Sônia estava muito tonta, ela já havia inalado muita fumaça e não conseguia se mover direito, mas algo dentro dela a dizia que ela precisava sair logo dali, ela não podia deixar Laura em pune, ela precisava ter forças para se arrastar para fora da casa, então ela o fez. Ela começou a rastejar-se para fora. Depois de muito sofrer ela chegou até a porta e então ela tentou abrir, mas estava trancada e a chave não estava lá, então ela notou que precisaria ir até a área de serviço e sair pela porta dos fundos, então ela começou a se rastejar pelo chão da cozinha em direção à área de serviço, porém ela começou a perder os sentidos e não conseguia mais enxergar nada, era muita fumaça e ela havia inalado demais, então ela fez mais força do que havia feito antes e teve a impressão de ouvir um estrondo muito forte vindo de trás dela e então ela perdeu completamente os sentidos e desmaiou.
O quarto do hospital estava em silêncio completo, as máquinas ligadas indicavam que Sônia estava viva e bem, porém ela tinha inalado muita fumaça e isso poderia prejudicá-la, mas então ela acordou, foi muito repentino e ela sentou-se na cama em um movimento muito rápido, então ela começou a recobrar a consciência. “Eu ainda estou viva?” “onde eu estou?”, “porque eu estou com esse aparelho de oxigênio?”, “cadê a Shirlei?” então ela começou a ficar com dificuldades para respirar e deitou-se na cama novamente e procurou a campainha para tocar e chamar a enfermeira.
Depois de alguns minutos, a enfermeira chegou no quarto.
— olá, como você está? — perguntou ela com um sorriso e uma expressão simpática.
— eu estou bem, com um pouco de dificuldade para respirar. Onde eu estou?
— no hospital regional. Você se lembrar do que aconteceu, de como você veio parar aqui?
— eu lembro de ter inalado muita fumaça e – ela fez uma pequena pausa – o incêndio – então ela olhou para cima com a expressão de quem se recorda algo, então ela olhou novamente para a enfermeira – cadê a Sheila.
— infelizmente, a mulher que estava com você não sobreviveu. Quando os policiais chegaram, o incêndio já havia destruído completamente a casa e vocês duas foram resgatadas só que a gente não conseguiu reanimá-la, só você, eu sinto muito. Fizemos tudo o que era possível – a expressão simpática da enfermeira mudou para uma expressão de dó.
Sônia não conseguiu dizer mais nada, ela apenas secou a lágrima que havia escorrido pelo seu rosto.
— a polícia está aí fora, eles precisam falar com você pra saber o que houve, pois ao que tudo indica o incêndio foi criminoso, mas se você não estiver se sentindo bem ainda, eu posso pedir pra eles virem depois ou amanhã.
— não, eu quero resolver isso o quanto antes.
A enfermeira então deu alguns remédios para que Sônia tomasse, pediu a ela que não se estressasse para se recuperar o quanto antes e disse que mandaria os policiais entrarem. Alguns minutos após a saída da enfermeira do quarto, dois homens entraram. Eles se apresentaram como policiais civis que estavam encarregados pela investigação do incêndio e pediram para que Sônia os contasse tudo o que se lembrasse.
Sônia queria contar toda a verdade, queria poder dizer que foi Laura quem armou tudo aquilo porque sabe que ela está indo se vingar porque a anos atrás Laura havia destruído sua vida, porém ela sabia que não era a coisa mais sábia a se fazer, então ela fez o que tinha de ser feito.
— bom, eu estava na sala vendo TV e adormeci, então eu fui acordada algum tempo depois pela Sheila, ela estava segurando a minha boca pra eu não fazer nenhum barulho e ela tinha uma arma na mão, ela me falou que alguém tinha invadido a casa e que precisávamos sair dali, então eu perguntei se ela sabia quem era e ela me disse que era alguém do presídio que havia jurado ela de morte, porém ela não me falou o nome ou eu não me lembro, eu lembro que nesse momento começamos a correr e eu fui atingida na cabeça e desmaiei, acordei depois e a casa estava toda em chamas e a gente estava caída uma do lado da outra – então Sônia começou a chorar – eu acho que aí ela já estava morta, então eu comecei a me arrastar pra porta que estava trancada e sem a chave e me virei pra tentar sair pela porta de trás, então eu desmaiei de novo, por causa da fumaça e daí quando eu acordei eu já estava aqui no hospital.
— e como você sabe que a Sheila está morta? — perguntou um dos policiais.
— a enfermeira me contou – então ela fitou o policial – ela era a minha única amiga, ela me deu uma casa e um emprego depois que eu saí da cadeia. “Cadê a Sheila?” foi a primeira coisa que perguntei quando acordei.
— bom, então já temos um ponto por onde começar a investigação, vamos até o presídio para ver se descobrimos quem ameaçou a vida de Sheila – disse o outro policial notando a tensão que havia se criado ali – muito obrigado pela ajuda, por hora é só isso, se precisarmos de mais alguma coisa nós procuramos você novamente.
O outro policial que estava sentado levantou-se despediu-se de Sônia agradecendo sua ajuda e os dois saíram e Sônia ficou pensando se era a hora de parar de querer medir forças com Laura, afinal Laura estava disposta a tudo para se livrar dela e ela não conseguiria ser tão baixa quando a adversária. Ela então se levantou, tirou a marcara de oxigênio e notou que conseguiria respirar sem ela, então ela saiu da cama e foi até a enfermaria.
— minha querida, você deveria estar na cama – disse a enfermeira simpática que havia atendido no quarto.
— eu preciso ver a minha filha. Aqui é o regional né, ela está aqui.
— como é o nome da sua filha?
Sônia então disse o nome de Paula e a enfermeira procurou no computador.
— a, você é a Sônia mãe da menininha que está em coma? — ela então olhou para os lados para ver se não havia mais ninguém ali e fez um sinal para que Sônia a acompanhasse – bom, eu deveria te levar pro quarto, mas vou te dar uma chance. As vezes, só o que a gente só precisa de um incentivo pra melhorar – ela sorriu gentilmente para Sônia.
As duas chegaram ao quarto onde estava Paula e a enfermeira acompanhou Sônia.
— ela tem apresentando algumas melhoras sabe, ela tem respondido a alguns estímulos e isso indica que o quadro dela pode estar sendo revertido sabe, mas o coma tem esse problema, não podemos ter nenhuma certeza, mas com o tempo que eu tenho de experiência – ela sorriu gentilmente para Sônia – eu acho que a sua garotinha vai acordar.
Sônia sorriu em retribuição ao carinho da enfermeira.
— posso ficar alguns minutos a sós com ela? — pediu Sônia.
— pode sim, eu vou fazer as minhas rondas, daqui uns quinze minutos eu venho te acompanhar pro seu quarto.
Sônia ficou ali sozinha com Paula.
A única coisa que ela queria agora é que a filha acordasse e as duas pudessem levar uma vida normal juntas, quem sabe se mudar dali e recomeçarem longe de tudo e então Sônia voltou a chorar, porém ela voltou a pensar, agora ela estava finalmente se dando conta: Laura era a responsável por Paula estar ali e por sua mãe estar morta e agora, que Sheila estivesse morta também. Laura não podia mais ficar em pune, Laura precisava pagar, e então uma ideia surgiu a mente de Sônia. Ela beijou a testa da filha e saiu, então ela foi em direção à sala das enfermeiras.
— olá querida, posso ajudá-la? — perguntou a mulher que estava lá, e não era a que havia atendido ela anteriormente.
— pode sim, eu quero a minha roupa e as minhas coisas para ir embora – disse Sônia.
— como assim? — ela deu risada – você não pode sair sem receber alta do médico.
— você tem duas opções, me dar as minhas coisas ou chamas a polícia pra me amarrar aqui pois eu estou de saída e se você não de dar as minhas coisas eu vou embora nesse macacão mesmo.
— só um minuto que eu vou chamar o médico – disse a enfermeira com uma expressão de estranhamento.
Como Sônia deixou claro que não ficaria ali e como os médicos não poderiam segurá-la lá, o médico assinou sua alta e ela saiu. Primeiro, ela foi até o camelô onde ela havia deixado sua bolsa que continha sua arma e cópias das fotos de Laura.
Guilhermina estava saindo do banco. Ela costumava ficar lá até às 17h quando não tinha nenhuma reunião e naquela tarde não tinha nenhuma reunião. Quando ela chegou em seu carro, uma pessoa encapuzada veio até ela e ela levou um susto.
— olá Guilhermina – disse Sônia, porém ela não foi reconhecida.
— não me mate, eu valho muito mais viva – disse Guilhermina, porém ela prestou atenção na voz que havia ouvido – Sônia? O que diabos você está fazendo aqui, você não estava na cadeia?
— como você vem pode ver, eu não estou presa – disse Sônia ao tirar o capuz.
— como você entrou aqui? — perguntou Guilhermina.
— sua segurança é péssima, qualquer um pode entrar pelo portão da garagem seguindo os carros.
— eu posso saber o que diabos você quer comigo? — Guilhermina realmente não entendeu o que Sônia poderia querer com ela.
— eu preciso falar com você um assunto que vai te interessar muito – então ela puxou uma das fotos em que era possível ver Laura entrando no motel.
— mas que canalhice é essa? — perguntou Guilhermina ao pegar a foto.
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