Sweet Shop
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Notas iniciais
Eu não preciso amar aquela criatura para ter a decência de leva-la ao médico. Qualquer um teria feito o mesmo no meu lugar. Por que em um momento você esta zoando a noiva de um cara que se acha o bom (e que deu em cima de você) e no outro descobre que ela esta grávida de três meses e que levou um tombo feio. Não parece, mas isso assusta pra caramba, ainda mais quando o filho não é seu. Você fica com aquela culpa, caso aconteça algo a criança...
Eu não estou rogando praga!
Pois bem, fomos no meu carro.
A dondoca gemendo de dor do meu lado, a dita cuja “Mel” no banco de trás junto com a menina que parecia um cachorro pondo a cabeça para fora da janela pegando um ventinho. Era adorável. Oras, a criança não tinha haver com isso, não tinha culpa se a mãe dela gostava de um ménage, ou estava tendo planos para me induzir a fazer um com ela e o marido estranho que deveria ter. Melody toda hora enchendo o saco dizendo que meu GPS estava errado, por que o hospital não era por ali, blá, blá, blá.
Eu não tenho reclamações sobre o hospital, fomos atendidos assim que chegamos.
Supermodelo a vista!
Eu fiquei sentado na sala do obstetra olhando para as paredes brancas que já me irritavam, e é claro, pensando onde foi que eu errei para merecer isso tudo. Eu deveria estar na minha doceria, e não em um hospital com uma estranha e seu bebe estranho, já que estranhamente o estranho noivo da estranha, era gay. Entendem? Não era nem pra isso estar acontecendo, mas por algum motivo ele me ligou as 5 da manhã querendo saber da encomenda, o que fez Inoue-san vir atrás de mim de mais tarde.
O detetive dela era tão bom que nem reparou que a ligação foi feita do celular dele.
–Temos boas noticias papai. – Disse o médico entrando na sala repentinamente, aparentemente Inoue-san havia ficado na outra após uma ultrassonografia.
– Eu não -- – Respondi quase que de imediato e ele me olhou surpreso. Claro, então outras questões como: “o que uma mulher grávida fazia com outro homem e não o seu marido?” ou então: “o que uma supermodelo fazia na casa de um dos melhores doceiros da cidade?” surgiriam caso eu dissesse que aquela criança não me pertencia.
As revistas de fofocas mandariam beijos por isso.
– Não...? – Sentou-se com certo receio.
– Não entendo como ela foi cair daquele jeito. – Negativei enquanto passava uma das mãos pelos cabelos em uma típica cena de pai de primeira viajem atordoado. Ah claro, eu menti também, mas o que interessa isso agora?
– De qualquer forma, os bebes estão bem, foi apenas um susto. – Susto? Bebes? No plural? Tipo, gêmeos? – Eles se mexeram pouco, mas a saúde continua perfeita como sempre.
– Bebes? Como assim bebes? No plural? – Ele riu ao me ver de pé com os olhos arregalados, quase suando.
– Oh, não sabiam? São gêmeos. – Afirmou dando mais uma olhada em suas anotações.
– CLARO QUE EU SABIA POR ISSO FIZ ESSE ESCANDALO! – Gritei e ele agarrou o telefone, temi que fosse chamar os enfermeiros, ou o manicômio, talvez o FBI. Mas para minha sorte apenas pediu para uma enfermeira trazer um copo de água com açúcar para “um pai muito surpreso”.
E quase chamou um psicólogo também.
Enquanto eu recebia essa noticia maravilhosa (tão maravilhosa quanto bater o dedinho na quina de uma mesa) e sentia uma pequena ponta de ciúmes, já que, desde que aquele anão de jardim apareceu na minha doceria eu não conseguia tirar os olhos dele, ou procura-lo em meio às mesas lotadas, Kai o meu aprendiz se virava sozinho na Sweet Shop. Ninguém sabia onde eu havia me metido e eu sequer tinha ligado ainda (se eles tivessem me ligado eu não ouviria, o celular estava no silencioso).
Vale dizer que só estou descrevendo isso, por que no outro dia me contaram.
Voltamos a doceria, onde Kai se encontrava flambando uma banana enquanto cantarolava, apesar dessa atípica cena em que meu pupilo estava aparentemente tranquilo na minha cozinha, parecendo o chef e completo dono da situação, por dentro ele estava entrando em pânico já que era a primeira vez que tinha que ficar no meu lugar quando eu supostamente havia desaparecido. Eu tinha dito a isso a ele uma vez.
“Se eu ficar doente e não puder vir, você assume”.
Ele ficou eufórico no dia, não via a hora, mas depois que soube que teria que fazer um teste prático a coisa desandou tanto que nem enfeitar um bolo ele conseguia direito. Não o culpo, quem não fica nervoso diante de uma prova conclusiva e que decidirá se você vai ou não exercer a profissão? A profissão tão adorada e desejada por anos, e que levou os mesmos para se aperfeiçoar e treinar? E em meio a tais pensamentos meu pupilo decidiu sair um pouco da cozinha e deixar um dos assistentes, o mais habilidoso, chefiando os demais.
Pode não parecer, mas trabalhar em uma doceria pode ser muito estressante as vezes, principalmente quando há vários pedidos parecidos, que mudam apenas os detalhes de um enfeite ou não pode ter um ingrediente porque o cliente é alérgico. Ou seja, Kai foi espairecer. Deu uma volta pelo local explicou a situação, disse que eu me encontrava doente no dia e por isso ele estava ali, já que muitos perguntaram por mim, e em meio a uma conversa distraiu-se ao ver um rapaz próximo a uma janela com uma menina no colo. A pequena remexia-se e ria ao comer um pedaço de morango com chocolate, aparentemente o pai chamou mais atenção meu pupilo.
“Cabelos castanhos e compridos, amarrados a um rabo de cavalo irreverente, eram repicados. Usava delineador o que não o deixava afeminado, apenas chamava mais a atenção para seus olhos.” Essas foram as palavras de Kai ao descrevê-lo, pode-se notar o quanto ficou impressionado. Ir até esse homem foi quase instintivo e quando se deu conta já estava diante da mesa dele, apenas olhando como um idiota. A pequena agarrou a mão do pai que segurava o morango tentando pega-lo enquanto ele afastava da pequena boquinha em uma brincadeira.
– “Itoshii hito... Daijoubu, sabishika nai deshou.” – Cantarolou para a filha e riu, entregando a ela o pedacinho. – Devagar princesa. – Olhou dela para cima ao notar a presença do outro. – Etto...
– N-Nee. – Sorriu tímido, mostrando-lhe as covinhas.
– Ah, você é o chef hoje. – Apontou para Kai dando um leve riso e limpando a boquinha da pequena. Um dia eu pretendo ser assim, digo, ter uma menina e levar ela pra passear, comer doces e ir ao parquinho... Não falo de dar em cima do meu pupilo, tá certo que ele tem as covinhas mais lindas do mundo, mas... Ah! Vocês entenderam. – Muito bom, bom mesmo cara, tem futuro.
– Ah, valeu, já estou na fase conclusiva do curso, se não estivesse pelo menos aceitável seria estranho. – Kai é uma ótima pessoa, eu realmente gosto muito dele, mas receber elogios nunca foi o seu forte, aliás de muita gente não é. Quase ninguém sabe como agir depois de ser elogiado, e com Kai era assim, sempre fazia um comentário desnecessário que acabava com a magia do momento. Não o culpo. Ao perceber que tinha estragado o momento abaixou a cabeça e pôs a mão na nuca. – Desculpe.
– Tudo bem. – Riram, o que fez o de covinhas ficar ainda mais vermelho. – Sou Yutaka, mas pode me chamar de Kai.
– Ishihara, mas pode me chamar de Miyavi, Meevs, Myv, 382, Ichan... “Hey”, “psiu”, “você aí”, pergaminho ambulante, entre outros. – Curvou-se brevemente em cumprimento, era difícil com um bebe no colo.
– E essa quem é? – Abaixou-se olhando a pequena mais de perto. Por acaso já foi dito que ele ama crianças? Talvez seja por que o temperamento de Kai seja parecido com o de uma. Muito parecido.
– Jewelie, diz bebe, Jewelie. – Balbuciou para a pequena e riu. Tipicamente um grande pai, que estava disposto a mimar a filha de todas as maneiras possíveis. Aparentemente essa era sua primeira filha também, pelo jeito que a segurava e agia. – Minha segunda.
– Eeh? Parecida com você.
– Achou? Dizem que se parece com a mãe.
Sinto que devo comentar esse momento. Por menor e fofinho que tenha sido não pude deixar de notar que algo aconteceu nessa primeira conversa. Claro que sabendo apenas isso não se pode tirar muitas conclusões, talvez tenha sido o tom de voz que Kai utilizou ao me contar, ou a maneira boba que isso se desenrolou, no fundo eu tive o pressentimento que rolou certa atração entre ambos. Sim, Kai era um gay não assumido, mas quando veio para a entrevista de emprego comigo, resolveu me contar com medo de uma represália no futuro.
– Não conheço a mãe para dizer isso. – Outro corte. – Desculpe!
O outro gargalhou ainda mais, pondo a mão no rosto e enxugando algumas lagrimas. – Você é sempre assim?
– Só nervoso. – Foi a vez de Miyavi ficar vermelho, um silencio absurdo surgiu ali, parecendo que todos ao redor haviam se calado, até que Kai se pronunciou. – Etto... “Pergaminho”? – Perguntou curioso já se sentando à mesa. Quando eu digo que só conheço gente abusada, ninguém acredita. Em pleno expediente o abusado do meu pupilo se sentou para conversar com um cliente, vê se eu posso com isso. O mais alto sorriu e virou-se um pouco, erguendo parte da regata, fazendo com que Kai, entreabrisse os lábios. – Ah! Quantas tatuagens você tem? – Arregalou os olhos.
– Muitas, diga-se de passagem, ainda não contei. – Deu de ombros pegando um pedaço de torta para si e arrumando a pequena no colo que esticou-se para Kai. _ pretendo fazer outras... O que foi amor? – Olhou para a pequena que abria e fechava as mãozinhas em direção ao outro.
– Eu posso...? – Referiu-se a pequena e Miyavi apenas assentiu, deixando-a de pé sobre a mesa. – Oi bebe! – Falou com aquela vozinha idiota que fazemos ao ver uma criança, claro que fez questão de segurar as mãozinhas ao que ela riu.
– Hei, me trocando assim é? – Disse a filha sorrindo. – Só por que eu não sei fazer tortas.
– Seu pai é ciumento, hun? – Tocou o pequeno narizinho a fazendo sapatear sobre a mesa, parecia uma bonequinha.
– Eu não sou-- — O tatuado foi interrompido pelo celular que tocava escandalosamente, atraindo alguns olhares para si, sorriu e o pegou, suspirando antes de atender. – Mochi mochi... Hai, na doceria, hai esta comigo, hai já vou. Kissus. – Voltou-se para Kai e diminuiu o sorrido. – Foi mal, eu vou ter que ir.
– A-Ah! Tudo bem, eu entendo. – Disse ao que ele se levantou e pegou a pequena no colo, que resmungou brava. Miyavi apenas a olhou e riu-se não acreditando naquilo e entregou uma nota a Kai, como pagamento pelo pedaço de torta. – Foi mal, mesmo, mas eu volto outro dia, volto mesmo. – Disse arregalando os olhos como se quisesse provar que era verdade. Mais do que rápido deu-lhe dois beijos, um em cada lado do rosto e correu para a saída. – Até breve Yuta-kun.
Sobrou a Kai ficar parado que nem um dois de paus o vendo ir. Pode sentir o coração dele palpitando diante daquilo? Deu pra sentir as pombas voando, os coraçõezinhos flutuando e a música melosa ao fundo junto com o rio de mel e açúcar escorrendo pelos olhos dele? (Certo, isso foi nojento), a realidade é que esse bobinho e fofinho do meu queridíssimo pupilo estava amando. Amando um homem que acabou de conhecer. Quem sou eu pra falar algo?
Enquanto o tatuado sai pela porta, esbarrou em alguma coisa muito pequena que resolveu entrar. Algo absurdamente pequeno, tão pequeno que poderia ser confundido com um Smurf, só precisava cair em um balde de tinta azul que ficaria igualzinho. Takanori-san e seu rato de estimação, digo chihuahua, entravam na doceria e quase foram atropelados pelo poste ambulante. Sintam o contraste. Takanori-san abaixou um pouco os óculos os deixando na ponta do nariz sorrindo para a bebe no colo do outro.
– Desculpe! – Gritou Miyavi acenando para ele.
– Não foi nada. – Disse simplista, com aquela falsa cara de santo e finalmente entrou se dirigindo ao balcão de imediato, dando de cara com uma das atendentes sorridentes, o cachorro (me refiro ao chihuahua) resmungou ao ser puxado para mais perto. Os cabelos ondulados e compridos o deixavam ainda mais afeminado, mas o tom de voz o entregava. Vamos ser sinceros, ele sabia ser gentil quando queria, e sabia usar aquela maldita voz sexy a seu favor. – Reita se encontra?
– Não senhor, ele esta doente. – Disse ela gentil. – O que o senhor gostaria?
– Eu... Tenho algo para dar a ele.
Notas finais
Kissus, e até o próximo, que não vai demorar tanto assim.
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