Surviving to Hell
23 Abandonados
Notas iniciais
– Emma!
Sinto meu corpo ser chacoalhado, arrancando-me gradativamente da escuridão. Sinto tudo doer e coisas pinicando minha pele. Gemo ao abrir os olhos, piscando várias vezes na tentativa de enxergar o lugar onde estou.

– Vamos lá, Emma! Eles estão vindo! – uma voz masculina implora exasperada ao meu lado, e luto para achar a origem dela. Viro a cabeça, e finalmente o rosto de papai surge em minha frente.
– Pap...
– Levante-se! – ordena Shane, me interrompendo. Demoro alguns segundos para raciocinar seu pedido; meu cérebro parece estar em um mar de lentidão.
Apoio-me em uma árvore enquanto levanto, sentindo uma terrível dor na parte de trás da cabeça. Toco o lugar e faço uma careta ao encontrar o ponto onde bati. Encaro minha mão e assusto-me ao ver o líquido vermelho viscoso proveniente do corte.
– Seu desmaio fez com que eles conseguissem nos seguir. Se não corrermos, eles nos alcançarão.
– Por quanto tempo eu desmaiei? – pergunto em uma voz fraca enquanto encaro a floresta ao meu redor.
– Uns cinco minutos. – Ele se põe a andar, e trato de segui-lo o mais rápido que consigo. Sinto-me um tanto triste por ele não ter perguntado se estou bem, mas imagino que isso não seja importante agora. – Precisamos encontrar a saída desse lugar o mais rápido possível. Ficar aqui só fará com que morramos mais depressa.
– Pai – chamo, desviando do cadáver de um cervo em um estado avançado de decomposição. Shane murmura algo em resposta, atento a tudo a sua volta. – Eles voltarão para nos procurar, não é mesmo?
Ele para por um momento, virando-se para trás. Encara-me por alguns segundos, seus olhos castanhos se suavizando ao ver alguma coisa em meu rosto.
– Não sei, querida – responde. – Não podemos ficar aqui esperando algo que pode não chegar.
Depois disso dispusemos a andar, permanecendo em silêncio. Ele incentivou-me a andar mais depressa, e fiz o máximo que pude. Papai segura fortemente sua arma na mão direita, pronto para qualquer imprevisto que seja necessário seu uso.
Assusto-me a cada barulho que ouço, virando-me para trás de dois em dois minutos. A presença de papai diminuiu drasticamente meus temores, contudo agora sinto medo por ele também.
Shane afasta algumas folhas de sua frente, e visualizo uma rua asfaltada. Ele fiscaliza a rua comercial antes de se virar e abrir caminho para mim. Passo em sua frente, observando as casas e comércios abandonados ao acaso.
– Será que algum desses é seguro? – pergunto, encolhendo-me de frio. O inverno está chegando.
– Vamos descobrir isso agora.
Avançamos silenciosos, mas parece que não há nada para se preocupar. Pelo menos nada visível. Andamos até o outro lado da rua, onde há construções comerciais. Em seguida atravessamos um beco, cheio de latões de lixo e com um cheiro pútrido nauseante.
Saímos na rua de trás, e visualizo um errante a poucos metros de distância. Ele vem em nossa direção, agitado e gemendo. Afasto-me assustada enquanto papai golpeia sua cabeça, logo depois colocando a mão em cima da costela com uma careta de dor.
– O que aconteceu? – pergunto alerta, olhando para o lugar onde sua mão está pressionando. Vejo a mancha de sangue estampada em sua camiseta, na região abaixo das costelas. – Meu Deus, você está ferido!
– Silêncio! – guincha, recomeçando a caminhada sem me esperar. Shane permanece com a mão no ferimento, e chego à conclusão que o machucado pode estar ai há horas. Pergunto-me como ele aguentou tanto tempo.
– Você foi mordido? – pergunto vacilante, correndo para alcançá-lo.
– Não – responde amargurado, como se essa possibilidade fosse algo melhor do que o que realmente aconteceu.
– Precisamos parar – concluo, olhando em volta da rua com poucas casas e muitas árvores. Visualizo uma construção no meio da vegetação, quase escondida. – Ali!
– Emma, não é seguro aqui. Os infectados estão perto demais – responde revoltado, mas não mudo de ideia. Corro até a casa em sua frente, checando se há perigo. Espreito por entre às árvores, não enxergando nada além da simplória residência bege.
Shane me alcança, e vejo como está pálido. Desespero-me ao pensar que ele pode morrer, e trato de puxar a arma de sua mão.
– Fique aqui, irei ver se a casa está segura – sentencio, mesmo sabendo que é algo imprudente. Mal tenho certeza se conseguiria acertar um infectado aleijado.
Vou até a casa, e sei que ele está me seguindo. Bufo raivosa, sugando o ar frio antes de bater duas vezes na porta. Aguço os ouvidos para qualquer barulho vindo de dentro, mas não escuto nada.
– Pare com isso, Emma. Dê-me essa arma agora! – Shane sussurra raivoso, mancado em minha direção.
Torço a maçaneta, mas vejo que está trancada. Vou até a janela ao lado da porta e tento abri-la, felizmente tendo sucesso.
Entro na casa facilmente, pousando os pés no assoalho de madeira em um baque baixo. Está escuro aqui dentro, mas parece inabitado. Corro até a porta e giro a chave na fechadura, abrindo a porta para papai.
– Você merece uns bons tapas, garota – diz emburrado, e permito-me sorrir com o comentário. Fecho a porta logo após ele entrar, junto com a janela. Puxo a cortina, espiando lá fora uma última vez e não vendo nada além de árvores e um vislumbre da rua vazia.
Papai já está deitado no sofá marrom, olhando para o teto. Parece que ele se rendeu, e não sei se isso é bom. A sala é pequena e sem grandes decorações, e vejo uma escada ao lado de um corredor que leva para o resto do primeiro andar.
– Deixe-me ver o ferimento – peço, mesmo não entendo nada disso. Papai levanta a camiseta com dificuldade, mostrando um curativo improvisado ensopado de sangue.
– Não faça essa cara, Emma. Eu vou sobreviver, ele não foi fundo o suficiente – diz ele com a voz baixa. – Mas preciso de sua ajuda.
Tenho vontade de gritar com ele, perguntar quem fez isso e por quê. Porém não há tempo, mesmo papai dizendo que não foi profundo, o sangue está dominando tudo.
– O que eu faço? – pergunto desesperada, minhas mãos começando a tremer.
– Pressione o ferimento com algum pano – instrui, me deixando mais perdida ainda. Não vejo nada que possa usar, e a blusa de papai parece suja demais. Então me lembro de minha própria blusa, e a tiro rapidamente. Enrolo-a e pressiono insegura o corte após tirar o curativo, não me preocupando em sentir vergonha de estar apenas de sutiã em frente a papai.
– Com mais força – diz, e obedeço. – Não me deixe dormir.
– Certo – murmuro. Penso em várias coisas para dizer, não encontrando nada bom o suficiente. – Hãm, o último jogo que você assistiu, quem ganhou?
– Não me lembro, acho que foram os Bulldogs.
– Lembro quando me levou para vê-los – digo absorta nas lembranças. – Parece que foi há tanto tempo.
– Você não parava de pular e gritar, os senhores que estavam do nosso lado até te xingaram – relembra, um pequeno sorriso em seus lábios.
– Carl acha-os horríveis – digo nostálgica, lembrando-me do dia da barraca. A sensação do beijo me atinge com uma dor profunda, e descubro que pensar em Carl dói. – Espero que ele esteja vivo – sussurro triste, olhando para minhas mãos que permanecem no ferimento. Shane fica em silêncio, e não consigo decifrar sua expressão.
– Verifique se o sangramento parou – ordena após alguns minutos que permanecemos sem falar nada. Faço o que ele pediu, levantando com cuidado a camiseta. Vejo que realmente parou, mas ainda parece horrível.
– Parou – informo, recolocando a blusa em cima do ferimento e pressionando.
– Agora procure um kit de primeiros socorros, deve ter algum por aqui – diz. Hesito em deixá-lo sozinho, mas ele não parece inclinado a dormir. Levanto-me do chão ao seu lado tremendo de frio. – E ache uma blusa para você.
Pego a arma no chão e sigo até o corredor. A imagem de Carl continua em minha cabeça, seus olhos azuis me fitando profundamente. Tento bloquear isso de minha mente, junto com todos os pensamentos relacionados à mamãe, Cassie e Seth que insistem em me perturbar. Tenho que achar um kit médico, cuidar de papai e ficar viva.
You're the diamond in the gutter
You're the hole inside my heart
You're the one I will remember every night
Before the dawn meets the light
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