Suplício

6 Sônia agora sabe o que fazer.


Notas iniciais
Fim da primeira fase.

— Sônia, a diretora está te esperando na sala dela – disse Sheila ao se aproximar da amiga no saguão.

— o que houve? — perguntou Sônia para a carcereira sua amiga – aconteceu alguma coisa?

— é melhor você ir lá que ela te conta – respondeu Sheila em um tom seco. Sônia ficou assustada pois Sheila sempre tinha um sorriso nos lábios, mas dessa vez ela estava pálida.

Quando Sônia chegou na sala da diretora do presídio, ela notou que havia algo estranho.

— pode se sentar Sônia – disse ela apontando para a cadeira que havia em frente a sua mesa – por favor feche a porta.

— gente, vocês estão me deixando apavorada – ela fechou a porta e sentou-se – eu fiz alguma coisa errada, vou pra solitária, é isso?

— Sônia, eu vou ser franca com você, pois eu realmente não sei como dizer isso, então eu vou direto ao assunto – a diretora então pegou de uma gaveta de sua mesa uma caixa de lenços e coloca sobre a mesa, aproximando-a de Sônia – sua mãe e sua filha sofreram um acidente ontem quando voltavam para casa. A Paula está no hospital, porém sua mãe não sobreviveu, eu sinto muito.

Sônia ficou sem reação. Ela sentiu todo o seu corpo amortecer no instante em que ouviu aquelas palavras.

— como assim? Cadê minha filha? Quem vai cuidar do corpo da minha mãe? — Sônia começou a chorar.

A diretora explicou a ela que ela não poderia sair da cadeia para cuidar dos preparativos do velório da mãe e que ela não teria como ir visitar a filha, pois não havia nenhuma data próxima para ela poder usufruir de algum indulto, então ela teria que pedir que um advogado fizesse isso por ela, então a diretora havia ligado para que o defensor público que defendia Sônia viesse até a cadeia no dia seguinte para agilizar tudo.

Como era de se esperar, Sônia ficou sem chão. Ela não tinha motivos para sair da cama, então ela não o fez. Depois que saiu da sala da diretora, ela foi até sua cela onde ficou deitada o dia todo. Chorou durante a noite e na manhã seguinte, ela não saiu da cela nos horários estabelecidos para sol e refeições, então, por volta de três da tarde, Sheila foi até sua cela.

— olha só garota, está na hora de sair dessa cama hein, daqui a pouco vai criar raízes – disse Sheila, porém Sônia não deu nenhuma resposta, então ela insistiu – vamos, vamos sair daqui agora. Você precisa reagir mulher!

— reagir pra que? Eu vou apodrecer aqui nesse buraco enquanto minha mãe vai ser enterrada e minha filha está em uma cama de hospital – disse Sônia, seca. Ela estava deitada na cama olhando para a parede.

— e quem vai fazer justiça com a perua que te colocou aqui?

Aquela pergunta acendeu alguma coisa dentro de Sônia, algo que ela nunca havia pensado.

— como é que é? — perguntou Sônia, virando-se em direção a amiga.

— isso mesmo que você ouviu, além de você ter que ser forte pra sair daqui e cuidar da tua menina, você precisa se vingar daquela perua nojenta que te jogou aqui por causa de macho.

— mas como eu vou fazer isso? Além de pobre eu tô completamento fodida aqui, ela é podre de rica e tem muita gente importante nas costas dela pra defendê-la.

— bom, pelo que me consta, você tem seis anos aqui dentro pra planejar.

Sônia ficou alguns instantes em silêncio, Sônia levantou-se da cama e olhou nos olhos de Sheila, as duas se encararam e sorriram. Elas tiveram uma longa conversa pelo olhar, uma longa conversa sem dizer se quer uma palavra e então, as duas sorriram. Depois de três anos, Sônia, pela primeira vez, tinha uma razão para ser forte ali dentro. Ela apenas havia vivido um dia de cada vez para sair dali inteira, porém agora, ela tinha uma razão para sair dali...