Survivor

1 Capítulo 1


O ar está parado hoje. Não ouço pássaros e nem o constante som que os errantes costumam fazer.

Ando por entre as árvores e chuto alguns montes de folhas secas. É sempre assim, as folhas nunca ficam verdes e há mais flores murchas do que qualquer outra coisa mas, hoje, por sorte, encontro algumas tulipas bem bonitas. Puxo uma pela raiz e me sento de costas para uma árvore, brincando com suas pétalas frágeis.

Giro o talo da flor em minhas mãos imaginando como seria morar em lugar que tivesse um jardim cheio delas nas mais variadas cores...

De repente ouço um som abafado ao longe. Posso ter quase certeza de que foi um tiro. Me levanto e espero por alguns segundo e então — BUM — ouço mais perto. Tiros, com toda certeza.

Corro na direção de onde vem o barulho e, conforme me aproximo, começo a ouvir alguns gemidos e passos arrastados seguidos de gritos e mais tiros.

Droga!

Só pode ser mais uma daquelas pessoas que continua sem entender de nada que acontece de verdade. Puxo a arma que estava presa a meu cinto perto de minhas costelas, parece fria e pesada em minhas mãos e não gosto de usa-la, mas é sempre bom manter pelo menos uma por perto.

Paro de correr quando ouço vozes e fico com as costas contra uma árvore, olhando para a frente por entre as folhagens mais densas.

Não preciso esperar muito para ver mãos se agitando logo adiante e ouvir os gritos mais agudos agora de perto.

-Vamos, vamos, vamos! Eles estão chegando perto! — grita um garoto alto, ele esta mancando e segura uma arma e espera enquanto outro garoto e duas meninas se aproximam correndo e tropeçando nos próprios pés.

Não muito distante deles posso ver um grupo grande de errantes. Se eu não fizer nada vão acabar se matando.

Aperto a arma com força, não gosto do que estou prestes a fazer mas, no dado momento, é necessário.

Miro e atiro na cabeça de um errante gordo que estava prestes a morder o braço de uma das meninas. Sua cabeça explode a centimetros dela e posso ouvir seu grito quase como se fosse dentro da minha cabeça.

Os quatro param e olham em minha direção.

-Venham — grito para eles ao mesmo tempo em que atiro mais uma vez. Meu coração se comprime no peito quando pedaços de pele se desprendem da cabeça dos restos do que havia um dia sido uma mulher de cabelos longos.

Eles ficam sem reação por um momento mas, logo, o grandão que vinha a frente faz um sinal e eles vem em minha direção.

Começo a correr pelo caminho de onde vim. Se formos rápidos o suficiente não precisarei disparar nem mais um tiro.

Passo novamente pelas tulipas, isso significa que falta pouco. Posso ouvir as respirações pesadas atrás de mim.

-Ande Kenny! — ouço uma das garotas gritar — não é hora para ser um molenga!

Continuamos por mais alguns minutos até que consigo avistar uma pequena construção a frente. As cercas de madeira ao redor da pequena casa estão fora do lugar e a porta de entrada continua fechada do modo que deixei há algumas horas.

Subo até a varanda pulando os degraus e empurro a porta para dentro. Ela range em suas dobradiças e dou uma espiada por precaução.

-Entrem! — grito para o grupo que agora está parado atrás de mim.

Eles entram na pequena sala, vou logo atras deles e fecho a porta, puxo uma poltrona e coloco-a escorando a maçaneta, por fim, puxo as cortinas por sobre as janelas.

-Vocês vão ficar bem aqui, só não façam muito barulho — digo enquanto ponho a arma de volta presa a meu cinto.

-Ahn... Muito obrigado — diz o garoto alto, ofegando — acho que teriamos morrido se você não tivesse aparecido lá.

Ele solta a arma, parecendo simplesmente não ter mais forças para carrega-la. Posso notar que os nós de seus dedos estão esbranquiçados, então ele massageia uma mão com a outra e empurra a arma para longe com o pé.

-Esta tudo bem — digo — ninguém vai machucar vocês aqui.

Ele franze a testa por um instante mas, logo em seguida muda de expressão e força um sorriso.

-Bem, o minimo que posso fazer é me apresentar. Sou Matt — diz ele apontando para o próprio peito. Depois se vira para os companheiros — e esses são Kenny, Laura e Miah.

Os outros três apenas balançam as cabeças. O garoto mais baixo, Kenny parece não tirar os olhos de mim e isso não me deixa muito confortável.

-Bem, podem descansar aqui. Há suprimentos em um bau no corredor. Eu vou dar um jeito na cerca para que possamos passar a noite mais tranquilos.

-Eu posso ajudar — Matt da um passo para a frente prontamente — não é seguro ir sozinha la fora.

Estendo a mão em sua direção e balanço a cabeça.

-Não, eu estava sozinha antes de qualquer modo. Vocês tem que descansar, não se preocupe comigo.

Ele abre a boca para protestar mas a garota loira com um macacão esfarrapado, Laura, põe a mão em seu braço. Ela está com um ferimento na cabeça e posso ouvir quando sussurra um "Por favor" ao ouvido dele.

Matt toca as pontas dos dedos dela e então olha novamente para mim.

-Tudo bem então, qualquer coisa é só gritar.

Sorrio para ele.

-Farei isso.

Saio pela porta dos fundos da casa carregando uma caixa que havia deixado escondida la dentro. Alguns errantes circulam por dentro da cerca perto de um balanço velho. Tiro um pequeno camundongo de dentro da caixa e o seguro pela cauda.

Eles se viram para mim e começam a vir em minha direção, mas seus passos são lentos e arrastados e consigo me afastar com tranquilidade.

Levanto o ratinho no ar e vou em direção a floresta. Ando por alguns minutos com eles em meu encalço e então corro um pouco a frente, ponho os ratos pendurados no galho mais baixo de uma árvore e me afasto. Subo em uma árvore mais afastada e espero até que eles alcancem os ratos que pendurei. Fico ali parada, agarrada a um galho, mantendo o equilibrio até ver que se alimentaram e seguiram o rumo oposto ao da casa.

Desço da arvore e corro de volta.

Já esta começando a escurecer quando abro a porta que dá para a cozinha e me surpreendo ao ouvir um som metálico.

Vejo Kenny se abaixar rapidamente e pegar uma lata vazia de sopa do chão. Ele segura uma vela acesa e seus olhos castanhos claros quase ficam bonitos com aquela luz fraca.

-Hey — digo acenando para ele com uma mão e fechando a porta com a outra — onde estão os outros?

-Ah, eles, hm... estão dormindo. Acho que eu também deveria mas...

-Precisava de um tempo sozinho — completo a frase por ele enquanto uso uma cadeira para escorar a maçaneta.

-É, acho que sim — ele diz baixando a cabeça e em seguida suspirando — Ah, quer saber, me desculpe se por acaso te assustei. E — ele me olha por alguns segundos antes de seu rosto assumir um tom rosado — nossa, você não devia ter ido la fora sozinha, acho que eu poderia ter me oferecido também, acho que sou um covarde não é?... Droga, me desculpe de novo, vou calar a minha boca.

Não posso evitar uma risada.

-Ahn, acho que esta tudo bem. Sabe, estou acostumada a andar por ai, não se preocupe. Mas, realmente acho que você deveria estar descansando, deve ter sido um longo dia.

Kenny apoia a lata vazia na bancada bagunçada e passa a mão pelos cabelos curtos.

-Sim, vou fazer isso. — ele se levanta e anda até a porta que leva de volta a sala onde os outros estão, mas no caminho para e se vira para mim com uma expressão engraçada no rosto — Amanhã... Amanhã ainda teremos você aqui para nos proteger? — pergunta vacilante e com um sorriso bobo.

Franzo as sobrancelhas, não tenho muita experiencia mas, acho que ele está flertando comigo. Novamente me sinto um pouco desconfortável sentindo seu olhar sobre mim. Por fim balanço a cabeça um pouco hesitantemente e respondo.

-Sim, amanhã ainda vou estar aqui para proteger você.

Vejo-o coçar a cabeça parecendo envergonhado e desaparecer de meu campo de visão.

Me sento no chão ao lado da pia e escoro a cabeça na parede. Inspiro profundamente. É estranho saber que há pessoas aparentemente da mesma idade que eu no outro cômodo. Não posso ter certeza de que são confiáveis, mas também não imagino abandoná-los. Os quatro já deviam ter se acostumado com tudo isso, porém, acho que nem todos conseguem se adaptar a algumas situações, não importa quanto tempo passe, principalmente se forem resistentes a ver o lado positivo...

Puxo a arma e a seguro firme. Não gosto de machucar. Não gosto de machucar ninguém. Mas não tenho medo de fazê-lo.

Seguro-a ao lado da perna que está encostada contra a lateral da pia e me ajeito para ficar o mais confortável possível. Preciso dormir, mas meu sono é leve, qualquer ruido consegue me acordar sem dificuldades. Só posso esperar não precisar disparar, mas, caso precise, não levarei mais que dois segundos.

Fecho os olhos e espero pelo dia seguinte.