Acordei e encarei os braços do Suga envolvidos em minha cintura. O afastei devagar tomando cuidado para não acorda-lo e nem os outros. Fazia muito tempo que não tínhamos uma noite como aquela, apenas jogando conversa fora e sem ter que nos preocuparmos com as horas.

Abri a janela da sala para o ar fresco poder entrar e me dirijo para a cozinha, começando a preparar o café da manhã para os outros. O primeiro a acordar é o Jimin e como sempre sorridente vem se sentar-se à mesa.

— Então... como vai você e o Hobi? – Pergunto o ajudando a abrir a tampa do pote de geleia.

— Nós... obrigado... – pega o pote –... tudo bem, eu acho. Mas ainda não gosto daquela amiguinha dele. Como era mesmo o nome da praga? Vê? Ela é tão insignificante para mim que eu nem sei o nome dela.

Eu ri, Jimin era alguém doce e engraçado, mas quando estava com ciúmes... sai de baixo que é chuva de tiro.

— Ele te ama, Jimin, ele não vai te trair – digo tentando não rir da cara que ele faz.

— Ele que nem pense em me trair ou eu corto o amiguinho dele fora e... bom dia amor! – Diz sorrindo para o Hoseok que acabara de entrar na cozinha. Ver Jimin sorrindo era algo tão fofo, ele sempre fechava os olhos quando o fazia, não é a toa que o Hobi se apaixonou por ele.

O Suga aparece logo em seguida com o rosto marcado pelo travesseiro.

Comemos todos em silêncio com exceção do Jimin, como alguém podia ser tão alegre a essa hora da manhã? Nem o Hobi que é o Hobi estava tão animado assim. Logo eles tiveram que ir embora e eu fiquei sozinho de novo. Para afastar a solidão comecei a arrumar toda a bagunça feita por nós, limpar me deixava menos estressado. Aproveito e faço um café, vou em direção ao piano, é eu tocava piano. Repousei a xícara nele e me sentei passeando os dedos pelas teclas recebendo em resposta uma melodia doce e suave. Sabia muito bem como aproveitar um sábado tranquilo. Abri os olhos e tomei um susto, o piano era de frente para a janela e lá estava ele me observando. Saio rápido dali e termino o meu café. Por que eu ficava tão agitado assim quando o via? Eu não gostava de ser observado, ninguém gostava, era essa a única explicação.

Decido ir jogar o lixo fora, seguro os dois sacos e espero o elevador chegar, desço até o hall e saio do prédio cantarolando, vou até onde depositávamos o lixo e quando dou o primeiro passo sou puxado para trás pela gola da camisa, sinto minha costas se encontrarem com a parede fria do beco. Encaro assustado o cara da janela. Eu iria mesmo morrer assim?

— Por que estava me espiando pela janela? – Ele quis saber. Respirei fundo vendo sua franja castanha roçar levemente seus cílios escuros. – Não sabe falar? O gato comeu a sua língua?

— E-eu não... queria... – gaguejo. Ele tinha uma aparência rude e ao mesmo tempo seus olhos transmitiam uma sensação de perigo beirando a doçura. E que olhos. – Sinto muito, não vai se repetir, juro.

Ele estudou minha face por uns instantes e largou a gola da minha camisa. Olhei para baixo e senti seus dedos em meu queixo forçando-me a encara-lo.

— Olhe nos meus olhos quando eu estiver falando com você. Espero que isso não volte a acontecer, não gosto de tarados me vigiando sem que eu saiba – ele ajeitou sua jaqueta de couro preta nos ombros.

— Foi você quem estava me observando quando eu estava sem camisa e eu que sou o tarado? – Retruco.

Ele me olha com uma das sobrancelhas erguidas e se aproxima desafiador, seu rosto parou a centímetros do meu, agarrando minha camisa com força. Engulo em seco.

— Qual é o seu nome?

— Por que quer saber?

— Eu perguntei primeiro – rebate parecendo se irritar. Acho que não era uma boa ideia deixa-lo irritado. – Só responda, não tenho o dia inteiro aqui idiota.

— É Seokjin, Kim Seokjin – digo tentando me desvencilhar dele, mas o mesmo me impede.

— Kim Seokjin, é? – Ele murmura pensativo e logo me solta. – Sabe Seokjin, de onde eu vim cuidamos de tarados de uma forma... diferente, e vai por mim, você não vai querer descobrir. Agora suma logo da minha vista antes que eu me irrite, cansei de olhar na tua cara. Está esperando o que, hum?

Saio rápido tropeçando nos meus próprios pés e ouço a risada dele. Adentro o prédio e tento acalmar minha respiração acelerada. Que cara maluco, espero que não venha me perturbar de novo. Voltei para o apartamento e fiquei fazendo vários nadas até meu celular vibrar encima do sofá.

Desconhecido: Seokjin, por que continua olhando pela janela? Está querendo me ver? Se quiser é só dizer.

Eu admito, me flagrei olhando pela janela algumas vezes.

Eu: Como conseguiu o meu número?

Novo contato adicionado: O cara da janela.

O cara da janela: Isso não vem ao caso Seokjin.

Eu: Você está me stalkeando, é claro que isso vem ao caso. Tá maluco?

Eu: Nem sei o seu nome.

Eu: Sério que vai me deixar no vácuo?

Deixei o celular em qualquer lugar e resolvi ir dormir, o que não consegui por muito tempo já que às 3h da madrugada acordei com uma música alta que invadia todo o apartamento. Andei até a sala e abri a janela, não me deixou surpreso fato da música vir do prédio em frente. Parecia estar acontecendo uma festa dentro apartamento dele. O barulho de sirenes me chamou a atenção e luzes vermelhas e azuis tomaram o lado de fora da rua. Fechei a janela agradecendo por finalmente ter paz, mas estava enganado. Ouvi a outra janela da parede oposta ser aberta e então um vulto negro entrou pela mesma. Eu gritei, ele gritou e eu peguei a primeira coisa que vi pela frente para me defender.

Uma estatua de girafa do tamanho da minha palma.

— Quem é v-você e o que f-faz na minha casa? – Exigi saber gaguejando e sentindo minhas pernas começarem a tremer feito loucas.

O vulto encapuzado se aproximou e eu ergui a estatua até a altura do peito, ele fechou os dedos em volta da mesma tomando-a de mim e me empurrando para o lado rindo nasalado. “Essa risada...”

— Você é um frouxo Seokjin – puxou o capuz para baixo e riu outra vez. Agachou-se em frente à janela e espiou por entre a fresta da cortina.

— O que você quer na minha casa seu maluco? – Entrei em desespero. Ele podia muito bem ser um serial killer, psicopata ou sei lá. – Como subiu até aqui?

— Preciso dormir aqui essa noite, a polícia está na minha casa me procurando – ele murmurou voltando a ficar em pé. – E subi pela escada de incêndio, sabe que tem uma ali, não sabe?

— Não, você não vai ficar aqui de jeito nenhum – digo exalando desespero. – Se a polícia te pega aqui vão achar que sou seu cumplice, não posso ser preso por causa de um psicopata tarado com um parafuso a menos! Você pode muito querer me matar enquanto eu estou dormindo!

— Tenho coisas melhores para fazer do que te matar – diz indo se deitar no meu sofá. – E além do mais, o que eu ganharia com isso? Só um corpo para ter que me livrar.

Meu coração acelerou ao ouvir aquilo. “O que eu fiz para merecer isso?”. Fiquei encarando ele, com certeza eu não iria conseguir faze-lo mudar de ideia. Suspirei derrotado.

— Você pode dormir aqui – eu digo entre dentes. – Minha casa minhas regras: Não pode dormir de sapato no meu sofá; está limitado a ir ao banheiro e voltar para a sala, nada de entrar em outros cômodos; não toque em nada, pelo amor; e por favor não mexa na minha geladeira; sem contar que o acesso ao meu quarto está completamente fora de questão!

Ele soltou uma risada e levantou as mãos em sinal de paz, começou a tirar os sapatos.

— E só por precaução, me devolve isso – tomei a pequena estatua de girafa de suas mãos. – Não pense em fazer nenhuma gracinha ou vai se ver comigo, entendeu?

— Você sabe que... isso não vai te proteger, não é? – Ele perguntou debochado. Que ousadia.

— Calado – digo andando de costas até o corredor do meu quarto, corro para dentro do mesmo e fecho a porta.

Certo, recapitulando, tinha um maluco que não conheço dormindo no meu sofá que poderia me matar a qualquer momento. Gemi me jogando na cama, o que eu estava fazendo com a minha vida? “Não tem como piorar”, como fui ingênuo em pensar isso.

➳➳➳

Em algum momento acabei dormindo. Quando voltei a acordar senti o lado da minha cama pesado – digamos que pela manhã eu não funciono muito bem –, dei de cara com o cara da janela dormindo ao meu lado; usando minhas roupas e exalando o cheiro do meu sabonete. Eu gritei e levantei rápido o que consequentemente me fez tropeçar e cair no chão dando com as costas na parede. “Como esse idiota veio parar na minha cama?”.

— Por que está gritando tão cedo? – Ele resmungou tapando o rosto com o travesseiro.

Foi aí que lembrei o que aconteceu: a festa, a polícia e ele invadindo minha janela pela escada de incêndio...

— Como entrou no meu quarto?! Você está na minha cama, usando minhas roupas! E usou o meu sabonete! – Exclamei tirando o travesseiro de seu rosto. – Pensei ter dito que estava limitado a ir ao banheiro e a sala!

— O sofá estava muito duro, achei sua cama uma opção melhor – disse pondo as mãos atrás da cabeça, o que ressaltou seus músculos. Fiquei olhando por alguns segundos e então balancei a cabeça mentalmente, o que eu estava fazendo?

— Você é inacreditável! – Ralho tacando o travesseiro de volta em seu rosto com um pouco de força. – Vá embora!

— Tudo bem Seokjin, eu vou embora – levantou as mãos, brincalhão. Puxou a gola da camisa. – Te devolvo mais tarde.

— Pode ficar com elas – murmuro entrando no banheiro e pondo a escova de dente com pasta na boca.

Ele passou direto pela porta, mas voltou e enfiou a cabeça dentro do cômodo.

— Acho que deveria saber que... usei sua escova de dente também – ele disse com um sorriso largo no rosto. Engasguei e soltei a escova na pia, lavando a boca com água e sabão, é isso mesmo que você leu, sabão. – Obrigado por tudo Seokjin, te vejo por aí... e a propósito, aquele Japchae que achei na sua geladeira estava maravilhoso.

“ELE COMEU O MEU JAPCHAE?!”

— Você fez o quê?! – Gritei quando ouvi sua risada se afastar. – Seu... seu...

— E eu me chamo Kim Taehyung se te interessa saber – gritou de volta e ouvi a porta de entrada se fechar.