Título Indefinido
1 Capítulo 1
Notas iniciais
- Oliver! Por Deus me diga que desta vez não foi culpa sua! — Disse o Monge Gabriel enquanto corria para ver o estrago causado a cozinha do monastério. Monge Gabriel era meu maior companheiro, desde os meus primeiros anos cuidou de mim, era um homem de estatura média, cabelos já brancos contrastando com o negro profundo de seus olhos, quase tão negros quanto seu hábito (veste usada pelos monges)
- Não! Não fui eu! Nunca faria isso! Alguma coisa entrou e tentou me sufocar, e quando vocês chegaram sumiu. — Falei assustado e com voz ofegante, nos últimos meses os ataques à mim estavam se intensificando, porém nunca tinha como prova-los... Enquanto Monge Gabriel olhava os estragos ao longe do grande e largo corredor feito todo de pedras vinha Monge Paulo, sabia que dessa vez não escapava.
Monge Paulo nunca foi a favor da minha presença, insistia que a melhor forma de salvar o monastério era me mandando para Belo Horizonte, que era uns 150 quilômetros de São Benedito do Rio Claro, cidade onde ficava o monastério da congregação beneditina. De certa forma Monge Paulo estava certo, desde que cheguei no monastério as coisas começaram a dar errado, logo na minha primeira semana a horta de onde os Monges tiravam quase todo seu alimento amanheceu seca, misteriosamente. Quando tinha um ano e meio dois Monges morreram na ventania causada logo quando comecei a andar... E esses foram só os primeiros desastres, no meu aniversário de seis anos uma enchente acabou com todo o térreo do monastério, a única parte que ficou seca foi a biblioteca, que era formada de grandes paredes de pedra remetendo a era medieval, não que as paredes de todo o edifício não fossem, mas a da biblioteca era do tamanho de um braço adulto na horizontal, era composta por enormes prateleiras de uma madeira grossa e escura, ao meio possuía uma antiga escrivaninha de madeira entalhada e mármore bege, alguns Monges mais antigos diziam que ela pertenceu ao Papa Gregório VI, porém ninguém tinha certeza.
O monastério em geral era como um grande castelo medieval, porém eu nunca havia o conhecido por inteiro, ficava o dia inteiro lendo no jardim das oliveiras, normalmente algum livro sobre a história de como um herói grego havia matado legiões de monstros totalmente surreais,
Mas voltando ao foco principal, estava ferrado.
Logo que chegou à onde deveria ficar a porta da cozinha Monge Paulo logo fez questão de fazer o mesmo discurso de sempre.
- Esse marginal é um problema para o monastério Gabriel! Desde que ele chegou não temos um noviço! Ninguém quer mais vir para a nossa congregação, mas claro! Todo o mês um desastre novo! Semana passada a explosão nos dormitórios foi noticiada em todos os jornais do país! A mídia já está alugando casas ao nosso arredor esperando por mais uma catástrofe! – Falou Monge Paulo enquanto olhava aterrorizado toda aquela cozinha convertida em cinzas.
- Paulo! Tenho certeza que não foi culpa dele! Somente uma coincidência, Oliver é um bom garoto! – Disse Monge Gabriel, olhando assustado para mim.
Em meio aquela situação não tinha nada a falar, obviamente ninguém acreditaria novamente na minha explicação, somente me calei, enquanto observava as labaredas tomando conta do lugar. Nunca entendi como fui parar ali, não tinha lembranças anteriores a minha chegada, desde meu primeiro ano estava ali, um garoto em meio à dezenas de Monges, por sorte Monge Gabriel se ofereceu para cuidar de mim, porém não era igual a ter uma família, ele já estava em seus sessenta anos, não tinha forças para acompanhar minha hiperatividade, por sorte com o tempo fui me acostumando com aquilo, me refugiei na leitura, livros sobre teorias científicas, acontecimentos históricos, mitologia... a biblioteca era bem rica, é um dos maiores tesouros da congregação. Assim eu ficava, isolado num monastério à cinquenta quilômetros de qualquer cidade.
Enquanto estava envolvido em meus pensamentos outros Monges foram chegando, alguns me defendendo porém a maioria estava decidida de que a culpa fora minha.
- Há nove anos aturamos esse seu protegido Gabriel! Há nove anos ele vem causando catástrofes! Caríssimos, se vocês querem viver num monastério falido vocês que vivam por que se esse garoto ficar eu não fico! – Falou Monge Paulo com tom altivo, logo muitos dos Monges presentes o apoiaram, enquanto Monge Gabriel tentava me justificar o Abade Mariano, o responsável pelo monastério chegava, andando calmamente pelo largo e pouco iluminado corredor. Abade Mariano era sem dúvidas a pessoa mais sábia que conhecia, possuía longas barbas e cabelos brancos, deveria possuir no mínimo setenta anos, porém uma mentalidade responsavelmente jovial andava sempre com o capuz do hábito sob a cabeça, o que certas vezes o dava um ar sombrio, opositando-se com seu comportamento.
- Irmãos, o que houve aqui? — Falou o Abade com sua calma costumeira
-Essa peste quer nos destruir Mariano!!! Só tem nos trago problemas! Antes nós éramos mais de cem! Sempre unidos pela caridade! Mas agora nem para isso mais temos tempo! Ao invés de doar pedimos doações para a remediação das catástrofes feitas por esse garoto! – Respondeu Monge Paulo mais estressado ainda.
- Não aceito que falem assim com ele, é só uma criança! Entendam! – Exclamou Monge Gabriel enquanto me empurrava para longe da discussão – Oliver, vá para seu dormitório, amanhã conversamos-.
Assustado corri pelos corredores, sentindo a gélida brisa que vinha das janelas, olhei pela janela do salão de jantar, era uma noite linda, estávamos em período de Lua Cheia, as estrelas brilhavam de forma que nem a lanterna mais forte do monastério se igualaria, todos esses anos nunca tinha parado para observar como o jardim das oliveiras ficava mais bonito à noite, em pensar que na próxima manhã eu poderia perder tudo aquilo... Lembrava-me de quando o Monge Gabriel decidiu começar a me dar aulas, filosofia, inglês, latim... Qualquer criança da minha idade acharia super entediante, porém esses foram meus melhores momentos. E assim eu estava: uma criança órfã de pai e mãe, sem família, sem amigos (Monge Gabriel era muito meu amigo, porém sentia falta de ter alguém da minha idade para conversar), sem saber de onde veio, e agora provavelmente sem casa sem casa, estava chorando, nunca gostei de demonstrar fraqueza, porém naquele momento não me contive, enquanto me afogava em minhas lágrimas passou uma revoada de corujas de forma tão rápida que me assustei e caí em cima de uma antiga cômoda, derrubando um crucifixo de madeira, pensei ter visto uma daquelas corujas fixar os grandes e profundos olhos em minha direção, porém deveria ser mais uma das ilusões que formavam minha vida.
Decidi ir dormir, subi a grande escada de madeira em direção ao meu dormitório, logo após a entrada da torre de astronomia, onde me divertia muito, à esquerda do corredor que levava à biblioteca, bem no final do corredor principal, logo sentei em minha cama e coloquei o livro que estava lendo na cabeceira, A Líiada, não, desculpe, A Ilíada, de vez em quando confundia palavras ou as lia de forma errada, Abade Mariano disse que isso era dislexia.
Deitei em minha cama e fiquei olhando para o quadro de São Tomás de Aquino que Monge Gabriel arranjara para mim, era um grande estudioso, não parava de chorar, depois olhei para a porta, de onde vinham alguns Monges, provavelmente a discussão havia terminado, não estava com condições psicológicas para aguentar conversar com Monge Gabriel, decidi dormir logo.
Acordei o sol nem havia nascido, milagrosamente havia dormido bem, normalmente sempre tinha pesadelos, Abade Mariano dizia que era por tanto eu ler sobre monstros gregos egípcios, porém naquela noite havia tido o sono mais reconfortante da minha vida, logo fui tomar banho, com toda aquela situação tinha dormido com a roupa que estava. Peguei uma calça jeans e uma camisa branca em meu armário, todos os monges estavam em suas orações matinais na capela do monastério, então não enfrentaria filas.
Tomei o melhor banho da minha vida, senti como se toda aquela tristeza havia ido pelo ralo junto com a água, logo que sai passei pelo salão de jantar, onde haviam arrumado a bagunça que fiz na noite anterior, acima da mesa estava lá meu jantar, como sempre Monge Gabriel fazia: Torrada com geleia de amora, um copo de suco de melão e uma xícara de café, Monge Gabriel fazia o melhor café do mundo.
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