Sussurros de além

3 O segredo da loja de conveniência


Depois de tanto andar pela cidade, finalmente paramos em frente a uma lojinha famosa por vender artigos diversos, era aquele tipo de loja onde tudo o que você precisava e até mesmo não precisava, encontraria lá. Atravessamos a porta:
—Por que temos que atravessar? O Tyler não passou pela porta naquela hora.
—O Tyler é um menino muito complicado, ele não quer aceitar que está morto e fica se zangando atoa, tudo o que ele faz é como os vivos. Se abrirmos uma porta, as pessoas vivas não poderão nos ver a menos que nós queiramos, mas não muda o fato de uma porta ser sido aberta.
—Como assim?
—É como nos filmes Clarice, os espíritos se conectam com as coisas materiais do mundo dos vivos, e eles podem ver esse contato, mas só isso. Por isso nos filmes as pessoas se assustam quando as coisas se mechem sozinhas, elas não nos vêem, mas vêem as coisas, entendeu?
—Ah sim, agora faz sentido.
—Se agirmos como um vivo o tempo todo, muitas pessoas seriam perturbadas e a nossa intenção não é essa. Não estamos aqui para apavorar ninguém, só queremos ir embora.
—Que lugar é esse? – Me dirigi ao interior da loja observando os produtos ao lado de Sophie que abria um sorriso melancólico. -
—Eu costumava trabalhar aqui.
—Sei... O que você fazia?
—Eu atendia os clientes, organizava os produtos... Mac me ajudava às vezes. Ah, ele era meu companheiro de trabalho. Eu vinha aqui depois do acidente só para revê-lo, sinto muito sua falta.
—Ele não está aqui hoje?
—Ele mudou de emprego depois que soube que eu tinha morrido, acho que foi pesado demais para ele continuar trabalhando aqui, afinal, eu morri em frente á loja.

lado:SOPHIE — 2 anos atrás

“Minha vida começou a mudar quando fiz 15 anos. No dia do meu aniversário foi o dia mais feliz da minha vida, era tradição da minha família fazer festas comemorativas e aquela data era sem dúvida a mais importante. Convidamos pessoas muito importantes que meus pais tinham contato, boa parte eu não conhecia, mas ainda sim pude chamar meus amigos da escola.

Katy era minha melhor amiga desde entrei no colégio, ela foi a única garota que eu conhecia que fez parte dos 15 casais típicos de aniversários de 15 anos. Depois de brigar muito com minha mãe, ela enfim deixou eu escolher a cor do vestido, parece algo tão simples que você se pergunta por quê uma mãe seria tão restritiva assim. A resposta é por que minha família é autoritária demais. Eu estudava em uma escola Católica só para garotas onde nos ensinavam como se portar e agir perante aos homens, pregavam sua religião de uma forma rigorosa cheia de punições para aqueles que não cumprissem e sempre diziam que Deus sabe o que faz.

Nunca tive relacionamento com garotos, nem sequer tinha contato. Minha família tinha um grande nome nas empresas mas com o passar do tempo e com as crises, nosso poder foi decaindo onde tive que trabalhar depois da escola em uma loja de conveniência do bairro vizinho. E foi lá que eu conheci o Mac. Nós dividíamos o mesmo turno então o tempo que tínhamos para falar sobre tudo estava em nossas mãos. Eu adorava o jeito que ele conseguia me fazer feliz e esquecer os problemas que eu tinha, cheguei a pensar muitas vezes em ter algo com ele já que nós dois possuíamos um laço muito grande.

Eu não podia contar nada pra minha mãe sobre meus sentimentos em relação ao Mac, pois eu sabia que ela negaria e tomaria uma atitude grotesca. Não escolhíamos parceiros, nos envolvíamos por negócios de família para fazer alianças ou coisas do gênero, então ele definitivamente estava fora de cogitação.

Durante a preparação da minha festa, a vontade que eu tinha de pedir a minha mãe que o Mac fosse meu par era imensa, mas meu medo era maior, tentei várias vezes criar assuntos relacionados a isso para ver sua reação, que era sempre uma negação. Assim coloquei na minha cabeça de que aquilo não era o fim do mundo e que minha festa não seria uma tragédia só por que o garoto que eu gostava não estaria presente. Foi então esse o meu primeiro erro.

No dia da festa, estavam todos muito bonitos, passei o tempo todo com Katy contanto sobre os meus dias de trabalho com o Mac e que eu o amava, aquele era nosso segredo. Ao chegar a hora da troca do vestido e toda a cerimônia com o baile, eu ainda não sabia quem era meu par e isso me dava calafrios imensos pois poderia ser aquele rapaz que eu teria que me relacionar por interesses familiares.

Minha mãe me direcionou até um quarto nos fundos onde eu entrei e tive a visão mais bela de todas: um vestido imenso vermelho com detalhes em ouro era como de uma princesa. Ao lado dele, havia um garoto tão bonito quanto o vestido, quem era Mac ao lado daquele deus. Mamãe comentou próximo ao meu ouvido que aquele dia seria especial para mim e fechou a porta me deixando sozinha com aquelas duas belezas. O garoto aproximou-se dizendo seu nome e elogiando minha festa e a minha beleza, ele se ofereceu para me ajudar a trocar de vestido e eu encantada aceitei a oferta, foi quando marquei meu primeiro “strike”.

Ao desfazer as amarras nas costas do vestido que eu estava usando, “Mike” passou seus dedos levemente pela minha cintura, onde eu fiquei desconfiada mas sem reclamar, ele continuou a tirar meu vestido me deixando somente de roupas intimas, aquilo era demais para mim, me virei totalmente corada tentando pedir para que ele se retira-se, foi quando ele me prensou contra seu corpo e suas mãos percorriam toda minha pele de forma um tanto agressiva. Tentei impedi-lo e pedindo para que me soltasse, mas ele sussurrava em meu ouvido coisas como “Vai ficar tudo bem” ou “Esse é o seu presente de aniversário, relaxa”. Quando ele tomou conta de que eu não queria aquilo, sua expressão se tornou agressiva e segurou meus braços e pernas me impedindo de fugir, eu só conseguia gritar e pedir por socorro, mas ninguém parecia escutar. O resto, vocês sabem o que aconteceu, só posso dizer que naquele ato, não teve literalmente nenhuma proteção.

Quando ele terminou, eu estava em lágrimas totalmente desfocada e com os pulsos machucados por conta da luta, mas o pior estava por vir.

Ele se abaixou e me disse “Feliz 15 anos” e abriu a porta. Quando ele saiu, minha mãe estava lá com uma expressão desapontada e melancólica e disse para eu terminar de me arrumar pois a festa não tinha acabado, foi então que percebi que ela estava ali o tempo todo, ouvindo tudo e o pior, deixado isso acontecer.

Não sei como, mas depois de uns 10 minutos no chão refletindo os horrores que havia passado, coloquei enfim o vestido, ajeitei a maquiagem e saí com a expressão mais forçada do mundo. Aquela tinha sido minha última noite.

No dia seguinte, eu já estava morta por dentro. Fui para o trabalho ficando na rua da frente com a loja e avistei Mac chegando, ele me viu e acenou, não pude sorrir. Eu queria chorar para ele, dizer o quanto eu o amava, mas depois de tudo aquilo, eu não sabia mais o que era amor. Ainda sim, ele sorriu para mim, e por um segundo avistei esperanças na vida dentro daquele sorriso, e quando atravessei a rua, um caminhão me pegou. “