Sweet Liar

1 Capítulo único


Notas iniciais
Ei leitores, trouxe uma one bem simples e leve aqui, apenas para passar o tempo! Digamos que foi um desafio tentar ir por esse caminho de comédia romântica, mas eu tentei e espero que vocês curtam, é simples, mas é de coração. Boa leitura.

Felicity Smoak

Cheguei em casa e a primeira coisa que fiz foi retirar meus sapatos de salto e chutá-los com toda a força para o canto da sala fazendo-os bater contra a parede e rolar no chão. Eu estava extravasando toda a minha raiva em cima dos pobres coitados que não eram culpados pela grande merda que tinha sido a minha noite. Caminhei descalça para o meu quarto e joguei-me de bruços sobre a cama onde abafei um grito de frustração contra o travesseiro.

Porque eu ainda me dava o trabalho de tentar?

Eu disse que seria só mais essa vez. Apenas mais um encontro às escuras arranjado pela minha mãe Donna Smoak, eu só faria isso para que ela parasse de me atormentar. Eu ainda não sei como ela conseguia organizar essas coisas de Las Vegas, oh, mas nada impedia minha mãe de se intrometer na minha vida amorosa mesmo a distância.

O cara da vez, Sheldon Cooper, era o filho da vizinha da melhor amiga de infância da minha mãe, e veio cheio de recomendações. Ótimo aluno, filho exemplar, trabalhador, bonito e inteligente, com bom senso de humor, muito gentil. E toda aquela longa lista de elogios que mais pareciam ter sido feitas pela própria mãe.

Minha opinião? O cara era um grande babaca!

Me levou a um restaurante caro, mas escolheu a comida de acordo com o preço do que era mais barato. Passou metade do encontro falando sobre si mesmo, o quão incrível ele era, sobre seu carro novo importado e a recente promoção no trabalho. A outra metade do encontro ele passou fitando sem o menor pudor o decote generoso da garçonete que nos servia. E quando eu saí por meros minutos para atender uma ligação do meu chefe, que desconhece o significado da palavra noite de folga, eu o peguei apertando a bunda da garota que por sua vez dava risinhos irritantes.

Eu tinha uma ligeira impressão que eles haviam se pegado em uma das minhas saídas, porque o batom dela estava borrado. Mas eu não poderia me importar menos.

Ao final do encontro o cartão de crédito do maravilhoso Cooper foi recusado e eu me vi obrigada a pagar sozinha pelo pior encontro da minha vida. Mas eu o fiz contente porque estava ansiosa demais para ir embora e me livrar da companhia desagradável. Qual não foi minha surpresa quando Cooper pediu uma carona dizendo que o seu carro importado estava na oficina e o idiota estava sem dinheiro para o táxi? Respirei fundo me lembrando de que eu era uma alma caridosa e contei até dez milhões enquanto ele fizera mais um monólogo sobre si mesmo durante todo o caminho. Eu teria aguentado isso mantendo meu pensamento preso a garrafa de vinho tinto que eu tinha ganhado do meu chefe no meu aniversário, e estava guardada para uma ocasião especial. Esquecer esse maldito encontro tomando uma taça bem cheia de um vinho caro parecia um motivo válido. Mas é claro que Sheldon Cooper era uma caixinha cheia de surpresas ruins, porque assim que parei o carro em frente o seu apartamento o idiota ainda achou que iria se dar bem no final da noite!

O enxotei do meu carro e mostrei-lhe com prazer o meu glorioso dedo do meio.

Meu celular tocou e eu ignorei, controlando a vontade de jogá-lo contra a parede. Não estava disposta a falar com a minha mãe agora e reviver cada minuto daquele péssimo encontro mais uma vez. Mas eu deveria ter previsto, minha mãe jamais desistia e assim que meu celular parou o telefone de casa começou a tocar também. Eu precisava ser forte e dizer a ela chega de encontros com os filhos das vizinhas das suas amigas! Eu, Felicity Smoak sou perfeitamente capaz de arrumar um namorado sozinha ou morrerei solteira e feliz. Era hora de enfrentar a minha mãe e dar um basta em suas tentativas de bancar a casamenteira.

Levantei da cama e fui à sala atender ao telefone fixo. Eu nem sei por que ainda tinha aquilo em tempos de celular e internet.

— Alô. — atendi, jogando-me no sofá sem a menor vontade de esconder o meu mau humor.

— Oh! Pensei que eu teria sorte e você não atenderia ao telefone! — Minha mãe falou do outro lado da linha parecendo decepcionada.

— Mãe, porque você ligou se pensou que eu não atenderia? — Eu a amava, mas certamente não era fácil de compreender o jeito de pensar de Donna Smoak.

— Apenas para saber se você se deu bem. Se não atendesse era porque estava muito ocupada com outras coisinhas... — Minha mãe falou entre risinhos — Mas já que eu tenho uma filha cheia de pudores e que segue a regra de não transar no primeiro encontro. Me diz, como foi? — Bufei ao telefone, porque bufar era a única reação educada o suficiente para expressar minha indignação.

— O cara é um completo idiota! — Exclamei, trocando mentalmente “idiota” por nomes muito mais pesados, que assustaria minha mãe se eu os usasse.

— Ah, não Felicity! Não me diga que espantou mais esse?! — Era perceptível a decepção no tom dela.

— Eu não espantei ninguém! — me defendi, ultrajada, me sentando mais ereta no sofá.

— Você é impossível! — ela reclamou sem se dar ao trabalho de me escutar — Eu me esforço para conseguir alguém que combine com você, e esse tinha ótimas recomendações, mas você é tão difícil e sempre consegue encontrar um defeito. — suspirei e massageei as têmporas tentando espantar a leve dor de cabeça, eu já conhecia aquele discurso de cor — Mas não vamos desistir, eu conheci essa mulher na aula de pilates e o sobrinho dela tem um meio irmão que mora aí em Starling... — E lá estava Donna Smoak novamente tagarelando sobre outro possível pretendente, se eu não desse um jeito logo era capaz de toda a cena dessa noite se repetir num futuro não muito distante. — ... Ele se chama Ray, tem doutorado em...

— Mãe, eu estou saindo com alguém! — Falei de repente a interrompendo, apenas para fazê-la parar, eu estava determinada a não passar por mais encontros desastrosos como esse. Minha mãe ficou um longo período calada, temi que o susto tivesse sido grande demais para ela. Mas segundos depois ela deu um daqueles gritinhos agudos que quase furaram meus tímpanos e eu soube que tudo estava bem.

— O quê? Oh, meu Deus! Porque não me disse antes? E como ele é? O que ele faz da vida? Ele é bonito? Espere, vamos começar pelo nome! — Ela exclamou tão empolgada que eu tinha certeza que estava dando pulinhos de felicidade. — Felicity, ande logo eu quero informações! Já fizeram sexo? E como foi? Qual era o tamanho do... — Oh merda, parecia que eu tinha aberto a porta para uma vizinha mexeriqueira e a convidado para tomar um café enquanto lemos o meu diário.

— Hum... O nome dele é... — Olhei para o celular que de repente começou a vibrar na minha mão, as mensagens do meu chefe chegando uma atrás da outra. — Oliver Queen. — Eu não sei que merda eu tinha na cabeça, talvez eu tenha apenas lido o nome em voz alta, mas uma vez que o nome do meu chefe saiu pela minha boca e minha mãe o escutou, não tinha mais volta.

— E como ele é? Me mande fotos! Ele ficou com ciúmes por você ter saído com outro? É claro que ficou, mas é sempre bom um pouco de ciúmes para apimentar a relação e para mostrar a um cara que não te tem na palma da mão. Eu lembro de uma vez que... — começou a tagarelar novamente.

— Na verdade, mãe, Oliver está ligando agora, será que podemos falar sobre isso depois? — Aquela não era de todo uma mentira, a foto de Oliver piscava na minha tela indicando a chamada. Eram quase dez da noite, e sim Oliver era um daqueles chefes que te querem a disposição dele vinte e quatro horas por dia.

— Diga que mandei beijos e estou ansiosa para conhecê-lo! — Eu ri de nervoso por apenas imaginar dizer a Oliver que minha mãe mandou beijos!

— Alô? — Atendi ao celular cautelosa. Ele já tinha me ligado duas vezes naquela noite, durante o encontro com o babaca do Cooper, e nas duas vezes era para algo sem a menor importância.

— Porque demorou tanto a atender? — reclamou parecendo mau humorado. Eu já disse que meu chefe Oliver Queen é um maluco por controle? E irritantemente meticuloso? Pois ele era.

— Acredite ou não algumas pessoas tem vida social, Senhor Queen, — não resisti a alfinetada, Oliver respirou fundo do outro lado da linha, ele odiava me ouvir chamá-lo de Sr. Queen — E eu te disse que tinha um compromisso hoje.

— Ah, sim. — ele deu uma de desinteressado — Como foi o encontro, Smoak?

— Eu não te disse que estava em um encontro. — Falei na defensiva, eu gostava de trabalhar para Oliver, mas eu sempre tentava manter uma linha profissional entre nós dois, enquanto ele estava disposto a tornar as coisas mais amigáveis.

— Deve ter sido uma merda por que seu humor não está dos melhores. — Havia esperança na voz dele?

— Ou então é porque eu tenho um chefe que não sabe o significado da palavra noite de folga, e já me ligou três vezes essa noite atrapalhando os meus planos. — ele ficou calado por um tempo, eu escutei apenas a respiração pesada dele e quando ele voltou a falar a voz não estava exatamente controlada.

— O seu encontro ainda está com você? — perguntou, mas sequer me deu chance de responder — Esqueça, eu prefiro não saber! — Porque ele havia ficado tão mau humorado de repente? — Eu apenas preciso de você amanhã bem cedo. — Frisou naquele tom controlador e autoritário que eu conhecia bem. — Então acho melhor dispensar quem quer que seja o cara, porque eu preciso de você descansada e disposta para o que tenho em mente. — Eu senti minhas bochechas arderem com aquela frase. Talvez eu estivesse num nível alto de carência porque a maldita frase soou extremamente sexual na minha mente. — Na verdade, limpe a sua agenda pelo resto do mês e pelo próximo também. Eu vou precisar de você em tempo integral, sem noites de folga para encontros.

— Você vai pagar caro por isso. — Comentei.

— Oh, vai valer a pena. — Eu senti um riso na voz dele. Ele sabia que eu estava falando sobre pagar as minhas horas extras?

— Certo. — Assenti, não que eu tivesse alguma coisa na minha agenda diferente de fazer maratonas de séries ou ler os livros que se amontoavam na minha estante. Mas a perspectiva de passar todas as noites em um escritório com Oliver também não era das melhores.

Talvez, apenas talvez eu tivesse um gigantesco tombo pelo meu chefe. Mas eu não seria uma mulher de libido saudável e cabeça no lugar se não tivesse. O maldito era malditamente perfeito, corpo musculoso e forte escondido por trás de ternos caros, mas era comum ver Oliver retirar o paletó e dobrar as mangas da camisa até os cotovelos num dia quente. Ele costumava afrouxar a gravata de um jeito que era absurdamente sexy também. Eu apenas me esforçava para não ser uma daquelas garotas que faltavam babar na frente dele, e o fato de conhecê-lo bem mais a fundo, como profissional e pessoa, talvez ajudasse um pouco aliviar aquela atração sexual que ele parecia emanar.

A quem eu estou tentando enganar? Não havia forma de Oliver Queen não ser sexy, mas eu era boa em fingir que isso não me afetava. Eu gostava do meu emprego e não entraria de jeito nenhum naquele clichê de chefe e secretária.

— Felicity? — Oliver chamou meu nome, percebi tardiamente que era pela segunda vez.

— O quê? — perguntei afobada, ainda atormentada pelo pequeno lapso de fantasiar com meu chefe, estando com ele ao telefone.

— Qual a cor do vestido que usou no encontro? — Franzi o cenho e desci o olhar para o vestido simples e de corte reto.

— Azul. — Respondi, ainda sem entender a relevância daquela pergunta.

— Bom. — suas palavras soaram surpreendentemente satisfeitas, pelo tom eu poderia imaginar que Oliver sorria — Isso significa que você não estava realmente interessada ou então usaria vermelho. Vejo-a amanhã, Felicity.

— Espere o que quer dizer com isso? — Perguntei, mas o filho da mãe já havia desligado.

***

A cada dia que passava eu me enrolava mais e mais naquela mentira de namorado falso. Mentir era um vício difícil de largar, e sem querer eu me via dando informações reais sobre Oliver. Time de futebol favorito, o quanto ele era mau humorado pelas manhãs, ou se fazia de durão, mas era sempre um amor com sua irmã, Thea. Essas eram as únicas coisas que não eram mentiras. Mas eu usava Oliver como desculpa com cada vez mais frequência e descobri que essa era a maneira mais simples de finalizar uma ligação com minha mãe sem que ela ficasse chateada.

As coisas começaram a se complicar quando eu não levei meu namorado perfeito para Las Vegas no único fim de semana de folga que tive naquele mês. Ou ainda, quando eu disse que ele ficou subitamente doente e não pode comparecer ao casamento da minha prima de 2°grau. Minha mãe, como toda boa mãe me alertou que meu namorado perfeito estava me enrolando e que talvez não estivesse levando o nosso relacionamento tão a sério quanto eu, e então eu tive a brilhante ideia de dizer que era impossível já que Oliver havia me pedido em casamento.

Sim, eu sabia que havia ido longe demais. Mas naquele ponto eu não me importei muito, eu sempre poderia fingir um rompimento e alegar que precisaria de um tempo dos homens para me recuperar do choque de um noivado desfeito, isso provavelmente me garantiria uns bons meses sem encontros arranjados pela minha mãe. Mas eu esqueci de contar com um fator determinante.

O que a ideia de um casamento fazia com minha mãe, Donna Smoak.

Eu descobri meu erro logo no dia seguinte.

— Surpresa! — minha mãe exclamou com um sorriso brilhante, abrindo seus braços para mim e correndo em minha direção no instante em saí do elevador que dava na sala da presidência. Ela me abraçou apertado enquanto eu ainda tentava assimilar o que ela estava fazendo aqui, na Queen Consolidated, onde eu trabalhava, onde o meu chefe e falso noivo também trabalhava.

— Mãe? O que está fazendo aqui? — perguntei no meio do abraço quase sufocante.

— Imagine a minha surpresa ao chegar no escritório hoje e encontrar a sua mãe esperando por nós dois. — Ergui a cabeça em direção da voz masculina a poucos metros de nós. Mas é claro que no dia que eu mais precisava que ele se atrasasse, Oliver havia chegado mais cedo. — Ela está querendo discutir os preparativos do casamento. Do nosso casamento — ele frisou — Porque nós estamos noivos, não é querida?

Merda.

Merda.

Merda.

Eu não conseguia pensar em mais nada a não ser em xingar mentalmente. Olhei para Oliver sem saber o que dizer, um me desculpe bastaria? Ou eu deveria me livrar da minha mãe primeiro? Ou ainda fugir daquela sala, comprar uma passagem para Marte e ignorar todos os meus problemas? A última alternativa era tentadora.

— Me desculpe querida, eu sei que deveria ter ligado, — minha mãe me soltou e finalmente consegui respirar — mas quando eu soube que meu bebê iria se casar, eu nem pensei duas vezes! Peguei o primeiro voo para Starling, eu precisava conhecer o famoso Oliver Queen que conseguiu conquistar seu coração — Oh, merda. Porque ela tinha que piscar seus olhos parecendo encantada por ele? E porque Oliver tinha que sorrir tão abertamente enquanto desviava seus malditos olhos azuis na minha direção — Me conte, querido. Como você convenceu a minha filhinha a se casar? Você a engravidou? — Perguntou com os olhos cheios de animação. — Porque eu vou te dar um segundo abraço se além de um genro eu ganhar netinhos.

Eu só queria cavar um buraco e me enfiar nele para sempre.

— Mãe... — tentei, mas Donna estava disposta a me ignorar.

— Ela está dificultando não é? — Oliver riu e eu não soube dizer se era porque estava nervoso ou se divertia com a situação. — Não se preocupe querido, eu tenho o calendário dela posso dizer quando será o período fértil para agilizar as coisas para vocês dois quando forem fazer sexo. — minha mãe falou com a maior normalidade do mundo, fazendo Oliver engasgar de nervoso e eu, querer me matar.

— Mãe! — Eu praticamente gritei.

— O que foi, bebê? Sexo não é uma palavras suja! Felicity sempre foi uma garota cheia de pudores! Acredita que nem me contou quando perdeu a virgindade? — senti o sangue se acumular nas minhas bochechas — Meu bem, eu fiz sexo com seu pai para ter você, e eu tenho certeza de que você e Oliver também fazem muito sexo apenas pela diversão. — Dessa vez até Oliver pareceu envergonhado.

Eu precisava dar um fim naquela situação constrangedora.

— Ok, mamãe, você tem razão. — Recebi um olhar confuso de Oliver, e só então percebi que acabara de confirmar para a minha mãe que nós dois fazíamos sexo porque era divertido. Eu estava perdendo a cabeça, me adiantei até ela tentando dar um fim na situação. — Que tal se você ir para o salão de beleza do outro lado da rua? Fazer unhas e cabelo? — ofereci — Eu pago. — barganhei, mas nem assim ela parecia convencida, seus olhos ainda estavam cravados em cima do meu brilhante falso noivo — É que Oliver e eu temos muito trabalho por hoje...

— Oh. — exclamou seu semblante caiu parecendo verdadeiramente decepcionada.

— Mas eu te encontro no almoço. — de preferência num lugar vazio onde você não possa me embaraçar quando eu contar que não estou noiva de verdade, acrescentei mentalmente enquanto dava um sorriso de incentivo a minha mãe.

— Mas eu vim aqui para conhecer o seu noivo. — falou fazendo beicinho como se fosse uma criança de três anos.

Aquilo era inútil, era como tentar convencer uma criança a abrir mão do seu brinquedo novo e brilhante.

— E você vai, nós nos vemos no almoço, Donna. — Oliver garantiu a ela, percebi tardiamente que ele se colocava ao meu lado, sua mão ao redor da minha cintura fazendo meu corpo se acomodar ao dele num movimento natural. Me forcei a não parecer nervosa e apenas sorrir. — Estou ansioso para conhecer mais sobre a mãe da minha noiva. — Ele disse, eu tinha uma resposta atravessada na ponta da língua, mas nesse momento Oliver se inclinou, pousando um delicado beijo na minha têmpora, enquanto sussurrava um “se acalme e relaxe” em meu ouvido.

Suas palavras sussurradas, o toque rápido, porém quente e marcante de seus lábios em minha pele, me fizeram estremecer ao invés de relaxar.

— Eu tenho algumas histórias interessantes sobre a nossa Felicity aqui! — Minha mãe piscou para Oliver, parecendo animada com o que via a sua frente.

— Estou ansioso por isso. Foi um prazer sem igual finalmente conhecer a mãe da minha amada noiva. — Oliver garantiu esticando a mão na direção de Donna que a aceitou sem cerimônia.

— Igualmente. — Minha mãe disse, com um sorriso feliz nos lábio e finalmente saiu.

Eu fiquei encarando o elevador, até porque era melhor do que encarar Oliver. Não apenas pela vergonha que minha mãe me fizera passar, mas principalmente porque eu devia um gigantesco pedido de desculpas por envolvê-lo nessa mentira. Mas quando respirei fundo, mordi fortemente meu lábio inferior e ergui meus olhos encarando o objeto da minha mentira, que permanecia ainda próximo, com sua mão ao redor da minha cintura. Estranhamente eu não encontrei um Oliver severo ou disposto a me demitir.

Ele tinha um sorriso curioso no rosto e seus olhos fitavam-me com evidente interesse. O canalha parecia estar se divertido! Eu tive certeza que de ele estava se divertindo assim que as palavras deixaram a sua boca:

— E então, querida, quando iria me contar que estamos noivos? Porque eu acredito que pulamos algumas fases interessantes desse relacionamento, estou certo?

***

Eu gostaria de dizer que toda aquela confusão foi devidamente esclarecida, comigo me desculpando com Oliver por usá-lo como meu falso noivo e claro, contando a verdade sobre aquela pequena grande mentirinha para a minha mãe. Mas para a minha sorte o destino deu uma mãozinha, e Oliver acabou tendo que deixar a empresa e ir cuidar da irmã que sofrera algum tipo de acidente.

Quero dizer, eu me sentia péssima pela irmã de Oliver, Thea era uma menina doce e não merecia estar no hospital. Mas eu me sentia muito bem por poder adiar aquele assunto um pouco mais, de preferência até que minha mãe estivesse num voo de volta para Las Vegas.

É claro que Donna ficou desapontada quando eu disse que Oliver não poderia ir ao almoço, e que era provável que ela não o visse novamente já que o voo de volta dela era no dia seguinte logo pela manhã, e Oliver precisava ficar com a irmã no hospital durante a noite. Já era tarde quando decidi pedir uma pizza para minha nós duas, eu estava apenas pensando na melhor forma de contar à ela que Oliver não era meu noivo de verdade, mas estava adiando, cheguei a conclusão de um pouco de comida poderia deixar minha mãe mais maleável.

Corri para atender a campainha no instante em que ela tocou, eu precisava de carboidratos para me ajudar com meu problema de falta de coragem.

— Alguém pediu pizza? — Fitei descrente a pessoa a minha frente segurando uma caixa com uma pizza nas mãos.

Ele estava impecável, o que não era novidade, porém era diferente vê-lo mais despojado. Com seus cabelos úmidos de quem acabara de sair de um banho, usando jeans escuros e uma camisa azul com os punhos dobrados até a curva do cotovelo, deixando em evidência seus braços fortes. Oliver estava um pedaço de mal caminho.

Enquanto eu tinha meus cabelos presos num rabo de cavalo e vestia shorts de malha e uma camiseta velha de um super-herói que eu usava para dormir.

— Que bom que conseguiu vir, Oliver. — Minha mãe se adiantou e foi até ele enquanto eu ainda o fitava incrédula sem entender o que Oliver fazia aqui. — Eu pensei que iria partir sem conversar um pouco mais com meu futuro genro — Oliver sorriu todo simpático para ela. Ele não estava me ajudando! Como eu ia contar a verdade se ele ficasse cheio de sorrisinhos para ela? — Oh, e como está sua irmã, querido?

— Não foi nada, ela apenas caiu, está com um belo galo na cabeça e torceu o tornozelo. Mas se tem algo que Thea é, é uma grande rainha do Drama. Eu fui dispensado tão logo o namorado chegou para passar a noite com ela no hospital. — explicou.

— Isso é ótimo, entre, eu aposto que a casa é praticamente sua. — piscou para Oliver de um jeito sugestivo, enquanto Oliver entrava na minha casa pela primeira vez — Deixe-me pegar a pizza que vou organizar a mesa para que possamos jantar e bater aquele papinho que você está me devendo!

— O que está fazendo aqui? — murmurei dentro de um sorriso, minha mãe ainda estava perto o suficiente para nos ver e ouvir.

— Onde está o meu beijo de boa noite, querida? — Ele sorriu fazendo questão de falar bem alto, claramente achando graça da situação. Abusado!

— Oh, como eu pude me esquecer dele, benzinho? — não pude deixar de acrescentar o apelido irônico ao final, mas como notei que minha mãe nos observava com atenção, coloquei-me nas pontas dos pés e me inclinei pousando cuidadosamente meus lábios sobre a bochecha de Oliver.

— Me beije direito. — sua voz foi uma ordem, e o maldito comando se espalhou por cada célula do meu corpo no instante em que suas mãos grandes se espalmaram em minha cintura, puxando meu corpo para si. Calor era tudo o que eu sentia vindo do corpo de Oliver e se espalhando pelo meu. Nossas respirações se consumiram a medida que nossos rostos ficavam mais perto, senti a barba por fazer de Oliver arranhando a minha pele, seus lábios roçando pelo meu maxilar e subindo vagarosamente até chegar a minha boca.

A boca dele era macia e tinha gosto de hortelã.

Ele apertou meu corpo ainda mais no seu, e eu me deleitei com a proximidade. Senti sua língua delinear a abertura entre os lábios exigindo passagem para um beijo que eu tinha certeza me consumiria por completo. Eu parei de repente me afastando de Oliver, quando um vergonhoso gemido quase saiu da minha boca.

— Poderia ter feito melhor, Felicity. — Ele provocou num pequeno sorriso, seus olhos fitando a minha boca de uma maneira que deveria ser considerada pecaminosa, como se dissessem que queria muito mais, seus dedos brincavam com a base da minha camiseta tocando distraidamente a minha pele, tornando difícil pensar com clareza. Eu ainda respirava com dificuldade, e o cheiro de Oliver parecia estar por todo o lugar chamando-me para ele, eu quase me inclinei novamente para ele, quase me deixei ser seduzida pela ideia de que Oliver era meu noivo que havia acabado de chegar e eu realmente queria lhe dar um beijo de boa noite. Ele estava certo, eu poderia ter feito melhor, eu queria fazer muito melhor. Mas se um simples beijo já me deixara completamente desnorteada, como eu conseguiria encarar Oliver todos os dias no trabalho depois de beijá-lo da forma que eu queria tão desesperadamente beijar?

— Oh, você jovens são tão apaixonadinhos! — nunca fiquei tão contente ao escutar minha mãe me dizendo algo embaraçoso, sua voz me fazia sair daquela névoa de desejo que um simples roçar de lábios com Oliver havia me colocado.

O jantar transcorreu bem.

Se bem significa minha mãe contando histórias vergonhosas sobre mim e enchendo Oliver de perguntas enquanto eu estava distraída demais com a reação do meu corpo ao beijo de Oliver. Eu sempre me senti atraída por ele, mas antes era fácil esconder isso atrás do profissionalismo, ou do clima amigável, eu não iria perder um ótimo emprego só porque eu achava meu chefe sexy. Eu não queria estragar as coisas entre nós, mas como eu poderia voltar ao que éramos agora que eu sabia como eu me sentia com um simples toque dele?

Meus pensamentos desapareceram quando uma das perguntas da minha mãe para Oliver chamou a minha atenção.

— Como você conseguiu convencer Felicity a te dar uma chance? Eu sou a mãe dela e preciso usar de muita chantagem emocional para convencê-la a sair com um cara. — Pelo menos ela admitiu ser uma manipuladora — Estou curiosa, como conseguiu conquistar o coração da minha filhinha?

— Conquistar o coração dela? Eu não acho que consegui ainda, é um processo lento. Mas sinto que a cada dia eu estou um pouco mais perto. — as palavras de Oliver soavam como mel nos ouvidos de minha mãe, ela estava completamente encantada. — Quando eu percebi o que sentia por ela eu fiquei assustado, eu nunca me senti assim por mais ninguém. Nós trabalhamos juntos, ela conhece minhas qualidades e meus defeitos também, eu sou eu mesmo quando estou com ela. E estar com ela é fácil, natural, eu me divirto apenas estando com ela num dia de trabalho por mais cansativo que isso devesse ser. Mas apenas trabalhar com ela já não era o suficiente para mim, eu queria que Felicity me visse como alguém além do chefe dela, então eu coloquei uma meta e eu disse a mim mesmo que não descansaria enquanto eu não fizesse com que ela visse que nós dois somos bons juntos, e que isso poderia dar certo. — minha mãe colocou o cotovelo sobre a mesa apoiando a cabeça na palma da mão fitando hipnotizada Oliver falar de mim, da sua determinação em me conquistar, era impossível não deixar que suas palavras me atingissem, principalmente quando seus olhos fitavam os meus de um jeito tão intenso, eu me sentia completamente arrebatada por ele, por suas palavras. — No começo foi difícil. — ele continuou a contar — Felicity estava sempre saindo para esses encontros arranjados, sua culpa, eu creio. — minha mãe riu — Foi quando eu percebi que se eu queria algo com ela, eu teria que eliminar a concorrência e jogar mais pesado. Eu comecei ligando durante os seus encontros, inventando motivos para que ela ficasse mais tempo no escritório comigo. Jantares com clientes que nem sempre apareciam. Eu garanti que só teria o meu nome na agenda dela. — Oliver falava com tanta convicção que grande parte de mim acreditava no que ele dizia, até porque parecia tudo muito plausível, nos últimos tempos eu vinha passando cada vez mais tempo com Oliver. — E de repente, aqui estou eu, noivo dela.

Pisquei com suas últimas palavras balançando a minha cabeça e dizendo a mim mesma que todas as palavras doces de Oliver tinham sido o jeito dele de encaixar a sua história na minha mentira. Ele não se sentia desse jeito sobre mim e eu não deveria me deixar levar, isso era perigoso.

— Isso foi lindo, querido. — Minha mãe disse, secando uma pequena lágrima no canto dos olhos, me senti culpada e uma péssima filha por vender à ela toda essa ilusão. — Eu vou me deitar agora, aproveitem a noite sem mim. A propósito, eu tenho um sono pesado então não precisam se preocupar em serem silenciosos. — Ela piscou um dos olhos e sorriu sugestivamente para nós enquanto saía.

Aquela tensão entre nós ficou ainda pior ao nos vermos sozinhos

— Felicity... — Oliver começou, mas eu ainda não estava preparada para isso. Eu precisava organizar meus pensamentos, antes que acabasse fazendo alguma besteira.

— Quer beber algo? Um vinho talvez? — Oliver assentiu com a cabeça e eu escapei para buscar taças e o vinho tinto que eu tinha guardado. Para meu desespero Oliver me seguiu, observando-me atentamente. Malditos olhos que pareciam ver através de mim, maldita boca macia que eu queria beijar outra vez. Porque eu não inventei que estava noiva do jornaleiro?

Abri a garrafa de vinho com deliberada lentidão, coloquei as taças sobre a ilha da cozinha e despejei o líquido escuro dentro delas. Quando finalmente fitei Oliver, que estava apoiado na bancada muito mais perto do que eu gostaria, notei que ele olhava para mim e sorria, com uma leve provocação.

— O que foi? — eu estava irritada com Oliver e seus sorrisos e olhares que tornavam tudo muito mais difícil para mim.

— Esse é o vinho que te dei de aniversário ano passado? — Ele perguntou com os olhos brilhantes, parecendo felizes com algo que eu desconhecia.

— É sim, eu fico esperando por um momento especial para tomá-lo. — falei enquanto tomava um gole do líquido doce, degustando seu sabor sem pressa e me sentindo instantaneamente um pouco mais calma — Mas o momento nunca aparece.

— Talvez só precisasse da companhia. — Ele sugeriu com um sorriso misterioso.

— Talvez. — concordei e bebi um pouco mais, tomando a dose de coragem que eu precisava — Oliver, me desculpe por te colocar nessa confusão. — ele ficou sério, prestando atenção nas minhas palavras — Eu sei que eu não tinha direito, mas foi sem querer e quando eu percebi já tinha se tornando uma bola de neve e estava caindo do topo de uma montanha em cima de mim. — expliquei, e estranhamente pedir desculpas não me fizera sentir melhor — Você não precisava se dar ao trabalho de fingir, eu vou esclarecer tudo com minha mãe amanhã e eu prometo que nunca mais eu vou te colocar no meio das minhas confusões.

Oliver fitou a taça de vinho com um sorriso triste nos lábios, e então seus olhos azuis ergueram-se para mim.

— Não há problemas, Felicity. — ele assegurou com a voz calma, sua mão tocando a minha por cima da bancada, era um toque sutil, apenas dedos deslizando suavemente pela minha pele, mas que tinham o poder de me causar arrepios gostosos. — Eu fico feliz que tenha me colocado no meio da sua confusão, pode colocar mais vezes, eu gostei de ser o seu noivo de mentira. Foi... Esclarecedor. — Ele sorriu emblemático, levando a taça de vinho à boca de um jeito sexy demais para a minha sanidade.

— Em minha mente você seria muito menos compreensivo do que isso. — comentei desviando o olhar do dele. Porque eu tinha que me sentir assim com Oliver? — Eu estava esperando por um sermão ou uma demissão.

— Por quê? — Sua mão se apertou sobre a minha, e eu sabia que aquele era um comado para que eu parasse de evitar seus olhos.

— Porque você é sempre tão exigente. — respondi o encarando dessa vez e vendo um v se formar entre suas sobrancelhas.

— O que eu fiz para te dar essa impressão? — Ele perguntou parecendo aborrecido com aquilo.

— Vamos começar pelo último mês. — Apontei — Eu não fiz nada além de passar vinte e quatro horas do meu dia com você. Eu sei, é meu trabalho e eu ganho bem para isso. — notei que a mandíbula de Oliver se enrijeceu, os lábios pressionados em uma linha fina, e os olhos atentos em mim, e embora ele parecesse chateado ele se recusou a soltar a minha mão, seu toque continuava a ser suave e confortável contrastando com sua expressão. — Mas eu precisava mesmo te acompanhar em todos aqueles jantares e festas? Passar tantas noites com você no escritório revisando relatórios, contratos, e tudo o mais?

— Você não prestou atenção no que eu disse à sua mãe no jantar? — ele pareceu chateado com aquilo — Eu pensei que estivesse sendo óbvio, mas ao que parece você é mais alheia sobre as minhas intenções do que eu imaginava. — ele suspirou fechando os olhos parecendo cansado, senti sua mão apertar a minha e quando os olhos de Oliver se abriram novamente, havia fogo e determinação neles — Eu vou simplificar: eu gosto de manter você perto de mim e apenas de mim.

— Gosta? — Repeti, enquanto ele assentia e se aproximava ainda mais de mim.

— Sim, eu gosto. — confessou sem sequer piscar, quando foi que ele ficou tão perto de mim? Estávamos ambos de frente um para o outro, com apenas um palmo de distância entre nós.

Ele gostava de estar perto de mim. Isso significava que a coisa toda de ser o único na minha agenda era real? E que Oliver tinha passado o último mês me levando a jantares de negócios, noites até tarde no escritório não porque precisava, mas porque ele gostava da minha companhia? Ele gostava de mim?

— Esse vinho está me fazendo pensar bobagens.

— E agora eu estou curioso, que tipo de bobagens está pensando? — perguntou interessado, sua voz era como seda, suave e sedutora, seu hálito mentolado com toques do vinho estava tão perto, e tudo o que eu queria fazer era prová-lo mais uma vez. Mas apesar da bebida e do que Oliver me fazia sentir, ainda havia um resquício de lucidez em mim.

— Você tem que ir. — apontei.

— Eu tenho que ir. — Ele concordou, mas Oliver não fez menção de se afastar. Ao contrário, ele rompeu a precária distância entre nós, fazendo cada parte do meu corpo se regozijar com em tê-lo assim. A mão, que não estava com a minha cativa entre seus dedos, se colocou ao redor do meu rosto com carinho, os polegares escovando com delicadeza a pele da bochecha — Você quer que eu vá? — Sua voz não foi mais do que um sussurro, sua cabeça estava inclinada para baixo, seus olhos fitando os meus com expectativa pela minha resposta. Eu apenas neguei, um movimento simples que dizia tanto.

Oliver sorriu antes de cobrir meus lábios com os seus.

O primeiro beijo tinha sido devastador e ainda assim apenas um prelúdio do que poderia ser. O segundo era mais, muito mais. O segundo beijo era simplesmente destruidor.

Oliver dominara o beijo no instante em que seus lábios se pressionaram nos meus. A língua tocando-os de um jeito sexy e determinado como se pedisse minha rendição com um simples toque. Eu me rendi, porque eu estava cansada de lutar contra o que eu desejava, entreabri meus lábios ansiosa para sentir o gosto de Oliver e foi uma explosão de sabores e sentidos, e também de sensações. Sua boca era macia e sugava a minha com a fome e paixão de um amante, a língua deslizava e se entrelaçava na minha ávida e desesperada, sempre querendo mais, sempre me levando ao limite e o ultrapassado. Eu me esquecia de respirar, porque tudo o que eu queria era me derreter em seu beijo.

O beijo dele me consumia e ao mesmo tempo me alimentava.

Como eu consegui viver tanto tempo sem esse beijo?

E como continuar se esse fosse o último?

Oliver mudou nossas posições me pressionando contra a bancada, senti seu corpo forte contra o meu, me fazendo perceber que eu queria muito mais dele, e que um beijo, por mais excitante que fosse, jamais seria o bastante.

Sua mão deixou a minha escorregando-a pela lateral do meu corpo sentindo as minhas curvas, se adentrando por debaixo da minha camiseta e fazendo-me gemer. Deslizei minhas mãos entre nós a colocando sobre o seu peitoral, eu precisava de mais contato, mais pele com pele, eu não estava pensando que estávamos na minha cozinha, beijar Oliver desligava meu cérebro e eu era movida apenas por sensações e sentimentos. Meus dedos desfizeram um botão de sua camisa e então mais outro, e quando eu seguia para o terceiro senti Oliver segurando minhas mãos na sua e me fazendo parar. Aos poucos ele foi conduzindo o beijo para se tornar menos faminto e desesperado até ser suave e delicado, e tão malditamente doce que me fizera suspirar em seus braços.

Porém cedo demais Oliver afastou os nossos lábios.

— Tão doce e intenso, como eu sempre imaginei que seria. — Ele disse ao roçar seu nariz junto ao meu um pouco antes de se afastar, seu polegar que antes acariciava a minha bochecha desceu até meus lábios úmidos e inchados, fazendo-me estremecer. Era insano o que um simples toque de Oliver causava em mim. — Te vejo amanhã, Felicity.

Ele sorriu antes de partir, me deixando ali com o coração acelerado, tentando me lembrar de como respirar, e me sentindo completamente atordoada pela avalanche de sentimentos confusos que ele tinha despertado dentro de mim.

***

Eu sonhei com Oliver.

Depois daquele beijo, não havia como eu não sonhar. Provavelmente era por isso que eu estava tão aérea naquela manhã. Pensamentos ocupados demais em reviver cada parte aquele beijo, olhares perdidos, suspiros bobos a todo o momento. Só voltei a mim quando vi minha mãe com as malas, parada na porta da frente que estava aberta. Eu passara muito tempo com o pensamento em Oliver e pouco tempo consertando a confusão que eu me metera.

— Eu vou sentir sua falta mãe. — Falei ao abraçá-la e Donna Smoak gargalhou.

— Você vai, mas não agora! E não se preocupe, eu vou lhe dar um tempo de mim e depois voltarei para ajudá-la com os preparativos do casamento. — Mordi o lábio, eu não poderia continuar assim, não era justo com ela.

— Sobre o casamento, mãe... — respirei fundo me sentindo envergonhada da confissão que faria — Oliver e eu nunca estivemos juntos, ele é apenas meu chefe. Eu menti desde o começo para que você parasse de me atormentar com novos encontros. — Falei de uma única vez, esperando ser repreendida, ou ainda que minha mãe caísse aos prantos pelo sonho desfeito de ver sua única filha se casar.

Mas ela não fez nada disso, minha mãe apenas me deu aquele brilhante sorriso tão característico de Donna Smoak.

Oh, merda, eu sabia o que aquilo significava. Como eu fui burra!

— Você sabia? — perguntei entre surpresa e descrença.

— Meu bebê, eu sempre desconfiei que seu namorado fosse de mentira, mas aí você resolveu testar a minha inteligência com esse noivado, e eu me vi obrigada a vir aqui e dar uma de Donna Smoak pra cima de você e te ensinar uma pequena lição sobre mentir para a sua mãe. — eu havia tentado enganar minha mãe e no final a única pessoa a ser enganada fui eu. Ok, eu mereci. — Eu te conheço desde que estava na minha barriga, você nunca foi uma boa mentirosa. É por isso que eu sei que Oliver não é seu namorado nem nunca foi, mas basta olhar para você quando está com ele para ver a verdade...

— Que verdade? — perguntei na defensiva.

— Você gosta dele. — não foi uma pergunta, foi uma afirmação acompanhada daquele sorriso de mãe que sabe o que realmente está acontecendo. — E ele gosta de você, muito, ou não teria embarcado nessa confusão e me aturado por tanto tempo. — Senti um frio na barriga ao escutar suas palavras, aquilo era um jeito de ver as coisas.

— Eu não gosto dele. — menti, a mentira soava horrível em meus ouvidos, e minha mãe ergueu uma das sobrancelhas como se dissesse “vai tentar me enganar mais uma vez?”.

— Querida, a pior mentira é aquela que contamos a nós mesmos. — deixou seu sábio ensinamento — Agora me deixe ir que tenho um voo para pegar. Não se esqueça de me mandar mensagens dizendo como estão as coisas com Oliver.

— Mãe... Eu não... Nós não... — tentei, mas ela me interrompeu.

— Eu saberei se estiver mentindo, Felicity, eu peguei o número do celular dele também. — Piscou para mim, Donna Smoak não tinha jeito.

— Tem certeza de que não quer que eu a leve até o aeroporto?

— Não, o meu táxi já chegou. — Minha mãe disse ao escutar a buzina do lado de fora. — E você tem coisas mais interessantes para fazer. — falou num tom misterioso e cheio de expectativa, eu passei pela porta com o intuito de segui-la até o táxi e me despedir novamente, mas ver Oliver encostado de um jeito displicente ao lado da porta me fez imediatamente parar.

— Você estava aí o tempo todo escutando tudo? — perguntei aturdida e mordi o lábio tentando me conter ao perceber o quão acusadora eu parecia.

— Sim. — Ele admitiu sem se importar, desencostando o corpo da parede.

— Oliver... — Eu não sabia exatamente o que dizer a ele. Eu devia desculpar e dizer que lamentava colocá-lo nessa confusão, e que agradecia por ainda assim ele ter tentado me ajudar, mas que como tudo já estava esclarecido esse deveria ser o fim, certo?

Mas havia o beijo.

O beijo cuja mera lembrança ainda fazia meu corpo estremecer. Tinha sido uma mentira também?

— Você gosta de mim. — Ele acusou, com um sorriso provocativo brincando no rosto. — É verdade ou apenas mais uma mentirinha inocente?

Meu coração bateu fora do compasso ao fitar seu sorriso.

Maldito sorriso sedutor.

Eu não deveria cair por ele.

Grande merda, eu já havia caído e estava sem paraquedas.

— Eu não gosto de você. — menti novamente, fazendo Oliver sorrir abertamente.

— Não gosta? — ele deu um passo largo diminuindo a distância entre nós, sua mão tocando o meu rosto numa carícia singela. Me inclinei para o seu toque desejando sentir mais do que apenas ele fazia comigo.

— Não gosto nenhum pouco. — ele segurou o sorriso desta vez, mas seus belos olhos brilhavam contentes com a minha resposta.

— E agora? — Ele se aproximou, inspirei fundo sentindo o seu cheiro almiscarado entrando por minhas narinas e me entorpecendo, seu olhar fitando os meus olhos, aquela boca macia cujo gosto eu queria provar mais uma vez, estava tão perto da minha. — Gosta de mim? — perguntou num tom baixo, suas palavras adentraram em minha boca, seu hálito mentolado me enfeitiçando.

— De jeito nenhum. — inclinei meu rosto para o dele, nossos narizes quase se tocando, nossas bocas se roçando, a expectativa pelo beijo deixando aquele momento muito mais instigante.

— Você é uma péssima mentirosa, Felicity, mas você é a minha doce mentirosa. — Oliver sorriu antes de puxar meu corpo para si e colar os seus lábios nos meus, fazendo com que eu me perdesse novamente nele e em tudo o que seu beijo me fazia sentir. Joguei meus braços ao redor de seu pescoço enterrando meus dedos em seus cabelos macios enquanto nos beijávamos sem pressa.

Eu sorri durante aquele beijo, sentindo-me absurdamente feliz.

Quem diria que uma mentirinha inocente traria algo de verdadeiro para a minha vida?

Notas finais
Nem acredito que escrevi uma one! Quem me conhece sabe o quanto eu prefiro histórias maiores, cheias de dramas, suspense, uma pitada de romance policial e uma dose grande de amor. Mas eu estava um pouco a fim de me desafiar e escrever algo um pouco fora da minha zona de conforto e tentei uma one mais no estilo de comédia romântica. E aí como eu me saí? Vale a pena escrever mais?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!