Síndrome de Gaea.
31 sim.
Se eu me distrair o suficiente, consigo esquecer os últimos anos da minha vida. É tão triste que eu sempre esteja fazendo o melhor que posso, e eventualmente vou achar meus esforços patéticos. E tem você. Falar de quem eu fui não poderia não estar atrelada a quem você é. Eles deveriam ter visto minha cara na primeira vez em que eu te vi. Palavras difíceis, jovem menina, ego grande. Sentar de costas pra estantes de livros, unhas roídas pela metade e livros de capa dura. Eu achava que sabia tudo, você sabia que queria tudo. Eu nem sequer percebi que você estava me predando.
Me sinto uma idiota. Com uma cicatriz nas costas tão grande que eu poderia dar luz a Eva novamente. Você bateu tanto no meu emocional que às vezes eu tenho certeza que eu sou um espelho quebrado no chão. Eu teria feito qualquer coisa pra manter você me elogiando, e me envergonho de todas as atitudes desesperadas que eu tomei apenas pra que você não percebesse o que era, na realidade, o motivo do seu interesse. — Eu era uma criança contando segredos para um adulto no parque.
Eu ainda me lembro. Sentados em um banco de praça, me pedindo pra escolher entre meu auto-respeito e você, sabendo que nem isso eu tinha mais. Todas às vezes em que eu me arrastei bar por bar, beco por beco, completamente rachada por suas palavras hostis. Apagando no banheiro e acordando na sua cama sem roupa, organizando meus pensamentos confusos antes de vomitar novamente no seu chão de porcelanato. Contando os centavos pra comprar macarrão porque gastamos todo o nosso dinheiro com álcool. Limpando o chão da cozinha porquê o seu sangue está por toda parte. você disse que não suportaria se eu te deixasse e então se esfaqueou. Engraçado, por um segundo eu desejei que você morresse naquele chão imundo. Eu nunca admiti isso, mas nós dois sabemos que é verdade. Os vestidos de cetim que curiosamente marcavam os bicos dos meus seios que você me dizia pra usar nas confraternizações da sua firma, me exibindo como um troféu até que eu ultrapassasse a fina linha entre vulgar e sedutora. Eu nunca sabia quando você ia decidir que eu passei dos limites, também não sabia suas reações, 21 anos.
Você disse algo sobre minha mãe, e eu estava de saco cheio, então joguei um prato de porcelana na sua cabeça. Eu disse que você não conseguiria evitar de ser um bêbado como seu pai e então você cuspiu água no meu rosto. Meus amigos diziam que você ia me matar. Os seus amigos brincavam que você me buscava na porta da escola — O que era quase verdade. Eu não percebi que minha inocência estava escorrendo pelos meus dedos. Eu não me toquei nem por um segundo, que essa era a graça da situação pra você.
Eu ainda sinto um gosto amargo quando penso em você. Me parece tão injusto que você tenha qualquer tipo de vislumbre de felicidade na vida quando você me roubou uma das poucas coisas bonitas sobre mim — Minha bondade. Quando olho meu reflexo no espelho posso assistir tudo o que você me fez passar, tudo aquilo que eu escondo à sete chaves para todos, todas as lembranças dilacerantes de como você me dizia que éramos iguais logo após de fazer a coisa mais cruel que era possível ser feita no momento.
Você não se arrepende? Você sabe o que fez, não se arrepende nem um pouco? Você sabe que nunca foi exatamente justa, a situação. Você fez de propósito? Porque? Eu não merecia nada daquilo.
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