Sweet Hereafter

1 Sweet Hereafter


Embora estivesse triste, sorriu. Não era um sorriso falso, porém. Era um sorriso triste, mas era o suficiente para aquecer seu coração, especialmente quando tudo parecia perdido. Ergueu a mão e pousou-a sobre os cabelos macios da garota, enquanto ela ainda o fitasse com aquele sorriso melancólico. Enquanto observava aquela expressão entalhada no rosto dela, ele pensava em quantas vezes fora capaz de dizer que estava feliz por estar vivo. Percebeu então nunca ter dito aquelas palavras, mas sim palavras antagônicas àquelas. Enquanto ele se lamentava pela sua vida e suas escolhas, ela tentava viver e escolher, quando tinha tão pouco tempo e tanta vontade de viver. E ele se amaldiçoou. Por desperdiçar o seu tempo com algo que nunca o satisfez. Por deixar de lado aquela vontade mordaz de aproveitar o que ainda tinha a viver.

Deixou os pensamentos de lado, estando ciente de que se ela soubesse que estava pensando tais coisas, provavelmente iria ficar realmente irritada e a atmosfera de paz e redenção seria perdida. E não podia permitir que aquilo acontecesse àquela altura, quando a morte estava tão próxima que podiam ver sua face pálida que a todos aterrorizava. E não podia deixá-la ainda. Então se forçou a abrir um sorriso largo, de canto a canto do rosto, tentando compartilhar da alegria melancólica dela. Não desistiria enquanto os olhos dela permanecessem abertos. Devia aquilo a ela, mais que a qualquer outra pessoa. Nunca pensara que se tornar o servo de uma maga amaldiçoada pudesse lhe trazer tantos bons momentos, tantas boas memórias. Memórias das quais, embora não admitisse, não estava disposto a abrir mão.

Vivera o suficiente para saber que finais felizes não eram reais, pelos menos Archer jamais se deixou acreditar nesse tipo de coisa. Depois de tantos anos que o endureceram daquela maneira, não foram só seu corpo e suas ações que sofreram, mas também seu coração. Coração este que agora se assemelhava tanto a uma rocha. Não se permitia sentir, não se permitia ver. Preferia continuar no escuro, com os olhos vendados, apenas esperando para ver onde a correnteza o levava. Apenas seguindo o curso do rio. Mas ela era diferente. Acreditava cegamente que todo destino poderia ser vencido, acreditava que todos podiam construir sua própria felicidade, tijolo por tijolo, mesmo que isso machucasse seus dedos a ponto de sangrar. Sempre haveria curativos para enrolar na pele bronzeada dos dedos calejados de Archer.

A parte escura dele, escondida no fundo de seu coração, ela conseguira enxergá-la. Aquela garota quebrada conseguira ver a parte mais secreta dele, a escuridão que envolvia seus sonhos e seu coração. E podia sentir da mesma dor que ele, do mesmo ódio que ele sentia por si mesmo. Mas ela estava disposta a curar essa ferida na alma dele. Nem que para isso tivesse que abrir mão da própria alma. Ela era assim, tirava de si para dar aos outros. Era tão inocente e gentil a esse ponto. E isso era o que Archer mais amava nela. Era por isso que agora ele não poderia soltar sua mão ou desviar de seus olhos, era por isso que ele não poderia deixá-la sozinha quando o fim estava tão próximo. Porque ela confessara a ele, uma vez. “Todos os seres humanos morrem sozinhos.” Contou o que lhe foi dito, para em seguir acrescentar: “Eu não quero ficar sozinha.” Era possível cheirar seu temor no ar frio.

Aquela noite estava especialmente escura, com poucas estrelas visíveis, mas as luzes do festival clareavam aquela escuridão que parecia estar presente no coração de ambos, mestre e servo. Andavam lado a lado, imersos em seus próprios universos feitos de cinzas, mas as mãos unidas ligava-os de modo que nenhum físico, químico ou biólogo poderia explicar. Sabia que logo o corpo dela estaria cansado e fraco em demasia para continuar a andar, quando isso acontecesse, ele certamente a carregaria em suas costas, mas faria isso apenas por ela. Uma garota tão peculiar, tão diferente das demais, tão única. Ela amava a vida, embora não tivesse realmente vivido. Ela amava o ar, embora jamais tivesse voado. Ela amava, acima de tudo, a morte. Sem jamais ter morrido. E ela ansiava pelo que estava por vir, ansiava pelo que iria descobrir. A única tristeza que ela deixava era a de que jamais poderia vê-lo novamente, porque mesmo que ele morresse ali e agora ou junto a ela, iria para um lugar diferente do dela. Gostaria de ter tido mais tempo para mostrar àquele homem o quanto o mundo pode ser belo, gentil, suave. Mas no fundo sabia que ele conhecia todas as características do mundo melhor que ela, embora negasse veementemente.

Archer conhecia cada um dos desejos mais íntimos dela e embora logo ela não estivesse mais presente, ele iria realizar cada um deles, com aquele rosto gentil e sorridente gravado para sempre em sua memória. Certamente surgiriam novos amores conforme o tempo fosse passando e as guerras fossem continuando e os mestres forem mudando, mas sempre carregaria consigo a marca que aquela pessoa em especial havia deixado, não só no seu coração, mas em sua alma de homem ferido. Entre eles havia uma concordância mútua e silenciosa, cada um consentindo os sorrisos, os olhares, os toques, as ânsias por vida e ar. Mas nenhum deles podia respirar naquele momento, não quando tudo estava tão próximo do fim. E embora tudo estivesse desmoronando, ela precisava desesperadamente saber como falar todas as palavras que deixara de falar quando sentira vontade, todas as ações que deixara de exercer quando desejara. E ela tinha tão pouco tempo.

- Archer, me leve para ver o céu. – Pediu após algum tempo, ele percebia o quanto a voz dela estava debilitada, frágil, prestes a se partir.

Prontamente o servo atendeu ao pedido, parando de andar e ficando de joelhos na frente dela, esperando que ela subisse em suas costas para poupar-lhe o fôlego e a vida. Sentiu o peso e o calor do corpo dela nas suas costas, mas não se importou, simplesmente se levantando rapidamente e caminhando nem muito devagar, nem muito rápido. Caminhava no ritmo certo para dar tempo de pensar no que falaria, no que faria antes do fim. Não se permitiria deixá-la ir sem dizer aquelas palavras que estava travadas em sua garganta, lhe rasgando, queimando, cortando como se fogo e cacos de vidro se espalhassem por ali abrindo caminho. Sentiu o rosto dela encostando-se em seu ombro, os cabelos claros dela lhe acariciando o rosto gentilmente.

- Muito se teria a dizer sobre esse contentamento e essa ausência de dor, sobre esses dias suportáveis e submissos, as quais nem o sofrimento nem o prazer se manifestam, em que tudo murmura e parece andar na ponta dos pés. – Archer tentou se controlar, mas não conseguiu reprimir a gargalhada que saltou de sua garganta e fez cócegas nos tímpanos dela, fazendo-a distorcer o rosto em uma expressão aborrecida, embora ele não pudesse vê-la.

- Realmente consegue citar as melhores partes nos piores momentos. – Falou em meio ao riso, sentindo a mão dela beliscar sua bochecha sem impor muita força, enquanto ela resmungava sobre como ele era insensível.

- O lobo da estepe deve ser citado em todos os momentos, sejam bons ou ruins, porque é o melhor livro da face da terra. Nada foi tão bem escrito ou tão bem sentido quanto as palavras que habitam cada linha daquele livro. – Discursou, coisa que estava acostumada a fazer sempre que era para defender aquele livro pelo qual tinha tanta estima. E com o qual ele sempre implicava.

A caminhada estava quase no fim e eles haviam parado de conversar há algum tempo, apenas se submetendo ao ócio e à observação das pessoas que estavam a sua volta, tão obstinadas a suas próprias vidas. Ela abraçava forte o pescoço de seu servo, enquanto se equilibrava nas costas quentes e largas dele, os olhos se fechando em alguns momentos. Não deixaria que o sono e a dor a vencessem tão facilmente, nem admitiria para si mesma ou para qualquer outra pessoa que estava sentindo uma dor tão terrível naquele momento que seria capaz de desenterrar o coração dolorido com as próprias mãos. Embora aquilo fosse o sinal de que o fim estava ainda mais próximo que imaginava, ela não queria admitir isso em voz alto, não queria confirmar o que ele temia ser verdade, queria tentar apenas passar algum tempo com ele sem que a preocupação com sua saúde e sua sanidade os distraísse ou os impedisse de aproveitar o pouco tempo que ainda lhes restava.

Quando finalmente chegaram no lugar o qual ela tanto ansiara por ver novamente, ela desceu das costas dele com um pouco de dificuldade, cambaleando quando chegou ao chão, caminhando pela plataforma alta, observando a neve acumulada lá embaixo. Era um lugar incrivelmente alto, onde ventos fortes castigavam quem ali tivesse a tola ideia de ficar. Mas nada disso era importante para ela, porque tudo o que queria era sentir o vento e pensar como poderia parecer que estava voando. Abriu bem os braços e fechou os olhos, enquanto Archer apenas a observava mais atrás, de braços cruzados e sorriso minúsculo. O vento jogava seus cabelos para trás, um brilho dourado na noite azul-escura. E ela sorria e sentia e vivia. Ela se sentia bem.

- O desprezo a si mesmo é em tudo semelhante ao acirrado egoísmo e produz afinal o mesmo desespero e horrível isolamento. – Interrompeu o momento de descontração, citando novamente aquele livro que tanto amava.

- Hn?

- Posso ver, Archer. – Ela disse contra o vento, as palavras se embaralhando e voando pelos ares junto aos seus cabelos. Abriu os olhos por um momento, virando o rosto para trás e fitando o servo com um meio sorriso em seu rosto. – Mesmo que não tenha aberto o seu coração completamente para mim, eu posso ver. Posso ver sua dor, sua angústia, sua culpa. E, acima de tudo, seu desprezo por si mesmo.

Encarou-a, inexpressivo, embora as palavras lhe cortassem com navalhas. Como podia ela enxergar-lhe tão bem? Como podia ver através das várias camadas que escondiam seu mártir interior? Sabia que ela era capaz de muita coisa, mas não sabia que ela também podia lê-lo tão facilmente, quando muitos outros simplesmente não o compreendiam e não se esforçavam para tal coisa. Ela apenas deliberadamente o leu como a um livro aberto. E então espalhou as palavras no vento e puxou algo ocultado no fundo de sua alma até que pudesse fazer com que ele enxergasse. Embora estivesse tudo dentro dele, não era muito o que fazia para concertar, para melhorar a si mesmo.

- Mesmo que você não se ame, Archer, eu o amo. – Encontrou, finalmente, as palavras que realmente queria falar. E pôde jogá-las ao vento e se libertar delas como uma borboleta se liberta de seu casulo.

Agora era choque que estampava seu rosto, tão claramente que a fez sorrir e andar até ele. Aproximou o rosto do dele, fitando dentro de seus olhos com aquele brilho dourado. Suavemente colou seus lábios, acariciando a maçã de seu rosto com os dedos pequenos e gentis, os seus olhos se fechando e o vento os empurrando um contra o outro. Archer não tardou em retribuí-la, seus braços envolvendo sua cintura e a apertando contra seu peito másculo. Ele não queria soltá-la, nunca mais. Porque ela encontrar as palavras que ele tanto procurara para dizer. Porque ela lhe mostrara a coragem que ele precisava para continuar a viver cada dia, cada hora, cada minuto, cada segundo.

Afastou-se dele lentamente, os olhos azuis faiscando, agora abertos, enquanto dava alguns passos para trás com um imenso sorriso no rosto. Ele a observou, os cabelos ao vento, o sorriso grande e verdadeiro, a dor e a paz. E então ela sumiu de sua vista, sobrando apenas o ligeiro brilho dourado para provar que antes ela estava ali. Os olhos dele arregalaram-se em suas órbitas e ele correu até a beirada, observando o ponto dourado que sumia na distância. Algo dentro de si morreu naquele momento, enquanto ela se afastava dele, enquanto ela se perdia no mar escuro e denso. E ele não conseguiu nem mesmo reagir apropriadamente, ou falar aquilo que tinha para falar. Ele apenas assistiu, incrédulo, enquanto tudo sumia das mãos dele.

Notas finais
Livro citado:
Lobo da estepe
Espero que tenham gostado~ ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!