Síndrome de Gaea.

37 Desculpa te ligar.


-Alô...

Duas meninas, era o que éramos quando nós nos conhecemos. Eu ainda sei coisas a respeito da menina que eu conheci. — Além de claro, ela não existir mais. — Sorriso largo, aura palpável, grandes e bondosos olhos castanhos. Eu amei você como amaria uma irmã mais nova, até notar que eu não era exatamente requerida.

Não é sua culpa, eu sei. Nós temos o emocional volátil, não sou exatamente fácil. Tully Hart e seus delírios podem encher o saco, eu sei. Mas teria sido divertido se você tivesse sido a pessoa que ficava, se importava. Nos últimos meses parecíamos fora de contexto. Acho que evoluímos para lugares diferentes e nossa estrada se dividiu. Eu tenho uma vida nova cheia de pessoas que não me conhecem de muito tempo enquanto te assisto viver sua vida antiga. De repente, meu cabelo não muda de cor todo mês, me torno a adulta responsável pelos adolescentes perturbados, paro de fumar e carrego uma aliança no dedo. De repente, novas pessoas aparecem e tudo o que eu quero é que você permaneça comigo. Mas você não pode amar alguém que não ama ele.

Eu tentei, juro que tentei. Olhá-lo nos olhos e ver alguma verdade ou algum traço de personalidade. Eu tentei, juro que tentei. Tentei compreender todas às vezes em que não podíamos ter um momento juntas sem que ele estivesse no meio. Quando você se distraía pra falar com ele sobre algo, ou pedir alguma desculpa por algo, permissões. Tentei não me preocupar com seus limites elásticos e como você parecia ter se transformado em uma imagem de esposa perfeita. Eu tentei tão desesperadamente não me preocupar quando você começou a se tornar uma pessoa preconceituosa em nome do humor mesmo sabendo que nunca tínhamos sido assim. Eu tentei não falar disso por todos os bares da cidade, tentei não falar disso em todas as oportunidades e não pensar nisso todas as manhãs. Eu tentei não sentir raiva dele por ter magoado você, tantas vezes. Eu tentei não ser reativa por ele ter magoado você, tantas vezes. Eu tentei não julgar suas decisões, tentei ser simpática, tentei ser elástica como você. Eu estava tentando e me esforçando, puxando essa corda com toda a força que eu tinha nas minhas mãos mas as feridas doíam e eu já estava toda suja de sangue quando a soltei. Que surpresa a minha ao notar que a corda não ricocheteoou em você, porquê você não a estava segurando também. A corda caiu na lama, choveu e ela foi soterrada. Todo aquele sangue foi gasto pra nada. Você deve conseguir imaginar minha frustração ao descobrir isso, já que não sou conhecida por ser uma pessoa desprendida do orgulho. Admirável foi notar que minha primeira reação não foi raiva — Beber o veneno do rancor e me arrastar até a cripta da nossa amizade seria a minha cara, mas não. — E sim, a interminável tristeza. Cai de febre, minha melancolia se arrastou dias e fim. Todos riram, porquê eles sabiam. Eu jantava sozinha com o cadáver da nossa amizade há muito tempo. E você me diz que a culpa é minha.

Eu matei nossa amizade. Tem sangue nas minhas mãos. Toda brisa é vendaval e a culpa é toda minha. Foi o que você disse. A temperamental, tempestuosa e intolerante eu. Descrente em perdão e misericórdia, eu devia me envergonhar de não entender sua rotina. Todas às vezes em que passei semanas te procurando, foi culpa minha. Todas às vezes em que te aconselhei a preservar sua dignidade, foi culpa minha. Claro. A culpa foi toda minha, você não fez nada. E esse é o problema. Eu errei sozinha, eu lutei sozinha. Eu me mutilei sozinha pra caber na sua nova personalidade exímia de furos, eu me convenci sozinha de que poderíamos passar por isso, e você não fez nada. É por isso que a gente acabou, pra começar. Não existe amizade unilateral. Eu sou uma imbecil mesmo, mas eu preservo minha dignidade.

Você pode tentar se convencer de que eu sou uma péssima amiga. Pode dizer que eu tenho opiniões amargas e que sou temperamental. Mas quando você acordar em vinte anos e não ser nada além de uma esposa sobrecarregadas com filhos mimados e um marido que não te conhece, lembre-se que eu te avisei que todo perdão tem um preço. E o perdão que você concedeu a ele não só me custou, custou você mesma. Como eu sei que dessa vez, se eu te perdoar de novo, vai custar a mim muito mais caro: Meu auto-respeito.

Desculpa te ligar, era importante. Eu nunca mais falarei com você novamente, nós sabemos. Se eu ver você em uma rua, vou atravessar. Se você me ligar, vou colocar meu celular em modo avião. Se eu pensar em você meu coração vai quebrar como um vidro em mosaico. Nós sabemos que eu me importo demais com as coisas pra simplesmente não me importar com isso. Droga, eu sempre vou amar você. Você sempre vai ser minha amiga, mas preciso desviar dessa bala.

Na primeira vez, a culpa foi do Douglas.

Na segunda vez, a culpa é sua.

Se tiver terceira vez, a culpa será minha.

Não importa o quanto eu te ame, não posso deixar você me usar assim novamente. Parece que não, pelas palavras duras, mas desejo que você seja feliz e nunca mais precise de mim, porquê se precisar, não vai me encontrar.

Adeus, Katy Mullarky.