TERCEIRO SET

7 Capítulo 06: Nenhum de Nós Sentiu Quando o Céu Caiu


Segunda-feira •

12 de janeiro de 2026 •

07h18 •

O refeitório ainda estava vazio quando Felipe entrou.

Avistou Maurício na fila do café.

Sorriu.

— Bom dia.

— Bom dia.

Maurício pegou a bandeja e escolheu uma mesa do outro lado do salão.

Felipe franziu a testa por um instante. Depois voltou a conversar com Fernando.

Quarta-feira •

14 de janeiro de 2026 •

17h42 •

Fim do treino.

Felipe guardava as últimas bolas no carrinho.

Ergueu os olhos por hábito.

Maurício já atravessava a porta do ginásio.

Nem olhou para trás.

Sexta-feira •

16 de janeiro de 2026 •

12h36 •

— Eu tô falando que churrasco sem farofa não faz sentido.

— Isso é porque você nunca comeu a do meu pai.

Fernando e Lucas discutiam como se aquilo fosse uma questão diplomática.

Maurício ria.

Felipe também.

Mas nunca um para o outro.

Segunda-feira •

19 de janeiro de 2026 •

08h11 •

Treino de saque.

Felipe caminhava entre as quadras.

Parou ao lado de Maurício.

— Tenta soltar mais o ombro.

Vai ganhar potência.

Maurício apenas assentiu.

— Valeu, capitão.

Felipe esperou mais alguma coisa.

Ela nunca veio.

Quinta-feira •

22 de janeiro de 2026 •

20h48 •

Felipe voltava do mercado carregando duas sacolas.

Quando atravessou o estacionamento do residencial, viu Maurício entrando no bloco ao lado.

Ergueu a mão em cumprimento.

Maurício procurava as chaves no bolso.

Entrou sem olhar para trás.

Felipe permaneceu alguns segundos parado.

Depois entrou no próprio prédio.

Domingo •

25 de janeiro de 2026 •

10h02 •

Grupo da equipe.

Felipe: Amanhã começamos os treinos fechados. Todo mundo no ginásio às 7h30.

As confirmações apareceram uma atrás da outra.

👍 Fernando.

👍 Lucas.

👍 Gabriel.

👍 Maurício.

Só isso.

Terça-feira •

27 de janeiro de 2026 •

18h17 •

Academia.

Maurício ajustava a barra do agachamento.

Felipe passou ao lado.

Parou.

— Espera.

Abaixou um pouco a altura do suporte.

— Assim força menos teu ombro.

Maurício testou.

Realmente ficava melhor.

— Valeu.

Pegou a mochila.

Foi embora.

Felipe ainda ficou olhando para a porta por alguns segundos antes de voltar ao próprio treino.

Sexta-feira •

30 de janeiro de 2026 •

06h51 •

A poucos metros de distância, os dois caminhavam em direção ao ginásio. Nenhum dos dois falou. Maurício acreditava que Felipe já não fazia questão da sua companhia. Felipe acreditava que Maurício só estava concentrado na competição.

Os dois estavam errados.

A competição começaria apenas no dia seguinte.

Mas o silêncio entre eles...

já havia começado semanas antes.

O despertador tocou às seis em ponto. Dessa vez, Maurício não apertou o botão de soneca, também não precisou. Estava acordado há quase meia hora. Ficou alguns segundos encarando o teto do quarto. O silêncio parecia maior do que de costume. Do outro lado do apartamento, ouviu Lucas bocejar.

— Já tá acordado?

— Faz tempo.

Lucas apareceu na porta ainda despenteado.

— Dormiu mal?

Maurício deu de ombros.

— Dormi. Só não descansei.

Lucas conhecia aquela resposta. Não insistiu.

Foi direto para a cozinha. Enquanto preparava o café, observou Maurício conferir a mochila pela terceira vez.

Uniforme.

Joelheira.

Tênis.

Garrafa.

Documento.

Fones.

Tudo estava ali.

Mesmo assim, Maurício conferiu outra vez.

— Você tá levando o ginásio inteiro?

— Vai que eu esqueço alguma coisa.

Lucas apoiou os cotovelos na bancada.

— Mau. — Maurício ergueu os olhos. — Você sabe que amanhã não decide tua carreira, né?

Ele sorriu sem humor.

— Tenta convencer minha cabeça disso.

Lucas respirou fundo.

— Você já tá no elenco.

— Ainda não.

— Tá, sim.

— Ainda não oficialmente.

A diferença parecia pequena. Para Maurício era enorme.

O caminho até o clube foi mais silencioso do que de costume. A cidade ainda despertava, as ruas pareciam vazias. Lucas dirigia devagar. O rádio permanecia desligado.

Quando passaram pelos portões do Matero, o clima era outro. Funcionários caminhavam carregando caixas, faixas da competição começavam a ser instaladas. Voluntários organizavam credenciais. Um caminhão descarregava estruturas metálicas perto do ginásio principal. As quadras externas recebiam novas placas de patrocinadores. Tudo parecia maior, mais organizado, mais importante.

Fernando os encontrou ainda no estacionamento.

Segurava um copo de café.

— Sentiram?

Lucas olhou ao redor.

— O quê?

Fernando abriu um sorriso pequeno.

— O cheiro.

Maurício franziu a testa.

— Que cheiro?

Fernando respirou fundo.

— Competição.

Lucas riu.

— Você é maluco.

— Não. — Fernando olhou para o ginásio principal. — Depois de um tempo você aprende. Tem dia que o clube muda, hoje é um desses dias.

Nenhum dos três falou mais nada porque Fernando tinha razão. Até o silêncio parecia diferente.

Assim que entraram no ginásio, Murilo já aguardava a equipe. Nenhuma prancheta, nenhum discurso. Só os braços cruzados, esperando. Todos aceleraram o passo automaticamente. Maurício percebeu isso, ninguém havia mandado. Acontecia sozinho.

Felipe chegou alguns segundos depois. Trazia uma pasta cheia de papéis debaixo do braço. Cumprimentou rapidamente a comissão técnica, conferiu algo com a fisioterapeuta, conversou com um preparador físico, assinou um documento que um funcionário lhe entregou. Depois caminhou até a equipe.

Era impressionante. Antes mesmo do treino começar... Felipe já parecia ter trabalhado uma manhã inteira.

Murilo bateu palmas.

— Reunião rápida.

Os atletas formaram um semicírculo.

— Amanhã começa a competição. A partir de agora... não existe mais treino. Existe preparação. Tudo o que precisava ser aprendido... já foi aprendido. Agora é execução. Não espero menos que a excelência dos senhores.

Fez uma pausa.

Olhou para cada atleta.

— Quem entrar em quadra amanhã vai representar muito mais do que a si mesmo. Vai representar este clube. Quem ficou antes de vocês e quem vai chegar depois.

Silêncio.

Murilo respirou fundo.

— Hoje é o último treino. Façam valer.

Os jogadores começaram a se espalhar, Maurício ajeitou a joelheira. Respirou fundo. Olhou para a quadra, depois para Felipe, que conversava com a comissão técnica enquanto organizava a sequência dos exercícios.

Era estranho. Durante semanas, fez de tudo para evitar cruzar com ele. Agora bastava vê-lo de longe para que toda aquela confusão voltasse. Felipe levantou a cabeça por um instante. Os olhos dos dois se encontraram, foi coisa de um segundo. Felipe fez um leve aceno com a cabeça. Um gesto automático, Maurício respondeu da mesma forma, depois desviou o olhar primeiro.

Aquela pequena distância construída ao longo de três semanas permanecia ali. Invisível. Mas pesada o bastante para caber inteira entre os dois.

O aquecimento terminou em silêncio. Ninguém brincava. Nem Fernando, nem Lucas. Os preparadores distribuíam as últimas orientações enquanto Murilo observava tudo da lateral da quadra, prancheta fechada debaixo do braço.

— Hoje ninguém precisa mostrar nada diferente. Só façam o básico bem feito. Amanhã é outro jogo.

O treino começou.

Recepção.

Transição.

Sistema defensivo.

Cobertura.

A equipe principal enfrentava os reservas em uma sequência curta de pontos. O ritmo era alto. As correções, imediatas.

— Fecha a diagonal!

— Mais rápido!

— Volta, Maurício!

— Lucas, comunica!

A bola cruzava a quadra sem descanso. Maurício errava pouco. Mas toda vez que errava... Paulo aparecia.

— De novo atrasado.

Maurício respirou fundo.

Seguiu.

Nova jogada. Novo erro pequeno.

— Se chegar um segundo antes, ela vem na mão.

Maurício apenas assentiu. Continuou. Outra sequência. A bola escapou por centímetros.

Paulo balançou a cabeça.

— Você tá sempre jogando no quase.

Fernando olhou discretamente para Lucas. Os dois já conheciam aquele roteiro.

Lucas murmurou:

— Lá vem...

O treino seguiu. Até que Maurício mergulhou numa defesa difícil, conseguiu levantar a bola.

Mesmo assim... Paulo bufou.

— Você complica o que era simples.

Maurício levantou do chão respirando pesado.

Olhou para Paulo.

Pela primeira vez.

— Dá pra parar?

O ginásio inteiro pareceu diminuir o ritmo.

Paulo franziu a testa.

— Como é?

— Dá pra parar de pegar no meu pé cinco minutos?

Paulo deu um passo à frente.

— Eu tô tentando fazer você jogar vôlei.

— Não. — Maurício respondeu sem elevar a voz. — Você tá tentando provar que eu não devia estar aqui.

Silêncio.

Alguns atletas já haviam parado de treinar. Murilo observava sem interferir, ele achava que o conflito fazia bem para o time.

Paulo riu, incrédulo.

— Se eu quisesse isso, você já tinha pedido pra ir embora faz tempo.

Maurício respirou fundo, mas não conseguiu parar. Três semanas de pressão encontraram uma saída.

— Então por que tudo que eu faço nunca tá bom pra você?

— Porque ainda não tá.

A resposta veio seca.

Imediata.

Felipe apareceu entre os dois. Nem precisou correr, bastou chegar.

— Chega.

Paulo ainda mantinha o olhar preso em Maurício.

— Capitão—

— Eu falei chega.

A voz continuava calma, porém firme. Paulo deu um passo para trás. Bufou e virou de costas.

Felipe então olhou para Maurício.

— Tá tudo—

— Não precisa.

Felipe parou.

Maurício desviou os olhos.

— Eu consigo resolver sozinho.

O silêncio que se instalou foi diferente do anterior. Não era tensão, era surpresa.

Fernando olhou para Lucas. Lucas olhou para Fernando. Ninguém esperava aquela resposta.

Felipe demorou alguns segundos para falar.

— Eu só...

Maurício o interrompeu.

— Eu falei que não precisa.

Mais silêncio.

Felipe assentiu lentamente.

Não insistiu.

— Tá. — Virou-se. — Continua o treino.

Os jogadores voltaram às posições, mas ninguém voltou igual. Enquanto o exercício recomeçava, Felipe observou Maurício por alguns segundos. Tentou lembrar. Quando tinha sido a última vez que eles realmente conversaram? Na carona? Depois da festa? No depósito?

Foi então que percebeu. Não era aquele treino, nem aquela discussão. Maurício vinha evitando qualquer aproximação havia semanas. E ele... simplesmente não tinha notado.

O treino terminou quase uma hora depois. Murilo reuniu a equipe no centro da quadra, as últimas instruções eram objetivas.

Horários.

Alimentação.

Descanso.

Concentração.

Quando a reunião acabou, os atletas começaram a deixar o ginásio. Fernando chamou Lucas.

— Bora.

Lucas olhou rapidamente para Maurício.

Ele permanecia parado, recolhendo algumas bolas sozinho.

— Vai indo. Já alcanço vocês.

Fernando estranhou.

— Vai treinar mais?

Maurício apenas respondeu com um aceno. Esperou o ginásio esvaziar completamente porque, por ora, ele não queria companhia. Só queria uma quadra vazia. E mais algumas horas para tentar convencer a si mesmo de que era bom o bastante para vestir aquela camisa.

O ginásio foi silenciando aos poucos. Primeiro as vozes, depois as bolas quicando, depois o som dos chuveiros. Até restar apenas o eco.

Maurício permaneceu na quadra.

Sozinho.

Pegou outra bola. Sacou. A bola morreu na rede. Pegou outra. Respirou. Sacou novamente, dessa vez entrou. Correu para a posição de defesa. Recepção imaginária. Levantou sozinho.

Outra bola.

Outro saque.

Outra defesa.

Outra vez.

Outra.

Outra.

Não estava treinando fundamentos. Estava tentando calar a própria cabeça. Do corredor, uma luz ainda acesa chamou atenção. Felipe saiu do vestiário enxugando o cabelo com uma toalha.

Estranhou.

Aquela quadra já deveria estar vazia. Entrou devagar, encontrou Maurício sozinho.

Sacando.

Outra vez.

Outra.

Outra.

Felipe esperou o saque terminar.

— Achei que tinham esquecido a luz acesa.

Maurício buscou a bola sem responder.

— Fui eu.

Felipe entrou na quadra. Pegou uma bola que havia parado perto da linha lateral.

Jogou para Maurício.

— Faz tempo que tá aqui?

— Um pouco.

Silêncio.

Maurício sacou novamente. A bola saiu por pouco. Felipe caminhou até ela, devolveu.

— Tá nervoso com amanhã?

Maurício segurou a bola nas mãos.

— Tô.

Felipe sorriu de canto.

— Ainda bem.

Maurício olhou sem entender.

— Quem não fica nervoso antes de competir... ou tá mentindo... ou já desistiu de ganhar.

Por um instante pareceu que a conversa terminaria ali. Maurício preparou outro saque. A bola explodiu na linha de fundo.

Felipe sorriu.

— Tá vendo? Entrou.

Maurício nem comemorou. Foi buscar a bola. De costas, respondeu:

— Pra você deve ser fácil.

Felipe franziu a testa.

— O quê?

— Competir. — A bola voltou para as mãos. — Você nasceu aqui.

Felipe demorou alguns segundos.

— E daí?

Maurício girava a bola entre os dedos. Como se procurasse coragem.

— Você nunca precisou provar que merecia estar aqui.

Silêncio.

Felipe soltou uma pequena risada de incredulidade. Não de deboche, de surpresa.

— É isso?

Maurício finalmente explodiu.

— É... É isso. Você sabe o que acontece se eu não jogar bem amanhã?

Felipe permaneceu quieto.

— Eu volto pra casa.

Respirou fundo.

— Minha irmã vendeu o carro pra conseguir manter a casa enquanto eu não ganhava nada na base. Minha mãe começou a costurar até de madrugada. Meu avô voltou a trabalhar. Tudo pra eu conseguir chegar aqui.

A voz falhava.

Não pelo choro.

Pela raiva.

— Eu não tenho plano B. Se isso der errado... meu avô vai dizer "eu avisei". Acabou, eu fracassei.

Silêncio.

Felipe ouvia tudo sem interromper.

Maurício continuou.

— Você nunca teve que carregar esse peso porque esse lugar sempre foi seu.

A frase ficou suspensa no ginásio. Felipe abaixou a cabeça, respirou lentamente. Quando voltou a falar... a voz estava diferente.

Muito mais baixa.

— Você realmente acredita nisso?

Maurício não respondeu, Felipe deu um pequeno passo para trás. Como se precisasse de espaço.

— Você acha que eu tô aqui... porque sou filho do Murilo.

Silêncio.

— Você acha que nunca precisei provar nada.

Outra pausa.

Felipe sorriu, mas era um sorriso cansado. Sem humor.

— Você não faz ideia da quantidade de vezes que eu ouvi exatamente o contrário.

Maurício permaneceu calado.

Felipe continuou.

— Sabe o que diziam quando eu subi pro profissional? "Tá aí porque o pai manda." Quando eu jogava bem... era obrigação. Quando jogava mal... era porque o pai tinha favorecido.

Respirou.

Olhou diretamente para Maurício.

— Eu nunca pude errar. Porque meu erro nunca foi só meu Era do Murilo, do clube, da família.

Outra pausa.

— Então não... você não sabe nada sobre mim.

Silêncio.

Maurício sentiu o peso das próprias palavras. Mas o orgulho ainda falava mais alto.

— Mesmo assim... você ainda teve tudo.

Felipe ficou completamente imóvel. Foi essa frase, não a anterior. Essa. Ela acertou onde ninguém costumava acertar, ele assentiu devagar. Como quem finalmente desistia de explicar.

— Tá bom.

Pegou a mochila, passou por Maurício. Parou apenas um instante ao lado dele.

— Boa sorte amanhã.

E foi embora. Sem olhar para trás, sem colocar os fones, sem música.

O barulho da porta fechando ecoou pelo ginásio. Maurício permaneceu parado. A bola ainda presa entre as mãos. Tentou sacar outra vez, a bola bateu na rede. Caiu de volta aos seus pés. Ele nem foi buscá-la.

A quadra inteira parecia maior. Mais vazia. Pela primeira vez em semanas não estava preocupado com a competição. Estava preocupado com a conversa que acabou de ter.

E, por um instante, começou a desconfiar de que talvez tivesse julgado Felipe sem realmente conhecê-lo.

🏐

Fim do capítulo.

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Nos em breve, na próxima partida.

— Henrique Bravi