Sábado à noite...

1 A culpa é do álcool...


Notas iniciais
Esta one-shot surgiu de um pensamento repentino. Não sei porquê, só sei que gostei da ideia e decidi partilha-la. A mente é realmente algo curioso. Espero que gostem. PS: Se quiserem ouvir a música que deu o título à fic, cliquem no link abaixo e leiam ao som dos "The Gift". A música é um pouco melancólica, mas ninguém disse que tudo na vida tinha de fazer sentido... https://www.youtube.com/watch?v=C2z9sbWnzBw

Maura finalmente tirou as chaves da carteira depois de as procurar impacientemente, pois Jane não parava de reclamar atrás dela e estava muito escuro.

—Anda lá Maura! Está frio. Estou cansada…

“Maldita iluminação de Boston”, pensava a loira. Quando abriu a porta, pousou a carteira no chão sem se aperceber e atirou, sem querer, as chaves contra o espelho da entrada, rachando-o levemente.

—Lalalalalala… you will be… ah como é que era a letra? Hahaha…

—Acho que já bebemos muito por hoje! – afirmou Maura um pouco mais sóbria guiando Jane até ao sofá onde as duas se sentaram.

—Se a Dr.ª Isles o diz…

A morena aproximou a cara da dela muito séria, e depois começou a fazer caretas e a rir sem motivo. Maura acompanhou-lhe o riso. Também tinha bebido bastante. Elas tinham trabalhado 18 horas e era sábado. Apesar do cansaço, o pessoal da esquadra convidou-as para beber um copo no bar do Korsak e elas, relutantes, acabaram por aceitar. A morena acabara por exagerar pois sabia que não tinha de trabalhar no domingo, mas ainda tinha a voz enfurecida da mãe a ressoar-lhe nos ouvidos para não beber tanto, algo que ela ignorou por completo. Conclusão da história, para que Jane não tivesse de ir sozinha para casa Maura foi influenciada para a levar com ela por Angela.

—Lembras-te… lembras-te daquele caso do beco escuro e do milionário… depois descobrimos que ele morreu porque foi parvo com o outro hahaha.

Jane não dizia coisa com coisa! O seu estado de embriagues era bastante notório e ainda se confirmou mais com a parvoíce que ela disse a seguir:

—Já sei! Vamos fazer um bolo!

—O quê? Mas…

Antes que Maura pudesse continuar já Jane se tinha levantado do sofá e procurava os ingredientes necessários para um bolo de café, o sabor que ela mais adorava…

—Então… deixa ver se eu me lembro. 3 colheres de café, 1000 não não 100 gramas de manteiga e…

Enquanto Jane punha os ingredientes em cima da bancada, Maura percebeu que não a ia conseguir demover daquela ideia e pensou “Bom… se não podes vence-los, junta-te a eles”. Depois de juntar o açúcar, o fermento e a farinha, começou a bater os ovos, e Jane tratou de pôr o café moído numa taça. Ela ia pondo colheres do mesmo à boca e parecia que ficava cada vez mais enérgica… e doida. A certo ponto começou a misturar tudo o que colidiu numa mistela de sabor excessivamente amargo. Tirou uma garrafa de vinho da garrafeira.

—Não tens cerveja?

—Não! E mesmo que tivesse não acho aconselhável bebermos mais… olha para esta confusão (a cozinha estava caótica).

—Não faz mal… bebemos vinho – disse a detetive ignorando totalmente a recomendação de Maura.

A loira cedeu. Ela havia tirado da garrafeira um dos seus vinhos preferidos “Chatêau Margaux”, uma reserva de 2006.

Jane ligou a misturadora para liquidificar os ingredientes, agora todos juntos. Um barulho algo ensurdecedor instalou-se na casa. Isso não parecia incomodar Jane que tirava dois copos do armário e abria a garrafa alegremente, mas sim Maura, que se sentou no chão, encostada ao balcão e tapou os ouvidos. Ela sabia que com o álcool os ouvidos ficavam muito mais sensíveis.

—Toma! – gritou Jane dando o copo a Maura que se acalmou um pouco depois de saborear metade do vinho de uma só golpada.

—Vamos brindar – disse Jane ainda acompanhando o tom da misturadora.

—Ao quê?

—O quê?!

—Desliga isso! – pediu Maura aos berros.

Jane assim fez, e depois provou a mistela. Estava horrível em termos de aspeto, e sabia ainda pior. Limpou a boca com as costas da mão mas esse gesto provocou o efeito contrário, borratou-a de castanho-escuro (a cor do bolo). Depois sentou-se ao lado de Maura, que continuava no chão, encostada à bancada a beber o resto do copo, já quase no fim.

—Está horrível – reclamou a detetive com um ar indiferente.

—Acho que fizemos tudo mal…

—Concordo – observou Jane enquanto bebia o seu copo, deixando a marca da cor acastanhada dos lábios na borda.

Maura pegou na garrafa e pousou-a no chão depois de encher o seu copo novamente.

—À ilusão! – proclamou a loira elevando o seu copo no ar.

—Ah?

—Brindemos à ilusão… O amor é uma infinidade delas que serve de analgésico para a alma – afirmou Maura que parecia nem se importar se aquela frase fazia sentido ou não. Sentia a cabeça demasiado pesada para pensar com clareza.

—Que poética…

—É do vinho. Amanhã tudo volta ao normal…

Jane virou a cara para ela e murmurou palavras incompreensíveis. Não estava com sono, mas sim cansada, cansada da noite, do trabalho, cansada da vida que, ao mesmo tempo que às vezes queria mudar, adorava. Sim, é verdade, a sua mente era uma antítese autêntica.

—Tens a boca suja – obrservou a patologista.

—Limpa – pediu Jane preguiçosa.

Maura ergueu a mão displicentemente e encostou o polegar ao lado do lábio da detetive, movendo-o graciosamente transferindo toda a sujidade que a amiga tinha na cara para o seu dedo. Aos poucos começou a arrastar os restantes dedos e a palma da sua mão para o rosto áspero e vistoso de Jane.

—És linda sabias.

—Haha… linda. É incrível como ninguém presta atenção às pessoas bonitas…

—É assim que te sentes?

—Não… é assim a realidade. Mas, passamos a vida à procura da pessoa certa e às vezes perdemos tempo desnecessariamente – Jane fazia agora o seu discurso com uma cordialidade incrível embora estivesse podre de bêbeda.

—Tens razão. Infelizmente o tempo não se compra… nem o amor – Maura desceu a sua mão até ao pescoço de Jane lentamente sem e com intenção de qualquer coisa que nem ela tinha noção do que era. Jane tinha um olhar vago pouco habitual, que só se instalava nela quando havia uma profunda indecisão na sua alma.

—Não me julgues pelo que vou fazer a seguir – pediu a detetive.

—O quê?

—Prometes?

—Prometo… — disse a loira confiante de que seria algo bom.

Foi a vez de Jane colocar a mão no rosto de Maura enquanto a dela se mantinha no seu pescoço aquecendo-o vagarosamente. A morena aproximou-se da amiga até que ficaram face a face. Os olhos nunca se tinham olhado com tanta intensidade, o toque nunca tinha sido tão sentido. Por fim, ela fechou os olhos e moveu-se o restante para que os lábios se tocassem suavemente. Depois afastou-se não por arrependimento, mas porque queria dizer uma coisa:

—Amanhã tudo volta ao normal…

—Sim… amanhã – finalizou a patologista.

Desta vez foi Maura a aproximar os seus lábios dos de Jane iniciando uma batalha de línguas apaixonante. A detetive deitou o corpo de Maura no chão frio, derrubando a garrafa de vinho praticamente cheia no soalho, ensopando-o do líquido avermelhado. Maura agarrou os cabelos de Jane para puxar mais a sua face para a dela. Pouco importava se aquilo estava certo ou errado, a culpa era do álcool. Num breve momento de lucidez, Maura perguntou-se se seria realmente isso, mas rapidamente a sua cabeça voltou a pensar de maneira diferente e ela voltou a sentir o seu corpo livre, como se ele se move-se por si próprio. Jane rodou sobre ela e começou a correr o fecho do vestido negro da loira. O soalho estava demasiado frio para o corpo da detetive. Num impulso, levantou-se com Maura no seu colo, e cambaleou desnorteadamente até ao sofá derrubando as coisas que ia encontrando no caminho, nomeadamente uma jarra do séc. XIX que custara a Maura cerca de cinco mil dólares.

—Não faz mal… nunca gostei...muito dela – confessou Maura entre os intervalos dos beijos folgantes.

Rapidamente foram tirando as roupas dos corpos agora suados. Entregaram-se uma à outra, como nunca antes se tinham entregado a ninguém. Nenhuma das duas parecia estar a pensar muito, mas sim a agir pelo que o coração mandava, algo incontrolável e agradável. E, apesar das suas cabeças terem sido tomadas pela bebida havia algo de que elas tinham perfeita noção… No dia seguinte aquela noite nunca iria ter existido, teria sido loucura, ilusão, sonho, um mero delírio sem importância talvez, ou então nada. Porquê? Porque no dia seguinte elas estariam de ressaca, e as boas memórias dessa noite iriam cair no esquecimento. E mesmo que elas acordassem deitadas lado a lado, nuas, e abraçadas, não iria importar, porque quando em falta de consciência o cérebro molda as recordações como quer e bem lhe apetece, e a amizade… essa prevalece sempre, mesmo nas situações mais invulgares.

Notas finais
Gostaram?Deem-me o vosso feedback e aproveitem o vosso sábado para fazer uma pequena loucura, porque no dia seguinte tudo irá voltar ao normal ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!