Tão longe do sol
2 Capitulo 2: Uma fuga
Acordei novamente no meu beco, entre a loja de doces de Godric e a loja de roupa, não fazia ideia de como cheguei até ali, fiquei por algum tempo deitado entre os trapos pensando se tudo não passava de um sonho, talvez Mogut era apenas minha imaginação me lembrando como eu não consigo fazer nada. Foi então que Godric apareceu na porta.
—- Mewt! Achei que você estivesse finalmente morto. – Falou dando risada.
—- Não seria tão fácil, mas o que aconteceu? – Perguntei confuso.
—- Ontem, no final da tarde, um velho bruxo te trouxe até aqui, te jogou aí no canto e foi embora. Eu arrumei suas coisas. Quem era ele? – Explicou Godric.
—- Até onde sei, mais um Sun inconveniente. – Respondi, Godric gargalhou e voltou para dentro da loja. Então nada foi um sonho, tudo real, Mogut, o Minotauro, eu nocauteado depois de fugir vergonhosamente. Pra mim, ali foi o ponto final.
Me levantei e deixei os trapos para trás, sai pelas ruas do centro, meio tonto de sono, com o peito doendo graças a um coice monstruoso. Hoje tudo parecia estranhamente agitado, o sol ardia, as pessoas trombavam em seu caminhar desconcentrado, algumas chegavam até a olhar para mim. As lojas estavam entupidas de turistas, a porta da ordem dos guerreiros de Tun estava vazia, ocupada apenas pelo velho recepcionista, ele me viu, e passou a mexer em alguns papéis, passei pela porta sem qualquer sinal, era a primeira vez naquele mês que eu não entrava ali.
Ao sul de Tun, as fazendas estavam silenciosas, o vento chacoalhava as plantações, algumas velas ainda estavam acesas nas propriedades mais humildes, a velha Clotz não estava em casa, tudo estava trancado e apagado. Foi quando ao longe, um grande cavalo branco surgiu, guiado pelo seu dono. Uma figura muito conhecida por toda Drakhty.
—- Bom dia jovem. – Falou o homem, sua voz era grave, vestia uma armadura completa, dourada e arranhada por marcas de batalha, segurando seu elmo na mão direita deixava a mostra seu rosto. Seus cabelos eram loiros até o pescoço, olhos tão azuis quanto o céu o mais limpo, nenhuma cicatriz cortava seu semblante superior. Olhar para ele era intimidador.
—- Bom dia, Senhor Sury. O que faz por aqui? – Falei. Sury era o mais habilidoso combatente de Tun, dizem que recusou uma dúzia de convites da ordem real.
—- Estou atrás de um Minotauro, algumas pessoas disseram ter visto o monstro por aqui. Imagino que seja engano, algo como isso não passaria pelos guardas da fronteira. – Falou e gargalhou, até sua risada soava heroica.
—- Pois eu confirmo que aqui tinha um Minotauro, vi bem de perto. – Levantei a camisa, mostrando uma marca de pata gravada bem no meio do meu peito.
—- Imagino que você o tenha matado, caso contrário não estaria vivo aqui para me contar essa história. – E sorrio.
—- Não, acho que Mogut fez.
—- Mogut? O ministro da magia? – Falou surpresa. Em sua voz, parecia um ator encenando.
—- Ele mesmo. – Falei, e o grande guerreiro pareceu se perder em seus pensamentos, olhando para o céu imaginei que ele poderia estar pensando em o que poderia fazer, ou quem sabe, em como ele poderia parecer mais incrível. O ego dos Sun’s mais conhecidos é bem grande.
Sury continuou sua caminhada, e eu segui o caminho contrário. Meu desejo no momento era apenas desaparecer, queria esquecer minha vida na rua, queria voltar a ter uma família, queria poder dormir em um lugar, que eu não acordasse em meio a ratos e lixo.
A fronteira era um lugar perigoso, mesmo com a presença de vários Sun’s iniciantes, andar por lá poderia ser uma aventura, era uma grande faixa de terra que separava a cidade dos vales selvagens de Drakhty, habitadas por monstros menores, que eram caçados pelos novatos, e por alguns monstros maiores, que facilmente abriam caminho por entre as barreiras.
—- Você não devia estar aqui garoto. – Um jovem Sun falou comigo, ele vestia uma túnica marrom, seus cabelos estavam descuidadamente cortados rente a sua cabeça, sua expressão era de tédio total.
—- Eu sei que não. – Respondi. – Mas é melhor que ficar jogado nas calçadas do centro.
—- Você é o garoto sem-teto de Tun certo? – Confirmei com a cabeça, como já disse, sobreviver sem uma casa era algo raro em toda Drakhty, então eu era conhecido. – Por que não tenta entrar para a Sun, mudar de vida?
—- Acha que não tentei? – Respondi sem paciência. – Fui recusado mais de 10 vezes essa semana.
—- Que estranho, eu entrei rapidamente. – Disse orgulhoso. – Meu pai me indicou para alguns amigos da ordem. Agora sou aprendiz do mago chefe. Um posto bem cobiçado. – Ele gargalhou. – É fácil...
Virei as costas enquanto ele continuava se gabando. Uma característica das ordens de Sun’s era sua hierarquia muito sólida, era muito difícil se tornar grande sozinho, geralmente, você se aliava a poderosos e assim, se tornava poderoso. Isso me enojava.
Os portões da fronteira eram extremamente altos, alguns era impossível ver seu topo em dias nublados, era impossível para um humano move-los apenas um centímetro, alguns dizem que foram feitos em uma aliança dos humanos com gigantes, mas eu nunca vi um gigante para perguntar. Na base das grandes portas, os guardas fizeram buracos para usar de portas, assim conseguiam entrar e sair sem mover as grandes barreiras.
Apesar do grande número de guardas, ninguém era impedido de sair do território de Tun, mas existia uma revista rigorosa caso você quisesse entrar. Quando passei ninguém se quer me dirigiu uma palavra, todos estavam ocupados polindo armaduras e espadas, itens em tão perfeito estado que me pergunto se um dia conheceram a batalha.
O lado de fora era a vista mais maravilhosa que eu conhecia, arvores milenares tocavam os céus com seus galhos gigantes, o vento uivava ferozmente por entre as raízes e o barulho da vida animal ali presente não parava nem por um segundo. As folhas mostravam as mais variadas cores, era uma belíssima pintura viva, milhares de poetas passaram suas vidas tentando descrever aquilo em palavras, e morreram tentando.
—- Dizem que a humanidade vai ser extinta antes de conhecer metade dos segredos das florestas. – Um homem parou ao meu lado, era Antar, um jovem entusiasta dos poetas da floresta. Ele vestia uma camisa rosa desabotoada e uma bermuda verde, todo sujo de terra ele começou a falar de tudo que sabia da floresta. Segui caminho, ele nem notou que eu não estava mais ali escutando.
Eu não sabia onde iria, mas eu precisava de um novo rumo, imaginei que poderia encontrar algo nas terras selvagens, sem roupas para trocar, panos para me cobrir, o que me esperava ali era tão incerto quanto o numero de estrelas que apareciam no céu toda noite. Com o passar do tempo fiquei tão distante dos portões que já não escutava nenhum barulho dos homens, eu estava sozinho.
O vento parou de soprar, eu estava agora em uma clareira, eu me sentia vigiado, inseguro e vulnerável, os arbustos ao meu lado começaram a se mexer, suas folhas se agitavam, todos, eu estava cercado, folhas vermelhas das arvores ao meu redor começaram a cair, e então eles surgiram. Diante de mim 5 lobos gigantes furiosos, seus rosnados eram ensurdecedores, meu corpo congelou. Todos eram negros como carvão, do tamanho de carroças, eu não tinha para onde ir.
A floresta ficou em silencio, o guerreiro mais próximo estava longe o suficiente para não escutar ao menos meus gritos de agonia. Eu estava paralisado, o maior deles caminhou em minha direção, calmo e lentamente, cheirava a animais mortos, estava tão perto que eu podia ver pedações de carne entre seus dentes. E então tudo aconteceu.
Um machado vindo de lugar algum acertou o lobo entre os olhos, ele uivou e caiu, uma voz bem grossa ecoou “Venham me pegar cachorrinhos!”, do outro lado da floresta, um homem surgiu entre a folhagem, era tão grande quanto os lobos, com cabelos negros longos até as costa, um rosto sério e marcado por cicatrizes, vestia apenas uma calça jeans rasgada e segurava uma foice tão grande que poderia partir qualquer arvores em apenas um golpe.
Os lobos partiram para cima dele, ele girou a foice e acertou o primeiro, um segundo conseguiu morder seu braço esticado, mas ele o empurrou com um soco, o terceiro pulou por cima do homem, e o derrubou, mas ele girou no chão e rapidamente estava de pé, com um serio arranhão no peito, apontou a mão para o machado que estava cravado no lobo, a arma tremeu e voou na direção do homem, que pulou ao seu encontro e a cravou nas costas de um dos lobos, agora eram 3.
Dois deles tomaram a frente do lobo que estava com a foice fincada em uma pata, o homem puxou o machado do lobo caído, os animais não avançavam, o homem os encarava, segurando o machado tão forte que seus dedos estavam brancos. Ele caminhou na direção do lobo, eles rosnaram, mas não atacaram, seus passos pareciam ecoar, mais alto que o rosnado dos animais, ele puxou a foice do lobo e virou as costas, o monstro se arrastou para dentro da floresta, os outros o acompanharam.
-- Essa foi por pouco. – Falou o homem. – Achei que eu ia morrer. – Ele riu, eu também, e nem sei o porquê.
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