TERCEIRO SET

20 Capítulo 19: Minto Pra Quem Perguntar


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— Você pode fazer alguma coisa.

Murilo continuou olhando para os papéis sobre a mesa.

— Já fiz.

Felipe cruzou os braços.

— Adiar até a volta das finais não é fazer alguma coisa.

— É mais do que eles tinham ontem.

— Continua sem resolver.

Murilo finalmente ergueu os olhos.

A sala estava quase escura. Só a luminária sobre a mesa permanecia acesa, lançando sombras duras sobre as paredes.

— Felipe, não se mete nisso.

— São jogadores do meu time.

— São adultos.

— Que tiveram a moradia cortada no meio da temporada.

— E têm dormitório disponível no clube.

Felipe riu sem humor.

— Você sabe que não é a mesma coisa.

Murilo encostou as costas na cadeira.

— Eu já tenho relevado essa sua...

Parou.

Felipe percebeu.

— Minha o quê?

Murilo sustentou o olhar.

— Aproximação com Maurício.

O silêncio veio tão rápido que pareceu apagar o restante da sala.

Felipe não respondeu.

Murilo continuou:

— Daí querer que eu compre briga com a diretoria por causa dele já é demais.

— Não é só por ele.

— Claro.

Felipe respirou fundo.

— Eu tenho feito tudo que você me pediu.

— É. E mesmo assim eu ainda não consegui a posição que precisava na diretoria como planejamos.

Felipe sentiu a irritação subir de novo.

— Como você planejou.

Murilo apertou os lábios.

— De qualquer forma, intervir numa decisão da cúpula agora não me ajudaria em nada.

Felipe soltou antes de pensar:

— Covarde desse jeito, você nunca vai ser presidente do clube.

Silêncio.

Dessa vez diferente. Felipe percebeu o peso no instante em que a frase terminou, Murilo também.

Os dois permaneceram imóveis.

Até Murilo sorrir sem humor algum.

— Tá.

Fechou a pasta sobre a mesa.

— Já que estamos jogando às claras... — Felipe sentiu alguma coisa apertar no peito. — Seu caso com o Maurício também não me ajudaria.

O sangue pareceu abandonar seu rosto.

Murilo percebeu.

— O quê?

Deu uma risada curta.

— Cê acha que é tão esperto assim?

Felipe não respondeu.

— Acha que as coisas passam despercebidas por mim?

— Não sei do que você tá falando.

— Felipe.

Só o nome foi suficiente.

— Não sei por que tá tão preocupado com esse apartamento — Murilo continuou. — Ele praticamente já mora com você.

Felipe fechou as mãos.

— Eu não te devo satisfações.

Murilo arqueou uma sobrancelha.

— Ah... deve sim. — Levantou-se. — Muita.

— Tenho vinte e quatro anos.

— E sabe muito bem o que acontece quando descobrirem.

— Não vão descobrir.

Murilo soltou o ar pelo nariz.

— Felipe, não seja ingênuo.

A palavra doeu mais do que deveria. Talvez porque Felipe soubesse que, daquela vez, o pai não estava completamente errado.

Pegou a mochila.

— Terminou?

— Não.

— Pra mim já é o suficiente.

Virou.

— Felipe.

Abriu a porta.

— Boa noite.

Bateu com força suficiente para ouvir o eco no corredor vazio.

Ficou parado do lado de fora. Respirou.

Murilo sabia, não desconfiava. Sabia.

O celular tocou, Felipe atendeu enquanto começava a caminhar.

— Oi.

— Você vem ou desistiu da vida criminosa?

Felipe olhou para trás. A porta continuava fechada.

— Tô saindo já.

— Descobriu alguma coisa?

Felipe apertou o celular.

— Descobri.

Pausa.

— Beleza, já chego.

E desligou.

O estacionamento estava quase vazio. Felipe encontrou Fernando encostado atrás de uma das colunas, parcialmente escondido da portaria.

Um cigarro entre os lábios.

Felipe parou.

— Desde quando você fuma?

Fernando tirou o cigarro e olhou para ele.

— Eu não fumo.

— Então que porra é essa?

— A gente tá parecendo bandido agindo na calada da noite. — Deu uma tragada mínima e fez uma careta. — Achei que combinava.

Felipe arrancou o cigarro de sua mão. Jogou no chão, pisou.

— Foco.

Fernando olhou para o cigarro esmagado.

— Tinha acabado de acender.

— Você nem gosta disso.

— Era composição de personagem.

— Fernando.

— Tá. Que foi?

Felipe hesitou.

— Murilo já sabe.

Fernando franziu a testa.

— Do apartamento?

— De mim e Maurício.

Fernando ficou imóvel.

— Ah. — Silêncio. — Ah, caralho.

Felipe passou a mão pelo rosto.

— Ele não deve fazer nada.

— Como você sabe?

— Porque se isso estoura agora também sobra pra ele. Favoritismo, conflito de interesse, contrato... não interessa pra imagem que ele quer construir.

Fernando soltou o ar.

— Cara... — Olhou para o céu. — Que merda mais falta acontecer?

— Não pergunta. — Felipe apontou para a mochila dele. — Conseguiu?

Fernando imediatamente recuperou um pouco do entusiasmo.

— Consegui.

Abriu o zíper, tirou uma pasta transparente.

— Você não faz ideia do trabalho que foi.

Felipe pegou.

— Você só pediu uma cópia na administração pra alguma secretária afim de você.

— Depois do expediente.

— Você conhece metade daquele prédio e surpreendentemente, gostam de você.

— Não destrói minha aventura.

Felipe começou a ler, Fernando se aproximou.

— Vai na parte da moradia.

— Tô indo.

Encontrou. Leu em silêncio, depois em voz alta:

— "Os atletas se comprometem a arcar com despesas de moradia e subsistência em caso de divergência de interesses entre as partes..."

Parou.

Olhou para Fernando.

— Isso não ajuda em nada.

Fernando abriu os braços.

— Eu falei que invadir a administração à noite não era uma boa ideia.

— Você falou que foi divertido.

— Também foi.

Felipe voltou para as páginas.

— Tem que ter alguma coisa.

— Eu li duas vezes.

— Então leu mal.

— Muito obrigado.

Felipe virou outra folha.

Data, valores, responsabilidades, até encontrar os dados do imóvel. Passou os olhos. Parou. Voltou, leu de novo.

— Não.

Fernando percebeu a mudança.

— O quê?

Felipe não respondeu.

— Felipe.

Mostrou o papel. Fernando aproximou o rosto.

LOCADOR: MURILO SPONATTI.

Fernando demorou alguns segundos.

— Sponatti.

Felipe assentiu.

— É.

— Tipo...

— Meu pai.

Fernando pegou o papel.

Leu.

— O apartamento é dele?

Felipe sentiu a raiva voltar. Mais fria.

— Pelo visto.

— Ele sabia esse tempo todo?

Felipe ficou olhando para o nome.

— Eu tô há cinco dias pedindo ajuda pra ele, me humilhando.

Fernando não respondeu, não precisava. Felipe fechou a pasta.

— Vamos sair daqui.

— Pra onde?

— Qualquer lugar onde eu não tenha que olhar pra cara desse clube por cinco minutos.

Fernando assentiu.

— Lanchonete?

Felipe começou a andar.

— Lanchonete.

Fernando foi atrás. Depois parou, voltou dois passos. Pegou o cigarro do chão.

Felipe olhou.

— O que você tá fazendo?

— Você mandou apagar. Não mandou deixar lixo.

Felipe quase sorriu. Quase.

A lanchonete ficava a menos de cinco minutos do Matero. Luz branca demais, mesas de plástico. Cheiro de fritura. Àquela hora, quase vazia.

Felipe e Fernando ocupavam uma mesa no canto com a pasta aberta entre dois hambúrgueres que nenhum dos dois parecia interessado em comer.

— Cara, a coisa só piora — Fernando comentou.

Felipe continuava encarando o contrato.

— Por que ele não falou?

— Você sabe por quê.

— Não, eu não sei.

— Felipe. — Fernando roubou uma batata do prato dele. — Pelo que você acabou de me contar, ele quer mais é que você e o Maurício se afastem.

Felipe apertou os lábios.

— Mesmo assim.

— Mesmo assim o quê?

— Eu pedi ajuda.

Fernando ficou quieto.

Felipe riu sem humor.

— Quando eu acho que ele não consegue ser mais desonesto...

— Agora você sabe.

— Saber não resolve.

— Mas muda o jogo.

Felipe olhou.

— Como?

— Agora você não precisa pedir favor.

Fernando apontou para o contrato.

— Fala que vocês vão pagar.

Felipe balançou a cabeça na mesma hora.

— Não. Porque aí piora.

— Como?

— Ele vai saber exatamente por que eu tô fazendo isso.

— Ele já sabe.

— Saber e me ouvir admitir são coisas diferentes.

Fernando pensou.

Felipe continuou:

— E se ele quiser dificultar, vai dificultar.

Fernando pegou outra batata.

— Então precisamos de alguém que ele não queira dificultar.

Felipe olhou. Fernando parou de mastigar, uma ideia começava a aparecer.

— Não.

— Você nem sabe o que eu vou falar.

— Conheço essa cara.

— E se... — Fernando se inclinou. — De repente... A Lorena estivesse procurando um apartamento?

Felipe ficou olhando.

— Fernando.

— Escuta. Seu pai gosta dela?

Felipe pensou.

— Gosta.

— Confia nela?

— Sim.

— Por ele, vocês dois já tinham casado?

Felipe fechou os olhos.

— Provavelmente.

Fernando abriu os braços.

— Pronto.

Felipe começou a entender.

— Ela aluga direto com ele. Contrato normal, depois do contrato assinado ele não pode simplesmente expulsar ninguém porque ficou irritado.

Felipe ficou em silêncio. Fernando sorriu.

— Eu sou um gênio.

— Calma.

— Admite.

— É uma ideia.

Fernando apontou para si mesmo.

— Gênio.

Felipe apoiou as costas na cadeira.

— Ainda tem um problema.

— Qual?

— Lucas e Maurício.

Fernando fez uma careta.

— É.

— Eles nunca aceitariam.

— Lucas ia querer dividir aluguel na hora.

— Maurício também.

Felipe sabia exatamente.

— E ele já manda dinheiro pra ajudar no tratamento da mãe. Eu não vou deixar ele parar isso pra bancar um aluguel tão caro por causa de uma decisão idiota do clube.

Fernando assentiu.

— Então não contamos.

Felipe olhou.

— Mentimos?

— Não vamos pensar assim. É apenas uma escolha narrativa.

Felipe ficou alguns segundos quieto. Era uma péssima ideia, por motivos demais. Maurício odiaria descobrir que Felipe decidiu aquilo sem consultá-lo. Lucas provavelmente também. Era invasivo, errado. Parecia assustadoramente com coisas que Felipe passou a vida inteira odiando no pai.

Mesmo assim... pensou em Maurício dizendo que perder aquele apartamento não era sobre perder uma cama. Pensou em levá-lo para morar em seu apartamento, mas seria muito arriscado.

— A gente já tinha concordado em pagar — Felipe disse. — Eles só não sabem.

— Nem vão saber. Esse é o espírito.

— Maurício vai perguntar.

— Minto.

— Lucas também.

— Minto pra quem perguntar.

Felipe riu.

— Você fala como se fosse muito simples.

— Eu sou ótimo mentindo.

— Você é péssimo.

— Mesmo assim, continuo tentando.

Felipe voltou a olhar o contrato.

— Conheço o namorado que tenho. Ele jamais aceitaria.

Fernando parou. Felipe continuou olhando para a folha, só percebeu o silêncio depois. Ergueu os olhos. Fernando sorria.

— O quê?

— Namorado?

Felipe congelou.

— Cara...

— Você falou namorado.

— Foco.

— Não, não. Isso foi importante. É a primeira vez que você consegue dar nome.

— Fernando.

— Foi bonito, poxa.

— FOCO.

Fernando começou a rir.

— Tá bom.

Felipe tentou voltar ao contrato. Não conseguiu impedir o próprio sorriso. Namorado.Não tinham combinado. Não tinham decidido. Não tinham pedido.

Mesmo assim, aparentemente era assim que sua cabeça já chamava Maurício quando ele não estava prestando atenção.

Fernando ainda ria.

— Cala a boca.

— Nem falei nada.

O celular dele vibrou. Olhou.

— Quinze mensagens.

Felipe arqueou uma sobrancelha.

— Lucas?

— Quem mais?

Abriu.

— "Cadê você?", "você morreu?", "o filme começa em quarenta minutos", "se você se atrasar eu como sua pipoca"...

Felipe pegou o próprio celular, Maurício também tinha escrito.

tá onde?

já saiu?

a gente vai perder o começo

Felipe sentiu o peito aquecer, Fernando guardou o aparelho.

— Temos que ir.

— Temos.

Fernando ficou sério por um instante.

— Vai dar certo.

Felipe olhou para ele.

— Errado já tá dando.

— Eu prometi pro Lucas que ele não ia passar o resto da temporada naquela cama minúscula do dormitório, carrego traumas.

Felipe assentiu.

— E eu prometi pro Maurício que ele não ia ter que parar de ajudar a família.

Os dois se olharam, o plano continuava sendo ruim. Mas o motivo parecia bom o suficiente. Fernando pegou a pasta.

— Então vamos ocultar a verdade.

Felipe levantou.

— Com responsabilidade.

Fernando riu.

— Claro, capitão.

No estacionamento, Fernando caminhou em direção ao próprio carro. Felipe parou.

— Fernando.

Ele virou.

— Hm?

Felipe apontou para o chão.

— Apaga essa merda.

Fernando olhou.

O cigarro amassado ainda estava no bolso da lateral da mochila, metade para fora.

— Ah.

Empurrou para dentro.

— Você é muito chato.

— E você é porco.

— Equilíbrio perfeito.

Quando chegaram ao cinema, Maurício e Lucas já esperavam perto da entrada. Um segurava dois baldes de pipoca. O outro, os ingressos.

Maurício viu os dois chegando praticamente juntos. Franziu a testa.

— Vieram juntos?

Felipe e Fernando trocaram um olhar.

— Não — Fernando respondeu.

— Coincidência — Felipe completou.

Fernando assentiu rápido.

— A gente se encontrou na chegada.

Lucas estreitou os olhos.

— Sei.

Felipe tentou parecer natural.

— Qual filme?

Maurício levantou os ingressos.

Devorador de Estrelas.

Fernando fez uma careta.

— Eu preferia Como Treinar o Seu Dragão.

Lucas imediatamente:

— Eu também.

Maurício olhou para os dois.

— Mas saiu de cartaz faz tempo, vocês dois têm doze anos.

Fernando pegou um pouco da pipoca do balde de Lucas.

— Você não entende cinema.

— Tira a mão da minha pipoca.

— Você comprou pra mim.

— Comprei porque você atrasou.

— Então é minha.

Lucas tentou afastar o balde. Fernando continuou tentando alcançar. Felipe observou, por um segundo. Maurício bateu com o ombro no dele.

— E você?

— O quê?

— Tá estranho.

Felipe quase engasgou.

— Não tô.

Maurício olhou.

— Tá sim.

— Tô cansado.

A primeira mentira para ele naquela noite. Pequena. Felipe odiou como saiu fácil.

Maurício pareceu aceitar.

— Vem.

Entraram.

No escuro do cinema, não precisavam ser tão cuidadosos. Ainda eram, mas menos. Maurício estava ao lado de Felipe. Lucas e Fernando, na fileira de trás. Metade do filme havia passado quando Maurício deixou a mão entre as poltronas. Felipe olhou, depois para a tela. Então entrelaçou os dedos nos dele.

Murilo voltou à cabeça.

Felipe, não seja ingênuo.

Felipe olhou para as mãos. Poderia soltar, não soltou.

Alguns minutos depois, Maurício repousou a cabeça em seu ombro. Felipe respirou fundo.

Talvez fosse ingênuo.

Talvez irresponsável.

Talvez estivesse fazendo exatamente tudo que passou anos aprendendo a não fazer.

Ainda assim... não conseguiu imaginar uma versão daquela noite em que preferisse estar sozinho.

Na saída, Lucas parou diante de uma loja da Fini.

— Eu quero minhoca azeda.

Maurício continuou andando.

— Você acabou de comer um balde de pipoca e duas barras de chocolate.

— E?

— E nada. Vai morrer.

— Seria uma morte alegre.

Lucas puxou Maurício pelo braço.

— Vem comigo.

— Por quê?

— Porque eu quero ajuda.

— Pra escolher bala?

— É sério.

Maurício olhou para Felipe.

— Quer alguma coisa?

— Qualquer coisa.

— Isso acho que não tem.

— Escolhe.

— Tá.

Fernando levantou a mão.

— Minhoca azeda.

Lucas apontou para ele.

— Eu sei.

Os dois se afastaram.

Felipe ficou olhando.

— Você percebeu? — perguntou.

Fernando acompanhou seu olhar.

— O quê?

— Nada.

Felipe colocou as mãos nos bolsos.

Esperou alguns segundos.

— Quando você vai falar pra ele?

Fernando virou.

— Do plano? Já tá querendo se entregar, capitão?

— Não.

Felipe olhou diretamente.

— Que você gosta dele.

Fernando ficou parado, depois soltou uma risada.

— Ele sabe.

— Sabe?

— Claro. É meu melhor amigo.

Felipe inclinou a cabeça.

— Fernando.

A risada desapareceu.

— Que foi?

— Você entendeu.

Silêncio.

Fernando olhou para Lucas ao longe. Ele discutia com Maurício diante das gomas, provavelmente sobre alguma coisa completamente inútil.

— Tá tão na cara assim?

Felipe nem pensou.

— Tá bastante.

Fernando fechou os olhos.

— Quanto?

— Lembra que eu falei que você não sabe mentir?

— Merda.

Felipe quase riu. A expressão de Fernando tinha mudado. Era raro vê-lo daquele jeito.

Sem piada pronta.

Sem sarcasmo.

Só vulnerável.

— É complicado — Fernando disse.

Felipe esperou.

— Ele virou minha pessoa favorita no mundo.

A frase veio baixa. Simples. Felipe olhou para Lucas.

Fernando continuou:

— E justamente por isso eu não quero estragar.

— Por que estragaria?

Fernando deu uma risada curta.

— Porque eu sou muito bom nisso.

— Em quê?

— Em estragar relacionamento.

Felipe entendeu.

— Laura.

Fernando assentiu.

— Eu gostava dela. De verdade. E mesmo assim consegui transformar tudo numa merda.

— Vocês eram muito mais novos.

— Não justifica eu ter a traído. Eu continuo sendo eu.

Felipe não respondeu.

Fernando enfiou as mãos nos bolsos.

— E olha você e Maurício.

— Ótimo exemplo.

— É exatamente o meu ponto.

Fernando finalmente olhou para ele.

— Contrato, clube, esconder, seu pai. Vocês mal podem chegar juntos no treino sem paranoia.

Felipe respirou fundo.

— É.

— Eu não me perdoaria se colocasse o Lucas nessa posição.

— Você nem sabe se ele gostaria de você dessa forma.

— Exatamente.

Pequena pausa.

— E se eu falar e ele não quiser... eu perco o quê? — Olhou novamente para Lucas. — Minha pessoa favorita?

Felipe sentiu alguma coisa apertar. Conhecia aquela lógica, muito bem.

— Eu também achei que dava pra controlar.

Fernando virou.

— O quê?

— Isso.

Felipe procurou Maurício. Encontrou.

Ele segurava um pacote colorido e ria de alguma coisa que Lucas dizia.

Felipe sorriu.

— Achei que podia decidir até onde ia. — Pausa. — Quando parava. O que significava. O que valia o risco.

Fernando ficou quieto.

— E agora?

Felipe pensou em Maurício acordando na sua cama. Na Coca-Cola na geladeira, na escova de dentes, na primeira vez que o chamara de vida sem perceber. No fato de que acabou de chamá-lo de namorado também sem perceber.

— Agora eu não sei mais como seria não viver isso.

Fernando olhou novamente para Lucas.

— Mesmo com toda essa merda?

Felipe pensou.

— Mesmo.

Fernando soltou o ar.

— É. A gente tá fodido.

Felipe riu.

— Bastante.

Lucas e Maurício começaram a voltar. Fernando imediatamente endireitou a postura como se nada tivesse acontecido. Felipe percebeu, talvez reconhecesse porque fazia a mesma coisa.

— Último pacote.

Lucas entregou as minhocas a Fernando.

Fernando abriu um sorriso.

— Eu sabia que você me amava.

Lucas revirou os olhos.

— Não exagera.

Fernando olhou para Felipe. Felipe quase riu.

Maurício entregou outro pacote para ele.

— Morango.

Felipe pegou.

— Eu falei qualquer coisa.

— Mas você gosta desse.

Felipe olhou para o pacote, depois para Maurício.

— Gosto.

Maurício sorriu. Começaram a caminhar em direção ao estacionamento. Lucas e Fernando alguns passos à frente.

Felipe e Maurício atrás.

— Vocês estavam falando de quê? — Maurício perguntou.

Felipe olhou para Fernando que devolveu o olhar por cima do ombro. Agora havia dois segredos entre eles.

O apartamento e Lucas.

— Nada — Fernando respondeu.

Maurício estreitou os olhos.

— Hum.

Felipe passou discretamente a mão pelas costas dele.

— Vamos?

Maurício assentiu. Seguiram.

Nas últimas semanas, Felipe aprendeu que algumas mentiras serviam para esconder. Outras pareciam servir para proteger. O problema era que, no fim, todas acabavam cobrando alguma coisa de quem contava.

Naquela noite, porém, ninguém perguntou mais nada.

E Felipe mentiria para quem perguntasse.


🏐

Fim do capítulo.

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