Não acredito mais nas pessoas. Perdi a fé que nunca tive. De hoje em diante, serei só palavras. Quando todos vão embora, lá estão elas: as palavras. Só restam elas.

Ju Leiria

Rick e Carl andaram alguns quilômetros antes de Rick mandar ele parar para pudesse fazer um curativo na perna. Eles andaram até ficarem perto de um rio. Rick se sentou perto da água e pegou um pouco com a mão jogando na perna. Ele sabia que tinha que tirar aquela bala, dali, mas não podia fazer nada naquele momento. O xerife limpou a ferida o melhor que pode, antes de rasgar um pedaço da camisa e amarrar o mais apertado que pode em cima da ferida. Ele olhou para o filho que estava segurando a pulseira de Ally com força. Rick não sabia o que dizer. Ainda não conseguia aceitar que a esposa e a filha morreram, ainda não podia acreditar que aquilo tinha acontecido. Hershel, Ally, Judith e tantas outras pessoas boas morreram, e ele não pode fazer nada.

– Temos que continuar. – Rick disse se levantando. – Não podemos ficar aqui. Temos que continuar.

Carl não disse nada, nem olhou para o pai, apenas se levantou e voltou a andar. Rick olhou para ele e passou a seguir o filho. Ele não conseguia apoiar a perna no chão direito, por isso ficou mais atrás e Carl não parecia estar fazendo esforço para que o pai o acompanhasse. Na verdade parecia que estava fugindo dele. Eles encontraram uma estrada e Carl passou a andar mais rápido. Rick tentou dá espaço para ele, mas ele estava muito na frente e muito rápido. A perna do xerife estava começando a protesta.

– Carl, diminua o ritmo. – Rick disse apoiando o braço nas costelas tentando diminuir a dor que sentia na região. – Carl, pare. – ele gritou. – Precisamos ficar juntos.

Carl parou de andar, mas não olhou para ele. Ele não queria ver o pai agora. Ele não queria olhar para o pai com aquele olhar acusador. Ele não queria que o pai visse como ele culpava o xerife pelo o que aconteceu. Pela a morto do Hershel, pelo ataque na prisão, pela morte da mãe e da irmã, pela morte de todos que viviam ali. Ele não queria que o pai visse isso. Ele não queria que o pai visse que ele odiava o pai. Rick se aproximou dele mancando.

– Precisamos encontrar um lugar com comida, suprimentos... – Rick parou ao lado do filho e colocou a mão no ombro dele. – Ei. – Carl olhou para ele. – Vamos ficar... – Rick não conseguiu continuar o que ia falar quando viu os olhos do filho.

Carl voltou a andar e Rick o vi se afastando. Não, eles não ficariam bem. Não sem Ally e Judith ali com eles. Rick vou a andar. Ele queria falar tantas coisas para Carl. Mas não conseguia. Ele também estava de luto. Ele também tinha perdido pessoas queridas, pessoas que amava. Mas como a esposa já tinha dito para ele tantas vezes antes, Carl precisava de um tempo. Eles seguiram aquela estrada pelas próximas horas, até que chegaram a uma lanchonete. Rick passou por Carl que estava com sua arma em punho e empurrou a tela de proteção.

– Você espera aqui, certo? – o xerife perguntou com a arma na mão. – Fique vigiando.

– Você que vigie. – Carl disse olhando para dentro da lanchonete, depois olhou para o pai. – Mal consegue ficar em pé sozinho. Não vou deixar que entre aí sozinho.

– Como é? – Rick perguntou com raiva.

– Já fizemos isso antes. – Carl disse o mais baixo que conseguiu. – Eu vou ajudar você a vasculhar o lugar. Deveria me deixar ir sozinho.

Rick olhou feio para o filho antes de respirar fundo e levar a mão para a maçaneta da porta.

– Vamos nessa. – Rick abriu a porta e levantou a arma pronto para atirar quando entrou.

Rick passou os olhos pelos dois lados e foi para esquerda, enquanto Carl foi para a direita. Mancando, Rick foi até a porta da cozinha e deu uma olhada por cima.

– A cozinha está limpa.

Carl nada disse, já estava entrando em outra porta. Rick olhou para ele e foi para lá. Parecia ser o bar da lanchonete. Eles escutaram o som de gemidos e em pouco tempo um errante apareceu por de trás de uma barreira de moveis. Parece que o dono tentou usar aquilo para se proteger, mas apenas fez com que ele ficasse preso. Rick deu um passo para trás e olhou para o outro lado da barreia onde tinha comida.

– Deve ser tudo o que restou. – o xerife disse olhando para a comida.

Rick passou por Carl com a arma na mão e foi em direção ao walker.

– Posso acabar com ele. – Carl disse ainda apontando a arma para o corpo do morto.

– Não. Não, ele está fraco. – Rick disse colocando a arma no coldre. – Vou atrai ele para cá.

Rick pegou um machado, enquanto, Carl pegava uma folha de papel. O menino leu a mensagem e olhou para o andarilho.

– Se afaste. – o xerife disse e tirou as cadeiras. O walker foi para cima dele. Rick deu uma machadada na cabeça dele. – Droga. – ele disse quando o machado ficou preso. Carl levantou a arma e atirou – Não. Eu disse para você não atirar.

– Você não estava conseguindo. – Carl disse na defensiva.

– Eu ia conseguir. – Rick disse respirando com dificuldade. – Cada bala é importante. Se se precisar dessa no futuro? Tente encontrar alguma coisa. Depois vamos embora.

Rick tirou o machado da cabeça do morto e saiu deixando Carl, sozinho. O menino olhou para o pai e passou pelo corpo morto no chão. Ele foi até a prateleira e começou a pegar tudo o que tinha ali. Rick foi para a cozinha e pegou um saco de pano. Tinha algumas coisas lá. Principalmente água. Ele colocou tudo ali dentro e foi para onde o filho estava.

– A cozinha não estava vazia afinal. – ele disse colocando as últimas garrafas de água dentro do saco. – Essa é minha parte. E a sua?

– Eu ganhei. – Carl disse colocando a comida dentro do saco e olhando para o pai.

Rick olhou para o filho que se virou e foi pegar o resto da comida. Carl colocou no saco e se virou, saindo logo em seguida. Rick o seguiu. O xerife segurou o saco com as suprimentos o mais firme que conseguiu, antes de começar a andar atrás do filho. Eles passaram a andar do mesmo modo. Carl na frente como se seu pai não estivesse ali, e Rick se arrastando atrás. Eles passaram o resto do dia assim. No fim da tarde Rick não conseguia mais, precisava parar.

– Ei. – ele disse baixo, tentando continuar. Sentia que cairia a qualquer momento. – Ei. – Chamou de novo. – Ei. – Rick fala novamente, fazendo com que Carl pare em frente a uma casa e olhei para ele. – É tão boa quanto qualquer outra.

Carl olhou para o pai mal-humorado e eles seguiram a casa. O xerife colocou o saco de lado e abriu a porta e passou por ele. Carl entrou logo atrás. Rick encostou a porta e foi para o outro lado com a arma na mão. Ele olhou para o filho que estava perto dele com a arma em punho.

– Carl. – chamou.

– As portas estão todas abertas aqui.

– Pare. – ele disse com raiva. Está se cansando disso. Carl não podia simplesmente fazer isso.

– Ei, idiota. Ei seu merda. – Carl começou a bater na parede e gritar, enquanto olhava para o pai o desafiando.

– Olha como fala. – Rick gritou.

– Está brincando comigo? Se tivesse um aqui em baixo, já tinha aparecido.

Carl passou pelo pai e foi para a escada. Rick suspirou e foi para a cozinha. Ele entrou com a arma na mão, e fechou a porta da geladeira que não tinha quase nada. Apenas algumas garrafas com bebidas. Ele olhou para os armários que estavam todos abertos. Rick abriu uma gaveta e encontrou facas. Ele pegou duas grande e colocou em cima da mesa, olhando em volta. Carl desceu as escadas pouco depois com um cabo na mão. Rick saiu da casa, pegou a comida e colocou no canto. Carl passou pelo pai e foi amarrar a porta. Quando ele terminou, Rick começou a empurrar o sofá.

– Amarrei a porta.

– Não precisamos correr risco. – Rick disse ainda empurrando o sofá.

– Acha que isso não aguenta?

– Carl!

– É apenas um nó simples. Fácil de se desfazer por dentro. – ele disse sem sair da frente da porta, de modo como o pai não pudesse empurrar o sofá. – “Volta do fiel”. Shane me ensinou. Lembra dele?

– Sim. Eu me lembro dele todos os dias. Assim como me lembro de Lori e de como eles correram para dentro da floresta para salvar a vida deles e te deixaram para trás. – Rick disse calmo. – Tem mais alguma coisa que queira me dizer? Mas algum covarde que te deixou para trás e eu tive que salvar sua vida? Por que esse é o momento de falar. Quer jogar na minha cara que tudo o que aconteceu foi minha culpa? Vai em frente. Estou aqui para isso. Sei que está com raiva, também estou. Perdeu pessoas que ama, eu também. Mas se estou fazendo isso é por que não quero perde você também. Você foi tudo o que restou Carl, gostando disso ou não.

Carl não respondeu apenas foi ajudar o pai a empurrar o sofá. Eles encostaram o sofá na porta e Rick começou a andar na direção do próximo.

– Vai ter que ser isso por essa noite. – ele disse se tirou a arma da cintura e se sentou. Rick pegou um saco de cereal e esticou para o filho.

– Vai comer alguns? – Carl perguntou.

– Você deveria comer.

– Deveríamos guarda.

Rick abriu o saco e foi andando até Carl que se afastou dele.

– Ei. – ele esticou a comida para o menino.

– Eu não quero.

– Coma. – Rick mandou jogando o saco no chão. – Agora. – e saiu da sala deixando Carl sozinho.

Rick foi até o banheiro e tirou a blusa. Ele viu que sua barriga estava roxa e provavelmente ele estava com hemorragia interna. Se Ally estivesse ali, saberia o que tinha que fazer. Rick fechou os olhos e se apoiou na pia. Sua esposa não estava ali. Ela tinha morrido por sua culpa. Sua esposa e sua filha. Rick se apoiou na pia e deixou o corpo escorregar para o chão enquanto colocou a mão no rosto e chorou. Seu filho o odiava, Ally e Judith estavam mortas e ele estava tão ferido que não sabia se sobreviveria mais uma noite. Ele suspirou e se levantou. O xerife colocou a blusa novamente e voltou para a sala. Mesmo com dor, ele se sentou e depois se deitou no sofá. Demorou um pouco, mas conseguiu dormi.

Rick sonhou. Ele sonhou com coisas que não sonhava a muito tempo. Apesar de ser sonhos rápidos, como imagens de um filme que passa para frente. Sem som, apenas as imagens. Sonhou com sua infância. As coisas que aprontava com Shane. A adolescência, quando conheceu Lori. Sonhou com seu casamento com ela, o nascimento de Carl, sua vida depois do filho, a traição da esposa e do melhor amigo, o divórcio, Carl fugindo para ir encontrar ele na delegacia. Como seu filho o idolatrava e o amava. Sonhou com o tiro, quando acordou do coma naquele hospital sem ter a menor ideia do que estava acontecendo. Do reencontro, o que sentiu quando viu Ally pela primeira vez, de como ela revelou seus sentimentos para ele, o casamento deles e tudo o que passaram desde daquele dia. O tiro do Carl, a descoberta da gravidez, a fuga da fazenda, a prisão o parto da esposa. Sonhou com todos que conheceu depois disso e por fim sonho com Judith. Sonhou com a filha sendo devorada, e como a esposa deve ter corrido tentando salvar a filha e acabou morrendo também. Seu bebê, seu anjinho.

Rick não podia dizer se estava sonhando ou não. Mas ao longe, podia escutar Carl o chamando e o mandando acorda. Ele queria abri os olhos, queria fugir daquilo, mas não podia. Escutou o som de alguma coisa batendo e sentiu Carl se afastando. Rick quis gritar, mas não conseguiu. Estava preso. Por um momento tudo ficou em silêncio. Ele sabia que Carl tinha saído. Alguma coisa dentro dele lhe falava isso. Ele ficou ali lutando para recobra a consciência quando escutou passos.

– Eu matei três errantes. – Carl disse perto dele. – Eles estavam atrás da porta e iam entra. Eu os atrai e os matei. E te salvei. Eu te salvei. Eu não esqueci enquanto a gente brincava de fazendeiro. Eu ainda sei sobreviver. Sorte nossa. Eu não preciso mais de você. Não preciso que me proteja. Posso cuidar de mim mesmo. – Rick escutava tudo, mas era como se estivesse em como de novo. Como da vez que escutou Shane falando tudo o que tinha acontecido entre ele e Lori e como ele achava que ela ainda amava Rick. Ele apenas escutava. – Você não precisa mais me proteger. Você não pode proteger Judith. Você não pode proteger... Hershel, Glenn, Maggie, Michonne, Daryl ou a mamãe. Você só queria saber de plantar vegetais. Você só queria se esconder. Ele sabia onde estávamos e você não se importou. Você se escondeu por trás das cercas e estão todos mortos. Eles contavam com você. Você era o líder! Mas agora... você é nada. Eu ficaria bem se você morre.

Rick sabia que Carl o culpava. Sabia que tudo o que ele disse era verdade, mas escutar aquilo o matou por dentro. Ele merecia morrer, mas não podia deixar Carl. Não podia falha com ele mais do que já tinha feito. Mesmo querendo acorda, continuou perdido no mundo dos sonhos. Ele estava de volta a torre de vigia. Judith estava em seus braços e sorria para ele mostrando seus dois dentinhos.

–Ei, Baby, a culpa não foi sua. – ele escutou uma voz ao seu lado. Ele se virou e viu Ally sentada ao seu lado com os cabelos soltos dançando ao vento. – Você fez o que achou que era certo. Sei que se cobra demais, mas isso não ajuda em nada. A vida é frágil, Rick. Sempre foi.

– Vocês se foram. Carl me odeia. Tantas vidas... Se eu tivesse tomado a frente antes... Se não tivesse me escondido... Eu perdi você. Judith. E de certo modo, perdi Carl também. Eu quero morrer, quero ficar com vocês.

– Não, Rick. Você não me perdeu. Você tem Carl. Tem que viver, cuidar do meu garotinho confuso. Ajudar ele a encontra a luz e se lembra de quem ele é. Assim como você tem que lembra de quem é. Eu amo vocês, Rick. E sempre vou estar com vocês. Vamos nos encontra um dia. Seremos uma família novamente. Mas agora não é o momento. Eu te prometo que vamos volta a nos ver. Até lá, proteja nosso filho. Me prometa. Prometa que vai proteger Carl.

– Eu prometo. Manterei ele em segurança.

Rick olhou para a esposa que olhava para ele com um sorriso doce nos lábios. Ela tirou a pulseira e colocou na mão dele. Depois passou a mão no rosto da filha e a pegou no colo.

– Está na hora de acorda, amor. Se lembre. Sempre estaremos com você.

Lentamente a imagem das duas foram desaparecendo. Rick finalmente conseguiu mexer o braço e sentiu Carl se afastando dele. Ele levantou a cabeça e virou, caindo do sofá. Carl apontava sua arma para ele e chorava. Rick se esticou até consegui pegar o pé do filho. Carl abaixou a arma e virou o rosto.

– Eu não posso. Estava errado. Vá em frente.

– Carl. – Rick conseguiu falar. – Não vá lá fora. Fique em segurança. Sua mãe mandou eu te deixar em segurança. Eu não posso falhar com ela novamente. – E tudo ficou escuro de novo.

Carl ficou olhando para o pai no chão, antes de ir até ele e colocou a cabeça do pai no seu colo.

– Eu estou com medo. – ele disse encostou a cabeça na do pai, chorando. – Eu estou com medo. Estou com medo.

Eles passaram a noite assim, até que Rick finalmente acordou. Ele olhou para o filho e fez com que ele se sentasse ao seu lado enquanto eles comiam.

– Não deveria ter saído assim. Se ariscado desse jeito. – Rick disse sem olhar para Carl. – É perigoso.

– Eu tive cuidado. – ele disse olhando para o pai.

– Que bom que encontrou mais comida.

– Eu encontrei mais até. Mas comi.

– O que era? – Rick olhou para ele.

– 300 gramas de pudim.

– Eu sei... que as coisa nunca votaram a ser como era antes. – Rick disse sem olhar para Carl.

– O que?

– Eu apenas resisti por sua causa, quando tudo começou. Depois conheci Ally, me apaixonei, me casei e tivemos Judith. – Rick disse brincando com a pulseira em sua mão. – Sua mãe... Lori, me deu você, Ally me deu Judith e amo os dois mais do que a mim mesmo. Amo Ally mais do que a mim mesmo. Ela me mostrou que para o amor não tem tempo ruim ou dificuldades, podemos passar por tudo. Apenas segui em frente depois que descobri o que tinha acontecido com o mundo, por causa de vocês três. Agora ela e Judith se foram. – ele olhou para Carl. – E você... Você é um homem, Carl. Um homem. Me desculpe. Me desculpa por não ser o pai que você precisa e merece, por perde sua mãe e sua irmã. Me desculpe.

– Não precisa se desculpa. – Carl disse sorrindo para o pai, pela primeira vez desde que tudo aconteceu.

Rick olhou para Carl e ia falar o que tinha sonhando, quando escutaram duas batidas na porta. Os dois trocaram um olhar e pegaram suas armas. Rick se levantou e olhou pelo olho magico quem era. Assim que viu Michonne ali parada, começou a rir e se sentou no sofá.

– O que? – Carl perguntou abaixando a arma.

– É para você.