Síndrome de Gaea.

28 A letra escarlate.


Me parece tão sem sentido deixar que novas pessoas me acessem. Elas sempre presumem que me conhecem mas estão tendo acesso a minha versão mais gourmet possível. Fecho os olhos, sinto o cheiro de chuva com cimento molhado. Me lembro de abrir os olhos e ver toda uma rua escura, estávamos lá, sentados em uma pequena fresta que nos impedia de ficarmos totalmente molhados e eu estava tão alcoolizada que mal conseguia levantar meus próprios pés. Se eu não fosse tão jovem não seria mais digna de compaixão, sabia disso. Sou cheia dessas memórias amargas como café preto. Elas fazem parte dos impulsos que eu tomo atualmente. Todas as minhas boas decisões foram criadas por decisões terríveis que tomei quando achei que eu era sábia demais pra minha idade.

Confiro a respiração da minha gata magricela. Volto seis anos no tempo e estou tendo que tomar uma decisão pelo pouco de sanidade que ainda me restava. Olho pra aquele cachorro anoréxico na minha frente, que gastou quase todo o seu ar gritando de dor na minha frente. O veneno estava o matando tão lentamente quanto a minha pobreza. Eu odiava aquele cachorro feio e fedido, mas nunca me perdoei por não ter podido fazer mais do que somente cessar sua dor com as próprias mãos. Ela me perguntou como eu tive coragem, e eu nunca soube responder. Mas sabia que eu teria coragem novamente, se precisasse. Torci pra nunca mais precisar. Agora olho pra minhas gatas e me pergunto quando elas irão me deixar.

Esperando o dia que as coisas não sejam tons de vermelho pra mim. Esperando pelo dia que eu consiga não me sentir incrivelmente miserável e suja a todo momento. Esperando pelo dia em que eu sorria de verdade. Esperando pelo dia em que não vou contar os dias pro final de semana. Esperando pelo dia em que não tomarei ações desmedidas pra proteger pessoas que eu nem conheço apenas por ter me sensibilizado por elas. Esperando pelo dia em que irei parar de afastar as pessoas de mim apenas por ter medo de amar mais do que eu devia. Esperando pelo dia em que eu vou parar de calcular cada maldito movimento que eu dou. Esperando pelo dia em que eu morra e os vermes comam meu corpo pois creio que será o único dia em que eu terei alguma migalha de paz, por ser quem eu sou.