TERCEIRO SET

23 Capítulo 22: Te Telefono às Vezes


○ ━━━━━━━ ┃

— Olha só.

Gabriel parou diante do painel de embarque. Fernando, ao lado, levantou os olhos do celular.

— O quê?

Gabriel apontou.

— Relembraram que avião existe.

Maurício acompanhou o gesto. O voo para Belo Horizonte aparecia entre os primeiros da manhã, Fernando colocou uma mão sobre o peito.

— Eu tô emocionado.

— Não exagera.

— Na última viagem eu perdi a circulação das pernas.

Gabriel deu de ombros.

— É final.

Fernando olhou para Maurício.

— Traduz.

Maurício sorriu.

— Mais visibilidade.

Gabriel completou:

— Ou seja...

Os três responderam juntos:

— Mais dinheiro.

Fernando assentiu.

— Agora a gente voltou a valer alguma coisa.

Maurício riu.

Na primeira vez que viajou com o Matero, provavelmente teria fotografado o cartão de embarque. Talvez mandado para a mãe. Talvez para Adriana. Teria observado os jogadores andando pelo aeroporto como se todos soubessem alguma coisa que ele ainda precisava aprender.

Agora... só estava com sono. Mochila nas costas, fone em uma das mãos, credencial pendurada no pescoço. Era estranho como os sonhos também criavam burocracia depois que viravam rotina.

Já havia ônibus. Hotéis. Aeroportos. Quartos compartilhados. Treinos de reconhecimento. Horários absurdos. E, em algum momento entre uma viagem e outra, Maurício tinha parado de olhar tudo como se pudesse desaparecer a qualquer instante.

Agora havia outra coisa no lugar. Pressão.

A fase final da Supercopa começaria naquele dia. Quartas, semifinal e final. Três dias. Três jogos possíveis. Nenhum espaço para erro.

Maurício olhou ao redor.

Fernando discutia com Gabriel sobre onde comprariam café. Paulo dormia sentado sobre a própria mala. Murilo falava com alguém da comissão junto ao portão, Felipe estava próximo dele.

Maurício encontrou seus olhos.

Felipe sorriu. Pequeno. Controlado.

Maurício respondeu da mesma forma. Era assim agora, cinco segundos. Às vezes menos. O suficiente para os dois entenderem. Não o suficiente para ninguém perguntar.

Felipe voltou para a conversa com Murilo.

Maurício colocou o fone.

— Cê tá vindo? — Fernando perguntou.

— Pra onde?

— Café.

— Vou.

Começou a seguir os dois. Parou. Olhou novamente para Felipe. Na primeira viagem, tudo tinha parecido começo. A estrada. O banco vazio ao lado. Felipe caindo praticamente em sua poltrona depois de uma conspiração ridícula de Lucas e Fernando. O café de posto. A piscina. O beijo de boa-noite.

Maurício sorriu sozinho.

Dessa vez não havia Lucas. Não havia descoberta. E talvez fosse isso que tornasse tudo tão diferente. O que antes era novidade agora precisava sobreviver à realidade.

— MAUMAU!

Fernando já estava longe.

— Tô indo!

Maurício ajeitou a mochila. Foi atrás deles. Belo Horizonte ainda nem tinha começado e ele já estava cansado.

◉◉◉◉

— Não elogia.

Maurício virou para Fernando.

— O quê?

— Nada.

— Eu nem falei nada.

— Mas pensou.

Fernando apontou para o vidro do ônibus que fazia o curto trajeto entre o aeroporto e o centro de treinamento.

— Não elogia.

Gabriel se inclinou no banco da frente.

— Mas é bonito.

— Cala a boca.

Maurício riu.

Era difícil obedecer.

O ônibus acabava de passar pela entrada principal do CT do Carrancas e, por alguns segundos, Maurício simplesmente esqueceu que deveria odiar tudo aquilo.

O lugar era enorme. Muito maior do que parecia nas transmissões.

Os prédios se espalhavam por uma área que Maurício não conseguia enxergar inteira. Havia ginásios, academia, centro médico, alojamentos e construções que ele sequer conseguia identificar do ônibus. Jardins perfeitamente cuidados dividiam os blocos, passarelas cobertas ligavam algumas áreas e enormes placas carregavam o escudo do Carrancas por todos os lados.

— Caralho — Maurício deixou escapar.

Fernando virou imediatamente.

— Eu avisei.

— Eu não elogiei.

— O tom foi de elogio.

Gabriel olhava pela janela.

— O nosso é até legal, mas isso aqui é surreal.

— Gabriel.

— Que foi?

— Você tem zero espírito de equipe.

— Eu tenho espírito de equipe. Só tenho olhos também.

O ônibus parou diante do prédio dos alojamentos.

Quando as portas abriram, a dimensão da fase final ficou ainda mais evidente.

Não estavam sozinhos.

Um ônibus de outro clube acabava de chegar alguns metros adiante. Atletas de uniformes que Maurício reconhecia circulavam com malas e mochilas. Funcionários carregavam caixas. Pessoas da organização da Supercopa conferiam credenciais. Uma pequena equipe de imprensa montava equipamentos próximo à entrada.

Durante três dias, todos estariam ali.

Uma maratona que eliminaria metade deles antes mesmo que tivessem tempo de decorar os corredores.

Maurício desceu, olhou para cima. O escudo do Carrancas ocupava boa parte da fachada.

— Dá uma coceira entrar aqui — Fernando comentou.

Gabriel passou ao lado.

— Isso é alergia a investimento.

— Vocês vão começar cedo? — Felipe perguntou, descendo atrás deles.

Fernando apontou para Gabriel.

— Ele disse que o CT é mais bonito que o nosso.

Felipe olhou ao redor.

— É verdade.

Fernando ficou indignado.

— Capitão!

Felipe deu de ombros.

— Que foi? Ser rival não deixa a gente cego.

Maurício sorriu. Felipe percebeu. Por um segundo, pareceu que diria alguma coisa diretamente a ele. Não disse.

Murilo surgiu logo atrás.

— Vamos entrar. Depois vocês fazem turismo.

Felipe imediatamente mudou a postura.

— Bora.

E seguiu com a comissão. Maurício observou, outra vez. Perto. Sempre perto. Mas nunca o suficiente.

◎◎◎◎

A recepção parecia um hotel. Maurício não sabia exatamente o que esperava de um alojamento esportivo, mas definitivamente não era um saguão com sofás, televisão, balcão de atendimento e funcionários da competição distribuindo envelopes com cartões de acesso.

— Isso aqui é sacanagem — Fernando murmurou.

— Não elogia — Gabriel devolveu.

— Vai se foder.

Maurício pegou o envelope com seu nome. Abriu.

Quarto 327.

Olhou a segunda identificação.

Paulo André Mascarenhas.

Fechou o envelope.

— Ah, não.

Gabriel se aproximou.

— Que foi?

Maurício mostrou.

Gabriel fez uma careta.

— Meus sentimentos.

Fernando arrancou o cartão da mão dele.

— Paulo?

— É.

— De novo?

— Pelo visto.

Fernando devolveu.

— Boa sorte.

— Obrigado pela solidariedade.

— Sempre, irmão.

Maurício procurou o nome de Lucas por puro reflexo entre os envelopes ainda sobre o balcão. Não estava. Claro que não estava.

A ausência pareceu mais concreta ali. Na distribuição dos quartos, no espaço onde deveria haver um nome.

— Oliveira.

Maurício virou.

Felipe estava alguns metros atrás, segurando o próprio envelope.

— Hm?

— Tudo certo?

— Tudo.

Levantou o cartão.

— Ganhei o Paulo.

Felipe fez uma expressão de pena.

— Porra.

— Pois é.

— Se ele resmungar, joga um travesseiro.

— E se ele tentar me asfixiar com ele?

Felipe sorriu.

— Grita.

— Você vai me salvar?

A pergunta escapou antes que Maurício pensasse. Felipe olhou ao redor. A expressão mudou quase imperceptivelmente.

— Alguém salva.

E saiu. Maurício ficou parado. O sorriso que tinha começado morreu antes de terminar.

Alguém.

Não era nada. Sabia que não era. Estavam no meio da recepção, cercados por jogadores de vários clubes, funcionários, comissão. Felipe estava sendo cuidadoso. Só isso.

Mesmo assim...

— Mau?

Fernando chamou.

— Bora?

Maurício guardou o cartão no bolso.

— Bora.

◉◉◉◉

O quarto era melhor do que o dormitório do Matero. Duas camas grandes, televisão, mesa de trabalho, frigobar, banheiro próprio. Uma janela enorme com vista para parte do complexo esportivo. Maurício largou a mala. Olhou para a cama ao lado.

Vazia.

Paulo ainda não tinha subido. Melhor. Sentou na própria cama, pegou o celular. Havia uma mensagem de Adriana desejando boa sorte. Outra da mãe. Uma figurinha horrorosa de Lucas. Maurício abriu a conversa.

Pensou em responder. Em vez disso, ligou.

Lucas atendeu no quarto toque.

— Você não tem treino?

Maurício deitou de costas.

— Bom dia pra você também.

— Bom dia. Você não tem treino?

— Mais tarde.

— Então fala.

Maurício virou a câmera.

— Olha isso.

Mostrou o quarto.

Lucas ficou em silêncio.

— O quê?

— Acho que o problema era eu mesmo.

Maurício começou a rir.

— Como assim?

— Foi só eu ser afastado que até de avião cês tão andando agora.

— Verdade.

Maurício ajeitou o travesseiro.

— O Matero tava economizando há anos só pra não comprar sua passagem.

— Eu sabia.

— Inclusive o CT é absurdo.

— Não fala isso alto.

— O Fernando já proibiu.

— Óbvio.

Lucas mudou de posição na tela.

Estava no sofá. A perna apoiada sobre almofadas e a compressa no joelho.

— Como tá?

— Bem.

— Dor?

— Quase nada.

— Fez a fisio?

— Ainda não. O cara vem depois do almoço.

Maurício sorriu.

— Fernando conseguiu?

— Fernando conseguiu tudo.

— Como assim?

— Laura apareceu aqui às sete e meia da manhã com café.

— Sete e meia?

— Eu tava dormindo.

— Coitada.

— Coitado de mim.

Maurício riu.

— Enfim, a Laura veio com comida. A Lorena veio me fiscalizar. Daqui a pouco minha mãe aparece também.

— Tá bem cuidado.

— Demais.

Maurício sorriu.

— O Fernando pediu.

— Eu sei.

Lucas tentou parecer indiferente. Não conseguiu.

Maurício percebeu.

— Ele já te mandou mensagem?

— Algumas.

— Algumas quantas?

— Não interessa.

— Lucas.

— Umas seis.

— A gente chegou tem duas horas.

— Ele é ansioso.

— Sei.

— Maurício.

— Não falei nada.

— Nem precisa.

Os dois riram. Depois veio o silêncio. Não desconfortável. Nunca era com Lucas.

Maurício ficou olhando para o teto.

— Mau.

— Hm?

— Que foi?

— Nada.

— Para.

Maurício sorriu.

— Que foi?

— Cê tá estranho.

— Tô com sono.

— Mentira.

Maurício respirou fundo.

Lucas esperou.

— Ah... não sei.

Virou para a janela. Do lado de fora, alguns atletas atravessavam uma das passarelas com os uniformes de seus clubes.

— Tá tudo meio estranho.

— Estranho como?

Maurício procurou a palavra.

— Diferente.

Lucas não interrompeu.

— Você não tá aqui.

— Eu sei.

— O Felipe tá distante.

Dizer em voz alta fez parecer mais verdadeiro. Maurício se arrependeu quase imediatamente.

— E... — Passou a mão pelo cabelo. — Eu não tô sentindo tanta graça.

Lucas ficou quieto.

— Não sei. Talvez eu só esteja cansado.

— Pode ser.

— Na primeira vez parecia tudo tão...

Maurício parou.

— Novo?

— É.

— Porque era.

— Eu sei.

— Agora você trabalha nisso, Mau.

Maurício riu.

— Que jeito bonito de acabar com meu sonho.

— Não foi isso.

Lucas sorriu.

— Você tá disputando uma fase final da Supercopa.

Maurício ficou quieto.

— Foca nisso.

A voz do amigo perdeu a brincadeira.

— Esse era seu sonho, afinal.

Maurício olhou para a mala aberta. O uniforme verde estava dobrado sobre as outras roupas. Era.

Antes de Felipe.

Antes do apartamento.

Antes de ter amigos no Matero.

Antes de todas aquelas coisas ocuparem tanto espaço dentro dele.

Era aquilo.

Uma quadra.

Uma camisa.

Uma chance.

— É — respondeu.

Sentou-se.

— Pode ser.

— Pode ser não.

Lucas apontou para a câmera.

— Vai jogar.

Maurício sorriu.

— Primeiro eu preciso entrar.

— Então dá um jeito de entrar.

— Excelente estratégia.

— Obrigado.

Maurício riu.

— Tenho que focar nisso por enquanto.

— Exatamente.

Batidas na porta. Maurício olhou.

— Acho que o Paulo chegou.

Lucas fez uma careta.

— Boa sorte.

— Obrigado.

— Se ele te matar, fico com a camisa da seleção.

— Vai se foder.

— Também te amo.

Maurício desligou. Levantou. Abriu a porta.

Fernando estava do outro lado, com uma mala. Maurício olhou para ele. Depois para a mala, depois novamente para Fernando.

— Que porra é essa?

Fernando entrou sem pedir licença.

— Vamo ter que dividir o quarto, infelizmente.

Maurício fechou a porta.

— Você?

— Eu sei. Também fiquei decepcionado.

— Mas não tinham jogado o Paulo aqui outra vez?

Fernando colocou a mala sobre a cama vazia.

— Mudança de planos.

— Que mudança?

— Mudou.

— Fernando.

Ele abriu o zíper da mala.

— Quer que eu chame o Paulo?

Maurício respondeu imediatamente:

— Não.

— Então pronto.

Fernando começou a tirar as roupas.

Maurício ficou observando. Não tinham passado nem quinze minutos. Olhou para o celular ainda em sua mão.

Depois para Fernando.

Lucas.

Claro. Sentiu alguma coisa aquecer no peito.

Fernando percebeu.

— Que foi?

Maurício sorriu.

— Nada.

— Vocês tão insuportáveis com esse "nada".

— Bem-vindo ao quarto.

Fernando jogou uma camiseta nele.

— Vai se foder.

Maurício riu.

E, pela primeira vez desde que acordou naquela manhã, Belo Horizonte pareceu um pouco menos vazia.

○━━

O refeitório do Carrancas parecia ter sido projetado para lembrar aos visitantes, a cada cinco segundos, de quem era aquele território. O escudo estava numa das paredes. As cores do clube apareciam nas cadeiras. Até os guardanapos tinham uma pequena marca no canto.

Fernando puxou um deles do suporte.

— Isso aqui já é doença.

Maurício colocou a bandeja sobre a mesa.

— Você tá obcecado.

— Olha isso.

Mostrou o guardanapo.

— Os caras personalizaram até onde a gente limpa a boca.

Gabriel sentou em frente.

— Chama identidade visual.

— Chama falta do que fazer.

Maurício riu e procurou um lugar para a garrafa de água. O salão estava muito mais cheio do que quando tinham chegado. As delegações dos outros clubes já ocupavam boa parte das mesas. Uniformes diferentes se misturavam numa confusão de cores que Maurício conhecia das transmissões, mas nunca daquele jeito.

Ali não havia câmera separando ninguém. O central que ele assistia na televisão duas semanas antes estava escolhendo sobremesa. Um técnico que costumava parecer assustadoramente sério durante os jogos discutia com alguém da cozinha porque não encontrava adoçante. Dois atletas de clubes que se enfrentariam eventualmente dividiam a mesma máquina de café.

Maurício olhou ao redor.

— É estranho.

Gabriel ergueu os olhos do prato.

— O quê?

— Todo mundo junto.

— Aproveita. Amanhã metade já tá indo embora.

Fernando apontou o garfo.

— Pensamento positivo.

— É verdade.

— Não precisa lembrar que pode ser a gente.

Gabriel mastigou tranquilamente.

— Então ganha.

— Por isso que eu gosto de conversar com você. Sempre profundo.

Maurício voltou a olhar para o salão. Havia rostos que conhecia desde antes de chegar ao Matero. Jogadores que acompanhava. Alguns que admirava. Outros que já tinha xingado assistindo a partidas pela televisão.

Agora estavam a poucos metros.

E, pela primeira vez, ocorreu-lhe uma coisa estranha: eles também sabiam quem era o Matero. Talvez alguns soubessem quem ele era. Não estava mais do lado de fora daquele mundo.

— Mau.

Fernando apontou para o prato dele.

— Você vai comer ou estudar a fauna local?

— Tô comendo.

— Faz cinco minutos que você tá segurando o garfo no ar.

Maurício levou a comida à boca.

— Pronto.

— Muito bem.

— Obrigado, mãe.

— De nada.

Uma bandeja pousou ao lado da de Maurício. Ele não precisou olhar para saber.

Felipe sentou.

— Sobrou lugar?

— Não — Fernando respondeu.

Felipe puxou a cadeira mesmo assim.

— Que pena.

Gabriel continuou comendo.

— O Fernando tá incomodado com os guardanapos.

Felipe olhou para ele.

— Ainda?

— Isso é provocação.

— É um pedaço de papel.

— Com o escudo deles.

Felipe pegou um.

Abriu sobre as pernas.

— Pronto. Agora o Carrancas tá protegendo minha calça.

Maurício riu. Felipe olhou. Foi rápido, um sorriso pequeno em resposta. Depois voltou para o prato.

— A comissão já passou os horários? — Gabriel perguntou.

— Grupo.

— Não vi.

— Quartas às sete. Se passar, recuperação amanhã cedo, vídeo depois do almoço e semi à noite.

Fernando soltou o garfo.

— Se passar?

Felipe corrigiu:

— Quando passar.

— Melhor.

— E se chegar na final, sábado à noite.

Maurício ouviu em silêncio. Três dias. Não havia tempo nem para comemorar direito.

Vencia. Dormia. Acordava. Jogava de novo.

— O Carrancas tá do outro lado da chave? — perguntou.

Felipe assentiu.

— Só pega a gente numa possível final.

— Se eles chegarem — Gabriel disse.

Fernando apontou para ele.

— Agora gostei.

Felipe sorriu. Maurício também. Por alguns minutos, a conversa seguiu assim.

Vôlei. Adversários. Horários.

Fernando reclamando da comida sem nenhum motivo real. Gabriel ameaçando trocar de mesa. Felipe estava ali, a menos de um braço de distância. Mesmo assim, Maurício começou a sentir novamente aquela coisa que tentou explicar para Lucas.

Distante.

Felipe falava com todos. Respondia quando Maurício perguntava alguma coisa. Ria das piadas dele. Em nenhum momento, porém, deixava o joelho esbarrar no seu sob a mesa.

Não se inclinava para dizer alguma bobagem só para ele. Não procurava sua reação quando alguém falava alguma coisa.

Coisas pequenas.

Tão pequenas que Maurício se sentia ridículo por perceber. Na viagem anterior, Felipe parecia esquecer o mundo ao redor quando estavam juntos. Agora parecia lembrar dele o tempo inteiro.

O que Maurício não sabia era que Felipe tinha contado quantas pessoas havia no salão antes mesmo de escolher aquela cadeira. Tinha visto dois membros da diretoria do Carrancas. A equipe da organização. Jogadores de outros clubes. Um fotógrafo próximo à entrada. E Murilo, duas mesas atrás.

Desde aquela conversa na sala do pai, alguma coisa havia mudado.

Não no que sentia. Na forma como se permitia demonstrar.

Você acha que as coisas passam despercebidas por mim?

Felipe não pretendia descobrir quantos outros também tinham percebido. Então mantinha as mãos sobre a mesa, os olhos no prato. A distância correta.

Maurício não sabia de nada disso.

Felipe queria tocar nele. Era quase visível.

Não tocou.

Murilo continuava duas mesas atrás.

Quando terminou de comer, Maurício olhou para baixo.

— Ah, não.

Fernando acompanhou. Uma mancha vermelha atravessava a parte inferior de sua camiseta.

— Parabéns.

— Molho.

— Eu imaginei que não fosse sangue.

Maurício tentou limpar com o guardanapo. Fernando imediatamente segurou seu pulso.

— Nem pensa.

— Por quê?

— Você vai espalhar isso.

— Eu tenho que tirar.

— Vai trocar.

Maurício bufou.

— O quarto fica do outro lado do CT.

— Três minutos.

— Esse lugar tem o tamanho de uma cidade.

Gabriel levantou a bandeja.

— Vai assim.

Maurício olhou para a mancha.

— Não.

Fernando:

— Ninguém vai reparar.

— Eu vou.

Felipe sorriu. Passou discretamente a mão em seu braço.

— Vai trocar, vida.

Maurício olhou. Felipe percebeu tarde demais a naturalidade do apelido. Seus olhos passaram rapidamente pela mesa atrás.

Murilo não parecia ter ouvido.

— Eu vou — Maurício respondeu.

Levantou.

— Me esperem.

Fernando pegou o celular.

— Se você se perder, manda localização.

Maurício mostrou o dedo do meio.

○━━

Dez minutos depois, percebeu que Fernando talvez não estivesse brincando.

— Que inferno.

Maurício parou no meio do corredor. Olhou para a direita, depois para a esquerda. As duas direções pareciam exatamente iguais. Portas claras. Paredes claras. Placas pequenas demais. Um corredor levava aos alojamentos, outro aos espaços reservados às delegações.

Em algum momento, Maurício tinha escolhido o errado.

Pegou o celular.

Havia uma mensagem de Lucas.

fernando chegou?

Maurício respondeu enquanto caminhava.

chegou

bem discreto inclusive

Lucas:

não sei do que vc tá falando

Maurício sorriu.

claro

Outra mensagem apareceu.

Felipe.

não demora, treino antecipou 15 min

Maurício digitou:

to indo

Guardou o celular.

Ou tentou.

Uma nova mensagem de Lucas apareceu e ele voltou a olhar.

e ele tá me enchendo o saco por mensagem mesmo estando aí

Maurício riu sozinho. Contou as portas distraidamente. Parou diante de uma. Abriu.

Entrou.

— Finalmente.

Deu dois passos.

Parou. Não era seu quarto, definitivamente não era seu quarto. Havia uma mala que nunca tinha visto aberta sobre uma das camas. Um uniforme do Carrancas jogado sobre a cadeira. E um homem no meio do cômodo, ainda se arrumando depois do banho, cabelos molhados.

Os dois se encararam.

Maurício arregalou os olhos.

— Caralho.

O rapaz franziu a testa.

— Oi?

Maurício virou imediatamente o rosto.

— Foi mal! Foi mal, quarto errado.

— Relaxa.

— Esses corredores são todos iguais, eu achei que—

Maurício já estava recuando quando alguma coisa na voz fez seu cérebro funcionar. Olhou novamente. Dessa vez para o rosto.

Parou.

O rapaz percebeu.

— Que foi?

Maurício piscou.

— Pera.

Silêncio.

— Você é o Otávio?

O rapaz olhou para si mesmo. Depois para Maurício.

— Dependendo de quem pergunta.

Maurício ficou imóvel. Não havia dúvida.

Otávio. Oposto do Carrancas. Maior pontuador daquela edição da Supercopa.

O jogador que Maurício tinha assistido tantas vezes que conhecia alguns dos movimentos antes mesmo que acontecessem.

— Cara...

Otávio começou a rir.

— Isso geralmente vem antes de uma notícia ruim.

— Não, é que...

Maurício olhou para a própria camiseta.

Para o escudo do Matero.

Depois novamente para ele.

— Eu sou muito seu fã.

Otávio riu mais.

Maurício levou a mão ao rosto.

— Caralho. Acho que eu nem podia falar isso, né? A gente meio que é rival.

— Relaxa.

Otávio levantou uma mão.

— Eu não conto pra ninguém. Juro.

Maurício começou a rir também.

— É sério.

— Obrigado.

— Aquele jogo no Recife no ano passado foi absurdo.

— Qual?

— A semifinal.

Otávio fez uma careta.

— Aquilo foi sofrimento.

— Você fez trinta pontos.

— E quase morri depois.

Maurício riu.

A vergonha começou a desaparecer.

— Eu tentei copiar aquele teu saque por uns dois meses.

— Espero que não tenha conseguido.

— Por quê?

— Porque eu errei uns quinze naquele campeonato.

— Mas quando entrava...

— Quando entrava.

Os dois riram.

Otávio finalmente pareceu reparar melhor nele.

— Você é o Oliveira, né?

Maurício parou.

— O quê?

— Líbero do Matero.

Maurício apontou para si mesmo, incrédulo.

— Você sabe quem eu sou?

Otávio arqueou uma sobrancelha.

— A gente estuda adversário também, irmão.

Maurício sentiu algo estranho no peito.

— Ah.

— Você entrou bem na fase anterior.

— Valeu.

— Defesa rápida.

Maurício sorriu.

— Obrigado.

O celular vibrou em sua mão.

Ele olhou rapidamente.

Felipe.

Antes que pudesse decidir se atenderia, o dedo tocou a tela. A chamada abriu. Maurício não percebeu.

— Mas falando sério — continuou, olhando para Otávio — aquele saque na semi eu fiquei tentando entender como você fazia a trajetória—

Do outro lado:

— Mau?

Maurício não ouviu.

Otávio começou a explicar alguma coisa com as mãos.

— É mais o lançamento. Se você joga a bola muito pra frente, perde—

— Maurício?

Nada. Felipe olhou para a tela. A câmera mostrava Maurício de lado. Atrás dele, um quarto que definitivamente não era o quarto que tinha visto na distribuição. E, alguns passos adiante, um jogador do Carrancas ainda terminando de se arrumar, cabelo molhado, conversando com Maurício como se fossem velhos conhecidos.

Felipe franziu a testa.

— Mau?

Maurício ria de alguma coisa.

— ...porque eu quase acertei o teto do ginásio uma vez tentando.

Otávio gargalhou.

Felipe aproximou o celular do rosto.

— Maurício.

Nada. Olhou o horário.

Depois novamente para a tela.

— Maurício, o que tá acontecendo?

Dessa vez Maurício ouviu. Parou.

Olhou para a mão, depois para o celular. O rosto de Felipe ocupava a tela.

— Lipe?

— Onde você tá?

Maurício olhou ao redor.

Para Otávio. Para o uniforme do Carrancas. Para o quarto errado. Então novamente para Felipe.

— Eu...

Felipe olhou por cima do ombro dele.

— O treino já começou.

Maurício congelou.

— O quê?

— Você sumiu.

Maurício puxou o celular para ver o horário.

— CARALHO!

Otávio começou a rir.

— Tá atrasado?

— Muito!

Maurício disparou para a porta.

Parou. Virou.

— Foi muito bom te conhecer.

Otávio apontou para o corredor.

— Vai!

— Sério, sou muito seu fã.

— OLIVEIRA, VAI PRO TREINO!

Maurício saiu correndo. A porta ficou aberta atrás dele.

Felipe continuava na chamada.

— Quem era esse?

— Depois eu explico!

— Mau—

— EU TÔ ATRASADO!

Maurício virou um corredor. Depois outro.

— ONDE FICA A QUADRA?

Felipe ficou alguns segundos em silêncio.

— Você tá falando sério?

— FELIPE!

— Esquerda no próximo corredor.

Maurício virou.

— Depois direita.

— Tá.

— E sobe a escada.

— TÁ.

Felipe ainda tentava processar o que acabara de ver.

— E depois você vai me explicar por que tava no quarto de um cara do Carrancas.

Maurício, correndo, começou a sorrir.

Mesmo sem fôlego.

— Ah.

— "Ah" o quê?

— Nada.

— Maurício.

— Depois eu explico.

Desligou e continuou correndo.

Talvez Belo Horizonte tivesse acabado de ficar um pouco mais interessante.


🏐

Fim do capítulo.

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Nos vemos na próxima partida