As palmas continuavam, decidi que era melhor olhar pela janela da sala que dava direito para o portão, antes de decidirmos se responderíamos.

A luz da lua não colaborava, então decidimos que eu veria quem era enquanto Marco me esperaria atento. Eu não estava com o melhor dos pressentimentos, mas também não estava nervosa. Calcei minhas havaianas e fui até o portão.

Eu não deveria ter ido até o portão.

Lá havia um rapaz, talvez da minha idade, com uma folha de papel na mão.

— Moça, minha cachorra sumiu, a senhora a viu por aí?

Ele me mostrou o sulfite, mas eu não consegui enxergar nada pelo portão, então resolvi sair e pegar a folha, afinal, que mal ele poderia me oferecer?

Quando a peguei, vi que a folha estava, na verdade, em branco. Gelei.

— A única cadela que vai sumir aqui é você — fiquei paralisada, eu não consegui mover um músculo quando escutei a voz de Guilherme atrás de mim. Antes que eu pudesse me recuperar e fazer qualquer coisa, senti um puxão forte do meu cabelo e logo minha cabeça se chocou contra algo muito duro, provavelmente o chão.

Meu coração estava acelerado e eu não enxergava direito, estava tudo embaçado e as coisas giravam. Fiz um esforço tremendo para entender o que aquele crápula falava enquanto o ódio tomava conta de mim.

— Já não basta chupar buceta, tem que chupar a da MINHA namorada? Quem você tá pensando que é sua sapatão?

Senti sangue na minha boca quando levei um chute no estômago. Aquela dor era tão forte que eu nem a sentia mais, meus sentidos estavam desligados e tudo o que pude fazer foi cuspir o sangue no chão e ignorar o que ele disse, já que eu não estava em condições de pensar em porra nenhuma.

Eu só queria que aquilo acabasse e que ele morresse, que ele morresse bem devagar e com muita dor.

— Vai aprender a só se meter com gente da sua laia — novamente meus cabelos foram puxados forte o suficiente para me levantar e, se eu etivesse de olhos fechados, encarar aquele desgraçado — sua vagabunda dos infernos — o soco que ele me deu quase me fez desmaiar. Eu queria tanto me soltar e dar uma surra nele até eu saber que ele não acordaria, mas eu não tinha forças nem para raciocinar suas frases, que dirá revidar sua agressão.

Meu rosto estava latejando, eu não sabia mais o que fazer, eu não queria mais fazer nada. Aquele infeliz ia pagar por isso, se eu saísse viva.

Senti minha cabeça tocar o asfalto e um estrondo me percorreu, eu não sabia mais o que era dor de tão acostumada que ela me parecia.

Meus olhos estavam quase se fechando e eu tinha certeza que ele me mataria se eu desmaiasse, eu não poderia desmaiar!

Eu não poderia

Não deveria

Não quero desmaiar

Embora eu fizesse uma força incontestável para me manter acordada, ignorando toda a dor imensa que me tiravam a razão. Meus olhos começaram a se fechar.

Escutei mais socos, muitos socos seguidos e me perguntei se eu havia apanhado tanto que nem os sentia mais.

— Terra? Terra não durma — aquilo era tudo o que eu queria ouvir. A voz de Marco me implorava para continuar acordada, mas aquilo parecia tão impossível.

Tão longe

A última coisa que escutei antes de apagar completamente foi, talvez, alguém desesperado ligando para a emergência.

Notas finais
Espero que tenham aproveitado, domingo tem capítulo novo :)