Fim da aula, todos já se retiraram, voltando da biblioteca, percebo que por algum motivo, esqueci minha mochila na mesma. Provavelmente estava tão perdido em meus pensamentos sobre a conclusão do livro, que nem mesmo tive o conhecimento de que havia a esquecido. Enquanto dava meia volta, passa por mim a garota que estava sentada na fileira da minha frente, á uma cadeira da esquerda de onde eu estava, próxima á grande janela de vidro da biblioteca; tenho certeza que é ela, já que a beleza de seus olhos refletidos na luz solar que atravessava a janela me tomaram a atenção várias vezes, me tirando do meu tão querido livro. De todo modo, sua característica mais marcante não são seus olhos, mas sim seu longo cabelo loiro natural, que é muito raro de se ver. A visão dela atravessando o meu caminho pela segunda vez hoje me fez esquecer completamente meu esquecimento, acho que afinal de contas, essa garota não é um bom presságio. Enquanto caminhava de volta para a biblioteca, pensava comigo mesmo, afinal, qual era o seu nome ? É um tanto desapontador pra mim, não me lembrar de nada sobre ela até hoje; talvez eu estivesse tão imerso em meus livros e estudos, que nem mesmo percebi sua presença na sala de aula ? Não, assim como hoje, ela teria tomado completamente minha atenção. Chegando na biblioteca, me dirijo rapidamente á mesa onde antes sentara, para encontrar minha mochila, apenas pelo acaso, olho para onde a garota antes sentara, e pra minha surpresa, vejo um longo cachecol de lã cor de preto pendurado sobre o recosto da cadeira. Eu deveria levar á ela ? Como eu a encontrei no caminho, posso alcançá-la se quiser, mas, quando foi que eu fiquei tão bonzinho ? Pra mim, sempre foi mais importante manter meu estilo de vida que cruzar o caminho dos outros. Não é como se eu me sentisse apaixonado, mas, há algo nela que está me interessando, acredito que posso cessar esse meu interesse encontrando-a mais uma vez, de fato, devo levar seu cachecol.

Saindo do prédio da escola, olho para ambos os lados da longa rua em que me encontro, e vejo seus belos cabelos voando em função do vento deste outono tão frio, enquanto me aproximo dela em passos largos, percebo que ela está andando bem devagar, de forma que meus passos se tornam cada vez mais lentos, e começo a analisar o seu corpo, chegando á conclusão que de pé, ela parece mais delicada do que eu imaginava. Sendo uns vinte centímetros mais baixa que eu, ela deve estar entre uns um metro e cinquenta de altura, suas bochechas rosadas devido ao frio e seus passos lentos me esboçaram suas feições delicadas inegáveis, porém, visto que ela estava tão absorta em pensamentos, entendi o significado de seus passos. Deste modo, lembrei-me do momento em que cruzei com ela no corredor, seus olhos estavam em um tom fosco, de modo que nem mesmo notara minha presença. Me incomoda meus planos estarem indo no sentido contrário, mas, meu interesse por ela só aumenta, eu sinto um mal pressentimento, de que algo bom virá dela. Agora que penso nisso, ela estava lendo um livro de literatura culta, um verdadeiro clássico e uma obra de arte para aqueles que o entendem, pessoas que se interessam por esse tipo de literatura não são de modo algum normais; será presunção da minha parte questionar-me porque uma garota tão delicada e de aparência vívida estaria lendo esse tipo de livro ? Enfim, volto da imersão em meus pensamentos quando percebo que já a segui bastante, e posso parecer suspeito, sem ninguém por perto pra acionar minha tão infame timidez, toco em seu ombro para chamar suas atenções. Para meu espanto, seus olhos são muito mais apaixonantes quando se atiram profundamente dentro dos seus, como se eu estivesse sendo engolido pelo intenso brilho negro de seus olhos, tal como uma pena se afogando em tinta, foi como me senti nesse momento. Um suspiro leve saiu da sua delicadamente tracejada boca, cujo qual tomou forma após acariciar confortavelmente o meu rosto, e dessa mesma boca, me foram recitadas tais palavras que me aturdiram como nunca antes:

"Oh, você trouxe mesmo meu cachecol !?"

De que modo, eu, que imaginava uma linda donzela de cabelos loiros, poderia imaginar que na verdade, estava me confrontando com uma cobra maquiavélica ? Eu não entendo se a julguei mal, ou até mesmo se a julgo agora, mas tais pensamentos passaram pela minha cabeça tão rapidamente que nem pude me agarrar aos mesmos. E como poderia ? Se mal conseguia piscar após ligar os elos abertos dos atos da personalidade daquela pequena criatura que agora esboçava um sorrido delicado com os cantos de sua fina boca. Talvez esse fosse o meu pressentimento ? Encontrar uma pessoa "interessante" desse jeito talvez me viesse á ser de algum modo proveitoso ? Porém, no momento, só me sinto um tanto enraivecido, nervoso, e acima de tudo, completamente envergonhado. Só o que consigo pensar é que não deveria ter desviado de meu caminho e abandonado meus motivos, apesar de tudo, sou muito orgulhoso.