Síndrome de Gaea.

47 legado do caralho.


Eu costumava abaixar o vidro do carro pra sentir o vento bagunçar os meus cabelos, o Sol costumava ser muito forte durante esses momentos do dia, me fazendo ter de por as mãos sob os olhos para cobri-los. Era religioso, sagrado e contínuo: Todas às Sextas-feiras, como se todos os relógios do mundo estivessem alinhados para aquele momento em específico, eu esperava ansiosamente no último degrau da escada da casa da minha avó materna a sua chegada, com minha mochila feita cuidadosamente e um saco cheios de brinquedos. Você sempre vinha, certeiro como um trem-bala, você sempre chegou até mim. Se não as sextas, pós expediente, aos Sábados, pelo nascer do Sol. Duas horas para ir e duas horas para voltar, formando quatro horas no total, todos os dias de sua vida dos meus quatro anos até os meus quase quatorze, quando tudo a nossa volta começou a ruir novamente. Eu sabia, você tinha recaído. Começou de novo. Só que ia ser pior. Eu sabia que seria muito pior. Você não deixou que eu perdesse o contato com a família do meu pai biológico, você não deixou que eu fosse jogada e esquecida como uma caixa de sapato que não tem mais utilidade, você continuou vindo me ver. Talvez por culpa do que aconteceu, talvez por lealdade. Eu me lembro dos sons das chaves que você carregava no seu peito, me lembro das camisas que você usava, me lembro que não importava a hora, o dia ou o momento em que eu ligasse, você apareceria. Mesmo com seus problemas, mesmo com seus vícios, mesmo com suas doenças. Esse é o homem que eu me lembro que você foi e eu me lembro de tudo, tio.

Cada bendita memória. Me lembro de passarmos pelos mercados atacados durante à noite para abastecer o mercado da vó, de você me mostrando lotes e me explicando o porquê comprava mercadoria dessa forma ao invés de separados como se fossemos iguais, sem falar comigo como se eu fosse uma retardada afetada como a maioria costumava fazer naquela época. Você sempre foi uma pessoa respeitosa. Me lembro de como você não brigava comigo porque eu gostava de rodar nas cadeiras que estavam expostas lá. Todos brigavam comigo o tempo todo naquela época. Eles me achavam inconveniente, mentirosa, fantasiosa e fora da realidade, mas não você. Você me ouvia ainda que soubesse que era mentira ou uma fantasia que minha cabeça inventou porque a realidade daquela época era violenta demais pro meu pobre coração de cinco anos. Você entendia que eu não era inconveniente, era só curiosa. Você chamava minha atenção somente em particular, não em público. Ninguém mais fazia isso. Você era uma das únicas pessoas que parecia não ter prazer em me humilhar pelos meu comportamentos disfuncionais de uma criança doente e negligenciada. Você era bom de verdade, não uma bondade fingida e performática. Você era justo, leal, verdadeiro. Você era tudo o que só posso sonhar em ser nos meus maiores desejos.

Eu me lembro de quando você me encontrou com todos os machucados e me tirou daquele lugar. Eu me lembro de quando você me pediu para parar, ao invés de me humilhar como todo mundo parecia gostar de fazer. Eu me lembro de quando você compartilhou lembranças suas do meu pai biológico e me disse que eu era amada sim. Eu me lembro que você nunca me culpou ou culpou minha mãe por termos seguido em frente e em como cada bendita vez que alguém dizia isso e eu ouvia, você não me culpava pela minha reação, mas me falava que ninguém tinha o direito de nos atacar por termos seguido nossas vidas após o suicídio dele. Eu me lembro que não conseguíamos sequer respirar depois de tudo o que aconteceu, mas você nos ajudou a ficar de pé. Eu me lembro que você tratava eu e o Henrique de forma igualitária. Eu me lembro que você me ajudou a parar de roubar, me machucar, me ensinou a falar o que estava acontecendo, a parar o que estava acontecendo. Eu me lembro que você me ouvia falar e falar dos meus problemas maternos, sem me desprezar ou tomar imediatamente um partido. Eu me lembro que você me ensinou a não brigar, ou ao menos, a tentar controlar meus impulsos de brigar por tudo. Eu me lembro quando você me pediu para terminar meu relacionamento com aquele rapaz e eu não fiz. Tio, me perdoa. Eu devia ter te escutado, você estava certo: Quase custou a minha vida, mas é verdade, não escutamos conselhos aos 18 anos. Eu me lembro que você me ensinou que estava tudo bem em ter transtornos. Eu me lembro que você me ensinou que eu era digna de amor. Eu me lembro que era você quem costumava fechar as portas do carro e afivelar os cintos para nós, os sobrinhos. Mas Segunda-feira, dia 10 de Novembro, tio, nós tivemos de fechar o seu caixão.

Foram o Lucas e o Reinaldo que levaram você. Meu marido e meu tio tiveram que carregar você, tio. Ninguém tinha forças. Eu não conseguia respirar. Eu sinto muito. Eu estou sufocando. Eu perdi você. Já tivemos tantas perdas que eu não devia ter mais lágrimas, mas você... Você eu vou sentir falta para sempre. Eu nem lembro do meu pai biológico, mas eu certamente me lembrarei de você. E dói, tem ardido para caralho, mas eu sei que só está doendo porque valeu a pena.

Porque o amor e a família são legados do caralho para se fugir, e você pra mim, foi os dois. Não importa se todo mundo pensa que você era um viciado de merda que não merecia amor, você sempre vai ter o meu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.