TERCEIRO SET
22 Capítulo 21: Imaturo
○ ╭────╮
────●
Murilo apareceu na porta junto de um dos assistentes.
— Como tá?
Lucas respondeu:
— Vivo.
Murilo olhou para a enfermeira.
— Entorse leve. Mas não viaja.
Murilo assentiu.
— Certo.
Lucas tentou não demonstrar. Não conseguiu completamente. Murilo percebeu. Aproximou-se.
— Eu sei que é uma merda.
Lucas deu de ombros.
— Faz parte.
— Faz.
Murilo tocou seu ombro.
— Se recupera direito. Não adianta trocar uma final por dois meses parado.
— Tá.
— Outras vão vir.
Fernando, ao lado, murmurou:
— Foi o que eu falei.
Lucas olhou para ele. Um sorriso pequeno.
Murilo continuou:
— O treino da tarde foi cancelado pra todo mundo. Quero vocês descansados. Concentração hoje à noite no horário combinado.
Olhou para Lucas.
— Menos você.
— Obrigado por reforçar.
Murilo quase sorriu.
— Repouso.
Então para os outros:
— E vocês três, vão embora. Quero ninguém inventando moda antes de amanhã.
Fernando imediatamente:
— Pode deixar.
Felipe olhou para ele.
— Você é literalmente a pessoa menos confiável pra responder isso.
— Que injustiça.
Murilo já tinha ido embora.
Na saída, Lucas tentou caminhar sozinho. Deu três passos. Fernando passou o braço pela cintura dele.
— Vem.
— Eu consigo andar.
— Eu sei.
— Então me solta.
— Não.
— Fernando.
— Repouso.
Fernando puxou um dos braços dele sobre os próprios ombros.
— Enquanto eu estiver fora, você vai fazer exatamente o que mandaram, ouviu, garoto?
Lucas olhou para ele.
— Você tem três anos a mais que eu.
— Exatamente. Respeita os mais velhos.
— Você tem vinte e cinco.
— Uma vida inteira de sabedoria.
Maurício vinha atrás com Felipe.
— Eles sempre foram assim? — perguntou baixo.
Felipe olhou para frente. Fernando praticamente carregava Lucas pelo corredor enquanto Lucas reclamava sem fazer nenhum esforço real para se soltar.
— Acho que sim.
Maurício continuou observando.
— Hm.
Felipe reconheceu aquele som.
— Que foi?
— Nada.
— Você tá muito cheio de "nada" hoje.
Maurício olhou para ele.
— Engraçado você falar isso.
Felipe sentiu. Pequeno. Mas sentiu.
Maurício continuou andando. Felipe acelerou para ficar ao lado dele, por alguns metros, nenhum disse mais nada.
Do lado de fora do Matero, Fernando ainda discutia com Lucas sobre a distância até o carro.
— Eu consigo andar.
Lucas olhou para o braço de Fernando em volta de sua cintura.
— Quer que eu te carregue?
Lucas arregalou os olhos. Maurício soltou uma risada atrás deles, Felipe também.
Por alguns segundos, tudo pareceu normal outra vez. Lucas reclamando, Fernando provocando. Os quatro atravessando juntos o estacionamento como já tinham feito tantas vezes nas últimas semanas.
Só que Maurício estava quieto demais. Felipe percebeu quando chegaram à calçada.
Lucas e Fernando seguiram alguns passos à frente. Fernando diminuía o ritmo sem parecer fazer isso, acompanhando a dificuldade do outro.
Felipe aproximou-se de Maurício.
— Mau.
— Hm?
— Tá tudo bem?
— Tá sim.
Resposta rápida. Felipe esperou. Maurício continuou andando.
— Tem certeza?
— Tenho.
Felipe conhecia aquele tom. Ou estava começando a conhecer. Olhou ao redor.
Alguns funcionários cruzavam a área mais próxima do estacionamento, mas o caminho lateral estava praticamente vazio.
Chegou um pouco mais perto.
— Vida...
Maurício sorriu. Não conseguiu evitar.
Felipe percebeu.
— Isso é golpe baixo — Maurício murmurou.
— O quê?
— Me chamar assim quando quer que eu fale alguma coisa.
— Eu te chamo assim sempre.
— Há tipo uma semana.
— Então sempre há uma semana.
Maurício riu pelo nariz.
Felipe bateu de leve o ombro no dele.
— Fala.
Maurício respirou fundo. Por alguns metros, ficou apenas olhando para frente.
— É que você anda distante nos últimos dias.
Felipe perdeu um pouco do sorriso.
— Distante?
— É.
Maurício imediatamente tentou consertar:
— Mas eu sei que você tá ocupado.
— Mau—
— Não, eu sei mesmo. Tem a final, treino, concentração, essa campanha... — Fez uma pausa curta. — Tudo.
Felipe ouviu o que não tinha sido dito.
Lorenzo.
— Só... — Maurício enfiou as mãos nos bolsos. — Sinto sua falta.
Aquilo acertou Felipe de uma maneira inesperada porque tinham se visto todos os dias. Treinado juntos, comido juntos. Felipe passou no apartamento quase todas as noites, mesmo que por pouco tempo.
Ainda assim, entendeu.
Maurício não estava falando de presença.
— Também sinto a sua.
— Eu sei.
— Não, acho que não sabe.
Maurício olhou para ele.
Felipe continuou:
— Eu também percebi que a gente quase não teve tempo pra gente esses dias.
E havia uma parte que Maurício não podia perceber. Felipe esteve com ele menos do que gostaria justamente porque passou boa parte do tempo tentando resolver coisas por ele.
Conversas com Fernando, discussões com Murilo. O contrato. Lorena. Agora havia ainda outra coisa escondida. Murilo sabia, Maurício não. Felipe pensou tantas vezes em contar. Todas tinham terminado na mesma conclusão.
Pra quê?
Maurício já estava preocupado com a final, com o apartamento, com a possibilidade de voltar aos dormitórios. Dizer que Murilo descobriu os dois só acrescentaria outro medo a uma lista que já estava grande demais.
Então Felipe decidiu carregar aquele sozinho, como decidiu carregar o apartamento, como acabou de decidir guardar o segredo de Fernando. De repente, parecia ter coisas demais dentro dele que Maurício não conhecia.
— Desculpa — Felipe disse.
— Não precisa pedir desculpa.
— Preciso um pouco.
Maurício balançou a cabeça.
— Eu não tô querendo ser chato nem grudento, por favor. Não me entende mal.
Felipe parou de andar. Maurício deu mais dois passos antes de perceber.
Virou. Felipe abriu os braços.
— Vem aqui.
Maurício olhou em volta.
— Lipe...
— Não tem ninguém.
— Tem gente lá na frente.
— Ninguém olhando pra gente.
Maurício hesitou só mais um instante, depois voltou. Felipe o abraçou. Maurício imediatamente passou os braços por sua cintura e repousou o rosto contra o peito dele.
Felipe fechou os olhos.Sentiu o corpo relaxar contra o seu. Era estranho.Tinham passado semanas com medo de que alguém percebesse o quanto estavam próximos.
Agora Felipe começava a temer outra coisa, que Maurício percebesse o quanto ele esteve longe.
— Melhor? — perguntou.
— Um pouco.
Felipe apertou o abraço.
— E agora?
Maurício sorriu contra sua camiseta.
— Um pouco mais.
— Ótimo.
— Mas não resolve tudo.
— Interesseiro.
— Você que ofereceu.
Felipe riu. Mais à frente, Fernando olhou para trás. Viu os dois. Não disse nada. Só continuou caminhando com Lucas. Felipe beijou rapidamente os cabelos de Maurício antes de soltá-lo.
— Depois da final, eu compenso.
— Promessa?
A palavra fez Felipe pensar imediatamente em Fernando e Lucas.
Sorriu.
— Promessa.
Maurício voltou a andar.
— Cês tão cheios de promessa hoje.
Felipe riu.
— Foi exatamente o que o Lucas falou.
— Então espero que vocês cumpram.
Felipe olhou para ele.
— Eu vou cumprir.
Maurício sorriu, dessa vez acreditou. E Felipe queria muito merecer aquilo.
Quando chegaram ao apartamento, Fernando não permitiu que Lucas subisse sozinho nem os poucos degraus entre a entrada do prédio e o elevador.
— Para de me tratar como se eu fosse de vidro.
— Para de reclamar como se eu fosse te ouvir.
— Maurício.
Maurício apertou o botão.
— Não me mete nisso.
— Felipe.
— Muito menos.
Lucas bufou.
— Traidores.
A porta do elevador abriu. Fernando entrou ainda sustentando parte do peso dele.
— Quando eu for embora, você pode reclamar à vontade.
— Mal posso esperar.
— Vai sentir minha falta.
Lucas olhou para ele.
— Talvez.
Fernando sorriu.
— Sabia.
Maurício observou novamente. Dessa vez com muito mais atenção, Felipe viu e precisou olhar para o teto do elevador para esconder o sorriso.
Assim que entraram no apartamento, Fernando levou Lucas até o sofá.
— Perna pra cima.
— Sim, senhor.
— Tô falando sério.
— Eu também.
Lucas se ajeitou, colocando uma almofada sob a perna. Fernando desapareceu pelo corredor. Maurício largou a mochila.
— Onde ele foi?
Lucas respondeu como se fosse óbvio:
— Buscar gelo.
Maurício olhou para o corredor.
— Ele sabe onde fica?
— Sabe.
Fernando voltou segundos depois com uma compressa envolvida num pano.
— Achei.
Maurício ficou olhando.
Fernando percebeu.
— O quê?
— Nada.
— Vocês dois tão estranhos hoje.
Maurício recebeu um olhar rápido de Felipe.
— Imagina.
Fernando se ajoelhou ao lado do sofá e ajeitou cuidadosamente a compressa sobre o joelho de Lucas.
— Assim tá bom?
— Tá.
— Muito gelado?
— É gelo, Fernando.
— Responde.
Lucas riu.
— Tá bom.
— Ótimo.
Enquanto isso, Felipe entrou na cozinha. Abriu o armário, pegou o filtro, depois o café. Encheu a chaleira. Maurício virou lentamente para ele.
— Você vai fazer café?
— Vou.
— Na minha casa?
Felipe olhou por cima do ombro.
— Alguma objeção?
— Você nem perguntou onde ficam as coisas.
— Eu sei onde ficam.
Era verdade. Maurício ficou no meio da sala, Fernando sabia onde estava o gelo, Felipe sabia onde estava o café. Lucas estava esticado no sofá. Havia quatro pares de tênis próximos à porta. Uma mochila de Fernando jogada sobre a cadeira, a garrafa de água de Felipe em cima da bancada. Por um instante, Maurício conseguiu enxergar aquela sala como se estivesse do lado de fora.
Cheia.
Bagunçada.
Viva.
Sua.
Deles.
E em poucos dias talvez não fosse mais. A alegria que sentiu pela manhã diminuiu. Felipe percebeu, sempre percebia. Desligou o fogo antes mesmo de a água ferver e atravessou a cozinha.
— Ei.
Maurício levantou os olhos. Felipe parou diante dele, não perguntou. Apenas segurou seu rosto e o beijou. Maurício foi pego de surpresa. Demorou um instante antes de corresponder. Quando Felipe se afastou, ele ainda permaneceu perto.
— Que foi isso?
— Nada.
— Nada?
Felipe sorriu.
— Você tava com aquela cara.
— Que cara?
— Essa.
Deu outro beijo. Mais curto. Maurício percebeu alguma coisa.
— Esse foi o primeiro hoje.
Felipe franziu a testa.
— Não foi.
— Foi.
— De manhã você chegou atrasado no treino.
Felipe pensou.
— Depois, Marketing. No almoço...
Maurício apenas levantou as sobrancelhas.
Felipe percebeu.
— Caralho.
Maurício riu.
— Pois é.
Felipe o beijou novamente.
— Um.
Outro.
— Dois.
— Lip—
Mais um.
— Três.
Maurício começou a rir contra seus lábios.
— Para, idiota.
— Tô compensando.
Do sofá, Lucas gritou:
— EU TÔ LESIONADO, NÃO MORTO!
Maurício imediatamente se afastou, ruborizado.
Fernando começou a rir.
— Deixa os meninos.
— Na minha frente?
— Fecha o olho.
— Vai se foder.
Felipe sorriu.
Baixou a voz:
— Relaxa um pouco. — Passou o polegar pela bochecha de Maurício. — Vai ficar tudo bem.
Maurício olhou ao redor novamente. Queria acreditar.
— Tá.
O celular de Felipe vibrou sobre a bancada. No mesmo instante, o de Maurício também. Mensagem no grupo da equipe. Felipe pegou o aparelho.
Abriu.
Um áudio da comissão técnica. Colocou perto do ouvido, mas o volume estava alto o suficiente para Maurício escutar.
— Felipe, precisamos de você mais cedo aqui hoje. Vamos alinhar uns detalhes da campanha com você e o Lorenzo antes da viagem. Se conseguir chegar por volta das seis, melhor.
Felipe fechou o áudio.
Silêncio.
Maurício encostou na bancada.
— Lorenzo.
Felipe olhou.
O nome tinha saído diferente.
— O quê?
— Nada.
— Mau.
— Eu só falei o nome dele.
— Desse jeito.
— Que jeito?
Felipe quase respondeu. Desistiu. Maurício pegou o celular.
— Vai lá. É trabalho.
Era verdade. Os dois sabiam.
Felipe olhou o horário.
— Vou precisar ir.
— Eu sei.
— Te vejo à noite no CT, tá?
Maurício assentiu.
— Tá.
Felipe se aproximou outra vez. Dessa vez Maurício recebeu o beijo antes mesmo que ele chegasse completamente. Quando se afastaram, Felipe sorriu.
— Quatro.
Maurício finalmente riu.
— Vai embora.
— Tô indo.
Felipe pegou a mochila. Olhou para Fernando.
— Vem comigo?
Fernando estava novamente verificando a compressa de Lucas.
— Vou. Preciso passar em casa antes de ir pro CT.
— Então anda.
— Calma.
Fernando voltou a atenção para Lucas. Maurício ficou encostado na bancada observando. Felipe também. E, por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada, porque Fernando ainda tinha uma despedida para fazer.
Fernando permaneceu agachado ao lado do sofá. Felipe já estava com a mochila no ombro, esperando perto da porta.
— Nando — chamou.
— Já vou.
— Você falou isso há cinco minutos.
— Felipe.
— Tá.
Felipe ergueu as mãos.
— Não tenho nada a ver com isso.
Lucas acompanhou a troca com um sorriso pequeno.
— Pode ir. Eu tô bem.
Fernando voltou os olhos para ele.
— Tem certeza que vai ficar bem sozinho esses dias?
— Tenho.
— Certeza mesmo?
— Fernando, eu tenho vinte e dois anos.
— Isso não respondeu.
— Eu sei fazer comida.
— Mentira.
— Sei sim.
— Miojo não conta.
— Eu sei fazer ovo.
Fernando fez uma expressão preocupada.
— Meu Deus.
Lucas começou a rir.
— Vai tranquilo.
Fernando continuou sério.
— Promete que vai repousar?
— Prometo.
— Nada de querer ir pro clube sozinho.
— Tá.
— Nem ficar andando por aí porque acha que já melhorou.
— Tá.
— E gelo.
— Tá.
— E fisioterapia.
— Tá.
Fernando assentiu.
Pensou por um segundo.
— Vou falar pra Laura passar aqui todos os dias.
Lucas arregalou os olhos.
— Não precisa.
— Precisa.
— Eu não preciso de babá.
— Não é babá.
— Você acabou de organizar uma escala de supervisão.
— Vou pedir pra ela trazer comida de verdade também.
— Tem comida aqui.
Fernando olhou para Maurício.
— Tem?
Maurício abriu a geladeira, Olhou. Fechou.
— Não.
— Traidor — Lucas reclamou.
— Tem mostarda.
Fernando apontou.
— Tá vendo?
— A gente ia ao mercado depois do treino.
— Exatamente. E agora você não vai.
Lucas soltou o ar.
— Eu posso pedir comida.
— Você vai comer Cheetos no café da manhã.
— Eu nunca comi Cheetos no café da manhã.
Fernando apenas olhou.
Lucas hesitou.
— Essa semana.
— Meu Deus.
Maurício riu.
Felipe estava perto da porta, observando a cena com uma expressão que Fernando certamente não gostaria de analisar.
— Laura vai trazer comida — Fernando decretou. — Comida de verdade.
Lucas cedeu.
— Tá.
— E vou falar com o Matero pra mandarem o fisioterapeuta aqui.
— Fernando...
— Você não vai forçar essa perna indo até o clube.
— Eles não vão mandar um fisioterapeuta na minha casa só porque eu machuquei o joelho.
— Vão.
— Como você sabe?
— Porque eu vou pedir.
— E se falarem não?
Fernando deu de ombros.
— Eu peço de novo.
Lucas riu.
— Você é muito chato.
— Funciona.
Felipe olhou o relógio.
— Nando.
— Já tô indo!
Fernando se levantou e deu dois passos. Parou. Voltou.
Lucas olhou para ele.
— O que foi agora?
Fernando parecia procurar alguma recomendação que ainda não tivesse feito. Não encontrou. Então apenas ajeitou a almofada atrás das costas de Lucas.
— Vou sentir sua falta, grandão.
A brincadeira desapareceu por um instante. Lucas também pareceu não esperar.
— Também vou.
Fernando sorriu.
— São só alguns dias.
— Eu sei.
— Quando eu voltar, você já vai estar andando direito.
— Espero.
— Vai.
Lucas ergueu uma sobrancelha.
— Outra promessa?
Fernando sorriu.
— Mais uma.
Lucas balançou a cabeça.
— Vai logo antes que o Felipe te agrida aqui.
Fernando deu um tapinha na perna saudável dele.
— Se cuida.
— Você também.
Felipe abriu a porta. Fernando finalmente caminhou até ela.
— Mau — Felipe chamou.
Maurício olhou.
Felipe apontou dois dedos para os próprios olhos e depois para Lucas.
— Fica de olho nele.
— Pode deixar.
— Eu tô aqui — Lucas reclamou.
Ninguém respondeu. Felipe sorriu para Maurício, pequeno. Particular.
— Te vejo daqui a pouco, vida.
Maurício sorriu imediatamente. Fernando passou pela porta, Felipe saiu atrás. Antes de fechar, olhou mais uma vez para Maurício. Então se foram. A porta bateu.
Silêncio.
Maurício permaneceu olhando para ela, virou lentamente.
Lucas já estava mexendo no celular.
— Bonitinho.
— Hm?
— O jeito dele todo preocupado contigo.
Lucas sorriu para a tela.
— É.
Maurício caminhou até a sala.
— "É"?
— O quê?
— Nada.
Sentou no chão, encostando as costas no sofá. Lucas largou o celular sobre o peito.
— O Fernando me surpreende às vezes.
— Como?
— Sei lá.
Lucas olhou para a porta.
— Ele parece muito desapegado de tudo.
Maurício assentiu.
Era verdade.
Fernando atravessava quase todas as situações como se tivesse uma piada pronta para impedir que qualquer coisa ficasse séria demais.
— Mas ele é um ótimo amigo — Lucas completou.
Maurício olhou para ele.
— É.
— Tipo... — Lucas pensou. — Ele não faz pouco das coisas que eu gosto.
Maurício ficou quieto.
— Parece idiota falar assim.
— Não parece.
— A maioria das pessoas acha algumas coisas meio infantis.
— Tipo videogame?
— Tipo passar oito horas num sábado jogando videogame.
— Aí talvez tenham um ponto.
Lucas chutou de leve o ombro dele com a perna saudável.
— Idiota.
Maurício riu.
— Continua.
Lucas deu de ombros.
— Sei lá. O Fernando não liga. — Um sorriso apareceu. — Na verdade, ele é pior que eu.
— Isso eu acredito.
— E ele nunca me faz sentir burro.
A frase fez Maurício parar de brincar. Lucas olhava para o teto.
— As pessoas fazem isso?
— Às vezes.
— Quem?
— Gente.
— Lucas.
— Não importa.
Maurício respeitou.
Lucas continuou:
— Eu demoro um pouco mais pra entender algumas coisas. Principalmente quando tem muita informação de uma vez. E tem gente que... — Procurou a palavra. — Perde a paciência.
Maurício assentiu.
— O Fernando não.
— Não.
— Mesmo?
Lucas sorriu.
— Às vezes eu pergunto uma coisa três vezes e ele explica três vezes de jeitos diferentes até eu entender.
Maurício sentiu alguma coisa aquecer no peito.
— E depois provavelmente te chama de idiota.
— Claro.
— Equilíbrio.
— Exatamente.
Lucas voltou a olhar para o celular.
— Como eu disse. Um ótimo amigo.
Maurício estreitou os olhos. Ali estava de novo.
Amigo.
Fernando praticamente carregou aquele homem de dois metros até a casa. Sabia onde ficava o gelo. Organizou comida, fisioterapia, repouso e provavelmente estaria ligando a cada duas horas de Belo Horizonte.
Tinha entrelaçado o mindinho com ele no ambulatório como se estivesse selando algum tratado internacional.
Maurício decidiu que já tinha respeitado espaço suficiente.
— E você gosta muito dele.
Lucas nem levantou os olhos.
— Claro.
— Muito mesmo.
— Ele é meu amigo.
— Uhum.
Lucas finalmente olhou.
— O que foi?
— Nada.
— Você tá fazendo aquela cara.
— Que cara?
— A cara que você faz quando acha que sabe alguma coisa.
Maurício sorriu.
— E eu sei?
— Não sei.
— Então responde.
— Responder o quê?
Maurício virou o corpo para olhá-lo melhor.
— Você gosta do Fernando.
— Acabei de falar que gosto.
— Lucas.
— O quê?
— Gosta do Fernando.
Silêncio.
Dessa vez Lucas entendeu. Os olhos se arregalaram um pouco.
— Ah.
Maurício segurou a risada, Lucas desviou o olhar.
— Não.
— Não?
— Quer dizer...
— Uhum.
— Eu...
Lucas coçou a sobrancelha.
— Acho...
Maurício esperou.
— Não sei.
Maurício abriu um sorriso.
— Sabia.
— Sabia o quê?
— Você tá afim dele.
Lucas fechou os olhos.
— Não fala assim.
— Por quê?
— Parece pior.
— Então é verdade.
Lucas permaneceu em silêncio. Maurício esperou.
Finalmente:
— Pra caralho.
Maurício começou a rir.
— Eu sabia!
— Fala baixo, porra.
— Só tem nós dois aqui.
— Mesmo assim.
Maurício virou completamente, apoiando um braço no sofá.
— Desde quando?
— Não sei.
— Como não sabe?
— Essas coisas vêm com calendário?
— Às vezes.
Lucas pensou.
— Foi acontecendo.
Maurício conhecia aquela resposta.
Bem demais.
— E ele sabe?
Lucas olhou como se Maurício tivesse perdido a cabeça.
— Claro que não.
— Por quê?
— Porque não dá.
— Por que não?
Lucas apontou para ele.
— Você tá falando sério?
— Tô.
— Você?
Maurício entendeu.
— Ah.
— Pois é.
— Péssima pessoa pra perguntar.
— Bastante.
Lucas ajeitou a compressa.
— Você mais do que ninguém sabe a complicação que é.
— Sei.
— E eu nem sei se ele me vê desse jeito.
Maurício teve vontade de rir. Pensou em Felipe fazendo cara de desentendido na fisioterapia, pensou em Fernando praticamente tendo um colapso porque Lucas torceu o joelho. Talvez soubesse menos que Felipe. Mas não era cego.
— Você já perguntou?
— Claro que não.
— Então não sabe.
— Conheço o histórico dele.
— Laura?
Lucas assentiu.
— E outras.
Maurício esperou.
— Fernando nunca pareceu querer relacionamento — Lucas continuou. — Ele fica com alguém, dura um tempo, acaba. Segue a vida.
Olhou para as próprias mãos.
— Eu não quero isso.
Maurício ficou sério.
— O quê?
— Pegação. — A palavra saiu quase desconfortável. — Não tô julgando. Só não é pra mim.
— Tá.
— Se fosse pra acontecer alguma coisa com ele... — Lucas demorou. — Eu ia querer que fosse de verdade.
Maurício assentiu, aquilo fazia sentido.
— E se pra ele não for?
— Você não sabe.
— Exatamente.
Lucas soltou o ar.
— Então talvez seja melhor não descobrir.
Maurício apoiou o queixo no sofá.
— Você prefere ficar sofrendo?
— Eu não tô sofrendo.
Maurício olhou para o joelho.
— Hoje não conta.
Lucas riu.
— Idiota.
Depois ficou sério novamente.
— Eu prefiro ter ele assim. — Maurício esperou. — Do que tentar alguma coisa e depois não ter nada.
A frase permaneceu entre eles. Maurício pensou em si mesmo. Meses antes, provavelmente teria dito exatamente a mesma coisa, mas a relação de Fernando e Lucas veio de uma amizade, diferente dele e Felipe que passaram de quase estranhos para namorados.
Namorados?
— Cara...
Lucas olhou. Maurício sorriu.
— Fala com ele.
— Você não ouviu nada do que eu acabei de falar?
— Ouvi.
— Então?
— Então fala.
— Ótimo conselho.
— Eu sou péssimo nisso.
— Percebi.
Maurício pensou mais um pouco.
— Só acho que às vezes a gente fica tentando proteger tanto uma coisa que esquece de viver ela.
Lucas ficou quieto. Maurício também, talvez tivesse falado para si mesmo tanto quanto para o amigo. Lucas olhou para a porta.
— E se ele não sentir o mesmo?
Maurício deu de ombros.
— Aí pelo menos você sabe.
— E se ficar estranho?
— Provavelmente vai.
— Excelente.
— Mas pode ficar bom também.
Lucas riu.
— Você virou otimista depois que começou a namorar.
Maurício parou.
— Eu não...
Lucas ergueu uma sobrancelha.
Maurício pensou.
— Tá.
Lucas sorriu.
— Pois é.
Maurício encostou novamente no sofá.
— É, meu amigo... — Fez uma pausa dramática. — Acho que você tá fodido.
Maurício sorriu. Lucas pegou uma almofada e jogou nele. Maurício segurou antes que acertasse seu rosto.
— Cuidado com o joelho, animal!
— Vai se foder.
Os dois começaram a rir. E, por alguns minutos, o apartamento voltou a parecer exatamente o que sempre tinha sido.
Casa.
◉◉◉◉
Maurício chegou sozinho ao Matero. Talvez tenha sido isso que fez tudo parecer diferente antes mesmo de atravessar a portaria.
Sozinho.
Na primeira viagem, Lucas estava ao seu lado.
Falava demais porque estava ansioso, embora jurasse que não. Reclamava da mala pesada, perguntava se Maurício tinha levado carregador, dizia que dez horas dentro de um ônibus deveriam ser proibidas por alguma convenção internacional.
Naquela noite, não havia ninguém. Só o barulho das rodinhas da mala contra o chão. Maurício mostrou a credencial ao segurança e entrou.
— Boa noite, Oliveira.
— Boa noite.
O clube tinha outra aparência àquela hora.
Alguns corredores já estavam escuros. A movimentação das categorias de base tinha acabado. As portas das salas administrativas estavam fechadas. Ainda assim, havia luz vindo do ginásio. E música.
Maurício franziu a testa. Deveria seguir direto para a concentração. Não seguiu, a curiosidade venceu. Aproximou-se.
Antes mesmo de chegar à porta, ouviu uma voz.
— Mais uma vez. Ficou ótimo, mas vamos fazer uma versão mais curta.
Maurício reconheceu alguém do marketing.
Parou na entrada.
A quadra que conhecia tão bem estava diferente. Dois refletores tinham sido montados próximos à lateral. Uma câmera ocupava o lugar onde normalmente ficava parte do material de treino. Cabos atravessavam o piso.
E, no centro de tudo, estavam Felipe e Lorenzo. Felipe vestia o uniforme do Matero. Não o de jogo. Um daqueles conjuntos que o marketing usava nas campanhas, perfeitamente ajustado, sem uma dobra fora do lugar.
Lorenzo estava ao lado dele.
Também uniformizado.
— Vamos de novo — alguém pediu.
Lorenzo olhou para a câmera.
— Tá. Eu começo?
— Isso. E no final passa pro Felipe.
— Beleza.
Bateram a claquete. Maurício permaneceu na porta. Lorenzo começou a falar alguma coisa sobre o Matero, torcida, tradição. Maurício não prestou muita atenção, observava Felipe.
Ele parecia cansado. Maurício reconhecia agora. O jeito como apoiava o peso mais sobre uma perna. A forma como passava a língua discretamente pelos lábios quando precisava repetir alguma coisa muitas vezes. O olhar que escapava da câmera sempre que alguém interrompia.
Estava ali porque precisava. Maurício sabia. Mesmo assim...
— Felipe, um pouquinho mais perto — pediu alguém.
Felipe deu meio passo.
Lorenzo também.
— Isso.
Maurício apertou a alça da mala.
Ridículo. Era ridículo.
É trabalho.
Sabia.
— Lorenzo, quando terminar sua fala, olha pro Felipe. Felipe, espera ele terminar e responde olhando pra ele.
— Tá — Felipe respondeu.
— Vamos.
Começaram novamente. Lorenzo falou, virou para Felipe. Felipe respondeu. Lorenzo improvisou alguma coisa no fim. Felipe riu. Um riso verdadeiro.
Maurício sentiu o incômodo chegar antes que pudesse impedir. Pequeno, feio. Não gostou. Não gostou ainda mais de senti-lo.
Felipe podia rir com quem quisesse. Podia conversar com quem quisesse. Podia gravar cinquenta campanhas com Lorenzo se o clube mandasse. Não era aquilo. Talvez fosse o acúmulo.
Felipe distante. Os segredos com Fernando. As mensagens demorando mais para serem respondidas, a campanha ocupando os poucos intervalos entre os treinos. E Lorenzo.
Sempre Lorenzo.
— Perfeito! — alguém disse. — Essa ficou boa.
Felipe relaxou os ombros, foi então que olhou para a porta. Encontrou Maurício, a mudança foi pequena. Mas Maurício viu. O sorriso que ainda restava da gravação desapareceu por um instante e voltou diferente. Mais discreto, mais quente. Seu.
Maurício sentiu o peito ceder um pouco.
🏐
Fim do capítulo.
💬 Agora eu quero saber de você:
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Nos vemos na próxima partida.
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