Sweet Sacrifice
8 Nua e sem saída
Notas iniciais
Acordo juntamente com o sol ao cantar do galo. E juro pelo anjo que isso não é uma hipérbole! Ainda estou confusa com o sonho da noite passada, mas acho que não foi apenas mais um pesadelo sem sentido. Devo estar ficando maluca! Então decido esquecer, por hora...
Bem como aquelas lágrimas. Eu não posso precisar de carinho. Não posso ser fraca. Olho ao redor e estou em um quarto antigo com uma mobília antiga no que provavelmente é uma casa antiga. Os lençóis, apesar de serem de seda, fedem a naftalina e encobrem até o cheiro de sangue seco em minhas roupas. Por falar em fedor eu estou fedendo muito, reparo antes de observar melhor o quarto.
Este não deve ser sequer o quarto de hóspedes de tão minúsculo que é. Tem uma cama de casal pequena do mesmo lado de uma janela situada na parte direita e do lado oposto uma poltrona bege com um abajur ao lado e uma penteadeira bem de frente para a porta. Fico um pouco hesitante, porém finalmente decido me levantar e ir dar uma volta no resto da casa. Abro porta e uma criança caí aos meus pés. Certamente estava tentando espiar.
A ajudo a levantar e ela murmura um “Desculpe” e solta um risinho. Eu a encaro. Ela me encara. Sem dúvidas é a mais nova dos Green’s. Tem cabelos loirinhos caindo em cachos confusos e bochechas enormes. Suas safiras hipnotizantes me cercam até que ela estende a mão.
“Chery Green. É um prazer conhecê-la senhorita...?” ela fala com aquela vozinha de 7 anos
“Ângela, é um prazer pequena Chery. Ângela Campbell de Los Angeles.” Retribuo o aperto
“Você pretende passar quanto tempo aqui?” Chery é direta
“Porquê?” deixo escapar
“Meus irmãos estão brigando por sua causa. E bem... não é todo dia que temos uma estrangeira aqui e eu pensei...”
“Você pensou...? Você está sussurrando, não dá para ouvir.”
“Que poderíamos ser amigas. Sabe é que existe meus irmãos...”
“O William?”
“Sim. E também temos o Jesse. Você irá conhecê-lo em breve. Ele está furioso! Mas você não me ouviu falar isso. Temos a Catharina também, mas sabe como é. Ela é mais velha e só fica pensando em garotos e coisas do tipo. Então eu pensei que... bem. Pensei que se fosse a primeira a, bem... você sabe... tratá-la bem e tudo mais você poderia gostar de mim e então...”
“E então...?” pergunto tentando não me irritar com essa mania da garota de sussurrar ou de repetir que existe um Green que não gosta muito de mim
“Que nós poderíamos ser amigas.” Ela diz e solta um longo suspiro
“Ok. Por mim está tudo b...”
Não tenho tempo de terminar ela me puxa pela mão e simplesmente começa a falar feito uma porca!
Me apresenta a todos os cômodos da casa. Que basicamente é constituída por dois andares. Os de cima são os quartos e salas de treinamento ou coisas do tipo. No andar inferior temos duas salas principais, uma sala de música, um corredor que leva até os fundos onde teremos as casas de campo e uma cozinha enorme. Paramos na cozinha, pois bem. Um comentário nada legal é feito.
“Que cheiro horrível é esse?” uma senhora pergunta, a cozinheira, descubro
“É a nossa estrangeira Margaret. Seja mais... bem, mais lady. Essa é a senhorita Campbell e essa é a melhor cozinheira do mundo, senhorita Margaret.”
A mulher fica toda tocada com o elogio da esperta Chery. Nós falamos sobre amenidades (lê-se mentiras sobre a minha antiga vida e como vim parar aqui em Idris). E então ela pede a Chery que me dê roupas limpas e toalha para tomar um banho porque – como a mesma disse – eu estou mais fedorenta que uma mula.
E depois nos voltaríamos para tomar café. Descobri que as refeições são os maiores eventos da casa e que, mesmo na minha condição de hospede, não devo nunca chegar atrasada.
Chery me leva até um banheiro externo e diz que é só para não sujar o banheiro da casa com sangue. É um cubículo de madeira com um chuveiro. A cachinhos dourados promete buscar roupas com a irmã e que voltará rápido.
Duvido de sua palavra depois que termino meu banho e fico morrendo de frio lá fora, apesar do sol matinal. Além de levar minhas roupas e não deixar uma toalha. Começo a desconfiar da pestinha. E santo anjo! Eu estrangularia aquela coisinha!!
Cinco, dez, vinte e meio minutos e nada dela. Decido que tenho que fazer alguma coisa! Mas eu não posso simplesmente sair nua. Chamo-a pelo nome. Nada. Meus dentes mesmo trincados estão batendo num ritmo patético de tão alto. Nem minha estela a criatura deixou.
O desespero toma conta quando ouço o som de cavalos. Ótimo. Agora o Lucas ficará apaixonadíssimo por mim. Percebo com relutância que apesar de humilhante é a única forma de eu não acabar ficando aqui para sempre. Começo a gritar um “Ei” E depois um “Aqui” E então um berro: “Socorro!” Um homem do cavalo negro parece finalmente ouvir e cavalga em minha direção. Depois que desce na sela pega sua estela e pergunta numa voz metódica:
“Quem está ai?” ele é bem bonito e tem cabelos loiros acobreados (ruivo), deve ser o primogênito dos Grenn
“Sou eu. Uhun... A garota de Los Angeles. Desculpe-me mas é que a pequena Chery prometeu-me trazer roupas ou algo para me cobrir depois do banho, porém já faz um bom tempo e até agora não retornou. O que acontece é que... uhun... eu... un... estou despida aqui e sem ter como sair.”
Ele ri. Isso parece tão engraçado assim? Me controlo para não avançar no pescoço do desgraçado.
“Ela costuma ser esquecida. Pois bem. Como posso ajudá-la senhorita...?”
“Campbell. E aposto que roupas não fariam nada mal. Senhor...?” pergunto usando o mesmo tom de voz
“Green. Jesse Green. Eu não tenho roupas aqui, mas tome isto.”
Ele diz e tira sua capa preta. Uau. Ele é bem malhado para um camponês! Ele caminha até onde estou “Não olhe!” grito sem pensar. Afinal, é apenas nudez. Nada demais. Ele acha graça de novo e nem tentar desviar o olhar. Me agacho e pego a capa vestindo-a e agradecendo por ela cobrir todo o meu corpo.
“Vamos.” Eu digo passando por ele
“Quer uma carona?” Jesse pergunta debochado e eu olho para ele atônita
“Certamente se eu cair do cavalo não vai ser muito legal. Não. Na verdade vai ser. Só que não para mim... certo. Você entendeu.”
O que diabos deu em mim? Dou meia volta e vou caminhando pelas portas dos fundos até o casarão.
É uma questão de minutos. É só eu fechar a porta do quarto que alguém bate. “Chery se for você, vá embora.” Digo irritada
“Na verdade sou eu. Catharina. Trouxe roupas para você. Jesse me contou o que aconteceu.”
Abro a porta. “Me desculpe e obrigado” digo pegando as roupas
“Elas são minhas. Foi o melhor que consegui. Você é mais alta então...”
“Servirão sem dúvidas. Muito obrigado Catharina.”
“De nada...?”
“Ângela.”
“Bom Ângela estamos te esperando para o café da manhã. Espero que não se importe de comer conosco. E BEM, NÃO DEMORE. Sem querer ser chata a refeição é muito importante por estas bandas.”
Assenti que sim e ela sai. E grande coisa. Um vestido! Vestido! A última vez que eu vesti um vestido deve ter sido quando era uma garotinha. Porém muito grata por ter o que vesti pego o vestido branco e o visto. Ele fica na altura dos joelhos e muito apertado no busto. Solto o cabelo para que cubra os seios. Belisco as bochechas para tentar disfarçar a palidez e calço algumas sandálias que encontro.
Ao chegar na sala de jantar encontro todos sentados à mesa. Senhor Gabriel Green a cabeceira. Senhora Green , ou como ela insistiu ao me pedir que senta-se do lado de Catharina, Luiza. Sentei de frente para a pestinha, vulgo Chery que olhava para o próprio prato com uma desgraça contida. Catharina ao meu lado. Os garotos cada um de frente para o outro. Fomos apresentados “oficialmente” e eu contei toda aquela história sobre minha família e a ida ao Instituto quando fui atacada e então encurralada acabei abrindo um portal qualquer para Idris que me trouxera até aqui.
Falei que estava muito assustada e que se eles permitissem, eu ficaria mais alguns dias antes de partir. Claro que era tudo mentira e conversa fiada para mim e somente com um milagre faria o Lucas, agora William, se apaixonar por mim em uma semana. O tempo necessário me foi oferecido enquanto eles narravam suas vidinhas sem graça na fazenda. Distribuindo leite e etcs para toda Alicante.
Terminamos a refeição rápida e fui avisada que aqui é assim: você tem que se sentar a mesa e comer com todos na hora exata.
“Querida, você poderia mostrar a Ângela a fazenda hoje a tarde” falou dona Luiza à filha que visivelmente tinha planos muito mais legais e até iria recusar, porém:
“Mas eu já tinha combinado com a Ângela que a levaria para conhecer os estábulos hoje, mamãe!” falou a pestinha
A mulher me deu um olhar de clemência que pelo anjo! Terminei de ajudar a tirar a mesa fingindo não ver
“Ah, desculpe Chery. Mas quem sabe amanhã?” ou nunca quis acrescentar
“Ahhh – fez com aquela carinha – tudo bem.”
“Ótimo! Vamos logo então” disse Catharina me puxando enquanto eu dava de ombros pedindo licença
Ruiva, vulgo Jesse Green:

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