Série Lobos II - O Clã da Lua

1 Primeira Caçada: Perdidos


Notas iniciais
Muito bem! Para quem gostou da primeira aventura de Toshio Katsuo, cá está a continuação; para quem ainda não conhece, não se preocupe! Não é necessário ler Hogosha para entender o que está para acontecer!

Boa leitura! :3

P.S.: Glossário - 1. Hogosha: Guardião; 2. Iro no Seiiki: Santuário das Cores

O Sol começava a se pôr mais uma vez. Anos haviam se passados desde que eu ganhara o direito de estar ali. O Iro no Seiiki— o jardim imperial, onde os descendentes e líderes de meu feudo colecionavam e cuidavam das flores mais raras e coloridas que podiam ser encontradas em nossa terra − estava ainda mais bonito do que nunca naquele final de tarde. Meus olhos esquadrinhavam o lugar sem grande interesse. As cores pelas quais o jardim era conhecido começavam a morrer aos poucos e o alaranjado característico do outono passava a predominar no lugar. Para mim, era lindo. Entretanto, meus dois companheiros não pareciam tão extasiados quanto eu.

— Odeio quando as cores somem – murmurou a garota com um suspiro chamando minha atenção. – Isso só quer dizer que o Inverno está para chegar.

A pequena bola de pelos que estava enrolada nas pernas da menina grunhiu em concordância. Eu apenas continuei calado, esperando para ver se minha protegida falaria alguma coisa.

Os dois que chamei de companheiros eram Tsukiko Ailee, a princesa de meu feudo e minha protegida, e Issa, meu pequeno companheiro lobo. Acho importante informar que, esse que vos fala, não é um ser humano normal, na realidade, sou um lobo que pode se transformar em humano. Confuso? Calma que com certeza pode ficar mais.

— Katsuo, você gosta do inverno? – questionou Ailee tentando chamar minha atenção.

A princesa Ailee completaria dezoito anos dali a duas semanas. Eu já era o Hogosha há seis anos e a acompanhava para todos os lugares que ela precisasse ir. Era minha obrigação desde os quatorze anos.

No feudo Tsume, lugar governado pela família de Ailee desde tempos imemoriais, a maior tradição era que na primavera do aniversário de dez anos do próximo herdeiro ao trono deveriam ser selecionados dois lobos que tivessem a capacidade de tornarem-se protetores e companheiros fiéis ao futuro líder do lugar. Ao final de dois anos, os dois se enfrentariam e o melhor seria escolhido para acompanhar o herdeiro. Seis anos antes, a pessoa escolhida fora eu, contra minha vontade, mas não importa mais.

— Katsuo! Você está me ouvindo? – exigiu a menina sacudindo minha pata.

Ah, é mesmo, eu normalmente, quando estava sozinho ou com Ailee, mantinha minha forma natural, a lupina. Levantei minhas orelhas, mostrando que a estava escutando e ouvi reclamações nada delicadas vindas dela. A princesa que agia como uma menina delicada e tímida perto dos outros lobos da matilha e do próprio pai, não era nada disso quando estava sozinha comigo. Petulante, mandona e folgada. Essas eram as palavras que eu usaria para descrever minha melhor amiga.

— Katsuo, você gosta do inverno? – perguntou de novo, quase jogando seu peso todo para cima de meu abdome animal.

Grunhi incomodado e com a pata livre a afastei. Com um pouco do espaço pessoal recuperado, assumi minha forma humana. Humildade a parte, eu sou um belo espécime das duas espécies. Em particular, minha forma humana não era tão chamativa, mas eu estava muito melhor do que quando me mudara para o palácio.

— Sim, Ailee, eu gosto do inverno – respondi com um suspiro. E antes que ela pudesse voltar a falar, eu me coloquei em pé. – Vamos entrar, já está ficando tarde e você ainda precisa se encontrar com seu pai.

~000~

Uma das poucas funções que eu possuía e que não tinha nada relacionada a princesa era o momento em que eu precisava ficar de guarda ao lado de meu antigo mentor, Ume Hidetaka. Um dos primeiros Hogosha da história da família real e um dos poucos que realmente apreciava sua forma lupina. Depois de tanto tempo, e de ter sido fundamental em minha formação, ele se tornara mais do que um exemplo a ser seguido para mim.

— Boa noite – cumprimentei-o quando assumi meu posto. O palácio era rodeado por um morro e um desnível logo atrás do mesmo. Os postos de vigia ficavam posicionados em pontos estratégicos, escolhidos pelo rei, e separados por alguns metros um dos outros. – Como está, Hidetaka?

Ele olhou para mim pelo canto do olho, sem tirar os olhos da paisagem que se estendia a nossa frente. O feudo, já encoberto pelas sombras da noite, podia ser identificado apenas pelas poucas luzes que as casas emitiam. Como sempre, eu tentava encontrar a casa de minha família, que ficava nos limites territoriais ao Norte. Eu nunca conseguia enxergá-la.

— Estou bem, Toshio. Como está o trabalho?

Eu não precisava de muito para entender do qual trabalho ele estava falando. Porém, não foi isso que chamou minha atenção. Não importava quanto tempo eu já estivesse ali e já houvesse me formado, Hidetaka sempre me veria como o pequeno Toshio ou o moleque que ele precisara treinar.

— Acho que você nunca vai me chamar pelo nome, não é mesmo? – questionei rindo. Hidetake apenas me olhou como se eu houvesse feito a pergunta mais estúpida do mundo e continuou calado. Suspirei. – O trabalho está tranquilo. Você sabe que a princesa não é uma pessoa difícil.

Talvez eu estivesse enfeitando um pouco a verdade, mas como eu também era confidente da princesa não podia sair contando tudo para todo mundo, mesmo que fosse uma pessoa em quem eu realmente confiava. Hidetaka sorriu como se soubesse que eu escondia algo, mas não falou mais nada.

Passamos quase quatro horas ali, parados. Ser vigia não era minha atividade favorita, não chegava nem perto das horas que eu passava treinando ou quando eu tinha que acompanhar Ailee durante as reuniões chatas que ela estava sendo obrigada a comparecer.

Como o feudo era um lugar tranquilo, minha vigia se resumia a passar horas observando os lobos que iam até o morro para caçar durante a noite ou alguns poucos jovens que ficavam rondando até tarde.

Eu conhecia a maioria deles e, como meu mentor, não gostava de nada do que nossa sociedade começara a se tornar. Apenas depois de realmente começar meu papel como Hogosha e conviver diariamente com os membros da matilha especial do monarca pude entender o quão distante da verdadeira essência da razão do feudo nosso Clã estava.

Ao longo dos anos, poucos foram os que permaneciam em suas formas lupinas. A maioria dos moradores do feudo passou a utilizar a forma humana com mais frequência do que deveria ser comum ou necessário. Houve dois motivos para isso; o primeiro foi o famoso imperador Tsukiko Kikui. Contam as lendas que na época de seu governo Kikui acabou cedendo aos encantos de uma jovem, que fora enviada por Izanagi, para convencê-lo de que o mais correto era que todos os lobos virassem definitivamente homens. Curiosamente, Kikui morreu da noite para o dia e muitos de seus seguidores, junto a jovem, foram perseguidos e expulsos do feudo – pois a matilha descobriu os planos de Izanagi. Porém, as coisas já haviam mudado.

Muitos lobos acabaram se acomodando àquela situação humana e pediram para o imperador seguinte, o filho mais velho de Kikui, para que pudessem manter a forma humana e viver daquela maneira. Como o homem precisava manter a unidade do feudo, aceitou com a condição de que, mesmo que achassem melhor, todos deveriam ensinar seus filhos a importância de serem lobos e fazerem parte da matilha.

Foi mais ou menos nessa mesma época que o Hogosha se tornou uma figura de extrema importância para a população e os jovens lobos. Fazendo com que a posição fosse supervalorizada, o imperador utilizou isso para impressionar as crianças e fazer com que seu interesse em se tornar o melhor e mais poderoso lobo fosse maior que as facilidades de ser humano.

Eu sorri ao ver um pequeno grupo de lobinhos brincando em um dos cantos do morro. A matilha não gostava muito da população, dos hábitos da mesma, na verdade, mas eu ainda tinha esperanças. Talvez, com o carinho que eu sabia que Ailee sentia pelos lobos, as coisas se tornassem diferentes.

Bem, eu precisava acreditar em algo.

Notas finais
Espero que tenham gostado e deixem suas opiniões :33