Sóis

1 Capítulo único


Notas iniciais
Espero que gostem :)

Chuva. Foi a primeira coisa que pensei quando acordei, antes mesmo de abrir a janela eu sabia pelo barulho que estava chovendo, o som das gotas, plic plic plic, na panela que eu sempre deixava no chão por conta da goteira no teto de palha da choupana, e então Liza, ela não estava ali do meu lado, as provas de que ela não havia ido como da última vez eram as roupas espalhadas pelo quarto do jeito que deixamos quando tiramos do seu corpo.

Me dirigi para a cozinha e ela não estava ali, a porta de rede estava aberta e a porta para a rua também, aquele era mais um de seus rastros, caminhei até a varanda e vi, no meu quintal, que era praticamente toda a reserva florestal já que aquela era a única choupana num raio de 500 quilômetros, Liza nua, dançando na chuva, de costas pra mim, sentindo cada pequena gota rolar pelo seu corpo, deixando molhar-se. Mesmo sem ver seu rosto eu sabia que ela sorria de olhos fechados da mesma forma como fez noite passada ao ouvir um vinil inteiro de jazz clássico tomando vinho branco, sem falar uma palavra.

Observei ela se virar quase que em câmera lenta, o sexto sentido que todos possuímos de saber quando alguém nos observa a avisou que eu estava ali e ela abriu os olhos, seu sorriso porém aumentou e ela correu descalça, chapinhando na lama até a varanda, me olhou sem dizer uma palavra e estendeu a mão, dei a mão para ela, estava fria e molhada, ela me puxou para o meio da chuva tirando o pouco de roupa que eu vestia, passamos a dançar uma valsa desengonçada dois pra cá dois pra lá, mudando o ritmo a cada instante, o problema de uma dança descompassada é que apenas um deles tem desenvoltura pra ficar bem, o outro mais parece um adereço tentando se encaixar.

A cada volta em volta de mim era um sorriso bobo a mais na lista de sorrisos bobos que ela me fazia abrir, logo estava frio demais e os lábios dela estavam roxos e a convidei a entrar, ela parecia não querer ir, mas era necessário, e eu sempre fazia o que era necessário ser feito e ela nunca havia olhado as consequências de forma que deixasse algum comportamento por medo delas, então a peguei no colo, como quem pega uma criança e deixei um beijo em seus lábios gelados e ela apenas sorria mexendo no meu cabelo.

—Será que as flores são felizes?

Ela perguntou tomando um chá enrolada num cobertor enquanto olhava pela a janela.

—Flores não têm sentimentos.

—Somente um idiota acredita que seres vivos não possuem sentimentos.

—Somente um idiota acredita que sim.

—Então temos um idiota nesta sala.

—Acredito que sejam dois.

Ela sorriu e se aproximou deitando a cabeça no meu peito, os olhos, sempre tristes mesmo quando estava sorrindo, voltados para fora, a chuva já havia passado mas nuvens ainda cobriam o céu, os girassóis todos pareciam realmente cabisbaixos sem a presença do sol para animá-los, talvez eles tivessem sentimentos.

—Se eu fosse uma flor, eu acho que seria um Girassol.

—Por que você diz isso?

—Você sabe como sou, gosto de liberdade, gosto de me movimentar, acho que os girassóis também.

—Se explique.

—Flores precisam estar bem presinhas ao solo se não morrem, se mantêm bonitas por um tempo mas depois morrem, Girassóis não gostam disso, eles querem movimento, mas não têm escolha, então a única coisa que fazem para se sentir mais vivos é acompanhar o movimento do sol, assim não estão totalmente parados como as outras flores, mas continuam vivos.

—Então você é um girassol?

—É, quase isso, mas eu não fico no solo.

—Você vai morrer.

—Todos vamos.

—Você entendeu.

— Entenda você, eu prefiro morrer antes do que o esperado do que viver uma vida longa apenas acompanhando o movimento do mundo com os olhos.

—Lisa…-Me sentei direito para olhá-la nos olhos, eu queria chorar, queria implorar para ela parar com aquela conversa, para ela sossegar e ficar comigo para sempre, mas aquilo seria egoísmo demais, então fiquei quieto, apenas olhando-a, observando as sardas em baixo dos olhos, as maçãs do rosto proeminentes, as sobrancelhas escuras e o cabelo claro feito trigo, observei o quanto ela era linda e a tristeza de não possuí-la não chegava nem perto da alegria de tê-la esporadicamente.

Acordei, e desta vez não havia chuva, nem Liza, apenas um Girassol na minha escrivaninha, um pouco murcho, triste, assim como toda a casa e atmosfera do lugar, dessa vez eu não chorei, eu não fui atrás de nenhuma outra garota, por que desta vez eu havia entendido, entendi que ela era flor demais e eu era raíz, que eu era Touro, terra demais pra ela Sagitário que era tão livre quanto o fogo, que deixava uma marca onde passava e que me marcou demais pra esquecê-la.

Notas finais
Obrigada por ler ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!