Sétimo Dia

3 Capítulo Dois


Notas iniciais
Olá pessoas! 56 pessoas já leram essas primeiras linhas! W-O-W! Mas, não se esqueçam de favoritar e comentar após o final, por favor, assim eu consigo interagir melhor com vocês. E para comemorar esse "sucesso", postarei o segundo capítulo hoje. Não é muito grande, porém garanto a qualidade e o suspense. Boa leitura (;

Dona Laiana costumava dizer "Menina, um dia a preguiça vai te comer!" ou quando a neta perdia a paciência e lhe dava uma má resposta "Você um dia vai encontrar alguém que te faça engolir esses dentes como eu não fiz." Debora recordava daquilo com carinho, mas sempre tentava afugentar tais lembranças para assim evitar a dor de sua ferida que nunca cicatrizava.

Já estava começando a aprender a conviver com a ideia de viver sozinha. Não lhe agradava, mas era a realidade. Fora o fato de que se suas pesquisas não avançassem logo, ela não teria que preocupar com a solidão. Um pequeno sorriso irônico atravessou seu rosto enquanto ela pensava naquilo. Debora era aquele tipo de mulher que nunca perdia a oportunidade de fazer um comentário irônico e/ou sarcástico, mesmo nas piores situações. Isso já era uma característica irreversível dela desde adolescente e mesmo se quisesse, não conseguiria se livrar desse traço de sua personalidade.

Um barulho na cozinha a fez voltar para a realidade. A mulher focou a sua atenção no belo moreno a sua frente que andava pra lá e pra cá apenas de cueca. Ela tinha de confessar que a três semanas atrás quando o viu pela primeira vez, achou que seria um daqueles novos tipos de metrossexuais esquisitos que tinham mais gel na cabeça do que inteligência, o que não era verdade, já que aquele metrossexual em questão também era um especialista em genética nuclear. Não poderia ser mera coincidência, poderia?

Um sorriso surgiu em seu rosto ao se recordar com carinho da expressão arrogante que ele deu após uma resposta que demonstrava que era mais do que um cara simplesmente inteligente com um cabelo engraçado. Depois daquela resposta, ela sabia que ele era a pessoa certa, aquele que a ajudaria com o seu problema e não teve dúvidas em chama-lo para morar em sua casa, afinal, precisava conquistar sua confiança.

– Hei, Mal-humorada! Nem amanheceu o dia direito e você já está em outra dimensão? — Henrique brincou enquanto colocava cereal em uma tigela.

– Estava pensando em uma formula de antialérgico para essa sua alergia crônica de roupa. — Debora respondeu ironicamente enquanto acariciava o Sr. Gato em seu colo e tomava sua xicara de café.

– Sabe, — o homem se aproximou dela de maneira desafiadora. – isso poderia ser pior. Eu poderia estar sem nada.

Sr. Gato reclamou ao ser acordado enquanto sua dona se mexia desconfortável.

– Seria até interessante, — ela sorriu e passou o dedo de leve na bochecha de Henrique. — se você não fosse "meio" gay. Seus olhos se fixaram na pequena mancha roxa que ele tinha no ombro. Ela sabia o porquê daquela mancha, mas desviou o olhar e o empurrou de brincadeira para que ele saísse de perto dela e ela pudesse levantar.

– Você sabe, nem toda vida eu fui gay. – Henrique sussurrou se aproximando dela novamente.

– Anotarei isso em meu caderno de informações desnecessárias. – A cientista riu e pegou sua bolsa. — Agora, se você me dá licença, vou ao mercado comprar algumas coisas.

– Fique a vontade, madame! Mas saiba que esse "meio" gay aqui pode ter saudades de ser hetero e acordar nu na sua cama um dia.

– Esperarei por esse dia assim como uma criança espera pelo natal. Quem saiba eu te convença a voltar a gostar de mulher novamente? – Ela respondeu entrando na brincadeira.

– Você pode tentar me convencer agora, se quiser. – Henrique fez sua melhor cara de sedutor esperando a reação de Debora, mas ela apenas revirou os olhos rindo.

– Ah, por favor. Se esforce mais para ao menos parecer hetero. Você não trabalha hoje?

– Não. É meu dia de folga no bar.

– Bom, como eu não tenho a vida ganha... Até mais tarde, meio hetero meio gay.

Ele soprou um beijo enquanto ela lhe mostrava a língua e fechava a porta.

Henrique tinha a sensação de estar verdadeiramente em casa.
Durante aquelas três semanas que haviam se passado, ele e Debora acabaram criando um vinculo forte que não envolvia nada sexual, apesar de ela já o ter pegado umas 5 vezes saindo do banheiro pelado. A mulher apenas ria, balançava a cabeça negativamente e prosseguia seu caminho. A relação dos dois era meramente de confiança. Era fato que ela não se abria muito, nem deixava ele entrar naquele cômodo junto a cozinha, mas em compensação ouvia todas as suas reclamações sobre seu pai, suas duvidas sobre sua opção sexual, seu trabalho e sua vida, prestando verdadeiramente atenção.

Era ávida por informações e durante todas as discussões sobre genética nuclear, biogenética ou qualquer assunto no campo das ciências, mostrou-se inteiramente a vontade e por dentro do assunto. Tinha que admitir que os assuntos fluíam fácil com ela. Apesar de ser sistemática, ignorante e parecer ter um lado assustadoramente escuro, Debora era muito responsável e com certeza a garota mais inteligente que ele já havia conhecido. Não era atoa que com tão pouca idade já era uma cientista.

Ele poderia ser capaz de dizer que confiava plenamente nela, contudo a lembrança de sua reação exagerada ao tentar entrar no quarto proibido, juntamente com o fato de ela abrigar um completo desconhecido que poderia ser muito bem um mal caráter, despertava uma pequena desconfiança em seus instintos.

Tudo bem que ele não era um mal caráter, que nunca tinha matado alguém e evitava ter de usar a violência, mas sua vida continha certos fatos que poderiam caracteriza-lo como uma má pessoa. Possuía problemas em controlar sua raiva, fato que em 3 brigas acabou resultando no completo desfiguramento de suas vitimas e na paraplegia de outra que simplesmente havia chamado-o de "viado frouxo". Fora a sua já conhecida arrogância e a falta de paciência com pessoas de pouca inteligência.
Não se considerava um homem perigoso, — afinal se fosse assim, muitos já teriam morrido por suas mãos -, mas sim um homem de opção sexual confusa que deveria viver cercados de pessoas super inteligentes como Débora e não com acéfalos iguais aos homens com quem brigou e a seu pai. Mas mesmo com tudo isso, era de se desconfiar tamanha generosidade de Debora ao permitir que morasse ali.

Henrique poderia muito bem ir ver o que era escondido naquele quarto, uma vez que a mulher não estava em casa e apesar da recriminação de sua consciência, porém ele não era um homem que ouvia ou usava muito essa parte do cérebro.

Correu até seu quarto, vestiu uma calça e se dirigiu ao cômodo misterioso. Hesitou um pouco enquanto segurava a maçaneta. Poderia trair a confiança daquela que mesmo misteriosa já poderia ser considerada uma amiga?

Ele sacudiu a cabeça e abriu a porta surpreso por encontra-la aberta, sem estar trancada. Seus olhos demoraram um pouco a se adaptarem ao escuro, ao cheiro forte de detergente e produtos químicos e ao frio cruel que emanava dali. Tateou pelas paredes a procura de um interruptor de energia e ao encontra-lo, se surpreendeu ao ver vários tubos de ensaio e equipamentos de experimentos científicos devidamente organizados pelo quarto. Havia uma prateleira no canto com diversos produtos utilizados para experiências. Debora tinha seu próprio laboratório, como ele suspeitava. Deveria estar trabalhando em algo importante, o que justificava os barulhos que ouvia quase todas as noites até altas horas da madrugada. No canto direito ele reparou em outra porta, mas antes de alcança-la, algo chamou sua atenção: dois tubos grandes cheios até a metade do que parecia ser sangue. Ao pegar o primeiro, o homem notou em choque o nome que estava na etiqueta com pequenas letras infantis: "HENRIQUE DE PADILHA".

Aquele sangue era seu! Mas como ela o tinha conseguido? Ele não conseguia se lembrar de nenhum momento em que ela poderia ter feito aquilo. Ao olhar o outro tubo, descobriu que era sangue de Debora. Raiva e desconfiança começaram a cercar sua mente. Era por isso que ela tinha convidado um completo estranho para morar em sua casa. Precisava de alguém para ser sua cobaia. Mas por que ele? O que ela pretendia com aquilo?

Dominado pela raiva, desconfiança e decepção, o homem jogou com força no chão os dois tubos que continham sangue, estilhaçando-os em mil pedaços e partiu para a outra porta sentindo um calafrio descer por sua espinha, mas não sabia se era do frio congelante da sala, de medo ou de raiva. O que mais ela poderia esconder ali?

Ao abrir a porta, ouviu seu coração bater desregular com o choque ao ver o que estava a sua frente.

– O que você está fazendo aqui?

A voz baixa e ameaçadora de Debora surgiu atrás de Henrique fazendo-o virar.

Ela o encarava impassível com as duas mãos nas costas, mas seus olhos a traiam revelando sua raiva.

– Que tipo de monstro é você? — Henrique sibilou com raiva e sem deixar transparecer o medo que sentia daquela mulher naquele momento.
Mas Debora não respondeu. Em um movimento rápido não esperado, ela lhe espetou no pescoço com uma seringa, injetando todo o conteúdo em sua veia.
Henrique conseguiu empurrar Debora com força e ainda conseguiu vê-la caindo em cima dos estilhaços dos tubos de ensaio no chão e aparentemente fazendo um corte grande na mão, mas mesmo assim já era tarde. Sentiu seu corpo enfraquecer e viu o chão se aproximar de seu rosto. Entendeu que estava perdendo os sentidos, caindo e a ultima coisa que viu foi aquela mulher que agora ele temia por ser um monstro e que erroneamente depositara sua confiança, levantando-se com as roupas sujas de sangue e curvando-se sobre o seu corpo. Logo após tinha apenas a sensação de estar sendo arrastado com dificuldade para algum lugar desconhecido enquanto a inconsciência tomava seu corpo por inteiro.

Notas finais
o que será que tem atrás da porta?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.