Sumi - 墨
3 Capítulo 3
Neste exato momento, me pego sendo engolido por toda essa trama, arquitetada por essa garota de profundos olhos negros. Mas, desde a primeira palavra que eu troquei com ela, só tenho me surpreendido. Quem diria que ela é tão interessada em mim quanto eu nela ? De todo modo, me sinto um boneco em suas mãos, como se todos os meus movimentos desde que a encontrei pela primeira vez tivessem sido moldados pelas suas delicadas mãos, para que chegássemos até isso, mas, neste momento tão embaraçoso, penso comigo mesmo, o que eu ganharia ou deixaria de ganhar ao estar em sua presença ? Exato, nada. Estar com ela me parece interessante, logo, acredito que aceitar ser seu amigo não será de todo ruim, já que de todo modo, nenhuma amizade dura pra sempre, e se um dia nos cansarmos um do outro, podemos seguir caminhos separadamente, sem ganhar nem perder nada.
"Tudo bem" — Eu disse, agora soltando um suspiro leve.
De todo modo, conhecer e se relacionar com pessoas que dividem os mesmos interesses é um dos eventos que compõe a vida humana. Seria mais correto dizer que os humanos perseguem pessoas que são parecidas com eles, para afirmarem sua "normalidade". Chegamos na porta da casa dela, uma grande casa, com 2 andares, bela arquitetura e uma cerca de metal moldado magnífico, que vinha sendo tomado por vinhas de trepadeiras.
"Então, te vejo amanhã" — Disse ela
"Sim" — Eu disse
Ao chegar em casa, eu comi meu jantar requentado completamente sozinho, e continuei lendo até sentir sono, até acordar no dia seguinte, com a mesma falta de vontade do dia anterior. Bem, talvez seja por isso que eu não faço esportes, apenas ler livros é o bastante pra mim. Logo, rapidamente aquela garota de profundos olhos negros me veio á memória, pelo que me pareceu ontem, seus interesses eram puramente inocentes, ou pelo menos, foi o que me pareceu. Não que a julgue como uma má pessoa, porém, eu tenho um péssimo costume de não confiar nas pessoas, afinal, "pessoas" mentem.
No caminho para a escola, eu encontrei com a garota. Ela parecia um tanto aflita, mas, quando me viu, ficou no seu "normal". Acho que a maior diferença entre nós, é sem sombra de dúvidas, a estamina. Essa garota de profundos olhos negros não parece se cansar nunca, de modo que desde que nos encontramos, ela vem falando de seus livros, e do quão interessantes eles são. De fato, uma pessoa interessante, mas, seu comentário seguinte me fez pensar um pouco sobre o que eu antes ponderava:
"Ei, se eu escrever um livro, você o leria ?" — Ela disse isso com um olhar sério, como se pra ela, isso fosse o que lhe há de mais importante.
"S-sim, claro ..." — Eu tentava entender o que lhe houve, para mudar tão subitamente seu humor daquele modo.
Diferente de todas as suas ações antes, ela agora deixou que se permanecesse um clima pesado, até chegarmos na escola, sem nem mesmo dizer uma palavra sequer. Por mais incomodado que eu estivesse, não sinto que somos próximos o suficiente para tentar fazer algo. Talvez eu apenas tenha sido covarde. Quem sabe o que me espera se eu for mais fundo dentro da imensidão desse ser que é a garota dos profundos olhos negros ?
Fomos para direções diferentes, não conversamos tanto sobre turmas, escola ou coisas do gênero, por isso, eu só fui perceber que ela era do primeiro ano quando ela se guiou para o prédio dos primeiranistas. E eu, para o dos segundanistas. Quando me sentei na penúltima cadeira ao lado da janela, olhei para o prédio do primeiro ano, e vi o semblante dos seus longos cabelos loiros em frente á minha janela. Novamente, avistei seu olhar tristonho, fitando o nada, quando então, deitou sua cabeça sobre a mesa, e olhou para o lado, vendo-me. Sentindo-se envergonhada, ela pois-se sentada, escondendo o rosto com os cabelos, e eu, virei para a frente, corando levemente a face, e me tornando rígido. Eu ainda me sinto incomodado com a forma com a qual trocar um olhar com a garota dos profundos olhos negros me deixa completamente embaraçado, me tirando de órbita. De todo modo, aquela seria a penúltima vez que eu a veria neste tão longo dia.
Após a aula, me encontrei com ela na entrada da escola, nas mãos dela, um grande envelope, cujo qual abraçava com suas duas mãos. Quando me viu se aproximar, me deu-o, curvando-se levemente no ato, o que me deixou um tanto sem graça, e então, me disse:
"Leia isso apenas após chegar em casa, me prometa" — Ela disse, com olhos sérios e sobrancelhas cerradas.
"S-sim, eu prometo" — Eu disse, enquanto olhava para os lados, envergonhado.
Ao me entregar o envelope, ela saiu correndo, sem me dizer mais nada, afinal, eu não entendo essa garota que me embaraça tanto. Acredito que dentro deste envelope esteja o livro que ela disse que escreveria, mas, o que eu não entendo é o porquê de ela querer que eu o leia, ela quer ser uma escritora ? Talvez esse seja o sonho de todos os que admirem os seu ídolos á ponto de querer ser iguais á eles, assim como eu, talvez até mesmo nisso sejamos iguais. Carreguei o seu envelope enquanto caminhava lentamente, imerso em meus pensamentos, respeitando seu desejo de lê-lo apenas ao chegar em casa, sem ter a menor noção do que me esperaria, ao ler cada uma das palavras que escrevera para que eu lesse.
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