Gritos furiosos eram ouvidos em conjunto com o som de impactos ora de pedras, ora de pedaços de pau. O calor do fogo da grande fogueira espantava o frio de seu arredor, ainda que bastava afastar-se um pouco para a temperatura congelante vir a tona. A fumaça subia espessa ao céu estrelado e cada vez mais jogavam-lhe objetos para aumentar o fogo.

Alguns quilômetros dali um grupo de viajantes atravessava a trilha da floresta de Leibryn. Eram homens bem vestidos, montados em cavalos de raça e bem armados – no entanto em seu percurso simplesmente riam de piadas quaisquer. O mais velho parecia ter por volta de quarenta anos, com uma longa barba trançada que fazia-o uma figura curiosa em meio àquele grupo tão diferente de si, porém quem mais se destacava era um rapaz de olhar felino: sua risada era grossa, de certa forma engraçada, e seu porte era o mais elegante dos cinco, deixando claro seu sangue nobre.

– Sentem este cheiro? – um perguntou. A mata ao redor dos viajantes havia ficado para trás e, além da neve, tudo que havia era um grande portão feito com grandes e grossas estacas de madeira ao longe – É o cheiro de uma bela rainha dando uma bela entrada para grandes viajantes! Sem duvidas haverá algum bom prato mais a frente.

– Assim espero – resmungou outro –, pagaria com meu olho para comer uma boa carne agora!

– Se isto foi um bom prato, imagino que tenha sido queimado já há um tempo – retrucou o mais velho. O nobre fitou-o por um instante, encontrando certa preocupação em sua face.

– Algo de errado, Sir Manfk? – perguntou em tom mais baixo.

– Não imagino algo bom pela espessura da fumaça. Com as noticias que temos tido de Massord minha preocupação aumenta – comentou – Lady Belland deveria casar-se o mais breve, talvez um homem enfim colocasse ordem neste reino.

– Bem, a culpa não deve ser da falta de um homem. Acho Lady Belland uma boa governante, o que a estraga é minha ausência em sua cama – respondeu o homem que antes comentara sobre sua fome, arrancando risadas. A expressão do nobre se fechou.

– Calem-se. Não devem falar de uma nobre desta forma, por mais corrupta que seja. Massord era deste jeito desde o reinado de Lorde Belland, não devemos por a culpa na ausência de um rei, sendo que outro começou o problema – declarou.

– O mais sábio é pôr Massord nas mãos de novos governantes – resmungou Sir Manfk.

Não tardaram para chegar ao portão da cidade. A atravessariam, então avançariam até um pouco antes da nascente do rio, onde estaria finalmente o castelo dos Belland. Porém se o caminho até tal ponto fora tranquilo, ao chegar na cidade todo o caos parecia compensar: o ar pesado pela fumaça forçou-os a cobrir os rostos com panos ou mantos, os sons estrondosos pareciam vir de uma guerra travada ao lado de cada um quando na realidade estavam algumas ruas distantes.

O galopar dos cavalos tornou-se lento, os olhos estrangeiros passeando com descrença por toda a cidade destruída pelo próprio povo. O nobre, que vinha atrás de todos, possuía clara expressão de horror e buscava encontrar algum sinal de vida entre casas queimadas e sujeira.

– Céus, o que houve aqui? – exclamou um dos viajantes, este de olhos de um claro tom de castanho, ao passo que segurava com firmeza o cabo da espada, pronto para saca-la em qualquer momento.

– Apenas o que aconteceria em qualquer momento... – suspirou outro.

– Devemos sair da cidade o quanto antes. Não sabemos o quão violenta está sendo a rebelião, continuarmos aqui será um risco – disse o de barba – Milord, devemos ir o mais afastados do centro – silencio entre os homens. O mais velho virou-se, buscando o nobre – Milord?

Seu olhar mostrou-se em panico ao não encontrar seu senhor. Perto dali, no entanto, o homem seguia a galopes cuidadosos o som de um choro feminino desesperado. As interrogações em berros que tal pessoa jogava ao ar atingiam-lhe o peito como facas afiadas – e a medida que se aproximava, notava a dor em casa palavra. “Eu os odeio!”, gritava uma vez, para então seguir em um muxoxo mais baixo e soluçante em “...Por quê?”. O homem desceu do cavalo, seguindo até uma das poucas casas que não haviam se reduzido a cinzas – abriu a porta com cautela, então seguindo pela sala simples, bagunçada e suja: ali parecia que o fogo havia há um bom tempo sido apagado. Quando finalmente encontrou a dona da voz angustiante, franziu o cenho.

– Se era isto que ia ser, por que não mataram-me logo? Oh céus, oh céus! – sem notar a presença do homem, uma mulher de cerca de quarenta anos chorava abraçada a um livro grosso e amarelado. Seus cabelos negros emaranhados davam-lhe um aspecto rude e selvagem, o que em nada combinava com os traços delicados, porém castigados pelo tempo, de seu rosto. O rapaz quase podia ver sua irmã, o misto de delicadeza, dor e selvageria, e aquilo despertava-lhe um sentimento horrível e que não deveria sentir.

– Senhora? – o nobre abaixou-se ao seu lado – Venha comigo.

– Quem? Oh! – riu-se, alheia a todo o caos.

– Rápido, mulher! – em um grunhido por sua demora, ergueu-a e puxou-a para que o acompanhasse – Não desejo ficar mais um segundo apenas nesta cidade, então não faça-nos perdurar aqui – ainda que falasse, a mulher apenas sorria e o seguia. Não faltava muito para que chegassem no cavalo: apenas alguns passos. Ao lado da casa, como que vindo pelos fundos, risadas altas ecoavam como em um bar.

– Onde há de estar a louca, agora? Ah, veremos se desta vez suas maldições apagarão o fogo de seu corpo! – a voz masculina fez-se ouvir. O nobre passou a correr mais rápido, a mão firme no braço da outra. Subiram no cavalo. A conversa parecia mais próxima agora, mas o nobre já não ligava. Haviam escapado, certo? Haviam escapado.

– Para que lado está o castelo dos Belland, senhora? – questionou após algum tempo.

– O castelo da bruxa? – ela riu alto.

– Fale baixo! O castelo da rainha – corrigiu –, diga, para onde?

– Para baixo, para o inferno! – gritou, tornando a rir. Então ele notou que a dor que a mulher transmitia era ódio, que seu choro era maldições e que mais uma vez errara gravemente. Não voltaria atrás, no entanto. Havia salvo aquela mulher, mesmo que não parecesse merecer, e a levaria até um lugar que avaliasse ser seguro – Estão condenados! Todos! –, mesmo que sua paciência parecesse desaparecer a cada palavra da outra.

– Pelos céus, cale-se, mulher! Ah... Droga... – murmurou. Arriscou então um caminho, ignorando os gritos da outra. O que o nobre não sabia, no entanto, era em o quanto aquela mulher era odiada pela cidade mesmo não sendo parte da nobreza dos Belland. E, com tal má fama, sua voz chamara a atenção. Arthur de la Croix não sabia o que ou se ela pensava, mas arrependeu-se de tê-la salvo logo que uma flecha vinda de sabe-se onde atingira seu cavalo.

Caíram com um baque no chão imundo. Arthur sacou a espada, exclamando um rápido “me siga se quiser viver” para a mulher, que de forma surpreendentemente sábia o obedeceu. Não foram muito longe: dois homens fecharam o caminho armados um com um machado – atrás e na frente haviam arcos e miras preparados.

– Deixem-nos ir! O que fizemos? – questionou com indignação. Os demais riram.

– Vejam, aquilo em seu pescoço é uma esmeralda? – O mais forte dos que empunhavam machado apontou, aproximando-se perigosamente.

– Afaste-se! – o nobre se pôs em guarda. Suas chances não eram das melhores: e avançasse aos dois homens, seria morto por flechas, mas se começasse pelo arqueiro tinha a certeza de que seria degolado ou novamente morto por uma flechada. Apesar de grande, o homem a sua frente mantinha uma distância curta e não parecia dos mais lentos. A mulher ainda agarrava-lhe o braço, tremula, irritando-o com seus berros insanos.

– Ande, vamos terminar logo com este – o arqueiro reclamou da demora. Não iria ficar para ver sua sorte: avançou rapidamente contra ele, desviando de sua mira e perfurando-lhe o peito enquanto já recuava dos golpes de machado e buscava se manter o mais livre da mira do arco quanto conseguia, usando o corpo forte e largo do outro como escudo. A mulher correra para longe ao ver que não era o foco da atenção.

A arma de seu inimigo era mais pesada e, portanto, mais lenta, o que facilitava que a espada do nobre atingisse com ferocidade a cota de couro – porém esta parecia impenetrável: por mais que a atingisse, não causava mais que arranhões no adversário. Em algum lugar atrás do brutamontes, o arqueiro atirava flechas com inimaginável precisão, acertando-lhe o braço de raspão e, em outro momento, cravando-lhe uma flecha em seu ombro. Desviando de mais um ataque e acertando-lhe outro, conseguiu causar um dano um pouco mais grave no peitoral do homem, porém uma dor forte e repentina em sua canela o fez cair ao chão. O homem acima de si riu, empunhando o machado com olhar sanguinário.

– Acabe com ele de uma vez – resmungou o arqueiro. Arthur sabia que não iria conseguir lutar, não com uma flecha atravessada em sua canela, então rapidamente buscou apoio em seu título.

– Espere! Se me deixarem partir, terão grande recompensa de meu pai, rei de Irishin! – alertou.

– Um príncipe sozinho em uma cidade como esta? Pior: andando com uma louca? – foi a vez do arqueiro gargalhar – Conte-nos outra.

Antes que o brutamontes tivesse tempo de erguer o machado novamente, um vulto pequeno passou rápido sobre o nobre. O corpo forte caiu imediatamente com um baque no chão, a faca certeira afundada em sua testa. Arthur não ficou ali para ser alvo de novas flechadas, no entanto: rolara para o lado, recebendo ajuda de um de seus homens enquanto outro avançava em direção ao arqueiro que decidira por não encarar o grupo.

– Deixe-o – ordenou o nobre. Não queria perder mais tempo ali e temia por seus ferimentos. Arrancando a flecha de seu ombro com um grunhido de dor, porém evitando olhar para esta. O simples cheiro do sangue o fazia ter suaves tonturas. Subiu com o apoio de Sir Manfk no cavalo de um dos homens, agarrando as rédeas como se sua vida dependesse disto e fechando os olhos por um breve momento.

– Milord, tens certeza de que está bem a ir--

– Espero que saibam o caminho. Não desejo perdurar por esta cidade de selvagens uma hora mais – bradou, ignorando a pergunta não terminada do mais velho, que o olhou com preocupação. Sir Manfk servia sua família a mais tempo que Arthur de la Croix sabia e conhecia muito bem cada um de seus pontos fracos, ainda que aquele em especial fosse um segredo dos dois. Céus, como o príncipe estaria perdido se seu pai descobrisse de sua fobia desastrosa!

Chegaram ao castelo no começo da madrugada e não tardou para que criados surgissem de todas as partes. Enquanto um rapaz de estatura pequena e olheiras profundas ajudava-o a chegar até uma grande poltrona na sala, Arthur admirou-se com a grande luminosidade e luxo do local. Agora entendia o motivo do país ser tão pobre: toda sua riqueza estava ali, feita em comidas, móveis, decorações caras e exuberantes e outras futilidades – no entanto devia admitir que o lugar era incrível. Então, quando Catryna Belland cruzou a porta, se não tivesse tanto auto-controle, seu queixo estaria no chão. A mulher, mesmo em lugar tão encantador, conseguia ter seu brilho próprio e irradiava uma incrível aura de poder.

– Eu realmente sinto muito pelo que aconteceu, milord – disse aproximando-se lentamente, ainda que sua voz não transmitisse pesar. Sua analise sobre a rainha foi interrompida ao ter a flecha em sua canela retirada rapidamente, a dor na região dando-lhe o reflexo de olhar para baixo. Seu olhar não encontrou-se com seu ferimento, no entanto: apressou-se em virar o rosto para o outro lado com o olhar frio e os lábios cerrados – Alice irá terminar os ferimentos, ela o faz melhor. Saia – a mulher ordenou para o criado sem que seu olhar se afastasse do nobre. Não sabia dizer, no entanto, o que tal olhar transmitia para si senão desconforto, como se a mulher a sua frente pudesse ver sua alma e julgar cada pequeno movimento que fazia, preparando-se para dar um bote fatal na primeira distração do rapaz.

– Sinto tê-la acordado, lady Belland – disse ao tempo que uma jovem de no máximo dezesseis anos entrava na sala, reverenciando-os e em seguida ajoelhando-se ao seu lado e continuando o trabalho do outro criado para com seus ferimentos. A rainha fez um gesto rápido com a mão, balançando a cabeça.

– É o mínimo que posso fazer após ter sido tão terrivelmente recepcionado em meu reino. Traga-nos chá – pediu a uma criada, então voltando a fita-lo. Alice limpava o corte profundo em sua canela com extremo cuidado, porém o cheiro do sangue ainda causava náuseas no nobre. Enfim, quando a jovem passou algum tipo de pomada com cheiro forte de ervas, pôde relaxar um pouco a mente. A ardência foi rápida, mas poderosa, como se por cinco segundos sua pele estivesse sendo arrancada. Arthur de la Croix trincou os dentes, engolindo em seco e esticando o pescoço – Bem, mas o que o traz até aqui, milord? Imagino que vosso pai poderia ter enviado apenas mensageiros ou diplomatas comuns e não arriscado-o tanto. Sabe como vem sendo difícil controlar o povo nos últimos meses--

– O motivo de eu ter vindo não influência a mensagem que trouxemos. Arrisquei-me por meu próprio desejo, lady. Bem sabes que Irishin e Massord possuem uma aliança forte há tempos e agora isto não irá mudar, espero, no entanto a situação de vosso reino está colocando em risco nossa reputação... Entende o que quero dizer com isto, certo, senhora? Se milady possui tal postura diante da tragedia que ocorre em sua casa, o que dirão de nós, que a apoiamos? – a mulher ouvia em silencio com o olhar baixo, pesado. Ora bebericava o chá, ora agarrava o tecido de seu vestido longo, a face pálida e os dedos finos e quase esqueléticos falhando em esconder o nervosismo. Enfim Arthur de la Croix notara algum sinal de que aquela bela mulher não era um total iceberg – Não termina nisto, infelizmente. Recebemos notícias graves de que Reshine deseja interferir em vosso reinado e, aparentemente, possui apoio de algumas casas de Irishin e de Ghanda.

– Ah, céus! Por que estes loucos não deixam Massord em paz? – exclamou a mulher, incrédula. Então encolheu as pernas, fitando seu chá de forma pensativa – Eu realmente não sei mais o que faço para acalmar meu povo. Já ordenei a construção de casas, apoio às plantações... Porém nada parece suficiente.

– Mesmo? Vossas casas foram queimadas esta noite, imagino – o rapaz comentou com uma ponta de veneno. Ela o fitou com frieza, os olhos de azul impactante causando-lhe um breve arrepio.

– Não... As que foram queimadas pertenciam aos mais ricos da cidade – suspirou – Imagino que logo haja uma vingança por parte destes, mas não são meu maior problema.

– Não sabe o que seu povo quer, Lady Belland?

– O que não posso lhes dar: minha cabeça! – exaltou-se, então fechou os olhos por um breve momento, recompondo-se – As altas casas querem que me case, porém se o fizer posso pôr em risco minhas filhas, os seguidores de meu falecido marido almejam minha morte como punição, pois clamam que sou a culpada de sua morte, e os demais querem ascensão social, porém nada fazem para o merecer – ela franziu as sobrancelhas finas, fitando-o de forma quase desesperada – Eu já não sei como prosseguir, milord. Tudo o que faço que parece ser a coisa certa é visto como ofensas!

E então Arthur de la Croix notou que o problema de Massord era pior do que imaginava. Optaram por deixar a conversa para o dia seguinte, visto o horário, e o nobre foi acompanhado até o quarto de hóspedes por Alice. Agradecendo-a, fechou a porta atrás de si e deixou seu corpo pesar sobre a cama, enfim notando o quão cansado e dolorido estava. O cheiro da comida posta em uma mesa no outro extremo do quarto clamava por sua atenção, no entanto sentia-se sem forças para levantar novamente: se deixaria render apenas naquele momento. Fechou os olhos pensando sobre as palavras da rainha, no entanto, antes de sequer chegar ao rascunho de uma solução, o sono pesou sobre si, enfim fazendo-o encontrar paz naquela noite.

********************

Antes da chegada do nobre estrangeiro, ainda no começo da manhã, Gabriella Belland despertava com as cortinas douradas sendo abertas. Ainda remexera-se entre suas cobertas, relutante, mas então esticou-se e virou-se para fitar a jovem criada que preparava-lhe o café. Na mesa no outro extremo do quarto, uma bandeja com pequeninas tortas de mirtilo, suco de hortelã e um cacho de uvas a esperava, fazendo-a levantar com um sorriso em direção a criada.

– Bom dia, milady – abaixou a cabeça em respeito, a expressão simpática.

– Bom dia, Alice! – respondeu com empolgação, arrancando um sorriso infantil da criada de cabelos castanho-avermelhados presos em um coque firme. A nobre seguiu para a banheira que havia atrás de uma divisória dobrável de madeira, deixando a longa camisola branca e fina deslizar por seu corpo até o chão no caminho. Entrou na banheira sentindo a água quente relaxar seu corpo, o cheiro do óleo de oliva impregnando em sua pele – Algo novo? – perguntou após tomar um gole do suco.

– Sinto muito, senhora.

– Tsc, imaginei. Ian ainda me encontrará no jardim para o treino?

– Certamente, minha senhora. Sir Ian pediu-me para entregar isto para a senhorita, inclusive – a criada parou de pentear os cabelos da jovem por um momento, mas sua senhora fez um gesto com a mão para impedi-la.

– Deixe para depois. Quero meu cabelo preso o quanto antes – suspirou, massageando os próprios ombros e encolhendo as pernas sob a água. Enfim, terminado o banho e seus cachos loiro-escuros devidamente presos em um coque trançado, a princesa vestiu uma saia azul petróleo que ia até pouco depois de seus joelhos sobre calças de montaria, botas e um pulôver cinza-claro e pôs-se a fitar o pátio do castelo enquanto a criada buscava a encomenda. Não tardou e lá estava ela com um embrulho fino e comprido, o qual era fechado por um laço cuidadosamente posicionado – Alguma ideia do que seja? – riu, sentando-se e então colocando o presente sobre o colo.

– Nenhuma, senhorita – Gabriella fitou a criada, em seguida mordendo o lábio inferior.

– Já disse para parar de me chamar de senhorita, senhora ou outras bobagens quando estivermos a sós – repreendeu franzindo o cenho e em seguida voltando seus olhos para o embrulho. Desfez o laço, abrindo o embrulho gentilmente e retirando um pano de seda azul com um volume dentro. Desenrolou o tecido, então fitando com admiração a espada curta. Era simples, sem pedrarias ou qualquer decoração, ainda que em seu pomo tivesse entalhado o brasão da família real.

– Parece muitíssimo simples... – de cenho franzido, a princesa, concordou com um balançar de cabeça. Então pegou um pedaço de papel que viera também no tecido, abrindo-o com cuidado – Deseja que leia para a senhorita? – Gabriella olhou para a jovem, em seguida tornando ao papel. Alice, por ter sido praticamente adotada pela família real, havia sido ensinada a ler ainda nova, porém a loira gostaria de sentir as palavras de seu cavaleiro, absorver cada letra, imagina-lo escrevendo. Assim dispensou sua sugestão com um sorriso.

– Sei que está curiosa, Alice. Não se preocupe, sim? – riu ao passo que a criada corava.

“Lady Gabriella,

Sei que haverá de decepcionar-se com a ausência de joias e de acabamentos perfeitos, milady, porém logo notará o quão afiada esta lamina é. Não peço que largue seu treino com o punhal, no entanto, pois deves criar com este cada vez mais movimentos e estratégias. Estarei nos fundos do jardim logo que o sol começar a deitar a seu aguardo, minha senhora.

A propósito, espero que tenha sonhado comigo.

De seu Ian Cygnus.

A garota resumiu para Alice o que estava escrito, em seguida erguendo-se e guardando a carta dentro de um vaso na estante. Já a espada colocou sobre alguns livros enfileirados na prateleira do meio para que fosse vista por outros como nada além de um objeto de decoração. O dia passou como outro qualquer: suas aulas pesadas de política e história, em seguida, após o almoço, seguiu para a aula de costura e em seguida de enfermagem. Duvidava muito que viria a costurar por vontade própria um dia, mas fazia tudo com bom grado e humor, mesmo que em certos momentos recebesse olhares de censura de algum mestre. Enfim, quando o sino tocou quatro horas da tarde, aliviou os ombros.

Ainda devia tomar o café da tarde com o Barão e a Rainha, então tratou de apressar-se para a pequena mesa redonda que havia no pátio do castelo, pouco antes da entrada. Apenas sua mãe estava ali, o que fez a garota estranhar.

– Emil está ocupado com alguns assuntos – respondeu quando Gabriella perguntara sobre sua ausência, levando a xícara de café quente aos lábios finos.

– Posso perguntar o motivo de tanto estresse por parte de todos, ultimamente? – questionou, servindo-se com um pedaço de bolo de cenoura.

– Não é nada de mais – Catryna moveu os olhos de azul gélido, encontrando os verdes da filha. Não eram tão parecidas, Gabriella puxara mais o pai: seus olhos verdes, o tom mais escuro de loiro, o rosto redondo. Porém pequenos detalhes como os cachos e o formato dos olhos eram idênticos aos da mãe, assim como a personalidade forte e independente – Apenas alguns saqueadores causando problemas de novo... Não se preocupe, querida – o sorriso doce da mulher não foi o suficiente para acabar com qualquer desconfiança da princesa, a qual sabia que sua mãe não se preocuparia tanto com saqueadores. “Coloque recompensa por suas cabeças e está tudo feito”, diria ela com o semblante impassível neste caso, como tantas outras vezes fizera. Sob seu reinado, Massord certamente não era lugar para saqueadores.

– Se a senhora diz – murmurou, franzindo o cenho – Deixarei a mesa mais cedo, se me permitir. Desejo ir montar antes que escureça... – avisou ao terminar seu pedaço, tomando um longo gole do café forte.

– Volte logo, sim? A noite é fria e não a quero doente – a jovem assentiu, em seguida colocando sua mão sobre a da maior – Peça para alguém acompanha-la. Alice ou Sir Ian... Ou até mesmo alguma das outras criadas – então fez uma careta –, se souberem cavalgar, claro – riram.

– Alice detesta cavalgar, procurarei Sir Ian – assentiu, levantando-se – Até o jantar, mãe – a garota sorriu prestando uma rápida mesura e então dirigindo-se ao estábulo. O jardim ficavam no extremo oeste do castelo e ocupava uma enorme área, de modo que ir a cavalo seria muito mais rápido. Seguindo a trilha entre as flores de diferentes cores e espécies, enfim encontrou o homem sentado sob os pés da estátua de uma mulher no meio do gramado – Estou muito atrasada?

– Estou acostumado com sua falta de pontualidade, milady – debochou, levantando-se para ajuda-la a desmontar. A garota riu.

– Mas, céus! Alguém deveria cortar sua língua, pois é realmente venenosa, Sir!

– Se cortassem minha língua, quem iria fazer-te rir, lady Belland? – o olhar perigoso do outro pôs-se sobre os seus causando-lhe um rápido devaneio com seus lábios. Quase da mesma idade que ela, aquele homem era definitivamente a personificação do pecado: alto e com olhos de um escuro e profundo castanho, seus cabelos quase alcançavam os ombros e tinham um tom negro como a noite, fazendo um contraste belo com a sua tez clara. Seu porte físico era atlético, o que dava um ar ainda mais sexy a sua habitual expressão arrogante. Seu olhar parecia estar sempre provocando, como que testando sua sanidade para ver quanto tempo mais aguentaria resistir. E não iria.

– Ora, não és o único bobo da corte de Massord.

– Mas sou o único que a faz sentir desta forma – sorriu com doçura, os corpos próximos, a mão do homem acariciando-lhe a face gentilmente. Ela retribuiu o sorriso sem qualquer palavra para dizer, a face corada e sem jeito, perdendo-se no brilho do olhar do cavaleiro. Ficaram assim ainda por um bom tempo, sem uma palavra, ele apenas contemplando seu reflexo nos olhos verdes da princesa. Céus, como gostava de ver o mundo, mais precisamente se ver naqueles olhos!

– O que foi isto? – o rapaz foi despertado de seus pensamentos logo que o silencio fora quebrado. Tocando com cuidado o pescoço do outro, a jovem avaliou o corte recente – Estás ferido... – murmurou, em seguida exclamando com indignação – Quem fez isto a ti? – ele ainda demorou algum momento para responder, pálido. Então balançou a cabeça fitando-a com um pequeno sorriso de canto que nada transmitia.

– Acabei me cortando em um duelo qualquer, não se preocupe. Sequer senti! – riu. Mas Gabriella não era tola, conhecia muito bem a armadura de duelista que Ian usava e não havia qualquer possível abertura naquela região. Além disto, duelos fora de campeonatos estavam proibidos exceto em treinos e, mesmo que fosse esta a situação, ainda não seria possível pois as laminas usadas não possuíam ponta ou gume cortante.

– O que há de errado com todos vocês? – entreabriu os lábios, cerrando os olhos.

– Huh? Ainda não descobri nenhuma magia que torne-me invulnerável, milady – debochou.

– Trate de descobrir, pois não garanto que vá a sair inteiro quando eu descobrir o que está havendo que sequer você conta-me – grunhiu. Lembraria de conversar com o barão mais tarde, quem sabe conseguisse manipular a mente do velho para que contasse o que estava acontecendo, ainda que não tivesse tanta esperança. Gabriella tinha uma sensação ruim, ainda que a certeza de que não era algo tão grave quanto parte de sua mente ousava pensar – Eu devo ir, está ficando tarde.

– Já ficastes até mais tarde que isto! O que há? – ele franziu o cenho, segurando seu braço.

– Estou cansada – virou o rosto para encara-lo, então acrescentou com cautela disfarçada por um sorriso fraco – Nos veremos amanhã, sim? – o puxão em sua cintura a fez sobressaltar-se, seu corpo sendo puxado ao mesmo tempo que com força, com cuidado contra o dele. Seus lábios se selaram de uma única vez, a mão que outrora estivera em seu braço agora segurando seu queixo para que não recuasse. Mas não iria. Após algo que pareceu durar a eternidade para a jovem e um roçar final de lábios ele a soltou, ainda que a distância entre ambos ainda fosse quase nula.

– Amanhã – murmurou rouco, causando à outra um sutil arrepio. Ela o fitou por mais um momento antes de virar-se e partir sem ousar olhar para trás, onde o rapaz fitava sua figura desaparecer no horizonte com expressão pensativa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.