Supernova

1 I . Pequeno Vagalume


I

Lá estava eu na porta da única escola de ensino médio da cidade, tentando entender o motivo pelo qual meu pai ainda me obrigava a estudar, ele vivia dizendo "Um dia você vai se encaixar, fazer amigos...e quando acabar você vai sentir falta de tudo isso", mas até hoje nunca tinha feito muitos amigos, á não ser Clarissa Trevorton que era minha dupla na aula de ciências, mas ela não era o tipo de pessoa que iria aumentar meu status social, uma menina baixinha, que usava um aparelho dentário maior que a sua boca e tinha um gosto peculiar por sapos (até tinha um de estimação chamado Bartolomeu). É, minha adolescência era um fracasso, já estava no último ano e nunca tinha sido convidado pra uma festa, nunca havia beijado uma garota (á não ser meu poster da Megan Fox que ficava pendurado na porta do meu guarda-roupa) e não fazia parte de nenhum grupo social. Era simplismente um fantasma.
Aula de Ciências. Como sempre Clarissa estava ao meu lado falando sobre os presentes que comprou pro seu sapo de estimação. Entediado. Essa era a palavra que resumia a minha expressão naquele momento. De repente como fogo se espalha pela palha seca, Senti um frio na barriga, uma sensação estranha que nunca havia sentido antes. Algo estava prestes a acontecer.
O sinal do fim da aula tocou, dei uma olhada no meu horário e suspirei:
Ciências
Educação Física
Biologia
Filosofia
Ciências
"Fala sério? Ciências de novo? Não vou aguentar mais uma aula com essa menina do meu lado falando sobre como é bom gostar de sapos." Pensei com tom irônico. E percebi que o professor de Educação Física já estava entrando na sala, um homem magro de óculos e nariz afinado. Ninguém poderia imaginar que ele era professor de Educação Física, normalmente professores dessa matéria são mais fortes e atléticos. Eu deitei na minha carteira riscada de lápis e adormeci, aquela era só mais uma aula chata, teorias sendo passadas no quadro sobre esportes, vantagens de manter uma alimentação saudável. Nada disso era interessante pra mim. Mergulhei num sonho sem sentido, luzes voando ao meu redor, uma menina que parecia ter sido pintada por luzes de neon, um toque que queimava, tudo muito real pra ser somente um sonho.
Acordei, o sinal, só mais três horários e eu poderia voltar pra caverna isolada que eu chamo de lar. O resto da aula corre normal, as mesmas aulas desgastantes, o mesmo sanduíche de atum minusciosamente feito pela minha mãe, o mesmo isolamento.
Era por volta das duas da tarde quando cheguei em casa, minha aula acabava ás onze mas o caminho até minha casa era longo e como meu pai estava trabalhando na colheita que tinhamos,eu não tinha recurso a não ser ir de apé ou morar na escola. Mas eu não me importava, assim que saía da escola colocava meu fone de ouvido e ouvia todas as discografias possíveis, a única coisa que não fazia eu ser um perdedor total e mostrava que eu ainda tinha um lado adolescente era minha paixão por música, gostava de tipos variados , no meu celular tocava desde Rihanna á Nirvana. Mas voltando ao assunto, para voltar pra casa eu passava por plantações enormes e campos verdes. Você deve ter percebido que eu morava praticamente em uma fazenda. Sim, minha casa era quase uma fazenda. Uma construção antiga que parecia ter sido reformada á pouco tempo, as paredes pintadas com um verde-limão, uma varanda convidativa com uma cadeira de balanço, e mais ao fundo uma plantação de milho. A única coisa que fugia do cenário era uma área de lazer moderna, com piscina, sauna e um jardim cheio de rosas brancas e vermelhas.
No meio do caminho, entre uma plantação de milho e uma tímida fazenda avistei uma silhueta caminhando em minha direção. Com o sol rachando no céu e minha visão não sendo uma das melhores, tive que apertar os olhos para poder enxergar. Quando vi o que era, a figura já estava perto o suficiente para que não precisasse forçar os olhos. Era Samantha, uma das minhas vizinhas mais próximas. Samantha era uma adolescente de cabelos ruivos e olhos verdes, típica menina pela qual qualquer menino cairia de amores. Ela estava a menos de um metro quando eu tirei o fone de ouvido.
–Sempre com esses tampões no ouvido né...
–É a única coisa que eu posso fazer enquanto percorro o longo e doloroso caminho pra casa.. (tom irônico).
– O que você estava ouvindo?
Ela disse, praticamente tirando o celular da minha mão e olhando para a "playlist". Revirou os olhos:
– Mais uma daquelas bandas que ninguém conhece a não ser você?
– É, e isso é bom...quero dizer, ser diferente dos outros. Normalmente os caipiras dessa cidade estão preocupados demais escutando Pitbull e outras merdas.
Quando cheguei em casa, minha mãe já estava esperando na janela (como de costume), seus cabelos loiros reluziam com o sol e seus olhos azuis se destacavam em seu rosto, parecia uma jovem de vinte e poucos anos,mas o tempo foi tão generoso com ela, que acredite, ela tinha quarenta e três . A cumprimentei com um abraço, coloquei minha mochila sob a mesa da sala e subi as escadas para o meu quarto. Chegando lá percebi que havia algo de estranho, a porta estava aberta, ninguém nunca havia entrado lá, eu nunca havia permitido, sempre achei que o quarto é o maior santuário que uma pessoa tem e que ele deve ser mantido o mais íntimo possível, não que eu guardasse drogas e bebidas na primeira gaveta do criado-mudo como minha mãe concerteza pensara, e que talvez seria verdade, a não ser pelo meu medo exagerado de fazer coisas erradas. Entrei o mais cautelosamente no quarto e vi uma silhueta pequena por trás de meu guarda-roupa. Era Lizzie a minha irmã mais nova , ela tinha oito anos, cabelos loiros como os da mãe e olhos castanhos muito parecidos com os de Nate. Estava com um pijama rosa estampado com carneirinhos e os pés descalços. Olhei furiosamente para ela e disse:
–Lizzie, o que você está fazendo no meu quarto!?! Já te falei pra ficar longe daqui.
–Mas Nate, o único lugar em que os monstros não me perseguem é no seu quarto.
–Não existem monstros Lizzie, agora saia daqui.
Ela saiu do quarto de cabeça baixa e segurando um choro silencioso. Soltei um suspiro. "Quando será que ela vai perceber que nada disso é real..." pensei. Mas um grito agudo interrompeu meus pensamentos, era Lizzie. Corri o mais rápido que pude, segui o corredor do meu quarto e vi a minha irmã sendo arrastada por alguma coisa para o sótão da casa. O grito parecia cada vez mais distante, e por mais que corresse parecia nunca alcança-la.
Subi para o sótão e o que encontrei foi ainda mais assustador que qualquer "monstro" que Lizzie pudesse ter visto...nada, Lizzie não estava mais lá.
O desespero tomou conta de mim, minha cabeça começou a girar, minha visão estava escurecendo, senti meu corpo amolecer e...BAM! Caí no chão, desmaiado. Minha mãe ao ouvir o estrondo correu para ver o que era, e me encontrou no chão, deu algumas sacudidas em mim e começou a gritar desesperadamente pedindo ajuda.
– BOOOOOB! Socorro, me ajude!
Meu pai passou correndo por entre a sala de estar, subiu as escadas e foi em direção ao sótão. Olhou para mim meio sem entender o que estava acontecendo e tentou me carregar para fora daquele lugar escuro e úmido. Desceu as escadas.Minha mãe com o telefone celular na mão. Chamaram a ambulância. Eu ainda estava desacordado.
Quando acordei já havia escurecido, meio sem saber se o que tinha acontecido havia sido um sonho dei um pulo e sentei na cama em que estava, olhei em volta e percebi que estava em um hospital, um turbilhão de coisas passou por minha cabeça mas uma delas soou mais alto."Onde está Lizzie?"
Novamente o desespero tomou conta do meu corpo. Estava sozinho no quarto de um hospital sem saber o que se passava e sem entender o que fazia ali e o pior, não sabia onde estava minha irmã.
Segundos após acordar, minha mãe abriu a porta do quarto. E com um susto derrubou café na sua própria camisa.
– Nate, você...você...acordou?
– Sim mãe, onde está Lizzie? Ela está bem?
– Lizzie está bem. Por que a pergunta? Aconteceu alguma coisa com ela?
– Nada... eu devo ter delirado ou algo do tipo. O calor está forte demais.
Eu recebi alta no mesmo dia e fui pra casa repousar.Era por volta das três da manhã quando acordei com um barulho vindo da plantação do meu pai. Sempre tive medo de muitas coisas, de escuro, de como o inverno acabava com toda a vida das plantas, morria de medo de bonecas, assombrações, cobras, vampiros, dentre outras criaturas. Resumindo, eu não era a pessoa mais corajosa do mundo. O barulho era uma mistura de ranger de dentes e alguma coisa sendo triturada. O medo veio sorrateiro, como uma brisa de fim de tarde, meu corpo ficou paralisado. O que será que estava fazendo esse barulho? Será que estava perto? Essas foram algumas das questões que perambulavam pela minha cabeça. O barulho parou, e por um tempo longo não se repetiu. Voltei a dormir, até que em um momento, voltou. Ainda mais forte e mais perto.
Eu tinha que levantar e descobrir o que estava acontecendo. A curiosidade deu força para que me levantasse da cama e chegasse até a janela. Abri a cortina e uma luz cegante surgiu. Um clarão tão forte que tive que me afastar, do nada sumiu e reapareceu, ainda mais forte como o som. A janela se abriu em um estrondo e um tipo de máquina surgiu á minha frente, algo entre um avião e um tanque de guerra. Essa foi a última imagem que vi, antes de ser totalmente consumido pela escuridão. A única coisa que fez com que eu percebesse que não estava sozinho era uma voz rouca, que repetia sem parar o meu nome. Nate...Nate...venha pra mim. Senti algo tocando meu ombro. E com um susto ainda maior acordei novamente no hospital.
"Será que tudo aquilo foi um sonho? Parecia muito real pra mim" pensei. Uma dor forte tomou conta de minhas costas, como se houvesse caído de um lugar bem alto. Soltei um gemido áspero e olhei em volta, o quarto estava intacto, uma maca, uma janela com vidro quebrado, um vaso de flores e uma cadeira vazia. Por horas fiquei pensando sobre o que havia acontecido, até que meu pai depois de muito tempo apareceu com um sorriso estampado ao me ver acordado.
– Nate! Que bom que você acordou filho, eu disse pra sua mãe não perder as esperanças, eu sabia que você ia ficar bem. Trouxe um pouco de gelatina, você quer?
– Não pai, acho que meu estômago ainda não está preparado pra receber nada. Onde está a mamãe e a Lizzie?
– Sua mãe estava muito cansada e eu decidi mandá-la pra casa. Lizzie está ficando na casa de uma colega de escola. Já tem dois dias que você está aqui.
A conversa foi interrompida quando a porta do quarto se abriu, era uma das enfermeiras do hospital que estava vindo checar como eu estava. Quando ela viu que eu havia acordado, saiu imediatamente sem falar nada e foi chamar o médico.
Depois de uma longa bateria de exames, o médico disse para mim e meu pai que ainda esperava sentado numa cadeira no quarto:
– Os exames apontaram que Nate já está bem melhor, se continuar assim amanhã mesmo ele pode ir pra casa.
As horas passaram voando e já havia amanhecido quando saí do hospital. Respirei fundo quando entrei no carro, e novamente senti aquela sensação, só que bem mais forte. Será que iria acontecer de novo?
Chegando em casa a primeira coisa que fiz foi ligar meu computador. E assim que liguei, um barulho muito alto me assustou: "Um e-mail não lido na sua caixa de mensagens". Cliquei no aviso e uma mensagem se abriu:
" Olá Nate, soube que você não está muito bem. Não deu pra te visitar no hospital, assim que estiver bom me liga ou deixa um e-mail. Beijos Sam"
Samantha. Era estranho como esse nome fazia tanto efeito na minha mente e no meu coração. Samantha e eu nos conheciamos desde o jardim de infância, mas nunca tinha reparado muito nela, agora, no ápice da adolescência eu estava sentindo uma coisa estranha por ela, e decidi manter distância por um tempo. Mas depois de ter lido o e-mail, percebi que ela realmente se importava comigo, e fiquei com uma enorme e incômoda dúvida na cabeça. Deveria mandar um e-mail pra ela? Minha mente deu um giro completo, se eu mandasse e ficassemos mais próximos com certeza ela iria querer me ver, e eu não estava muito em condições de resistir. Se eu não mandasse ela ficaria magoada, e não queria perdê-la.
Decidi mandar. Cliquei no botão de responder e comecei a digitar, no começo as palavras saiam timidamente mas depois de um tempo começou a fluir e no final o e-mail ficou assim:
"Oi Samantha, sou eu o Nate. Bem, já estou em casa. Obrigado por se importar comigo, a gente se vê por aí."
Por mais seco que tivesse sido o e-mail, senti uma necessidade enorme de que ela respondesse com algo do tipo "Oi Nate, quer namorar comigo?" ou "Oi, vamos sair qualquer dia desses?". Mas não recebi nada.
Os dias se passaram e já era hora de voltar para a escola. Com a mente ainda um pouco confusa com o "sonho" que tive nos dias anteriores. Vesti minha típica camisa xadrez vermelha, calcei um all-star preto desbotado, coloquei a mochila nas costas e segui em direção a escola. O sol já havia saído e o calor já queimava pela manhã. Indo para a escola,como de costume, eu escutei música observando cada detalhe dos campos verdes pelo caminho, caminhões enormes fazendo a colheita, pássaros voando para o sul e uma brisa suave que fazia as árvores balançarem. Quando cheguei fiz a mesma pergunta de todos os dias "O que eu ainda faço aqui.", como sempre minha colega de turma falou sobre sapos e eu dei graças a Deus pelo sinal do intervalo. A aula acabou, voltei para casa de novo, rezando para poder ver Samantha, mas isso não aconteceu. O resto do dia correu bem, meu pai cuidando da colheita,minha mãe cuidando da casa e Lizzie brincando no quintal. Tudo normal até que a noite chegou sorrateira trazendo o vento do fim do dia. Eu e Lizzie estavamos na varanda de casa conversando sobre o que aconteceu enquanto eu estava "dormindo", minha mãe e meu pai estavam dentro de casa assistindo televisão, nada de anormal.
Era por volta de meia-noite quando todos fomos dormir. Deitei em minha cama e simplesmente apaguei. Fazia tempos desde que eu não dormia daquele jeito, suave e sem incômodos...até que, no meio da noite algo me acordou. O mesmo barulho do "sonho", abri os olhos rapidamente e sentiu uma tensão fora do comum correr pelo meu corpo, "É só um sonho." Repeti sem parar pra mim mesmo. Mas aquilo parecia muito real pra ser só um sonho. Como da última vez me levantei, fui até a janela e olhei para o lado de fora. Nada. Nenhuma luz, nem objeto estranho. De repente, um estralo ensurdecedor fez com que eu me afastasse da janela. Havia alguma coisa lá.
Abri a porta de seu quarto vagarosamente, e fui ver se estava tudo bem com Lizzie. Lá estava ela, dormindo como um anjo. Até parecia que não havia nenhum barulho. Fiquei um bom tempo na porta do quarto dela, até que outro barulho fez com que meu corpo se virasse para a janela no fim do corredor. Uma luz forte vinha da colheita , ela começava em meio ao milharal e terminava entre as nuvens. Eu tentei resistir eu juro, mas a curiosidade de ver o que era foi mais forte e eu fui. Desci as escadas sorrateiramente, abri a porta da frente ainda de pijamas. Sem proteção, sem medo. O que era impressionante pra quem tinha medo de quase tudo, mas havia algo muito forte naquela luz que me atraia, era como um imã. Passei pela varanda, desci as escadas e segui para o jardim. Abri o portão,um arrepio profundo percorrendo minha espinha e percebi que estava descalço. Peguei um par de chinelos que estavam acomodados no lado esquerdo do portão e fui, para a escuridão sem fim. Desviei das folhas de milho que ficavam cada vez mais espessas pelo caminho, demorou cerca de cinco minutos para chegar até o foco de luz, era uma luz tão forte que tive que apertar os olhos para tentar ver o que estava brilhando.
"Não, não pode ser, o que é isso?", Pensei enquanto meu coração quase saia pela boca, o foco da luz era uma coisa que nunca passou pela sua cabeça. Pensei em um monstro, um E.T daqueles que se vê na tv, um lobisomem ou qualquer uma dessas coisas que para a maioria das pessoas não existe, mas o que vi era muito diferente daquilo. Era uma garota de cabelos quase brancos e sombrancelhas escuras e marcantes, ela estava semi nua, se não fosse por uma toalha que cobria seu corpo quase que por inteiro. Mas como uma garota poderia criar luz própria? De onde ela veio? Ela realmente é uma garota? Essas eram questões que eu não podia responder, e nem teria tempo. A garota levantou com um pulo, e avançou sobre mim. Ela possuía uma força quase surreal, e quase não consegui segurá-la. Quase. Com um pouco de força a mais ele segurei os seus braços e a "dominei". Ela olhava pra mim com um olhar assustado, e seus olhos tão expressivos como as sombrancelhas diziam algo como "O que você está fazendo?". Por um momento, mergulhei nos olhos da garota estranha e luminosa, quase podia sentir sua dor,e com um descuido comecei a soltá-la e isso fez com que ela conseguisse dar um chute tão forte em meu peito que saltei para trás.
Ela correu o mais rápido que pode, mas sua luz não a ajudava a se camuflar no meio da plantação. Levantei-me e corri. Ela tropeçou e com um pulo consegui "domá-la" novamente. Dessa vez eu na ia deixá-la escapar. Peguei a maior folha de milho que estava ao meu alcance, e amarrei os braços da garota. Ela estava de costas pra mim, com a cara no chão. E eu pude notar algumas marcas em suas costas quase nuas. Eram quase tatuagens, mas saltavam de sua pele como uma cicatriz avermelhada. Eu a virei de frente, e disse:
–Tenho algumas perguntas pra você pequeno vagalume. E você VAI respondê-las.
– O que você quer de mim?. Ela disse com cara de quem tinha sido rendida.
– Eu quero respostas. Quem é você? De onde você veio? E porque está aqui?
A menina demorou um pouco pra responder, seus olhos ainda meio distantes olhavam para mim, ou através de mim. Ela suspirou, virou a cabeça para o lado e soltou um grito agudo e desesperado.
– Eles estão aqui! Nós vamos morrer!
– Eles quem?
Antes que ela pudesse responder, um apitar longo e fino chamou a minha atenção, um barulho estrondoso surgiu. Alguma coisa tinha caído do céu.
– Você vai sacrificar as nossas vidas, deixe me ir e poupe a sua vida também. Eles não tem piedade, vão sugar tuda a vitalidade que você tem, e depois vão te descartar como lixo.
– Eles quem?
Ela não respondeu, ouvi mais um barulho, mas esse era diferente dos anteriores, era algo como unhas arranhando metal, mais uma explosão, e lá estava eu, caido no chão sem saber o que havia me atingido. Ela estava a uns cinco metros de mim desacordada, seja lá o que nos atingiu havia deixado uma enorme cratera no chão, tentei levantar, mas a explosão tinha me atingido com tanta força que mal podia sentir meus pés.
Passos, cada vez mais altos, vindos de onde "A coisa" havia caído, senti algo se aproximando de minha cabeça, juntei forças para me virar e vi um par de botas de cano alto pretas com algo parecido com glitter, mas brilhante como luzes de neon. Fiz um caminho longo entre as botas e o rosto de uma mulher de meia idade, com os olhos completamente cinzas e sem vida, ela tinha a pele negra e cabelos afro vermelhos como o deserto, ela simplesmente abaixou sua cabeça e me olhou com seus olhos vazios, senti um ar arrogante em sua postura. Ela seguiu até a menina estranha, seus passos pesavam cada vez mais em minha mente, meus ouvidos ainda estavam estalando por causa da explosão, a menina loira acordou com um susto e assim que viu a mulher começou a se arrastar pelo chão com cara de assustada.
Um clarão. Meu ouvido começou a chiar, um ar gelado invadiu minhas narinas, alguma coisa tinha acontecido e ainda não sabia o que era. Meus olhos foram se acostumando com a claridade e então eu pude ver, a menina loira estava em pé, com uma das mãos apontando para o ar, ela estava ainda mais brilhante do que antes. Segui a direção que ela estava apontando e pude ver a mulher pendurada no ar, girando como uma sacola de plástico.
Até que ela desapareceu.
Juntei forças e me levantei, ainda sem fôlego. O que aconteceu a alguns segundos atrás foi surreal. A luz que irradiava da menina foi ficando cada vez mais fraca, e depois de algum tempo se apagou por total. Fazendo com que ela desmaiasse.
Corri para tentar socorrê-la mas o tombo foi mais rápido, ela caiu com tudo no chão, fazendo com que a poeira ao seu redor subisse. Me ajoelhei ao seu lado e tirei uma mecha de cabelo que estava sob seu rosto. Seus olhos eram uma mistura de verde claro com azul, não um azul qualquer, era o azul da cor do oceano em um dia de chuva. Dois tons de cor diferentes que trabalhavam em perfeita sincronia.