Suplício
16 O preço das escolhas
Fazia três dias que Paula estava acordada. Sua recuperação era ótima, ela já havia recuperado praticamente toda a sua memória e toda a movimentação do seu corpo.
— pena que a vó não está aqui pra me ver né? — disse Paula. Ela ainda não havia aceitado a morte da avó e essa era a primeira vez que ela tocava no assunto.
— pois é, eu queria muito que ela estivesse aqui mesmo pra poder ver a justiça finalmente sendo feita.
— sabe mãe, mas onde quer que ela esteja, eu sinto ela aqui comigo. Eu sei que ela está feliz como a gente.
Então, alguém bateu a porta e Sônia disse que a pessoa poderia entrar. Era Pedro.
— boa tarde – disse ele ao abrir a porta – posso entrar?
— hã, claro, pode – disse Sônia.
Pedro então entrou e revelou o vaso de flores que havia em sua mão. Era um lindo buquê de gérberas de diversas cores, ele então aproximou-se da mesa que havia ao lado da cama e depositou ali as flores. Sônia foi até ele e deu-lhe a mão para cumprimentá-lo e então ele dirigiu-se a Paula.
— fiquei muito feliz em saber que você está se recuperando Paula – ele disse gentil.
— e você é quem? — disse a garota olhando para ele – desculpe é que nem toda a minha memória voltou ainda.
— esse é o Pedro, lembra? O meu ex-namorado – disse Sônia para a filha. Ela então fez uma expressão deixando claro de que havia se sembrado dele.
— a claro, é que naquela época você era o Tio Pedro.
— isso – ele sorriu gentilmente para a menina – você pode me emprestar a sua mãe por alguns minutos?
— claro, pode ir sim mãe – disse Paula.
Os dois então foram em direção a área de alimentação do hospital e lá, sentaram-se em uma mesa.
— e aí Sônia, como estão as coisas?
— tudo bem, agora que a Paulinha acordou e a Laura está presa eu finalmente posso ser feliz. Por falar em Laura, a quantas anda o caso dela?
— então, ela está presa desde aquele dia, porém o julgamento ainda não tem data né, embora o vídeo mostre ela confessando tudo, os policiais ainda tem que montar um caso contra ela né, mas vai andar rápido, mamãe está movimentando todos os seus contato.
— essa é novidade né, quem diria que algum dia Guilhermina ia me apoiar – disse Sônia com um sorriso preso no canto dos lábios, ela realmente achava aquilo engraçado.
— pois é, ninguém imaginaria – Pedro então olhou fixamente nos olhos de Sônia – mas eu queria conversar sobre outra coisa, sobre nós.
— Pedro, não existe mais nós faz dez anos – rebateu Sônia, seca.
— e depois de tudo isso, ainda existe alguma chance de voltar a haver um “nós”?
— eu tenho tanta mágoa dentro de mim que se eu te responder essa pergunta agora, eu mentirei, e eu não quero mentir.
— mas Sônia, agora eu sou livre e finalmente a gente pode se entender, eu sei que você é inocente e eu sinto muito mesmo por tudo isso, mas nós podemos atravessar toda essa tormenta juntos.
— Pedro, a tormenta já passou e eu aguentei ela toda sozinha. No momento em que eu te falei que eu era inocente você deveria ter acreditado em mim, mas eu não digo isso porque eu acho que o amor a tudo perdoa ou algo do tipo, mas você deveria ter acreditado em mim por dois simples motivos, um deles é que você estava comigo o tempo todo, eu não teria como ter conseguido dólares e drogas sem você saber e o mais óbvio ainda eu era uma dura, você sabe mais do que ninguém de todas as dificuldades que eu vivia naquela época. Eu passei quase dez anos na cadeia por um crime que não cometi, eu aguentei minha mãe morta e minha filha em coma, eu aguentei a morte da minha melhor e única amiga e em nenhum desses momentos eu precisei de um príncipe vindo me buscar em um cavalo dourado, certamente não é agora eu eu estou bem e plena comigo mesma que eu vou querer um.
Pedro ficou alguns instantes processando aquela informação e ele entendeu completamente a mágoa de Sônia.
— Sônia, do fundo do meu coração eu te peço perdão. Não tenho direito de te pedir nada e eu entendo completamente a sua mágoa, eu só queria que você entendesse que eu tenho sentimentos por você. Sentimentos que eu tentei esquecer porque no fundo eu sempre soube que parte do que você passou é culpa minha sim, mas eu preciso também dizer que eu não vou perder a esperança, você é a mulher da minha vida e eu não vou desistir disso.
— Pedro, eu te perdoo, do fundo do meu coração– então ela colocou a mão sobre o rosto de Pedro enquanto olhava em sues olhos – mas não perca tempo, você precisa viver a sua vida e acostumar-se mais uma vez de que eu não faço mais parte dela. Você é uma pessoa boa demais pra passar a vida esperando um amor que não vai mais acontecer, eu respeito muito a nossa história, mas eu realmente não sinto nada por você, não mais, e não consigo me ver sentindo algo novamente. Não pense nem se quer por um segundo que estou fazendo isso pra tentar ser, sei lá, uma vadia vingativa, mas realmente, não existe nada em mim em relação a você além de carinho.
Pedro então secou a lágrima que havia escorrido pelo seu rosto.
— então é isso – ele deu uma respirada profunda – posso agradecer pela sua honestidade e dizer que pode contar comigo para o que precisar.
Sônia então aproximou-se de Pedro e deu-lhe um beijo na boca e uma lágrima escorreu então pelo rosto de Sônia também, ela sofria por saber que Pedro sofreria por causa dela, porém ela não o enganaria nem sequer por um segundo, não era justo. Ela também já havia pensado que não conseguiria viver sem ele, porém ela superou e sabia que o certo era dar a ele a chance de se recuperar também. Ela sempre soube que viver uma mentira para ver alguém bem é uma coisa que nunca dá certo.
Pedro então entendeu que aquele era um beijo de adeus e ficou ali sentando, apenas assistindo Sônia levantar-se e ir embora. O preço por sua escolha no passado foi perder Sônia, e ele sabia disso.
***
— bom, eu mantive em segredo esse tempo todo, mas aposto que não vai ser novidade pra ninguém quem é a pessoa escolhida para a presidência da nossa filial nova – anunciava Guilhermina, com sua taça de champagne alta para todos os funcionários que estavam ao seu redor – quero que todos vocês recebam com uma enorme salva de palmas Lívia.
Lívia então surgiu no meio da multidão e foi ovacionada por todos. Ela era uma funcionária muito querida por todos ali. Como a própria Guilhermina havia dito, não era segredo para ninguém que a escolhida para ser a presidente da filial do bando que seria aberta em algumas semanas em outra cidade, e para Lívia era perfeito, pois Marcos havia pedido demissão do banco porém Raquel ainda estava ali e, mesmo as duas se evitando, elas ainda se viam pelos corredores.
A inauguração seria em duas semanas, porém Lívia queria ir o quanto antes para a nova cidade e partiria naquela noite, essa confraternização no banco era para a sua despedida.
Quando a noite chegou, Lívia foi até o aeroporto de táxi, ela havia segurado suas lágrimas por muito tempo, afinal ela gostava muito de sua cidade natal, porém não existia clima algum para continuar ali, ela sabia que era a hora de ir embora e começar tudo do zero. Ela ia hoje para ficar em um aparthotel até que arrumasse um apartamento e então viria buscar suas coisas. Ela então desceu do táxi, pegou sua mala, entrou no aeroporto e começou a ir em direção aos guichês de atendimento para fazer o check-in, porém ela viu que Raquel estava lá, e muito provavelmente, esperando por ela.
— eu posso me despedir de você? — pediu Raquel. Era notável que ela estava segurando o choro.
Lívia nada disse. Apenas parou diante de Raquel e esperou.
— você pode me dar licença, ou vamos ficar aqui até quando olhando uma pra cara da outra? — disse Lívia, seca.
— Lívia, eu queria muito pedir o seu perdão. Eu ainda… — e ela foi interrompida.
— a Raquel, francamente, você me dê licença que aqui não é hora nem lugar. Só tá aqui fazendo essa ceninha tola porque o macho não te quis, pois se o Marcos quisesse ter ficado com você, você estava em casa vivendo o seu lindo amor com o adultero. Desde que você me conhece eu sempre deixei claro que eu nunca ia tolerar traição de ninguém. Aliás, de ninguém nem, porque a traição dele algum dia eu até perdoe, mesmo que eu nunca vá voltar pra ele porque macho a gente passa por cima, agora a traição que você fez, essa não tem perdão. Você era minha irmã, se ele tivesse terminado comigo e depois vocês começassem a se relacionar, eu poderia entender e quem sabe até conviver com isso, mas do modo com foi não tem o que dizer. Você precisa saber aceitar a consequência de suas escolhas. Agora você pode, por favor me dar licença?
— posso, ao menos, te dar uma abraço?
— não Raquel, não pode sabe por que? Porque essa nova fase da minha vida eu vou começar com o pé direito e não me permito ter esse momento de tristeza. Mas como eu já notei que você não vai e dar licença, me retiro eu.
Lívia então começou a andar e desviou de Raquel. Ela ficou ali chorando enquanto Lívia se afastava cada vez mais. O que Raquel não notou é que Lívia estava andando rápido para que não fosse vista por ela chorando.
***
Havia chegado o dia do julgamento de Laura. Os julgamentos de Laura e de seus cúmplices estavam sendo feitos de modos separados, afinal, os outros três envolvidos na morte de Sheila foram a júri popular por executarem o crime e ela estava sendo julgada separadamente, tanto pela tentava de homicídio contra Sônia quanto por ser a mandante do assassinato de Sheila.
Sônia e Paula assistiam a tudo no fundo da corte e o julgamento se aproximava cada vez mais do fim.
—… e como o júri considera a ré? — perguntou o juiz.
Então, a pessoa que estava na ponta levantou-se e pegou o papel que era o resultado da deliberação que havia feito sobre o caso.
— o júri considera a ré culpada – disse a mulher negra e alta que havia levantado-se.
Então o juiz retomou a fala.
— no processo 40659877, onde a Ré Laura Trajano de Almeira sido mandante do crime de homicídio duplamente qualificado com agravantes de motivo torpe e aplicação de meio cruel essa corte, em face da decisão soberana dos senhores jurados, julgo procedente a condição punitiva estatal e condeno a ré Laura Trajano de Almeida a vinte e três anos de reclusão com regime inicialmente fechado. Julgado o mérito, lance o nome da ré no livro dos culpados.
Laura então começou a chorar, era uma choro compulsório e deixava claro o ódio que ela estava sentindo, então o juiz mandou que ela fosse levada para o presídio e Sônia limitou-se apenas a dar uma suspirada profunda e abraçar a filha, então ela olhou para seus olhos.
— agora nós vamos ser plenamente felizes minha filha!
E Paula respondeu com um sorriso doce.
Quando Laura chegou ao presídio, ela recebeu a roupa que ela usaria de hoje em diante e então uma carcereira a pegou pelo braço e começou a guiá-la.
— dá pra ir um pouco mais de vagar? Está machucando o meu braço – pediu Laura a carcereira.
— está machucando a donzela? Que bom, é essa mesmo a intenção – respondeu seca a mulher.
Então as duas andaram por um longo corredor de celas e estavam se distanciando cada vez mais das celas e chegaram a uma cela escura, era um solitária.
— chagamos minha linda, é aqui a suíte da princesa – então a carcereira a jogou no chão com força.
— você está louca? — perguntou Laura com medo.
— louca? Você não viu nada ainda meu amor – ela então ergueu Laura e a deixou em pé na sua frente – essa daqui é pela Sheila sua cadela – então ela deu uma bofetada que a jogou para o lado, porém ela não caiu pois a mulher segurou seu braço e a fez voltar – e essa daqui é uma lembrancinha de uma amiga sua, a dona Guilhermina. Ela me pagou muito bem pra garantir que esse teu tempinho aqui vai ser o mais agradável possível – então ela deu uma bofetada muito mais forte que a primeira que fez com que Laura fosse arremessada no chão.
A mulher então saiu e trancou a porta, deixando Laura ali chorando e gritando de ódio e dor. Ela chorava de ódio por saber que aquele era apenas o primeiro dia...
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