Síncope
1 Furta Cor
Notas iniciais
Paralisia do sono, narcolepsia, síncope vasovagal. O diagnóstico, desde os 17, nunca foi claro, mas o Google me forneceu o equivalente a uma formação em medicina, portanto minha pesquisa fazia muito mais sentido que o famoso “ela desmaia quando exposta à fortes emoções, não há nada de errado com os exames”.
Uma parte de mim acreditava que fugir de situações desastrosas poderia ser bom de alguma forma, mas depois dos 20 isso não cola mais. Todo mundo precisa enfrentar seus problemas de frente, e meu histórico de assuntos pendentes crescia todos os dias, inversamente proporcional ao número de pessoas próximas. Os roxos e galos na cabeça também não eram um fator positivo a contar para os desmaios, então, fui uma das poucas pessoas no mundo a ser premiada com essas doenças (salvo erro autodiagnóstico).
Exposto isso, me defino como uma pessoa de sorte inversa. Não chamo de azar e nem de má sorte, não. A minha sorte apenas não está ao meu favor, pois eu adquiri peculiaridades extremamente raras, elas só não me ajudam em nada.
Eu estive tentando achar o lado positivo disto porque das últimas vezes que ocorreu, senti coisas… diferentes.
Era como se eu nunca tivesse desmaiado. Senti os sintomas comuns: tontura, suor, confusão, fraqueza… Mas invés de recordar o tombo, o que era comum, minhas pernas ganharam força e consegui correr, abri a porta de onde estava e ela se fechou com um estrondo às minhas costas.
Naquele momento eu percebi que o mundo não era mais o mesmo. Embora se parecesse muito com o mundo real, havia um cheiro de ferrugem, um tom opaco, os sons do cotidiano local estavam presentes embora nada no que eu via denunciasse a origem do barulho.
Eu sempre acordei no hospital depois que isso passou a acontecer. As pessoas se preocupavam comigo, mas ninguém sabia dizer o que eu tinha e nem porquê. Felizmente não parecia me causar danos sérios.
— Você está acordada? — ouvi a voz de Arthur sussurrar em minha nuca e depositar um beijo ali.
Sorri com o gesto e esqueci por completo meus devaneios, puxei a mão do meu noivo para me prender em um abraço aconchegante. Era sábado, finalmente ele estava em casa. Depois de alguns minutos ele se levantou para preparar o café.
— Marina… — Ele me chamou, me virei para ele ainda deitada. Ele estava de pé vestido apenas com o short do pijama. Sem me dar conta, reparei seu corpo bronzeado. — Eu te amo, sabia?
Um sorriso bobo brincou em meus lábios outra vez. Ele fazia eu me sentir bem, sempre fez.
— Eu também amo você. — falei, soprando um beijo. Satisfeito ele foi preparar nosso desjejum.
O dia seguiu tranquilo, ficamos em casa, mas em meu âmago algo incomodava. Quando abri o ateliê para recolher as xícaras de café vazias, não pude mais me enganar.
— Tem algum problema com suas tintas? — Arthur indagou, olhando os dois últimos quadros que pintei.
Eles pareciam, na melhor das hipóteses, apagados e sem vida. Mas quando os pintei a minha intenção foi exatamente essa.
— Não… as tintas estão ótimas — falei, preocupada com sua expressão. Eu sabia que ele tinha gastado o que não podia para me dar aquele material.
— Marina, eu sei que essa coisa de arte é conceitual e subjetiva. — Ele respirou fundo, e eu o conhecia o suficiente para saber que ele estava se contendo para não dizer coisas com muito menos delicadeza. — Mas essas telas… você consegue fazer melhor que elas.
Eu não estava brava pela crítica. Na verdade, nunca concordei tanto. A paleta de cores havia sido destruída, restando apenas um cinza esquisito. Quando dei um passo para trás planejando sair do quarto, esbarrei na mesa e caiu o balde de tinta cinza.
Encolhi os ombros, pois vi Arthur olhar cada vidro de tinta vazio e jogado.
— Você não pode ter feito isso… Misturou todas essas tintas…? — Seu tom de voz era baixo, mas expressava com precisão a raiva que sentia — Sabe exatamente quanto custou tudo isso, e até eu sei o que acontece se misturar todas essas merdas. O que tem nessa sua cabeça, Marina?
— Eu estava tentando… pensei que… — o nervosismo não permitiu que eu me explicasse. Em minha mente rondava a possibilidade de Arthur me expulsar de sua vida e eu não sei se conseguiria lidar com isso, meu suor escorria frio e os pensamentos embaralhavam.
Até então ele não havia extrapolado meu limite, mas antes que eu pudesse impedir, Arthur deu um soco na tela exposta, arrebentando-a. A tinta nem mesmo havia secado e ele olhou pra mim sem demonstrar nenhum arrependimento.
Arthur saiu e bateu a porta. Percebi que minhas pernas estavam fracas apenas quando pararam de tremer. Respirei fundo o cheiro de ferrugem, ele certo dia me pareceu sufocante, mas hoje era um alívio não ter que lidar com minha própria vida por alguns minutos.
Tudo ao redor parecia inapropriadamente desbotado, exceto as telas que, ironicamente, deveriam ser acinzentadas. Não consegui parar de olhar a combinação esplêndida que os quadros formavam. Mesmo a tela com um buraco no meio se assemelhava com a mais bela obra prima, e a tinta do balde caída no chão, furta cor, enchia meus olhos.
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