TERCEIRO SET

24 Capítulo 23: O Que Você Quer Saber de Verdade


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O café já tinha esfriado. Felipe percebeu quando levou a xícara à boca e fez uma careta. Mesmo assim, tomou outro gole.


Não era culpa do café.

Havia acordado antes do despertador, o que também não era novidade. Em dias de jogo, seu corpo parecia entender a agenda antes dele. Bastava uma partida importante para o sono ficar mais leve, os pensamentos mais rápidos, o estômago menos disposto a aceitar comida.

Mas não era o jogo.

As quartas de final começariam em poucas horas. Era o primeiro dia de fato daquela maratona que poderia terminar com uma taça ou com uma viagem silenciosa de volta para São Paulo. Ainda assim, Felipe já tinha disputado partidas maiores. Sabia lidar com a pressão de entrar em quadra.

O problema naquela manhã era muito mais idiota.

Maurício.

Mais precisamente, Maurício no quarto de Otávio.

Felipe girou a colher dentro da xícara outra vez. Ainda conseguia ver a imagem da chamada do dia anterior.

Maurício de lado, distraído, sorrindo enquanto conversava com alguém. Um quarto que definitivamente não era o dele. E, ao fundo, Otávio terminando de cueca, cabelos ainda molhados.

Otávio.

Claro.

Tinha que ser justamente Otávio.

Felipe o conhecia havia anos. Não o suficiente para chamá-lo de amigo, mas o bastante para já terem dividido premiações, entrevistas, eventos, corredores de ginásio e dezenas de partidas em lados opostos da rede. E sabia exatamente como ele era.

Bonito. Carismático. Bom de papo.

Daquelas pessoas que perguntavam seu nome e, quinze minutos depois, pareciam saber sua história inteira. Seria muito mais fácil se fosse um babaca. Mas não. Otávio era legal.

Felipe colocou a colher sobre o pires.

Eu tô com ciúme?

Quase sentiu vergonha do próprio pensamento. Ciúme. Que sentimento primitivo. Infantil. Ridículo. Não estava com ciúme, confiava em Maurício. O problema era outro. Só queria entender por que diabos ele estava no quarto de Otávio. Sozinho, rindo. Tão entretido que nem percebeu que tinha atendido sua ligação.

Isso não era ciúme.

Era...

Felipe franziu a testa.

Era o quê?

— Você vai beber ou afogar alguém aí dentro?

Fernando puxou a cadeira em frente.

Felipe olhou para a xícara.

— Quê?

— Faz uns cinco minutos que cê tá mexendo esse café.

— Tava pensando.

— Percebi.

Fernando colocou o prato sobre a mesa. Felipe pegou a xícara outra vez.

— Bom dia.

— Bom dia.

Fernando começou a passar manteiga no pão.

Silêncio.

— No Otávio?

Felipe parou com a xícara a centímetros da boca.

Fernando nem levantou os olhos.

— Vai tomar no cu.

— Acertei.

— Não tô pensando no Otávio.

— Claro.

— Fernando.

— Felipe.

Felipe bebeu o café frio.

Fernando sorriu sozinho.

— Cê tá com ciúme.

— Não tô.

— Tá bom.

— Eu não tô.

— Eu já concordei.

— Desse jeito parece que você não acredita.

Fernando finalmente levantou os olhos.

— Porque eu não acredito.

Felipe respirou fundo.

— Eu só quero saber o que aconteceu.

— Então pergunta pro seu—

Fernando parou.

Felipe percebeu.

— Meu o quê?

— Maurício.

— Você ia falar outra coisa.

— Não ia.

— Ia.

— Felipe, são sete da manhã.

Fernando apontou para o próprio prato.

— Não tenho estrutura pra isso antes de comer.

Felipe soltou uma risada curta e voltou para o café.

A verdade era que Otávio nem tinha sido a pior parte da noite anterior. O pior tinha vindo depois. Nada. Nenhuma mensagem. Nenhuma batida na porta. Nenhuma desculpa qualquer para se encontrarem por cinco minutos. Foram dormir sem se falar.

Felipe tentou lembrar quando aquilo tinha acontecido pela última vez.

Não conseguiu.

Desde o primeiro beijo, sempre havia outro. Às vezes longo. Às vezes roubado dentro de um elevador. No carro. Na porta do apartamento. Em algum corredor vazio. Na piscina de um hotel sob a luz da lua. Até nos dias em que mal conseguiam ficar juntos, encontravam algum jeito.

Um beijo de boa-noite.

Sempre.

Na noite anterior, não. Felipe tinha ficado deitado olhando para o celular por tempo demais, esperando uma mensagem que não chegou e sentiu falta. Não apenas do beijo, da certeza que vinha com ele.

— Bom dia.

Felipe reconheceu a voz imediatamente. Levantou os olhos. Maurício vinha com Gabriel. O cabelo ainda um pouco bagunçado. A expressão sonolenta. A mochila pendurada em um dos ombros.

Felipe sentiu uma vontade quase automática de sorrir.

Segurou.

— Bom dia — Gabriel disse.

— Bom dia — Fernando respondeu.

Maurício puxou uma cadeira.

— Bom dia.

Felipe demorou. Não porque quisesse.

Só demorou.

— Bom dia.

Maurício olhou para ele por um segundo. Percebeu. Claro que percebeu.

Sentou.

Gabriel começou a falar sobre o horário do aquecimento enquanto Maurício servia café. Felipe tentou prestar atenção. Só tentou.

— A gente sai daqui às oito e meia — Gabriel dizia. — A comissão pediu pra chegar mais cedo porque—

— Pelo menos hoje ninguém se perde antes do jogo — Fernando comentou.

Maurício parou de servir o café. Felipe olhou para Fernando.

Não.

Fernando percebeu tarde demais.

— Quer dizer... porque esse lugar é grande.

Maurício sorriu.

— Relaxa. Já decorei o caminho.

Felipe pegou um pedaço de pão.

— Ainda bem.

Maurício olhou para ele.

— Mas se eu me perder de novo, já conheço quem pode ajudar.

Fernando fechou os olhos. Gabriel continuou comendo.

Felipe mastigou devagar.

— O pessoal daqui parece bastante receptivo.

— Muito.

Maurício bebeu o café. Felipe apertou o pão entre os dedos. Fernando abriu os olhos e olhou de um para o outro.

— Alguém quer fruta?

Ninguém respondeu.

— Beleza.

Pegou uma para si. Gabriel continuou falando alguma coisa sobre o adversário. Felipe não ouviu metade, Maurício também parecia pouco interessado. Em algum momento, os olhos dos dois se encontraram.

Felipe perguntou:

— Dormiu bem?

Maurício deu de ombros.

— Mais ou menos.

— Estranhou o quarto?

— Não.

Passou geleia no pão.

— Estranhei outras coisas.

Felipe ficou quieto. Fernando bebeu água, devagar demais.

— Tipo o quê? — Felipe perguntou.

Maurício levantou os olhos.

— Não sei.

Mordeu o pão.

— Ainda tô tentando entender.

Felipe sentiu a provocação. Mas havia alguma coisa por baixo dela. Algo que não parecia brincadeira.

Antes que pudesse responder, Murilo surgiu na entrada do refeitório.

— Vinte minutos.

As conversas diminuíram.

— Quero todo mundo no vestiário em vinte minutos.

Alguns responderam. Felipe assentiu.

Murilo saiu.

E o jogo voltou a existir. Felipe olhou para Maurício. Ele já tinha voltado a comer, Fernando chutou discretamente sua perna sob a mesa. Felipe olhou. Fernando fez apenas uma expressão.

Conversem.

Felipe sabia. Precisavam. Porque aquela coisa entre eles nunca tinha sido feita para caber em indiretas. E estava começando a caber apenas nelas.

◉◉◉◉

O corredor que levava aos vestiários estava cheio. Jogadores, comissão, funcionários da organização. Gente demais. Felipe caminhava alguns passos atrás de Maurício, esperando uma oportunidade que não aparecia.

Gabriel entrou primeiro, Fernando logo depois. Maurício ficou para trás procurando alguma coisa na mochila.

Felipe não pensou. Segurou seu braço.

— Vem aqui.

Maurício olhou para a mão, depois para ele. Felipe soltou imediatamente.

Os dois entraram num corredor lateral.

— A gente vai se atrasar — Maurício disse.

— Dois minutos.

— Você é o capitão. Se você se atrasar, pode?

— Mau.

Maurício ficou quieto.

Felipe respirou.

— Tá. O que tá rolando?

Maurício quase riu.

Não de humor.

— Você que deveria me dizer.

Felipe franziu a testa.

— Como assim?

Maurício olhou para o corredor principal antes de continuar.

— Porque eu tô com a sensação de que quem tá sabendo de menos sou eu.

A frase acertou Felipe no peito. Por alguns segundos, não encontrou resposta. Maurício não sabia que Murilo tinha descoberto. Não sabia que o apartamento onde morava pertencia a ele. Não sabia do contrato, do plano com Fernando, de Lorena. Não sabia que Felipe tinha passado os últimos dias tentando resolver sua vida pelas costas dele.

Tudo porque queria ajudá-lo.

Tudo porque achava que, quando finalmente contasse, teria uma solução pronta. Mas Maurício tinha razão. Era ele quem sabia de menos.

Felipe engoliu em seco.

— Eu...

Podia contar ali. Talvez devesse.

— O que cê tava fazendo no quarto daquele cara?

Maurício piscou. Felipe soube imediatamente que tinha desviado do assunto, Maurício também.

— Daquele cara?

— Você sabe quem.

— Otávio?

Felipe odiou o quanto aquele nome pareceu natural na boca dele.

— É.

Maurício cruzou os braços.

— Eu me perdi.

— Isso você falou.

— E ele me achou.

— No quarto dele.

Maurício segurou um sorriso.

— Tecnicamente, eu achei o quarto dele.

Felipe respirou fundo.

— E ficou lá.

— A gente começou a conversar.

— Eu vi.

— Então por que tá perguntando?

— Porque eu quero entender.

Maurício inclinou levemente a cabeça.

O sorriso finalmente apareceu.

— Por quê?

— Como assim, por quê?

— Tá com ciúme?

Felipe parou. Não.

Óbvio que não.

Ciúme?

Que sentimento primitivo.

Infantil.

— Não tô.

Maurício sorriu ainda mais. Felipe estreitou os olhos.

— Que foi?

— Nada.

— Para de sorrir.

— Não tô sorrindo.

— Tá sim.

— Tá bom.

Maurício passou por ele.

Felipe virou.

— Mau.

Ele parou.

— Hm?

A pergunta saiu antes que Felipe pudesse impedir.

— Não aconteceu nada?

Maurício virou lentamente.

Agora o sorriso ocupava o rosto inteiro.

— Você não tava com ciúme?

Felipe percebeu a armadilha.

— Vai pro vestiário.

Maurício começou a rir.

— Felipe...

— Vai.

— Tá bom.

Deu alguns passos de costas.

— Não aconteceu nada.

Felipe não respondeu.

— Nada mesmo.

— Eu acredito.

— Claro.

Maurício virou.

Felipe chamou novamente:

— Mau.

Ele olhou. Por um instante, Felipe quase pediu desculpas. Pela noite anterior, pelos últimos dias. Por tudo que Maurício ainda não sabia.

Em vez disso:

— Boa partida.

O sorriso de Maurício ficou menor. Mais verdadeiro.

— Pra você também.

E foi.

Felipe ficou sozinho por alguns segundos. Tinha conseguido perguntar sobre Otávio. E evitado completamente a única pergunta que realmente importava.

O que você quer saber de verdade?

Talvez nem ele soubesse responder.

◉◉◉◉

As quartas terminaram sem sustos.

Três sets a zero.

Era o tipo de vitória que, em qualquer outra circunstância, Felipe teria considerado perfeita. Objetiva e rápida. Sem desgaste desnecessário.

O Matero fez exatamente o que precisava fazer. Mas durante toda a partida havia uma coisa fora do lugar.

Maurício.

Não tecnicamente. Quando entrou, jogou bem. Defendeu, recebeu. Fez o que Murilo pediu. O problema estava nos segundos entre os pontos. Felipe sabia onde ele estava o tempo inteiro e parecia que Maurício também sabia onde Felipe estava. Os olhos quase se encontravam, desviavam. Uma comemoração começava, parava antes do toque. Era ridículo.

Ninguém em quadra provavelmente tinha percebido.

Felipe percebia tudo.

Quando o último ponto caiu, os jogadores entraram em quadra. Abraços, gritos, mãos batendo. Classificados. Maurício comemorou com Gabriel, depois com Fernando. Felipe se aproximou.

Por um segundo, os dois ficaram frente a frente.

— Boa — Felipe disse.

— Valeu.

Maurício estendeu a mão. Felipe bateu nela.

Só.

Maurício seguiu para o vestiário antes dos outros. Felipe acompanhou com os olhos.

— Cara.

Fernando apareceu ao lado.

Felipe continuou olhando para a porta.

— Hm?

— Acho que cês precisam conversar de verdade.

— A gente conversou.

Fernando soltou uma risada curta.

— Então precisam conversar melhor.

Felipe olhou para ele.

— Tá tão óbvio assim?

Fernando fez uma careta.

— Até um cego já percebeu que cês não tão bem.

— A gente tá bem.

— Felipe.

— A gente tá.

Fernando esperou. Felipe odiava quando ele fazia aquilo, não dizia nada. Só esperava até a própria mentira ficar desconfortável.

Felipe pegou a toalha do banco.

— Tá.

Sentou. Passou a toalha pelo rosto.

— Eu acho que tanto segredo tá atrapalhando.

Fernando perdeu o sorriso.

Felipe apoiou os braços sobre os joelhos.

— Não consigo mais ser leve com ele.

Dizer aquilo em voz alta doeu porque era exatamente isso. Maurício tinha se apaixonado por uma versão dele que, pela primeira vez, não calculava tudo. Que aparecia na casa dele, que dormia apertado numa cama pequena, que aceitava almoços improvisados. Que beijava sem pensar. Que ria.

Agora Felipe tinha voltado a calcular.

Quem estava olhando.

Quem sabia.

Quem poderia descobrir.

O que Murilo faria.

O que a diretoria faria.

O que aconteceria com Maurício.

Cada gesto passava primeiro pela cabeça. E quando chegava ao corpo já não parecia espontâneo.

— Então conta pra ele — Fernando disse.

Felipe olhou para o chão.

— Não é tão simples.

— Nunca é.

Silêncio. Felipe olhou para Fernando.

Era estranho. Quando aquilo tinha acontecido?

Quando Fernando deixou de ser apenas o levantador barulhento do time e virou alguém com quem Felipe conseguia sentar depois de uma partida e admitir que estava com medo de estragar o próprio relacionamento?

Um amigo.

Felipe ainda estava aprendendo a palavra.

— Pelo menos a parada do apê deu certo — Fernando disse.

Felipe levantou a cabeça.

— O quê?

— Lorena me ligou mais cedo.

— E?

Fernando sorriu.

— Seu pai caiu direitinho no plano. Parece que o velho adora mesmo ela.

Felipe se endireitou.

— Ela conseguiu?

— Tudo.

— Contrato?

— Assinado.

Felipe soltou o ar. Parecia estar prendendo havia cinco dias.

Passou as mãos pelo rosto.

— Caralho.

— Pois é.

— Menos mal.

Pela primeira vez naquele dia, sentiu que alguma coisa tinha saído do lugar certo.

— Pelo menos uma coisa boa acontecendo.

Fernando assentiu.

— É.

O silêncio durou pouco.

— Mas ainda não pensamos como contar isso pros meninos, né?

O alívio desapareceu parcialmente. Felipe encostou no armário.

— Não.

— Porque o Lucas vai perceber.

— Mauricio também.

— E nenhum dos dois vai gostar de saber que a gente fez isso escondido.

Felipe fechou os olhos. Mais um segredo. Mais uma coisa que tinha feito por amor e precisaria explicar como mentira.

— Isso é papo pra São Paulo.

— Concordo.

Fernando pegou a mochila.

— Até porque...

Felipe abriu os olhos.

Fernando já caminhava para a porta.

— Em BH você me parece ter novos problemas.

Felipe franziu a testa.

— O que isso quer dizer?

Fernando abriu a porta.

— Nada.

— Fernando.

Ele olhou para trás. Um sorriso apareceu.

— Boa sorte com o Otávio.

Felipe pegou a toalha e jogou. Fernando fechou a porta antes que ela acertasse.

— VAI TOMAR NO CU!

A risada dele desapareceu pelo corredor. Felipe ficou sozinho, olhou para a porta. Depois para o próprio reflexo no espelho estreito do armário.

— Não tô com ciúme.

Dessa vez, não havia ninguém ali para discordar.

O que, de algum jeito, tornou a mentira ainda pior.


🏐

Fim do capítulo.

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