O vento soprava forte dando uma sensação de frio mais forte. No meio do nada, Eric e Theodore surgiram em meio a um estalido e um flash de luz. O deserto era a única testemunha. Olharam ao redor e tudo era escuridão, ao longe um único ponto de luz quebrava a monotonia do breu que os envolvia. Sem saber ao certo onde estavam ou para onde estavam indo, ou mesmo o que encontrariam no lugar, eles caminharam em silêncio, com a areia entrando em seus tênis, as mãos protegiam os olhos da areia que o vento levantava. Ainda que um não conseguisse ver o outro, acompanhavam o som dos passos na areia. A caminhada durou pouco mais de uma hora, mas para eles, apreensivos e no escuro, tudo parecia mais longo. Com o tempo o efeito da poção passou, a fome e a sede apareceram e o frio aumentou. Finalmente estavam próximos da fonte de luz, já conseguiam ver um ao outro com a pouca luz que chegava até eles e por fim, também conseguiam identificar de onde vinha a luz: um acampamento no meio do deserto, repleto de tendas, barracas, trailers e com algumas espécies de carroças antigas. A junção das tendas, barracas e afins formavam um círculo com uma grande fogueira ao centro.

Os dois pararam alguns metros antes de chegar ao acampamento.


– Não sabemos se são amigáveis, se quer sabemos que são. – Theodore levou a mão até o seu pingente e o segurou por alguns segundos, soltou e voltou a guardar. – Melhor não mencionar nada sobre os pingentes, magia ou algo do tipo. Acho mais seguro.
– Melhor também mudarmos nossos nomes, assim, caso alguém desconfie de algo, não vão nos ligar aos pingentes.
– Certo, vamos logo.

Continuaram o pouco que faltava para chegar e por entre duas cabanas entraram no grande círculo. Era como uma grande festa ao ar livre, pessoas bebiam, outras dançavam, outras conversavam, riam e falavam alto. Todos com suas vestes coloridas, mulheres com saias longas e coloridas, adornadas com pedrarias e brilhantes, moedas e ouro, cantavam e dançavam tocando seus pandeiros, enquanto dois homens, um deles baixinho e gorducho, o outro numa estatura mediana e meio corpulento, tocavam dois acordeões acompanhando as damas na música. Outros homens tocavam algo parecido com violões e tambores, porém eram diferentes. Crianças corriam de um lado para o outro. Algumas lanternas chinesas flutuavam pelo ar, uma logo acima da cabeça de Theodore chamou a sua atenção durante algum tempo. Bandeirolas e lenços por todos os lados. Mulheres usando chales, lenços em seus cabelos, penteados diferentes, tranças longas e fortes em algumas, cachos em outras. Era como uma central de vários cantos do mundo, lugares que eles se quer conheciam, mas que haviam deixado o seu toque ali.

Eric saiu da passagem por entre as cabanas e, admirado, caminhava olhando para tudo a sua volta, Theodore, que observava crianças brincando com fogos de artifício que surgiam do nada, bailavam no ar e então tornavam a sumir, demorou um pouco para notar que Theodore havia saído na frente, com passo rápidos tratou de acompanhar. Andaram por entre as pessoas que festejavam e bebiam com animação. Ignorado por alguns que estavam muito ocupados com o que faziam, outros porém paravam o que faziam para olhar os dois garotos, não demorou muito para começar a chamar mais atenção do que planejavam.

– De qual tribo vocês são? – Perguntou uma voz masculina logo atrás deles.

Eric e Theodore viraram-se, ficando de frente para um garoto que não chegava a ser forte, porém também não era magro, devia ter a mesma idade deles, cabelos grandes e presos atrás na altura no pescoço, deixando escapar algumas mechas soltas na parte da frente. Uma camisa vermelha com mangas longas e folgadas e uma calça preta também folgada era tudo que vestia. Estava em pé diante deles, que pelo choque, não falaram nada, ficando apenas olhando para ele, sem reação.


– Então? – Insistiu o rapaz levantando a sobrancelha direita, agora com um olhar investigativo que beirava a curiosidade. Ele olhou melhor os garotos, da cabeça aos pés.
– Eu... Nós... – Theodore tentou falar algo, mas foram pegues de surpresa.
– Sei que vocês não são daqui. – O rapaz olhou rapidamente para as pessoas que observavam os estranhos, – venham comigo.

Seguiram ele, passavam por várias pessoas, crianças, até uns animais estranhos, então entraram por entre uma barraca e um trailer de madeira e caminharam por entre as barracas e transportes. Eric e Theodore observavam tudo com curiosidade. O rapaz entrou em uma barraca verde, não sabiam se deveriam mesmo entrar, nem conheciam o garoto, não conheciam ninguém ali. Mas já estavam ali, não havia muito a se fazer. Entraram.

Por dentro a tenda parecia maior, vários tapetes e cortinas, um grande lustre ao meio, castiçais por todos os lados. Almofadas pelo chão, uma grande mesa retangular com cadeiras acolchoadas ao fundo da tenda, do lado direito.


– Podem começar a falar. Quem são? De onde vieram e o que querem? – Falou o rapaz sem mais delongas.
– Nós nos perdemos... – Começou Eric, mas logo foi interrompido pelo rapaz.
– Se perderam no meio do deserto, claro. Estamos à dias de qualquer cidade ou aldeia. – Rebateu.
– Olha, nós realmente nos perdemos, não sabemos exatamente onde estamos, ou como viemos parar aqui. Eu realmente gostaria de saber mas... Nos perdemos. E isso é tudo que sei. – O rapaz ainda olhava desconfiado para eles, observava atenciosamente qualquer coisa que pudesse indicar alguma mentira ou mesmo as verdadeiras intenções dos desconhecidos.
– E como vocês chegaram aqui? – Quis saber o rapaz.
– Usamos um desses transportadores que usa a rede enérgica para levar as pessoas, você sabe. – Eric mostrou o pulso.
– Esse tipo de tecnologia não é bem visto por aqui, tão pouco bem recebido. Se vocês pretendem ficar aqui terão que falar com Blasca. Ela decide o seu destino aqui dentro agora, caso ela negue a sua estadia conosco, voltarão ao deserto. Venham.

Mais uma vez eles caminharam por entre as barracas, tendas e trailers, voltaram para a grande fogueira onde as pessoas já haviam esquecido deles que estavam mais uma vez dançando, bebendo e brincando. Passaram pela fogueira seguiram para o lado oposto de onde estavam onde, em frente a fogueira, uma pequena barraca estava aberta de maneira receptiva. Ao entrar na barraca notaram que era apenas uma espécie de corredor para uma tenda maior, a maior do lugar.

Tinha o dobro de tapetes e cortinas que a outra tenda onde conversaram com o garoto tinha. Quadros, estátuas, lustres, espelhos, muitos espelhos, o lugar era repleto de coisas. Havia uma cadeira grande onde uma mulher de cabelos grisalhos e longos estava sentada, seu olhar penetrante, foi de encontro com o dos dois estranhos. Ela os observou por algum tempo em silêncio, então com um gesto da mão cheia de anéis e grandes unhas, indicou para que sentassem por entre as almofadas, sob o tapete diante do trono vinho com detalhes em dourado, no qual a dama repousava.

– Bem vindos, senhores. – Falou a senhora pondo-se de pé. Seu vestido com algumas camadas em tons de preto e vermelho, cheio de adornos, parecia mais vivo quando ela estava em pé. Descalça, assim como o rapaz, a senhora tinha uma tornozeleira dourada no pé direito que era ligada por uma corrente até um anel no dedão.

Todos se acomodaram no chão antes que Blasca tornasse a falar.

– Vocês já eram esperados, recebi avisos que vocês viriam em diversas formas. As estrelas, os cristais, as energias... – Ela falava de maneira calma. Apesar dos cabelos grisalhos, não era possível dizer ao certo a sua idade, tão pouco pela sua voz. Não tinha uma aparência de velha. – Sei que vocês estão fugindo, assim como sei que vocês estão incompletos. Buscam o terceiro elemento... Não nos farão mal, vocês precisam de abrigo e serão bem vindos como nossos hospedes. Sei mais sobre a história de vocês que vocês mesmos. Sei além... A história que precede a de vocês. O que os trouxe até aqui. O que os tornou quem são. – Ela passou a mão pelo ar e uma espécie de fumaça se formou na palma da sua mão e se desfez quando ela fechou a mão, um dedo de cada vez. – Nem tudo, porém, é claro. O futuro muitas vezes é incerto. Posso receber avisos, ajudas, mas não posso prever tudo o que está por vir, ou mesmo dizer ao certo coisas que precisam saber... Teremos tempo para conversar depois, sei que tiveram uma noite difícil. Comam e bebam, aproveitem a nossa hospitalidade. Descansem bem essa noite, depois conversaremos melhor. – Os rapazes diante dela apenas ouviram tudo que ela dizia, e por fim, quando ela tornou a sentar, agradeceram e saíram sem perguntas.

Cheios de dúvidas, o jovem cigano principalmente, os rapazes caminharam de volta para a fogueira.

– Então, querem algo para comer? – O rapaz perguntou aos seus hospedes.
Após os dois confirmarem, foram até um grupo de pessoas que estavam em volta de uma grande mesa repleta de comida, outras próximas aproveitavam a fogueira e fritavam carne. Comeram até não aguentar mais, então beberam até a fadiga consumir o corpo deles por completo, já era próximo ao amanhecer, da fogueira restavam apenas brasa, quando eles finalmente pegaram no sono.

O sol já estava alto quando acordaram dentro de uma espécie de casa que parecia estar passando por um leve terremoto. Tudo balançava, tremia constantemente. Não sabiam onde estavam, como chegaram ou aonde estavam indo. Pela janela as nuvens passavam mais rápido que o normal. Aos poucos despertaram, mas a última coisa que conseguiam lembrar era de adormecer próximos a fogueira, após todos já terem ido dormir. Como chegaram naquela casa ainda era um mistério. Estavam em um quarto simples, sem muitas decorações, com duas camas, um espelho em uma das paredes de madeira, uma janela em outra.

Levaram meia hora até por fim tomar coragem e sair do quarto, na sala meio apertada um cheiro forte de comida tomava conta de tudo provocando roncos nas barrigas dos garotos.

– Boa tarde, senhores. – Falou Blasca, surgindo na sala por uma portinha ladeada por quadros. Naquela tarde trajava um vestido leve e branco. – Venham, fiz sopa para vocês.
– Onde estamos? – Eric perguntou indo em direção a portinha por onde Blasca sumira.

A portinha dava para uma cozinha toda de madeira, com um armário em uma parede, vários quadros em outra, uma mesa com seis cadeiras, algumas panelas presas na parede próximas ao fogão e um fogão com um grande caldeirão onde fervia algo, assim como no quarto e na sala, tudo tremia. Dois pratos fundos já estavam sobre a mesa, Blasca pegou um deles ao passar ao lado da mesa e foi ao fogão preto feito de ferro, dentro do fogão labaredas brincavam nas brasas de madeira. Não fazia calor, mas o clima era seco. Com uma grande concha ela encheu os pratos e os serviu. Os rapazes sentaram-se à mesa e comeram empolgados, abafando os roncos da barriga. Ao terminarem de comer, seguiram a senhora de volta para a sala onde ela sentou-se em uma poltrona acolchoada e macia. Os dois mais jovens sentaram-se por entre as almofadas sob os coloridos tapetes no chão.


– Agora, meus jovens senhores, darei a vocês algumas respostas. – Começou a falar, sua postura era perfeita, porém, ainda com todo orgulho do seu povo claro em seus olhos, ela tinha um ar carinhoso. – Ah, sim, vocês estão no meu trailer, estamos viajando rumo a Vereda d’Oeste, chegaremos lá dentro de quatro ou cinco dias.
– Quem são vocês? – Eric não sabia com precisão onde estava desde o momento em que saiu da rua dos Pinheiros, sabia que estava no meio do deserto mas não sabia com quem.
– O meu povo já recebeu muitos nomes, jovem Eric, fomos chamados de ciganos por terra, piratas pelo mar, já nos acusaram de ladrões... Somos filhos do solo e das águas. Viajamos por todos os lados, conhecemos culturas. Algumas vezes levamos entretenimento, mas nem sempre somos reconhecidos. – Ela fez uma breve pausa e continuou. – Os antigos contam sobre a terra, sobre o que vemos, sobre o que já vimos... Desde o primeiro surgimento, ao nascimento atual, estamos conectados ao mundo, tudo faz parte de um grande todo. Mas não achem que tudo é como veem, existem outros mundos, outros universos. Existem mundos onde as pessoas não têm a magia, ou não sabem usar ela, tão pouco a energia. Os antigos contavam sobre esses vários universos, que estão todos ligados de alguma forma. E ainda que já tenham visto de tudo um pouco, os antigos afirmam que ainda há o que se ver e o que aprender. Meus jovens, vocês precisam absorver informações e aprender o máximo que conseguirem, isso os ajudará a melhorar seus poderes.

“Imagino que estejam ansiosos para compreender melhor algumas coisas em relação a magia, ou mesmo para descobrir o paradeiro do último elemento, porém o tempo será o aliado de vocês. Margot Bardoux quem criou esses pingentes que carregam no pescoço neste momento. Foram feitos três. E gerações em gerações eles passavam de pescoço em pescoço por entre os descendentes de Bardoux. Porém duas gerações atrás os seus descendentes sumiram, ao receberem os colares optaram por não aparecer ao mundo, pois estavam sob perigo. Como já devem imaginar, várias pessoas desejam os colares, não só os colares, como também vocês. Vocês correm perigo constante. Mas não há muito que possa ser dito, não posso interferir muito nos seus destinos, isso cabe unicamente a vocês. O destino de cada um de vocês, são vocês quem escrevem. Lembrem-se disso: vocês são as suas escolhas.”

Os jovens observavam em silêncio, prestando atenção a cada palavra.


– Pode nos dizer onde está o último elemento? – Eric.
– Diria se eu soubesse, mas é algo que não tenho como saber, só vocês são capazes de descobrir isso. Levarei vocês comigo em segurança até Vereda d’Oeste, de lá vocês poderão partir para encontrar o último elemento. Espero que consigam o mais rápido possível, é importante para a segurança dos três.

Inquietos, os dois trocavam de posição constantemente sob as almofadas e tapetes.

– Por enquanto – tornou a falar Blasca –, isso é tudo que os digo. Sintam-se em casa.

Blasca levantou-se e saiu da saleta por uma das portinhas que dava para um pequeno e estreito corredor.

As horas passavam lentamente no deserto, quase se arrastando. Os dias costumavam ser quentes do lado de fora do trailer, o ar seco em certos momentos era agoniante. As noites eram frias em excesso, mas graças a uns estranhos jarros com luzes cor de âmbar o frio não era tão forte. Eric ficou curioso com esses aquecedores, queria saber mais, quais feitiços usaram neles ou qualquer coisa do tipo, porém evitava fazer muitas perguntas a Blasca. De certa forma ela conseguia impor um certo respeito nas pessoas a sua volta, sua presença silenciava muita gente. Não demorou até ele descobrir a pequena biblioteca com livros de várias partes do mundo. Línguas complexas, outras mais simples, próximas da sua. Ficavam jogados pela sala, horas olhando janela enquanto as dunas e as nuvens passavam correndo do lado de fora, ou lendo, ou tentando imaginar onde estaria o terceiro elemento. Por uma ou duas vezes, enquanto olhavam as dunas ao longe, um pequeno grupo de arraias d’areia apareceram, ficaram um breve tempo visível e então tornaram a afundar na areia. Tinham o mesmo tom amarelado da areia do deserto, porém sob a forte luz do sol ganhavam um brilho como se tivessem alguns cristais em seu corpo. Eric ficou encantado com elas e foi procurar na biblioteca algo sobre elas, encontrou em um livro sobre as criaturas do deserto um texto que contava um pouco mais sobre esses animais. Durante os dias ele ficou fazendo o caminho sala, corredor, biblioteca. Então voltava para a sala com algum livro, passando assim o seu tempo. Theodore preferia observar os detalhes do mundo cigano, os trailers que acompanhavam a caravana, os costumes de Blasca, o tipo de magia que utilizavam... No fim, o tempo passou mais rápido do que imaginavam.

Ao amanhecer do quarto dia já podiam ser vistas ao longe as montanhas cobertas por arvores mais altas acima, e uma vegetação mais baixa próximo a base, as montanhas iam crescendo lentamente. O sol estava caindo no céu e finalmente podiam ver que uma cidadezinha crescia ao longo do caminho por entre as montanhas. Casas pequenas, comércios, movimentação constante de pessoas e transportes dos mais diversos. A caravana parou.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.