Tão longe do sol
5 Capitulo 5: A lua
O torneio para o novo cavaleiro demorou uma semana para chegar ao fim na cidade de Tun, todos os interessados foram jogados em uma arena, o ultimo a ficar de pé ganharia. Enquanto isso, todos os trabalhos da ordem de guerreiros de Tun foram ignorados, e nós, um sem-teto, um selvagem e uma menina irritante tentamos suprir, mas claro, era impossível para nós conseguirmos fazer tudo, e todos os dias mais e mais pessoas se agrupavam diante de nós, com pedidos cada vez mais complicados.
—- Mantenha a guarda, se você não estiver focado, você será morto. – Mets gritava, sentado em um banco, enquanto eu lutava ferozmente com um Goblin que estava roubando coisas das fazendas.
O Goblin era um monstro pequeno, sua cabeça chegava na minha cintura, e estava armado apenas com uma faca de caça, ele era rápido, e Mets caia na gargalhada todas as vezes que ele desviava de meus golpes, e ele desviou de quase todos. Mets insistia em me dar aulas de combate em quase todas as missões, não importa quão perigosa ela fosse, até o momento eu colecionava incríveis nenhuma missão bem-sucedida.
Tentei acertar o monstrinho com um golpe de espada, mas ele desviou com um pulo e minha arma ficou cravada no chão. O monstro correu para dentro de uma plantação, um machado passou voando por mim, e um baque surdo de carne se cortando deixou claro que Mets tinha acertado, ele estava rolando de rir no chão.
—- Você não consegue ganhar de um Goblin, cara! – A risada estava descontrolada, ele lacrimejava e rolava, derrubando algumas coisas em seu caminho.
—- Você consegue se superar sempre! – Bareka surgiu na estrada, ela decidiu que ficaria conosco por um tempo, para ajudar a organizar nossa vida, nós não pedimos, ela apenas disse que faria. – Sempre que achamos que você vai conseguir, você nos surpreende, e não consegue! – Ela começou a rir também.
—- Obrigado, Bareka, suas palavras são muito gentis! – Eu estava acostumado com isso, Mets era um mestre em combate, nunca o vi chegar perto de uma derrota, e Bareka dizia ser uma eximia feiticeira, mesmo nunca demonstrando nenhum de seus poderes.
—- Agora temos dinheiro para comprar uma pequena casa na cidade! Que acham? – Disse Bareka, segurando uma grande bolsa cheia de dinheiro.
—- Mets nunca vai morar na cidade! – Falou Mets, ele não tinha um bom histórico com a civilização.
—- E por que você fala tanto em “nós”? – Perguntei. – Quando você vai voltar para sua avó?
—- Temos mais um trabalho hoje. – Falou Bareka, fingindo não me escutar. – Os guardas da fronteira estão reclamando de esqueletos vagando a noite, querem que a gente de um jeito nisso.
—- Que estranho, geralmente os guardas cuidam desse tipo de monstro, eles são fracos. – Falou Mets. – Estou cansado! Vai lá pegar eles Mewt!
—- Bem... – Falei, e tive uma grande ideia. – Me parece uma grande oportunidade para Bareka nos mostrar seus poderes!
—-
Ela reclamou por todo o caminho, os esqueletos estavam nos portões do outro lado da cidade, e tivemos que esperar por algum tempo até anoitecer e eles aparecerem. Bareka não parou de se queixar, e disse que queria ir embora, mas ela falou isso tantas vezes nos últimos três dias, que perdeu a credibilidade.
Eram cinco esqueletos, eles vagavam sem rumo próximo a cabine dos guardas, que por sua vez estavam sentados, com as armaduras em cima de uma mesa e as espadas embainhadas. Os monstros não pareciam perceber a presença dos homens, mas emitiam um urro agoniante.
—- Finalmente vocês chegaram! – Falou um dos guardas, ele vestia uma camisa regata marrom e um jeans velho.
—- Você pode me dizer, por que vocês mesmos não cuidam deles? – Perguntei.
—- Nós não enfrentamos esses demônios, a não ser que eles atravessem a área de segurança, não somos pagos para nada além disso. – respondeu o guarda.
—- Ok. Mas vou querer mais dinheiro do que vocês ofereceram! – Falou Bareka, ela estava usando um short preto e uma blusa de alça azul, ela gostava de coisas coloridas.
Bareka tomou a frente dos guardas e tirou um anel dourado de um dos bolsos do short, o anel exibia uma pedra verde brilhante e no momento que ela o vestiu o clima do local mudou, o vento ficou mais forte, a escuridão pareceu ficar ainda mais densa, e tudo ficou frio. A feiticeira começou a recitar algumas palavras estranhas, todos os esqueletos se viraram para elas e sacaram espadas feitas de ossos.
A garota começou a flutuar, o vento a envolveu e ela subiu cerca de três metros, era uma cena assustadora, principalmente para mim, que nunca presenciei magia de batalha. Um trovão explodiu no céu e um raio acertou o grupo de monstros, que foram transformados em pó.
—- É isso. – Falou Bareka com um sorriso no rosto. – Estão satisfeitos?
—- Como esperado... – Falou Mets. – Você foi melhor que o Mewt.
—-
Os outros dias foram as mesmas coisas, matamos monstros, escoltamos pessoas pela floresta, ajudamos em reformas, treinamos. Eu estava começando a me dar bem com a espada que Mets fez para mim, eu estava definitivamente mais rápido e atento, eu me sentia no caminho certo. Bareka e eu alugamos um quarto no hotel da cidade, Mets voltava para sua clareira todas as noites. Ele se sentia muito incomodado quando estava dentro de um prédio.
—- Bareka, qual a diferença entre magos e feiticeiros? – Perguntei em uma noite, eu estava animado, naquela tarde eu tinha finalmente derrotado um grupo de goblins encrenqueiros que insistiam em destruir algumas plantações.
—- Sério? – Bareka estava sentada na cama dela, vestia uma camisola amarela e parecia extremamente cansada. – Tudo bem, por onde começar? Bem... A diferença básica entre magos e feiticeiros é o domínio sobre as forças da natureza. Um mago nasce com o dom natural de controlar essas forças, enquanto o feiticeiro precisa de algum objeto para canalizar todo esse poder, existem histórias de feiticeiros que superaram essa barreira, mas nenhum vivo nos dias atuais para provar.
—- Entendi... Sua vó, ela é uma feiticeira? – Perguntei.
—- Sim, a melhor que eu já conheci, e a única a ter alguma voz dentro do conselho mágico. – Respondeu Bareka orgulhosa.
—- Feiticeiros não participam do conselho mágico?
—- Bem, eles tentam. Feiticeiros são muito descriminados, os magos se dizem superiores graças aos seus dons. O primeiro rei que tomou posse após os anos do extermínio era um mago, e desde então todos os reis deviam ser obrigatoriamente magos.
—- Entendi. O que foram os anos do extermínio? – Perguntei confuso e Bareka pareceu surpresa com a pergunta.
—- Eu sempre me esqueço que você mora na rua. – Falou a feiticeira. – Os anos do extermínio foram os primeiros anos após o surgimento dos monstros, quando a humanidade foi extremamente reduzida.
—- Para sua informação, eu só não sabia que esses anos tinham um nome. – Falei.
—- Tudo bem, eu acredito. – A garota falou dando risada. – Agora não quero mais responder nada, boa noite.
Bareka se virou e dormiu, eu fiquei encarando o teto por algum tempo até pegar no sono. Quando dormi, sonhei, o mesmo sonho de toda aquela semana.
Era um castelo antigo, iluminado apenas pela luz da lua, sentados em uma mesa redonda, três homens encapuzados conversaram sobre algo, aos seus pés, dezenas de corpos estavam jogados nas mais estranhas posições. E no ponto mais alto da sala, uma bandeira exibia uma lua crescente.
—-
Acordei no outro dia com um mau pressentimento, o quarto estava escuro, trovões colossais calavam o barulho da cidade, Bareka não estava na cama, me levantei ainda sonolento e fui para a rua. Ultimamente algumas pessoas estavam me olhando de maneiras diferentes, algumas com horror, de ver um sem-teto no mesmo hotel, outras com gratidão de missões feitas durante a semana, mas naquela manhã as cosias estavam diferentes.
As coisas estavam extremamente calmas, nenhuma conversa, nenhuma confusão, ninguém comprava, ninguém vendia, na rua, as pessoas andavam devagar, olhando todos para o mesmo ponto, um grupo de homens montados em grandes cavalos negros, todos vestiam um sobretudo branco, eles estavam parados em frente a ordem dos guerreiros de Tun em meio a chuva, mas eles não estavam molhados.
Então um trovão explodiu, mais algo que qualquer outro, muitas pessoas se encolheram e taparam os ouvidos, então Sury surgiu em um acesso de raiva, com espada em mãos e armadura completa, o elmo deixava a mostra apenas seus olhos azuis, que agora estavam tão intensos que pareciam iluminar a escuridão daquela tempestade.
Ele avançou na direção dos homens e tentou acertar o primeiro, mas sua espada foi parada por algo aparentemente invisível, o guerreiro então foi arremessado de volta, em direção a uma parede, o impacto pareceu sacudir todo o prédio. Sury se levantou, sangue escorria em sua armadura dourada, sua espada tinha sido partida ao meio, ele lutava para ficar em pé, então outro trovão, e pouco depois um raio acertou a estrada da sede.
O lugar explodiu em chamas, Sury estava de joelhos, ao seu lado surgiu uma grande bandeira, negra e com uma lua crescente no meio, a presença dela era intimidadora. Então um urro ensurdecedor chegou aos meus ouvidos, pessoas correram assustadas, fumaça invadiu a rua, e então um grande dragão pousou no centro da cidade.
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