Superficial

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Gente, um minutinho. Eu, como autor, particularmente, tenho uma relação de amor e ódio com esse texto, mas aparentemente alguns dos leitores gostaram do resultado, então não tenho a intenção de excluí-lo, mas acho válido pontuar algumas coisas antes da leitura: A Petúnia apresentada nessa one não representa a minha visão de Petúnia até o final. A Petúnia que narra essa one é uma Petúnia insana, consumida pela inveja, pelo rancor. É o lado ruim de Petúnia falando, e por isso vai se fazer necessário da parte de vocês enquanto leitores saber discernir quando essa Petúnia realmente está sendo honesta consigo mesma e com vocês, leitores, nos discursos indiretos, enquanto reflete amargurada em sua casa, e quando só está massageando seu ego de maneira bem falha com um falso ódio pela irmã que termina com um... Bem, sem spoiler. Vamos à leitura? Nos vemos nas notas finais.

Eu tinha cinco anos, era amada, querida, e tinha tudo o que desejava num piscar de olhos. Era uma criança feliz e inocente, sem pretensões ou ambições, que integralmente ouvia de meus pais o quanto era dócil e adorável, e que merecia toda a felicidade do mundo.

E então, ela nasceu.

Com seus traços delicados e naturalmente perfeitos, cabelos ruivos fulgurantes. Ela era melhor do que eu em tudo, sem precisar se esforçar para isso.

Certo, ela era apenas uma criança.

Mas quem poderia me culpar por odiá-la? Ela havia tomado o meu lugar.

E quando foi crescendo, a situação não melhorou. Ao contrário, aos poucos, eu sentia o ranço consumir o meu coração lentamente.

Batia nela quando nossos pais não estavam olhando, puxava sua orelha, seu cabelo e a trancava no sótão durante a madrugada quando eles saíam para jantar.

Qual não foi o meu susto quando, aos seus oito anos, ela esperneou tanto no andar superior que a fechadura da porta simplesmente se arrebentou em mil pedaços?

Bem, pelo menos, dessa forma, os vizinhos não se sentiram na obrigação de chamar a polícia. Seria pior para mim.

— Vou contar tudo pra mamãe, Petúnia. Você é uma bruxa! — ela dizia, emburrada, e enxugava as lágrimas, se afastando.

Eu dava de ombros.

“Bruxa”, nunca fora uma palavra capaz de me ofender. Na verdade, não significava muito para mim.

Mal podia imaginar que quem revelaria ter competências mágicas, mais tarde, era a própria Lily.

Claro, a irmã perfeita. Era óbvio que ela ficaria com a magia, casaria com um rapaz bonito e morreria consciente do amor de nossos pais por ela.

E eu morreria sem nada. A irmã menos bonita, menos querida, desprovida de poderes.

Meu coração ferveu de ódio. Ela era uma aberração.

Transformava meus laços em baratas com aquele garoto nojento que ela conhecera ainda pequena, e eu as esmagava, desejando poder fazer o mesmo com a minha irmã.

Quando ela finalmente nos deixou, indo para aquela escola de retardados e voltando pouquíssimas vezes no ano para nos visitar, senti que era minha chance de recuperar o amor de nossos pais para mim.

Me matriculei nas aulas de balé, de piano, de pintura, de francês, entrei para o coral da igreja, fiz de tudo para chamar a atenção de mamãe e papai.

E embora, vez ou outra, eles me dessem um sorriso vago e dissessem que estavam orgulhosos de mim, eu sentia que não era exatamente verdade.

Eu não era uma bruxa, não transformava xícaras de chá em ratos e, portanto, jamais poderia competir com Lily.

Fiz questão de transformar todas as suas férias num verdadeiro inferno. Espalhava boatos sobre ela para todos os nossos amigos de infância. Queria garantir que ela se sentisse completamente isolada, como eu havia me sentido durante toda a minha puberdade.

Pode parecer uma expressão idiota e de ironia shakesperiana, mas o feitiço se virou contra a feiticeira. Ou no caso, contra a muggle, como ela me chamava quando resolvia tentar revidar aos meus insultos. Ela sempre soube como me magoar.

Em pouco tempo, as visitas de seus amigos anormais eram frequentes em casa e eu sentia a diferença até mesmo no tratamento de meus pais com meus colegas.

Sorte que acabei conhecendo Vernon no último ano do Ensino Médio. Ele era o amor da minha vida.

Era forte, jogava baseball, musculoso, talvez um pouco gordinho, mas ainda assim muito atraente. Todas as meninas da escola desejavam ter uma chance com ele.

E todo o carinho que acabei não recebendo de meus pais, recebi dele.

Confiei a ele nosso segredo de família e ele custou a acreditar, mas acho que isso fortaleceu nosso relacionamento, porque um ano depois nos casamos.

Ele odiava Lily quase tanto quanto eu.

Uma pena que no caminho para tentar superá-la, eu tenha cometido tantos erros.

Eu errava e, tentando consertar, errava novamente. Sou uma culpada inocente.

Mais tarde me arrependi de ter cortado laços com toda a minha família.

Na velhice, após a morte inesperada de Lily, nossos pais adoeceram e precisaram de mim. Foi a minha vez de lhe virar as costas.

Mas estranhamente, senti-me incapaz de fazer o mesmo com o filho dela, o pequeno Harry.

Acho que, apesar de tudo, eu gostava dela, no fundo. Sentia inveja.

Olhando os retratos antigos e comparando-os com os de minha nova família, confesso que me sinto incapaz de não sentir pelo menos um pouco de saudade.

Das brigas, dela gritando comigo e me chamando de “muggle” e até de como eu a havia defendido uma vez, quando uma vizinha da minha idade ameaçou-a de surrá-la. Não que ela precisasse, é claro.

Talvez, se tudo tivesse sido diferente, poderíamos ter sido mais próximas.

E embora eu estivesse viva e ela não, eu sabia que havia perdido novamente.

Harry Potter era um herói para seu povo e Vernon estava trabalhando em dois empregos para pagar os honorários do advogado de Duda — que, de alguma maneira, havia sido preso por tráfico de drogas.

No fundo, o que de fato importava não eram quantos cursos eu fazia, ou quem namorava ou no que era boa.

Os pais conhecem seus filhos. Eu conhecia Duda, embora me negasse a acreditar que ele se tornara o que se tornara. Conhecia Harry, também, que eu havia criado com muitas humilhações e pancadaria para refutar o desfecho da história de sua mãe.

E meus pais sabiam que enquanto eu vivia uma vida de encenações e muita inveja, Lily era sincera e tinha um bom coração.

Era por isso que, embora tivesse vivido pouco, ela havia sido feliz e verdadeiramente amada.

Enquanto eu, a irmã menos bonita, menos querida e menos inteligente, continuava cercada de vizinhos fúteis e ocupada demais cuidando de meu jardim para me preocupar com qualquer coisa que não fosse eu mesma e minha família desestruturada.

Notas finais
Bom, gente. Finalizando, eu acho que Petúnia embora tivesse amado bastante Lily acabou se entregando à maior parte das contradições que compunham e compõem essa personagem tão complexa sobre quem J. K. Rowling tanto falou. É verdade, no sétimo livro ela demonstra certo pesar pela morte da irmã, e diz que isso a abalou de certa forma também, mas acho que além do fato de Harry ser uma horcrux, seus preconceitos eram trazidos à tona por esse ranço que ela havia se forçado a criar, para poder conviver com a ideia de que ela fazia parte de uma camada inferior na sociedade num geral, a camada trouxa, e que não havia nada que pudesse fazer para mudar isso. Se eu acho que Petúnia realmente odiava Lily? Não, não acho, pessoalmente. Mas não acho que Petúnia seria o tipo de personagem que assumiria isso com facilidade para si mesma, e foi partindo dessa ideia que eu escrevi essa one, e é por isso que o texto me incomoda um pouco sim. Mas, felizmente, não tem o intuito de endossar a minha visão sobre Petúnia Dursley, e sim literalmente confundir o leitor e fazê-lo ingressar na mente dela, para vivenciar as contradições com que acredito que ela tenha convivido a vida inteira até o dia de sua morte - principalmente num momento de extrema baixa auto-estima, como cito no texto, onde sua família trouxa perfeita em todos os aspectos, que era tudo o que ela tinha para se apegar de consolo, estava arruinada. Lembrem-se disso! Obrigado por ler até aqui e comente se você gostou.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!