Suplício
7 Algo Emprestado...
2017
— e quais são as projeções Lívia? — perguntou Guilhermina.
— bom, se tudo correr como o esperado, o crescimento para o mês é de 3,7%, porém analisando e comparando com os dados anteriores e fazendo novas projeções eu cheguei a conclusão que se nós tirarmos as verbas de propaganda com o programa “card plus”, nós podemos aumentar essa renda para 3,9%, agora, se cortarmos o programa, podemos trabalhar com um aumento de 5,3% — disse Lívia. Quando ela terminou a frase, ela já esperou a oposição de seus colegas.
O programa citado, o “card plus” era o programa mais antigo do banco, ele foi o que fez o banco crescer tanto quando o ex-marido de Guilhermina era vivo. Era uma linha de crédito a baixos juros que havia feito muita gente com pouca renda investir no banco, era um sistema de pequenas ações que eram vendidas a curto prazo com uma projeção de rendimento boa.
— mas você está louca? — disse uma mulher loura que estava sentada na ponta oposta à de Lícia na enorme mesa de reuniões – é o único sistema de investimentos para pessoas de baixa renda poderem participar do banco.
— mas temos que encarar um fato minha querida, gente pobre não traz lucro nenhum — disse Guilhermina na cadeira da diretoria.
— mas e todo a propaganda positiva que isso nos traz? — disse um homem que havia sentado ao lado da mulher loura.
— é um risco que devemos correr, sem contar que as projeções são maravilhosas, vocês estão vendo. É um aumento de 5,3% por mês, não é por ano, é por mês – insistiu Lívia – e sem contar que é muito mais lucrativo para pessoas de renda baixa e média investirem em poupanças do que no mercado de ações. Por favor, não vamos agir como se estivéssemos aqui pra fazer caridade, somos um banco e precisamos de lucro, simples assim.
— considere o card plus finalizado — disse Guilhermina ao levantar-se da sua cadeira na ponta da mesa – encerramos aqui.
— mas Guilhermina, me desculpe a indiscrição mas o card plus foi idealizado por seu marido, é o legado dele, é a memória dele, ele morria de orgulho desse programa – disse a mulher loura.
— Arnaldo morreu, isso aqui agora é o meu legado, não o dele – disse Guilhermina, seca, encarando a funcionária, então ela virou a cabeça em direção a todos ali sentados – mais alguma objeção? Falem agora, quem sabe já aproveito e faço mais alguns cortes além do “card plus”, corte de pessoal também é sempre bem-vindo.
A sala toda ficou em silêncio.
— então, como eu havia dito, estão todos dispensados.
Todos levantaram-se e saíram, ficando apenas Lívia e Guilhermina na sala de reuniões.
— você é a filha que eu sempre quis Lívia – disse Guilhermina colocando umas das mãos sobre o ombro de Lívia – se eu tivesse algum filho com a sua idade, eu definitivamente pediria um teste de DNA alegando que você foi trocada na maternidade.
— e você é uma mãe pra mim Guilhermina, você me deu a primeira chance profissional da minha vida, se sou boa, é porque fui treinada pela melhor – disse ela retribuindo o sorriso para Guilhermina.
— apareça em casa hoje a noite, vamos tomar alguns drinques e conversar.
— hoje não posso, é aniversário da Raquel e Marcos e eu vamos sair com ela, mas podemos marcar algo amanhã.
— claro minha querida. Mande minhas felicitações a Raquel e um olá para Marcos – sorriu gentilmente Guilhermina. Lívia era uma das poucas pessoas que despertava um lado doce de Guilhermina.
***
— o que houve meu amor? — perguntou Laura ao notar que o marido estava apreensivo o dia todo.
— nada, problemas na empresa – disse Pedro. Ele havia ficado o dia todo sentado no escritório olhando para o calendário. Ele nem conseguiu concentrar-se no escritório.
Laura então saiu do escritório e foi para o seu quarto, tirou a roupa e foi para o banho. Quando estava no chuveiro, ela ficou pensando no que poderia ter deixado o marido daquele jeito, então ela teve uma luz. Ela se apressou e tirou todo o shampoo do cabelo, secou-se rapidamente e pegou o celular, então quando ela abriu o calendário, sua ficha caiu: era hoje o dia que Sônia sairia da cadeia. A mulher cuja vida ela destruiu e marido ela havia “roubado” saia da cadeia hoje.
Do outro lado da cidade, o portão do presídio de abria, Sônia via pela primeira vez em anos a liberdade. Ela deveria estar mais feliz, porém ela não estava, ela estava sofrendo.
O carro de Sheila estava parado do outro lado da rua e então ela abriu a porta. Sônia entrou e colocou sua bolsa no banco de trás do carro.
— você está pronta? — perguntou Sheila.
— não, mas que escolha eu tenho? — perguntou Sônia.
Então sem dizer mais nenhuma palavra, Sheila ligou o carro e as duas saíram.
Quando elas chegaram, Sheila estacionou o carro e as duas foram até a recepção.
— boa tarde, posso ajudar? — perguntou a sorridente recepcionista do hospital.
— boa tarde, estamos aqui para ver uma paciente em coma – disse Sheila.
Sônia deu o nome completo de sua filha e as duas foram levadas por uma enfermeira até a ala onde ela estava.
No momento em que chegaram no quarto onde Paula estava, ela começou a chorar, então ela foi em direção a cama e pegou a mão de sua filha e a segurou contra seu rosto.
— como ela está? — perguntou Sheila que estava com a enfermeira na porta.
— olha, é complicado dizer sabe, coma é um estado muito fascinante e assustador ao mesmo tempo. Ela pode ficar assim pro resto da vida como ela pode acordar a qualquer instante – disse a enfermeira com uma voz suave, acolhedora.
— e você tem algum palpite?
— gostaria muito de ter, mas realmente é complicado.
Sônia ainda chorava segurando a mão da filha.
— eu vou me vingar de quem fez isso com a gente, não se preocupe meu amor, eu vou fazer justiça pela sua avó, por você e por sua avó – então Sônia secou as lágrimas, beijou a testa da filha e virou-se e foi em direção a Sheila e a enfermeira – vamos para o cemitério.
Então as duas foram.
— você sabe onde ela está enterrada? — perguntou Sônia quando as duas chegaram na porta do cemitério.
— sei sim – então Sheila guiou Sônia até lá.
Quando as duas chegaram, o corpo de Estela estava sepultado em uma gaveta, então ao aproximar-se, Sônia chorou novamente.
— aquela desgraçada vai pagar por tudo o que ela fez – disse Sônia seca.
— até onde você está disposta a ir para fazer justiça Sônia? — perguntou Sheila.
— ela tirou todos os meus motivos para viver. Se alguém tirasse os seus motivos de viver, até onde você estaria disposta a ir? — respondeu Sheila.
***
— surpresa! — gritaram todos quando Raquel entrou no apartamento.
— a meu Deus, eu disse que não queria festa surpresa – disse Raquel sorrindo ao ver que todos os amigos e conhecidos estavam ali. A festa havia sido organizada por seus melhores amigos Lívia, Patrícia e Marcos.
Lívia e Raquel eram amigas desde sempre. Elas haviam se conhecido no ensino médio e são amigas desde então, cursaram faculdade juntas e quando Lívia foi contratada, já de cara sendo uma das queridinhas de Guilhermina, ela arrumou emprego para Raquel e Marcos, que já era seu namorado desde a faculdade. No banco, eles conheceram Patrícia e logo os quatro viraram muito amigos.
Conforme a noite foi passando, os quatro divertiram-se muito, porém era cedo ainda quando o telefone de Lícia tocou, ela pediu licença e foi atender, então depois de alguns minutos, Lívia voltou.
— meus amores, eu preciso sair. A Guilhermina precisa de mim para uns detalhes de um projeto que eu apresentei hoje, temos que ver alguns detalhes – disse Lívia.
— sério Lívia, essa hora? — perguntou Raquel.
— vocês sabem como é a Guilhermina, pra ela não existe horário de expediente.
— poxa amiga, sério isso? — perguntou Patrícia – você ainda não aprendeu a dizer não pra sua mãe?
Todos ali riram, mas não espantava ninguém que Lívia fosse. O trabalho para ela vinha sempre em primeiro lugar. Marcos ficou mudo. Ele amava Lívia, porém ele ficava irritado demais com isso, inclusive os dois já haviam brigado por causa disso. Lívia notou que ele não havia ficado feliz, porém não quis problematizar a situação ali, então despediu-se de todos, pegou a chave de seu carro e saiu.
A noite continuou. Os três continuaram ali com as visitas e divertindo-se, conforme as horas foram passando e as pessoas começaram a ir embora. Por volta de duas da manhã, Patrícia anunciou que ia embora e despediu-se dos amigos, então ficaram apenas Raquel e Marcos sozinhos, então Marcos se ofereceu para levar Raquel para casa para que ela não precisasse pegar táxi naquela hora.
— sobe um pouco, a Lívia nem foi pra casa mesmo, vamos conversar mais um pouco – propôs Raquel.
Quando subiram, Raquel preparou um drinque para os dois e então começaram a conversar.
— notei que você não ficou legal depois que a Lívia saiu né?
— não, ela sabe como eu fico puto quando ela deixa de fazer as coisas por causa da Guilhermina, ela parece que não sabe o horário de trabalho dela, se deixar, fica 24 horas em função da dama de ferro – então Marcos deu um gole no uísque – eu gosto muito dela, mas assim não dá, não tem amor que sobreviva desse jeito.
— eu entendo, Lívia vive em função da carreira né, mas isso é por causa da criação dela, eu lembro que quando o pai da Lívia deixou a mãe dela, a mãe dela sempre dizia que “nenhum homem vale uma carreira. Se tiver alguém, que bom, mas ele deve vir sempre depois do trabalho”, pois ela tinha abandonado a dela pra ficar com o pai da Lívia e se arrependia a morte.
— pois é, eu sinto isso na pele. Eu admiro demais a Lívia, porém só quem está do lado dela sente esse abandono – ele deu uma suspirada profunda – as vezes eu só queria ter ela do meu lado por inteiro sabe, que ela pudesse retribuir 100% do amor que eu dou a ela.
— nem sei o que te dizer Marcos, juro que queria ter algo pra dizer, mas não me ocorre nada – disse Raquel, então, ela levantou-se e foi sentar-se na frente de Marcos – mas você vai ver que tudo vai melhorar, eu sei que vai – disse ela colocando a mão sobre a mão de Marcos.
Em um ato impulsivo, Marcos inclinou-se e beijou Raquel. Ela ficou completamente sem reação no momento e seu cérebro voltou ao momento em que ela havia conhecido Marcos…
“’Meu Deus, como ele é lindo’ pensou Raquel no momento em que Lívia apresentou a ela seu novo namorado. Desde o primeiro momento ela se apaixonou por ele, porém ela sabia que teria que reprimir aquele sentimento, afinal, ele era o namorado de sua melhor amiga”
Então seu cérebro voltou para o momento e ela empurrou Marcos para longe dela.
— não podemos, você sabe que não! — disse ela levantando-se.
— mas você me amou desde o primeiro momento Raquel – disse ele levantando-se e indo atrás dela.
— mas eu não posso, eu te conheci na condição de namorado da Lívia, minha melhor amiga, minha irmã, eu não posso, você não pode! Eu acho que está na hora de você ir embora Marcos – então ela prestou atenção no que Marcos disse – como você sabe?
— eu soube desde o começo, eu sei porque eu também lutei para não magoar a Lívia.
Os dois ficaram em completo silêncio por alguns instantes, até que Raquel foi em direção a Marcos e o abraçou, beijando-o.
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