3ª pessoa POV

A casa estava escura. Melissa estava no quarto de Bill, deitada na cama, escutando música. Tinha voltado para lá depois que Tom disse que iria para a agência. Bill Tinha voltado de viagem. Por mais que tentasse evitar, agora ela estava sozinha, e os pensamentos a assaltavam sem parar. Mas pelo menos ela não se sentia tão confusa agora. Conseguia entender em parte o porquê de Bill ter se tornado o que era. É culpa de Chad, a final. Ele simplesmente arrancou o que havia de bom em Bill. Foi mesmo uma sorte que ele tivesse saído vivo do cativeiro, mas sua cabeça já estava muito mudada. Refletiu, olhando para o teto. Pelo que Tom tinha lhe contado, Bill tinha chegado surrado até os ossos, e com uma desnutrição séria. Levaram meses para que Bill se recuperasse. Mas sua cabeça não estava boa. Ele tinha acessos de raiva, e depois ficava completamente apático a tudo. Foi nessa época que começou a trabalhar na agência, e na verdade, até Gustav ficou impressionado com o descontrole de Bill. Mas depois foi melhorando. Melissa se lembrou do que Tom tinha lhe dito a respeito de Bill, e sentiu um aperto no peito. Virou-se de bruços, suspirando. Desejava poder voltar no tempo, para quem sabe, poder evitar que tudo aquilo tivesse acontecido.

Só uma coisa me deixa curiosa: Por que ele não me disse desde o começo quem era? Se perguntou, franzindo o cenho.

No andar de baixo, a porta de casa se abria silenciosamente.

Bill POV

Ela vai te tirar o que você mais ama. Mas talvez você só vá entender isso depois. O que Dani me disse ficou rodando em minha cabeça por um bom tempo. Eu estava preocupado com Tom. Se aquela vadia fizer algo a meu irmão... Pensei, sentindo o ódio queimar em meu estômago.

- JA, BILL, estou chegando. O que está acontecendo por aí? — Tom falou do outro lado da linha, na terceira vez que liguei para ele. Respirei fundo, olhando de esguelha para Gustav, sentado em sua mesa, com o olhar vazio, fixo num ponto do chão. Será que ele está respirando?

- Eu te explico tudo assim que chegar. Se apresse. — respondi, desligando o celular em seguida.

O que eu mais amo... Novamente lembrei, ao ouvir o grito de Dani, em agonia. Ela estava em outra sala, Georg estava interrogando-a. Ela a minha tarefa, mas Gustav preferiu que Ge o fizesse. E também não quis precensiar.

- Então, acho que você já deve saber de bastante coisa, não é? — ele levantou os olhos para mim, e eu demorei dois segundos para perceber. Dei de ombros. Gustav sorriu triste.

- É um pouco irônico, eu acho. Minha família sempre pregou que eu tinha de me casar com uma garota virgem, ter um emprego digno, essas coisas. Eu fiz tudo às avessas. Acho que sou a ovelha negra da família. — riu pelo nariz, apertando os olhos. Levantei as sobrancelhas, surpreso com sua fraqueza momentânea. Mas depois ele se recompôs.

- E o que você pretende fazer agora? — perguntei, não sei por que. Gustav suspirou, olhando para o teto.

- Seguir com a vida, como sempre. Continuar perseguindo Roxanne. — disse, e eu assenti devagar. O silêncio se instalou novamente. Olhei para a hora, ainda ansioso com a demora de Tom.

- Mas não sei o que vou fazer com ela. — continuou, e eu voltei os olhos para ele. Parecia confuso.

- Na verdade, por mais que seja estranho, eu não a odeio. Entendo por que ela fez o que fez, mesmo não aceitando. Mas talvez seja por que ela é mãe do meu filho, sei lá. Só não consigo odiá-la. — disse, e eu senti como se aquilo fosse uma alfinetada, não sei por que.

Depois de tudo que ela fez, ele ainda a ama. Mas por que não consigo considerá-lo um idiota?

Tom POV

Entrei na sala de Gustav, sendo recebido pelo olhar assassino do meu irmão. Eu nem tinha demorado tando assim.

- Então a informante era Dani? — perguntei surpreso, depois que Bill me explicou toda a situação. Gustav assentiu devaga. Nunca imaginei que Dani pudesse trair esse cara, ela o amava. Lembro de ficar puto com ela todas as vezes que ela falava o nome de Gustav na cama. E não foram poucas vezes.

- Mas o que achei estranho foi o que Roxanne mandou avisar para Bill. Nenhum de vocês tem a ver com isso... — Gustav comentou, franzindo o cenho. Vi Bill assentir.

- Acho que é só um blefe dessa mulher. Ela não tem nada contra nós. — eu disse.

- Nós não sabemos. Mesmo assim é bom tomar cuidado. — retrucou meu chefe, e eu assenti. Olhei para Bill. Ele balançava a perna, um pouco nervoso. Só depois deduzi que ele tinha me aborrecido tanto com as ligações por que estava preocupado comigo. Sorri de canto.

- Obrigado. — eu disse, assim que saímos da agência. Não presenciamos a morte de Dani, mas sabemos que foi Gustav que deu o tiro. O cara deve estar despedaçado. Pensei, caminhando para o carro. Bill olhou de esguelha para mim.

- Por que? — perguntou, jogando a pequena mala de viagem no banco traseiro.

- Por se preocupar. — eu disse sorrindo, dando partida no carro. Bill deu de ombros.

- Você é meu irmão. — respondeu, e meu sorriso se alargou.

Chegamos em casa, a porta estava entreaberta. Não achei estranho, já que saí tão apressado que talvez eu tivesse esquecido.

- Melissa deve estar no seu quarto. — informei, e meu irmão me olhou de esguelha, assentindo levemente, como se não se importasse. Levantei uma sobrancelha para ele, Bill não me enganava. Eu sabia que ele estava louco para vê-la. Só que meu irmãozinho é tão cabeça dura...

- Vou tomar um banho. — disse, e subiu as escadas com uma calma exagerada. Dei uma risada.

- Ele acha que eu sou otário. — comentei para ninguém em especial, subindo um pouco depois.

Bill POV

Ela foi embora. De novo. Por que eu estava surpreso? Suspirei, tirando a camisa e jogando-a no chão, caminhando em direção ao banheiro.

Eu não sabia o que faria a seguir. Não tinha vontade de correr atrás de Melissa, eu só queria desaparecer. Eu já disse a ela quem eu era, e ela acabou de tirar todas as minhas dúvidas fuigindo. Ela nunca me amou. Pensei, enquanto tomava banho. Mesmo assim, pensando duro, meu coração se apertou, mostrando que eu ainda tinha esperanças, mas que agora elas estavam mortas.

- Então, ela deixou o Ipod aqui. — Tom disse, apontando para um objeto em cima da cama. Ele viu que Melissa tinha ido.

— Hm. Fazer o quê, não? — eu disse, com desdém, saindo do banheiro, me enrolando numa toalha.

- O que você vai fazer? — perguntou. Eu estava me concentrando demais na roupa que escolheria.

- Nada. — falei, pegando o primeiro moletom e calça que vi. Tom bufou.

- Não entendo você. Enfim, vou pedir uma pizza. — ele disse, saindo do quarto. Vagamente comentei que era melhor ele se apressar, já que o horário de delivery logo terminaria.

Me joguei na cama, em cima de algo que incomodou minhas costas. Fechei os olhos, tentando não me importar. Mas aí ouvi uma melodia conhecida. De onde conheço essa música? Forcei a mente, e uma vaga lembrança voltou.

Eu fiz essa música para você. Por que você me resgatou, e é a única que pode me libertar. Isso era eu falando, num passado distante. Rescue Me. Isso acabou se tornando uma espécie de chamado entre nós. Sempre que um precisava do outro, mandava um trecho da música, por qualquer meio que fosse. Suspirei, rolando para o lado e pegando o objeto abaixo de mim. Pus o fone, sentindo uma forte nostalgia ao ouvir minha própria voz, naquele demo mal-feito de garagem.

You lied when we were dreaming
Our crying was just fake
I wish you could deny it
Here and today
My s.o.s. on radio
The only chance to let you know
What i fear
Can you hear?

Come and rescue me
I'm burning, can't you see?
Come and rescue me
Only you can set me free
Come and rescue me
Rescue me
You and me
You and me
You and me

Apertei o aparelho, sentindo algo meio pegajoso nas mãos. — BILL! — ouvi meu irmão gritar, na porta do meu quarto. Olhei apra ele, e o vi segurar uma faca ensanguentada. Olhei apra meus dedos, também manchados da mesma matéria vermelha. Meu coração deu um salto assim que entendi. Melissa.