Sunshine Camp
8 Primeira prova - Parte I
Notas iniciais
Clarice Coelho
Aquela seria a minha primeira noite dormindo longe de casa. Claro, não que eu nunca tenha dormido na casa de uma amiga ou coisa assim, mas com certeza era a primeira vez que eu dividiria o mesmo quarto com tantos desconhecidos.
– Porque só temos um beliche? – Lyanna perguntou enquanto Savannah subia as escadinhas pra cama de cima.
– Porque temos uma menina a mais. – Sav respondeu, sorrindo. – Sorte, eu diria.
Lyanna ajeitou suas cobertas na parte de baixo do beliche e estava prestes a se deitar quando Mackaria saiu do banheiro.
Diferentemente das outras meninas, que vestiam um short mais comportado, até a metade da cocha pelo menos, e uma regata, Mackaria abusava de uma regata colada que mais parecia um top e um short mais curto do que o meu biquíni mais ousado.
– Não acredito que você vai dormir assim! – Reclamou ela, olhando para meu short quase até o joelho e minha blusa de manguinhas. – Com esse calor!
– Algumas meninas conhecem a diferença de pijama e roupa íntima! – Via murmurou, fazendo com que todas ríssemos.
– E outras sabem a diferença entre ser sexy e parecer uma freira. – Mackaria respondeu, mas diferentemente da primeira piada, a maioria apenas revirou os olhos. – Que foi? Foi boa, vai? –Reclamou a morena.
– Ei meninas, hora de dormir, vamos! – Savannah interviu.
– Espera! Eu vou dormir aqui!? – Mackaria reclamou, com desdém, para a cama ao lado da minha. – Mas está muito quente e não tem ventilação nenhuma! Troca comigo!?
Olhei ao redor, esperando que a pergunta não fosse dirigida a mim. Estava tão feliz com a minha cama ao lado da janela, com vista para a lua linda do lado de fora.
– Clarice?! Por favor!? – Mack insistiu.
“Não faça isso, não faça isso!”, meu cérebro pedia. “É só dizer não!”. Mas foi tarde demais para controlar a minha boca rápida.
– Tudo bem... – Respondi.
Olhei a tempo de ver Olívia me encarando, com uma careta. Apenas levantei a sobrancelha e respirei fundo, como um pedido mudo de desculpas.
– Awn, obrigada! – Mackaria sorriu. – A brisa noturna faz bem para a minha pele.
Resolvi não responder, apenas deitei na cama e puxei as cobertas. Savannah logo apagou a luz. Após uma oração rápida, fechei os olhos e deixei que a inconsciência me levasse.
BAIN! BAIN! BAIN! BAIN!
Acordei num pulo com a sirene alta. Olhei ao redor e constatei todas as meninas na mesma situação que eu, além de uma Savannah já de pé, acompanhada de sua lanterna.
– Todas, me acompanhem! – Disse nossa monitora, mal conseguindo controlar sua ansiedade.
Levantei correndo e calcei meus chinelos, seguindo Sav pela entrada de nosso chalé e encontrando a parte masculina de nossa equipe já nos aguardando.
– Papai se superou esse ano! – James disse, com um sorriso no rosto.
– Eu que o diga! Não são nem duas da manhã! – Sav respondeu e depois se virou para nós. – Para o lago, vamos!
Senti um arrepio dos pés a cabeça. Que não seja nada relacionado a nadar, por favor!
Vi que as Tempestades seguiam o mesmo trajeto que nós, por isso logo deduzi que nossa primeira prova viria logo a seguir. Meu Deus, eles não brincavam quando o assunto era surpresa, hein?
– Boa noite, meninos! – Ouvimos a voz saindo do auto falante assim que todos nos reunimos num pequeno bolinho de pessoas. – Desculpem-me acordá-los a essa hora em sua primeira noite, mas a adrenalina e a surpresa fazem parte dessas férias, não?
A voz parecia do dono do acampamento, mas eu duvido que ele estivesse acordado naquele momento. Deveria ter planejado tudo mais cedo e gravado antes. Folgado.
– Todos prontos para a primeira prova? – Perguntou ele e soltou um riso. – Aqui vão as instruções: quero que todos voltem para suas cabanas e abram o terceiro livro da estante, da direita para a esquerda, da fileira mais alta. Lá, deixei um bilhete bem detalhado com o que acontecerá a seguir. Boa sorte.
– É só isso?! – Ouvi um garoto da outra equipe, Justin, acho, reclamando. – Não acredito que fui acordado por essa baboseira!
Naquele escuro da madrugada, com o frio que já tomava meu corpo, tudo o que consegui pensar foi “E aí vamos nós...”
Brandon Sweeger
Voltamos correndo para nosso chalé e, sorte ou não, fui o primeiro a entrar e pegar o livro.
– Leia! – Pediu Chris quando retirei o papel. Olhei ao redor e percebi todos de olhos arregalados, ansiosos, esperando por mim.
“Um sonho ou dois, nada a mais
Desperte se for capaz
Antes de ir repousar
Não esqueça de me afofar”
– É só isso?! – Ethan reclamou.
– É uma charada. – América disse em tom de reprovação.
– Travesseiro! – Abbie disse, repentinamente.
Todos olharam para ela, que corou no mesmo instante. Sorri um pouco, mas com a velocidade que tudo acontecia, não pude me ater muito ao ato, pois todos já corriam para suas respectivas camas.
– AQUI! – Gritou Charlotte, correndo desesperada.
“Inimigo oculto
Querido ou não
Antes da entrada
Olhai para o chão”
– Chão? Eles não esconderiam uma pista no chão! – Ivvy pensou.
– Espera! Inimigo... Não pode ser a outra equipe? – Thomas falou.
– Sim! Mas antes da entrada...? – Perguntei.
– Aff... É o jardim da outra equipe. – Justin respondeu, mal humorado.
– Obrigada, esquentadinho! – Charlotte murmurou antes de sair.
Damon O’neal
– Eu não consigo enxergar nada! – Olívia dizia, ajoelhada na grama.
– Eu me recuso a fazer isso! – Mackaria segurava a lanterna, de pé, mas iluminava mais a si do que qualquer um de nós.
– Se não for pra ajudar, não atrapalha! – Will reclamou. – Me empresta isso.
– E eu vou ficar no escuro!? – A morena discutia.
– Olha aqui, ou você colabora ou você volta o seu bumbum praquela cama e dorme! Porque eu não sou obrigada a aguentar você enchendo a paciência a essa hora da manhã enquanto damos duro para achar a próxima pista! – Lyanna, a qual eu nunca tinha visto alterar a voz, disse em um tom desafiador.
Mesmo com o escuro, percebi que Mackaria havia ficado paralisada e não demorou muito para se agachar com a lanterna e tentar (ou ao menos fingir) procurar a pista.
– Obrigado! – Ouvi Will sussurrar para Lyanna.
– Essa não, eles também já estão saindo! – Clarice murmurou quando a outra equipe saiu correndo em direção ao nosso jardim.
– Não prestem atenção nisso, pessoal! Vamos encontrar. – Emerson nos incentivou.
– Achei! – Uma menina das Tempestades gritou.
– Não acredito... – Disse, respirando fundo.
Foi questão de minutos até as Tempestades não estarem mais ali. Merda, estávamos perdendo.
– Mas foi tão rápido! – Olívia discutiu.
– Nosso papel deve ter voado. – Lyanna pensou.
– Será?! – Emerson olhou ao redor.
– Estão procurando por isso aqui? – Ouvi James falando, com um papel em mãos.
– Achei que não pudessem nos ajudar. – Lyanna comentou.
– Uma ajuda por prova. – Savannah respondeu.
– Espero que não nos decepcionem daqui pra frente. – James olhou sério para nós e entregou o papel na mão de Clarice, que estava mais próxima.
“De gota em gota o rio sobe
A boia vagarosa nunca afunda
Com um barquinho até o centro
Navegue e não caia de bunda”
– O lago! – Olívia falou.
– Mas e o resto?! – Perguntei, enquanto ela saía correndo.
– Isso a gente decide lá. – Emerson comentou, correndo atrás dela também.
Esforcei-me para correr na mesma velocidade deles, mas na metade do caminho eu já estava pra lá de ofegante. Merda de sedentarismo.
– Olha lá! – Apontou Will para a outra equipe, na qual dois de seus integrantes estavam num bote navegando até o centro.
– É isso, a pista está naquela boia lá do meio! – Olívia falou.
– E a gente tem que ir até lá?! – Mackaria reclamou.
– Você fica aqui. – Lyanna, um tanto irritada com a garota, reclamou.
– E você acha que manda em alguma coisa?! – Mack se alterou.
– Meninas, meninas! Se vocês quiserem ter essas briguinhas de puxar cabelo mais tarde, ok! Ninguém aqui vai ligar, agora querem por favor sossegar o fogo na bunda e trabalhar como uma equipe?! – Will pediu, seco.
– Eu vou. – Olívia se ofereceu, ignorando a briga. Notei que Emerson ficou bem quieto, então me candidatei para ir também.
– Vocês vão e nós fazemos o que!? – Emerson quis saber.
– Aparentemente tem essa corda aqui. A gente pode puxar eles quando conseguirem pegar a pista, vai mais rápido. – Sugeriu Will.
Com o acordo feito, eu e Via entramos no bote e começamos a remar.
– Está conseguindo enxergar a boia? – Perguntou ela.
Forcei meus olhos, estava realmente escuro ali.
– Espera, acho que a lanterna está aqui. – Falei, procurando.
– Não, a Mackaria se recusa a deixar alguém além dela ficar com aquela merda. – Via reclamou.
– Ei, relaxa. Acha mesmo que vale a pena discutir na primeira noite? – Perguntei meio sem querer, enquanto remava,
– Valer eu acho que não, mas achei que meninas babacas daquele jeito só existissem em filmes. Como ela consegue?
– Às vezes é o jeito dela... Nós mal nos conhecemos ainda... – Cogitei.
– Talvez...
Percebi que ela se sentira um pouco mal por pensar aquilo de Mack, mas resolvi deixar que ela própria se desse conta.
– E agora?! – Perguntou ela, apontando para a boia, que estava um pouco distante dos braços curtos da garota.
– Deixa que eu pego. – Falei, colocando os remos pra dentro do bote.
Estiquei meu braço e encostei na boia fria. Tateando devagar, logo senti um papel enfiado em um cantinho. Nossa pista.
– Achei. – Disse.
– Isso! – Olívia se animou.
– Calma... – Comentei, tentando retirar o papel sem rasgar. Um descuido e...
PLOFT!
– Damon! – Olívia gritou.
Senti até meu cérebro congelar quando todo o meu corpo foi parar na água fria do lago. Merda.
– Est-t-tou b-b-bem! – Disse, com o queixo tremendo.
– Ai meu Deus! Calma, eu vou te ajudar! – A menina se desesperara.
– O p-papel! – Falei, estendendo o braço que, por ficar agarrado a boia, não havia molhado.
Olívia colocou-o no bolso e me ajudou a subir no bote. Fizemos sinal para os que estavam à beira do lago para que nos puxassem.
– Anda, lê! – Falou Will, irritado por a outra equipe não estar mais ali.
– Espera! Você está bem? – Clarice se preocupou, ao me ver molhado e tremendo.
–S-s-sim. – Disse, passando os braços ao redor do meu corpo.
– Toma. – Emerson me deu seu casaco, que ele havia pego correndo antes de sair do quarto. – Vê se melhora.
– Vou ler! – Olívia falou, vendo que eu já estava sendo cuidado.
“O mais longe caminhar
Com força vai chegar
Ao final do caminho
Que começa entre os espinhos”
– Caminhar?! – Clarice perguntou.
– Final do caminho... Tipo uma trilha?! – Emerson pensou.
– Boa! Mas não entendi os espinhos! E tem várias trilhas no acampamento. – Will comentou.
– Rosas! – Mack, que ficara quieta até o momento, cogitou. Todos olharam para ela. – Tem uma trilha das rosas, perto do deck. Vi quando estava caminhando hoje.
– Deve ser lá! – Lyanna assentiu e eu confesso que fiquei um tanto boquiaberto ao perceber que ela concordara com Mackaria,
Abbie Robbs
Estávamos caminhando há algum tempo, Thomas carregava a lanterna à nossa frente e, como a trilha era estreita, seguíamos em fila indiana.
– Será que estamos no caminho certo? – Charlotte perguntou.
– Ouvi Chris comentando que as trilhas são longas por aqui... – Brandon respondeu.
– Quero só ver se formos para o caminho errado. – Ethan reclamou.
– Garoto, você não fala nada de bom não!? – Charlotte resmungou. – Custa colaborar?
– Só estou sendo realista, gata. – Ethan respondeu.
– Podemos parar com isso?! – Ivvy pediu. – Somos uma equipe, galera. E o pior, estamos no meio de uma prova.
– A baixinha tem razão! – Thomas respondeu, sua voz denunciava que ele sorria.
– Obrigada, grandalhão! – Ivvy brincou.
– Ei, o que é aquilo ali na frente?! – Perguntou Thomas, do nada.
– Acho que é um rio... – Charlotte, que estava logo atrás de Thomas, falou.
– Tem um barquinho ali. – Thomas comentou quando chegamos perto.
– Olha, um papel! – Ivvy comentou.
“Com a vitória a caminho
Não deixe o medo dominar
De três em três no mesmo barquinho
O rio vocês devem atravessar”
– Atravessar o rio!? – Brandon perguntou de um modo paralisado.
– Pelo visto sim. – Respondi.
– Quem vai primeiro?! – Justin perguntou, impaciente.
– Podemos ir eu, você e a Charlotte. – Sugeriu Thomas, olhando para os que estavam mais próximo.
– Fica com a lanterna no barquinho, assim você sabe pra onde tem que ir. – Ivvy falou.
Com os três embarcados, vimos a luz se afastando de nós.
– O que houve? – Perguntei baixo, superando a vergonha que ainda tomava meu rosto ao falar com meu ídolo.
– Água. – Brandon respondeu, baixo. Parecia constrangido.
– Deve estar um pouco fria, verdade... – Comentei.
– Não... Eu... – Ele se aproximou de mim, deixando-me completamente arrepiada quando sussurrou no meu ouvido. – Eu tenho medo.
Fale com o autor